EntreContos

Detox Literário.

Meia Hora (Claudia Roberta Angst)

Antes do relógio disparar…    

Nem sempre, as melhores estórias nascem da nossa imaginação, inspiradas por uma musa insistente. Às vezes, surgem de uma conversa, em uma noite sem estrelas ou grandes pretensões.  

Poderia não estar disposto a ouvir o que ele dizia, mas o destino provou-se bastante interesseiro. Por meia hora, escutei sua confissão, um delírio guardado por anos, uma sombra de inspiração sedenta de luz.

 

00:01   

Os feixes de sol atravessavam a tarde cortando a cena perpendicularmente. A pele branca, nua, sem marcas de tempo ou pudores, refletia de forma perfeita as nuances de tons multiplicados.

− Hora de trocar o filme. – Rosana sorriu disfarçando o próprio cansaço. − Um pouco de paciência e acabamos logo com isso. Quantos rolos já temos?

Laura olhou para cima como quem se concentra em cálculos invisíveis.

− Esse foi o quarto.

Rosana virou-se para o filho, sorriu e começou a caminhar pelo corredor sombreado pelas árvores que levava até o portão do horto. No carro mal estacionado, havia providenciado um improvisado quarto escuro, o qual chamava de “gaveta de toda escuridão”.

 

00:02   

A ideia de retratar a lenda do fauno surgira ao olhar para o filho adormecido. Júlio, então prestes a completar onze anos, ainda guardava semelhança com um anjo, sem asas e sem sexo. O cabelo castanho acobreado espalhava-se em ondas inocentes sobre o travesseiro. Natureza ainda em criação, sem contaminação de estereótipos, uma beleza intocável.

 

00:03

Júlio começou a se incomodar com os arrepios que se repetiam. Não eram de frio, mas da ausência de privacidade.

Ao fundo, o insistente deslizar da água, correndo em direção ao nada, servia de trilha sonora.

− Bunda lisinha! – Disse Laura, entre risinhos, ao passar a mão pelas nádegas do menino.

Júlio corou. Avistou a mãe voltando pelo mesmo corredor verde e tentou sorrir. Sem poder de se esquivar da própria nudez, emudeceu qualquer susto.

 

00:04

A notícia chegou de repente.  

− Vencemos? – Júlio perguntou por mero reflexo.

− É um bom dinheiro. Finalmente, vou trocar esta velha câmera por algo mais….

Rosana parou a frase pela metade. Acontecia muito isso, ultimamente. Talvez fossem os remédios, talvez a imensa tristeza que a envolvera desde a morte da mãe. Não conseguia terminar qualquer coisa, fosse um detalhe de costura ou o olhar para o filho.

 

00:05  

Walter, o marido de Rosana, não estava ali para compartilhar a novidade da premiação. Continuava distante, no sentido mais literal que a palavra distante poderia ter. Militar exemplar, havia sido convocado para chefiar um grupo de tarefas em uma missão mais ao norte. O local não cabia nas fronteiras do país. Dependurava-se no mapa do Brasil, pendendo para fora da realidade.

Duas imagens ganharam destaque em uma publicação especializada. Revelavam uma nudez inocente e, ao mesmo tempo, provocante. O corpo nu de um menino, que sob a luz tênue, transformava-se em criatura mágica. Orgulhosa, Rosana fechou a revista e nunca mais a abriu.

 

00:06  

− Sossegue, garoto. Ninguém compra essa revista.

Mas alguém comprou.

− Vejam só que gracinha, o menino peladinho da mamãe.

O tom jocoso ecoou pelo largo corredor do colégio. Pelas paredes, as fotos de um menino fauno. Nu, completamente nu.

Júlio pensou em fugir, mas quando se deu conta, estava em cima de Jaime com os punhos cerrados e berrando palavrões que nem sabia conhecer.

A briga durou pouco, apesar do incentivo coletivo ao redor. As fotografias foram logo arrancadas e destinadas ao lixo.

00:07  

Rosana, sob o efeito de forte calmante, entrou na sala do Diretor Vasconcelos.

Olhou para o filho, suado, com o uniforme sujo e amarrotado. As bochechas vermelhas e os olhos verdes piscando nervosamente. Os punhos ainda cerrados, prontos para outra sessão de socos.

− Imagino que pela moral e bons costumes, o senhor esteja convidando meu filho a se retirar desta escola.

Vasconcelos não respondeu, estendendo um papel. Rosana não chegou a ler uma linha sequer, apenas assinou o documento.

O silêncio percorreu todo o caminho de volta, mais constante do que a presença da mãe.

 

00:08

Ser uma criança nos anos de 1960 era um privilégio, diziam os adultos ansiosos por obter alguma inocência nas frestas do muro da ditadura.  

Afinal, podia-se contar com a segurança pública. Crianças brincavam livres nas ruas, ignorando os horrores por trás da aparente normalidade. Júlio ainda podia sonhar.  

 

00:09

Na hora do recreio, Júlio e os novos colegas praticavam o esporte favorito: bola de gude. Ele sentia-se um verdadeiro campeão naqueles minutos emprestados do dia.

Fora da escola, a vida transcorria sem surpresas. Rosana continuava prostrada, pouco reativa a qualquer tratamento ou medicação. Júlio já se acostumara com a mãe, inerte na cama, chorando com os olhos perdidos na parede.

O pior era quando não havia lágrimas, nem gritos, nem soluços. Só o nada.

 

00:10

Laura apareceu para mais uma de suas visitas não tão espontâneas. Repetia a palavra sucesso com entusiasmo.

Para Rosana, era difícil absorver tanta informação quando seus pensamentos perdiam-se em um labirinto de ondas sonolentas.

− Por que não fazemos assim? Eu assumo total responsabilidade em relação ao seu filho. Não me custa nada.

 

00:11

Interessado na fotogenia do menino retratado de forma tão particular, um agente publicitário procurara por Laura.

Ela logo se deu conta de que poderia se dar bem. A pouca idade, não lhe invalidava a crescente ambição, sem escalas para revisão de escrúpulos.

00:12

− Já preparei uma procuração. Só uma formalidade, veja bem, para lidar com o pessoal da agência. – disse Laura estendendo o documento sobre a mesinha de centro.

Rosana nem se lembraria de ter assinado aquele papel. Era mais um dos muitos acontecimentos sem memória arquivada.

 

00:13

Laura tocou a campainha com impaciência. O próprio Júlio abriu a porta, sonolento, esfregando os olhos.

− Deixa essa coisa aí. – Disse apontando para os óculos na mão do menino. − Não vai precisar disso lá.

Contrariado, Júlio pousou os óculos sobre a mesa de jantar. Preferia usá-los para melhor enxergar as coisas, desviando-se de perigos que a miopia lhe ocultava. Apesar dos poucos graus nas lentes, sentia-se protegido atrás dos aros de tartaruga. Como se houvesse ali um casco de réptil acobertando sua timidez e fazendo as vezes de abrigo contra qualquer mau tempo.

 

00:14

Tomaram um ônibus até alcançarem a praça onde existia uma grande loja de departamentos. Júlio observou, encantado, os outdoors com propagandas dos mais variados artigos.

Seguiram a pé até a agência de publicidade. A distância era pouca e a pressa de Laura encurtava ainda mais os passos dados.

O prédio cinzento possuía cerca de dez andares, talvez mais, calculou Júlio, admirando a fachada moderna. A agência de publicidade ocupava três pavimentos da pesada construção.

Laura apertou o número 7 assim que entrou no elevador. Cantarolava uma canção alegre. Sua confiança beirava ao histerismo.

 

00:15

Já estavam sendo aguardados.  

O diretor de arte apresentou-se e foi logo elogiando os traços, os olhos e a pele de Júlio.

Estavam todos lá, a sua volta, como uma junta de especialistas atentos. Elogios demais, pensou Júlio. Isso era bom ou ruim?

 

00:16

A vaidade contaminava a mente de Júlio, embotando qualquer senso prático. Deixou de se perguntar a razão de tudo aquilo. A atenção recebida embriagava suas ultimas resistências.

− Gostaria de tentar algo diferente. – disse o diretor de arte. − É só uma ideia, vejam bem. Poderíamos fotografar o menino como modelo feminino?

00:17

Por um momento, seguiu-se pesado silêncio, com efeito hipnótico em todos os presentes.

Júlio não entendia o que aquele moço alto e tão magro dizia. Ele modelo feminino? Como assim, de menina?

Concordaram com a proposta apresentada, fascinados com a androgenia evidenciada pelas fotografias.

 

00:18  

Sem consultar a mãe de Júlio, ou a própria consciência, Laura tratou de convencê-lo a enfrentar as lentes fotográficas mais uma vez.

− Pode ser bem divertido, Juju. – argumentou − E depois, ninguém vai ficar sabendo. Confie em mim, vai.

 

00:19

Sem muita conversa e explicação, Júlio foi levado para a sala de maquiagem. Laura ficou conversando com um dos fotógrafos. Já estava mesmo na hora do menino largar do seu pé, afinal não era sua mãe.

Duas senhoras, baixinhas e bem redondas, aguardavam Júlio. Havia curiosidade em seus olhos e escovas em suas mãos.

− Você é mesmo uma graça. – Falou a mais velha, piscando.

− Venha aqui, precisamos esconder o seu… Ah, você sabe o quê. – Puxou a outra, sorrindo maliciosamente.

 

00:20

Não, ele não sabia. Mas logo o desconhecido tornou-se notável. Uma das mulheres segurou seu pênis e, com uma habilidade impressionante, puxou-o para trás.  

A outra senhora veio por cima, colando a região com um emplastro recortado no tamanho adequado. Olharam o trabalho realizado e sorriram entre si.

− Pronto. Agora, temos uma xoxota perfeita.

 

00:21

Júlio ao ver seu reflexo no espelho, calou-se. Não era ele. Não era mais Júlio.

Uma grande caixa foi aberta e dela foram retirados vários pedaços coloridos de pano. Júlio nunca vira calcinhas tão minúsculas como aquelas.

− Esta. Vai ficar joia! − Mirna disse segurando uma peça azul.  

Os risinhos tomaram conta do momento, enquanto Júlio deixava-se manipular pelas mãos alvoroçadas pela novidade do dia.

 

00:22

A pele, repuxada e manuseada com perícia de cirurgião, estava muito sensível ao toque. Não era dor, mas algo que provocava estímulos desconhecidos.

Júlio foi levado ao estúdio para a sessão de fotos. Sob o comando do fotógrafo, posicionou-se sobre um tapete rosa, tentando se esconder de si mesmo. Os calcanhares encostados na parte traseira das coxas causavam uma sucessão de pequenos estalos de excitação.

 

00:23

O que havia começado com receio e constrangimento tornou-se prazer, percorrendo seus neurônios encharcados de hormônios.

O frenesi continuou durante mais de duas horas, com muita troca de roupa e acessórios. Maquiadoras e produtoras, já um tanto impacientes, reclamavam baixo sobre o trabalho inesperado.

 

00:24

O garoto apenas concordava com o que lhe diziam para fazer. Sentia-se belo como nunca. Talvez, porque aquela fosse a beleza dela e não mais do menino fauno.

Viu-se sem sexo, ou pelo menos, sem o sexo que lhe acompanhava desde o nascimento. Não sentia mais qualquer desconforto, acostumando-se com a velocidade dos flashes.

00:25  

As pessoas em volta estavam envolvidas com o trabalho, mas havia os bisbilhoteiros de plantão. Júlio mergulhou em um misto de orgulho e vaidade.

Era bom estar ali, exposto sem rótulos, sem os

qualquer limite, com sua libido em floração.

Tudo estava bem. Tudo estava muito bem em seu novo mundo.

 

00:26

Pairava no ar, uma inquestionável onda de sedução. Um convite ao paraíso perdido em desejos.

Júlio, como um fruto proibido, deliciava-se com a transgressão, antes imposta e agora desejada.

 

00:27  

Semanas depois, solicitaram a presença de Júlio como modelo principal  de uma campanha.

Fotógrafo e diretor de arte revezavam palpites quanto a poses, caras e bocas. Júlio era rápido em absorver tudo o que desejavam. Parecia ter sido treinado para incorporar toda a malícia de uma ninfeta.

 

00:28   

As fotos reveladas surpreenderam pela qualidade e originalidade. Não era o trabalho do fotógrafo que brilhava, mas a beleza andrógina de Júlio.  

Sentia-se decepcionado como menino. Os óculos, os cabelos mais curtos, a falta de adereços, enfeites, maquiagem, tudo lhe tirava o poder que experimentara durante as sessões de fotografia.

Júlio passou a ostentar, sem qualquer rastro de timidez, um sorriso tingido de malícia.  

 

00:29  

Um novo catálogo de roupas com destino à exportação.  Os folhetos de propaganda não circulariam pelo país. Ninguém saberia quem era aquela menina linda, fingindo ser gente grande. Apenas uma inocente brincadeira.

 

00:30   

O contrato internacional foi reincidido, com a alegação de falta de verba. Para não arcar com maiores prejuízos, resolveram investir nas duas maiores lojas de departamentos do país, tornando seus produtos mais populares.

Os publicitários mostraram serviço e não pouparam esforços para alcançar notoriedade. Foi assim que a propaganda explodiu em um jornal de grande circulação do país.

Página inteira, Júlio em destaque.

Júlio, não.

Juju, a nova estrela da publicidade brasileira.

 

E o relógio parou.

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45 comentários em “Meia Hora (Claudia Roberta Angst)

  1. M. A. Thompson
    27 de abril de 2018

    Olá autor(a).

    A narrativa na voz da personagem não trouxe algo que surpreendesse ou fizesse valer a leitura e ainda estou em dúvida se considero experimental o uso dos reloginhos, pois acabaram atrapalhando a leitura.

    Boa sorte no desafio.

  2. Amanda Dumani
    27 de abril de 2018

    Gostei do uso dos relógios. O tema é atual e foi desenvolvido de uma maneira honesta. Poderia se aprofundar um pouco mais, porém pela estrutura e tamanho ficou de bom tom. O final me decepcionou um pouco. Gosto de ter ficado aberto a interpretação do leitor, mas esse tema merece ser amarrado de uma maneira melhor. Quando falamos sobre algo que pode ser considerado tabu, o trabalho é muito maior. Alguns comentários falam sobre transsexualidade mas me parece que Juju é uma travesti (ao menos a princípio). Existe uma diferença. Talvez seja sua intenção deixar isso livre para interpretação. Acho que você deixou passar uma oportunidade de explorar mais os sentimentos do personagem sobre isso. Gostaria muito de saber como o Julio ou Juju reagiu a ser exposto/a mais uma vez em seu meio. Mesmo com as ressalvas considero um ótimo trabalho.

  3. Bianca Machado
    27 de abril de 2018

    Olá, autor/autora. Não me sinto em condições de fazer comentários muito técnicos dessa vez. Então tentei passar as minhas impressões de leitura, da forma como senti assim que a terminei. Desde já, parabenizo por ter participado!

    Então, vamos ao que interessa!
    ————————————————

    Um texto muito triste, uma situação que me deu uma tristeza, o povo só querendo se aproveitar do menino, mostra o que acontece também aqui, na realidade nua e crua. O experimental eram os reloginhos marcando o tempo? Até achei legal, mas nada que tenha me chamado a atenção para o experimentalismo, aqui é a história que conta, e muito, me envolvi com ela.

  4. Matheus Pacheco
    27 de abril de 2018

    Primeiramente eu devo me desculpar pela pressa que este comentário está sendo escrito, correndo riscos de má interpretação dos contos ou erros gramaticais..
    Esse texto prova que meia hora é o horário de ouro, e como diria um professor meu “Meia hora faço 30 filhos” kkkk, me surpreendi com o formato e principalmente com a história, desculpe a correria…
    Abração ao autor..

  5. Amanda Gomez
    27 de abril de 2018

    Olá,

    Quando vi o título e o relógio achei que o conto se passaria em um tempo de meia hora… acho que ficaria bem legal e daria um ritmo a mais… mas quem sou eu pra dizer como você deveria ter feito seu conto né? foi só uma ” ilusão de ótica”

    O tema é polêmico, vai na contra mão de muita coisa que acredito e desacredito então sim, ele me incomodou demais. Lhe parabenizo por isso, nem todo mundo consegue reações dos leitores.

    Não sei o que está explicito aqui, se é uma critica ou uma bandeira, mas isso não importa, o texto é real… está ai nos noticiários, as manipulações, as negligências o mundo totalmente errado, as crianças vulneráveis. Meia hora é muito pouco pra se falar sobre isso.

    Não estou muito certa sobre o experimentalismo do texto, pra mim está sutil ao ponto de não ser percebido mesmo, os relógios são apenas alegorias singelas.

    Enfim, parabéns pelo trabalho, e boa sorte no desafio!

  6. Anderson Henrique
    27 de abril de 2018

    Um puta texto, forte e atual, de fácil leitura e muito bem construído. Gostei da contagem, como uma bomba-relógio a explodir a revelação final. Gostei de tudo (ou quase tudo). Um dos melhores que li neste desafio. Parabéns.

  7. André Lima
    27 de abril de 2018

    O tema abordado é extremamente contemporâneo e esteve na boca do povo algum tempo atrás. O conto é muito bem escrito. Não só na gramática bem empregada, na dose certa de figuras de linguagem, mas também na técnica, na evolução. É uma história que vamos lendo e, quando menos percebemos, acaba.

    Adorei o ritmo e a maneira que me envolvi emocionalmente com os personagens.

    Como ponto negativo, aponto a falta de revisão. Há alguns errinhos que passaram.

    O experimental sendo usado timidamente não me incomodou.

    Parabéns e boa sorte no desafio!

  8. Rubem Cabral
    27 de abril de 2018

    Olá, Espirro.

    Achei o conto curioso. O tema é polêmico, sem dúvidas, e o uso do desenho do relógio para separar os fragmentos ficou bonito.

    Achei um tanto estranha a transformação do Júlio. Digo, crianças trans já manifestam o desejo de pertencerem ao sexo oposto desde bem novinhas, e esse não era o caso dele, que era brigão, jogava jogos de meninos e tudo mais. Com dez, onze anos, se fosse o caso (dele ser transsexual), ele já teria experimentado por conta própria indumentária feminina, não deixaria a mãe cortar seu cabelo, etc. Talvez o que o menino experimentou foi algum tipo de fetiche pelas roupas, maquiagem, sapatos, etc.

    Abraços e boa sorte no desafio.

  9. Ana Carolina Machado
    26 de abril de 2018

    Oiii. Achei a divisão do conto com os relógios bem criativo, pelo que entendi talvez eles representem o avanço da história, como se fosse o tempo que levou para ela ser contato ou que cada relógio marcava o fim de uma fase para o Júlio ou algo assim. O texto faz uma reflexão sobre a exposição das crianças na publicidade e sobre qual seria o limite disso, pois até que ponto o Júlio concordou? Ele não tinha maturidade para entender o que estavam fazendo com ele, desde a exposição inicial do ensaio até os da agência que o transformaram em Juju, não sabia que consequências isso poderia ter para ele, pois naquela cena em que um colega rir dele por causa da foto mostra que depois de feitas e publicadas não tem como saber até onde vai o impacto dela. Parabéns pelo conto reflexivo. Abraços e boa sorte no desafio!

  10. Renata Afonso
    26 de abril de 2018

    Oi, autor!
    Nossa, bem forte seu conto…mexeu comigo aqui, fiquei com raiva dessa mãe negligente, ainda que deprimida, da tal Laura, de todos os muitos adultos envolvidos nessa problemática….já o Julio, ou Juju, parece que foi o único sentindo-se feliz em meio a tudo isso – mas aí vem as perguntas: houve abuso? indução? Juju curtiria td aquilo caso ñ tivesse sido praticamente obrigado?
    São muitas as questões, realmente.
    Não entendi muito bem o relógio, mas acho que vem significando o que “meia hora” pode representar no destino de alguém.
    Boa sorte no desafio!

  11. Daniel Reis
    26 de abril de 2018

    O destaque aqui ficou com o assunto abordado, e com os diferentes prismas sobre ele – do Júlio/Juju, Laura, da mãe, do diretor de arte… dá muito o que pensar sobre a erotização e a autoimagem das nossas crianças. Porém, senti baixo índice de experimentalismo, e nenhuma conexão dos reloginhos com a história. Boa sorte, de qualquer forma!

  12. Gustavo Aquino Dos Reis
    26 de abril de 2018

    Excelente o tema abordado. Gostei da estruturação e da caracterização dos personagens. A escrita cumpre o seu papel, com algumas construções muito bem colocadas. Eu acho o resultado muito bom.

    Parabéns.

  13. Thata Pereira
    25 de abril de 2018

    No começo, comecei a encarar a passagem dos segundos como se demonstrassem que aquele tempo não estava passando para o garoto e como se estivesse sendo uma tortura muito grande passar por tudo aquilo. Quando ele começou a se acostumar e até a responder por Juju começou uma nova interpretação do tempo correndo, dessa vez rápido, invés de lento. Não sei se comprei a segunda interpretação, para ser sincera.

    Não esperava esse final, com a aceitação/identificação do menino, que no conto não deixa claro se forçada ou não.

    Bom conto, tema incomum e forte (gosto disso). Não sei se experimental, apenas pela contagem do tempo, mas como disse em outros contos, não estou me atentando a isso

  14. Sabrina Dalbelo
    24 de abril de 2018

    Olá,
    O conto traz alguns elementos interessantes, a meu ver: temas como a exploração comercial de crianças, a efemeridade da fama (simbolizada pelos relógios), a descoberta da sexualidade, a falta de sobriedade de alguns pais.
    Não pensei que leria um texto experimental com uma tipagem de crítica nesse nível, e por isso te parabenizo.
    Há alguns errinhos de escrita, mas nada que retire o brilho da tua ideia.
    Por fim, eu vi o experimentalismo na “demonstração da linha do tempo”, simbolizada pela efemeridade (de tudo, inclusive das convicções que temos de nossa sexualidade, de nossa maturidade, de nossa sobriedade)”.
    Um abraço,

  15. angst447
    24 de abril de 2018

    O conto trata de um tema polêmico, pelo menos para mim, pois tudo que envolve crianças acaba mexendo comigo. Deu uma certa raiva dos pais negligentes (tudo bem que a mãe estava doente, deprimida, mas…) e da tal da Laura que só queria se aproveitar do garoto.
    No geral, o texto está bem escrito, mas o autor deixou escapar algumas falhas: uma frase incompleta e o “reincidido” no lugar de rescindido.
    Eu gostei dos reloginhos separando os trechos da narrativa. Acho que a ideia era marcar cada minuto? Foi isso? Embora eu ache que o relato era muito mais longo para caber em apenas 30 minutos. Mas vá lá… experimental? Pode até ser.
    O ponto alto talvez seja a descrição das sensações do menino, a descoberta de novas possibilidades do seu corpo. Embora, eu tenha ficado um tanto chocada, gostei da cena da transformação de Júlio sob os “cuidados” das cabeleireiras.
    Boa sorte!

  16. Catarina Cunha
    24 de abril de 2018

    Frase bomba-relógio: “Ser uma criança nos anos de 1960 era um privilégio, diziam os adultos ansiosos por obter alguma inocência nas frestas do muro da ditadura.”

    Sou muito ligada no primeiro parágrafo e a pontuação me incomodou. Essa vírgula depois de “Nem sempre” deixa um sentido dúbio na frase. Há mais casos no texto. Mas nada que desabone o experimento.

    O título, em contrapartida com os segundos passando, dá uma ansiedade danada. Gostei especialmente do truque do relógio parado dividindo os tempos; dá força extra ao final abrupto.

    A narrativa segue um curso simples, sem sair da zona de conforto; mas a trama é muito boa.

  17. Priscila Pereira
    23 de abril de 2018

    Olá Espirro,
    Eu achei seu conto muito triste. Pais ausentes, negligência, tutora interesseira, manipulação sexual de menor, tudo muito triste. Fiquei com dó dessa criança.
    A estória é bem interessante e me prendeu a atenção.
    O começo, na minha opinião é totalmente desnecessário.
    Parabéns e boa sorte!!

  18. Luis Guilherme Banzi Florido
    22 de abril de 2018

    Boa noiteee! Td bem por ai?

    Cara, que conto bizarro ahhaha. Sendo sincero, achei mais maluco que experimental. Refleti bastante, mas nao consegui associar os relogios e horários ao enredo. Pensei em algo como a transformaçao do rapaz acompanhando o rodar do relogio, mas nao entendi pq terminou em meia hr, e nao uma hora inteira.

    O enredo eh interessante, apesar de um pouco veloz demais. As situacoes acontecem com mta velocidade, e td parece acontecer com uma facilidade além do comum (especialmente a aceitação do rapaz diante da situação). Além disso, nao vejo uma situação dessa acontecendo tão facilmente num brasil dos anos 60 em plena ditadura. Se hj o brasil ja eh um pais quadrado e conservador, imagina 50 e poucos anos atras.

    Pra mim, o ponto forte eh a bizarrice do enredo. Me agradou bastante.

    Enfim, um conto interessante e curioso, mas que pra mim nao se encaixou como o esperado no tema, e deixou interrogações quanto a questão dos relogios.

    Parabens e boa sorte!

  19. rsollberg
    21 de abril de 2018

    Fala, Espirro.

    No que diz respeito a estrutura, penso que você soube trabalhar bem com as elipses, apesar da fragmentação, o conto continua linear e de fácil compreensão.

    O tema escolhido é bastante polémico e atual.. Porém, não vi qualquer malícia ou cunho panfletário em sua abordagem. Em determinado momento, não achei muito crível os sentimentos de Júlio frente a nova realidade, a coisa toda surgiu abrupta e o desenvolvimento bastante superficial, faltou um bocado de linhas para trazendo mais elementos e sensações. Por certo que não há necessidade de explicações, mas do jeito que está parece que o meio simplesmente o transformou. Ele primeiro se choca com sua própria forma e depois passa a ter interesse. Sei lá…

    Quanto a escrita achei ela muito concisa, madura, com objetivo certo e sem qualquer risco de vacilação.

    Enfim, seu trabalho me despertou reações dúbias e, por esse lado, mérito indiscutível pois estimula reflexão!

    Parabéns

  20. Andre Brizola
    21 de abril de 2018

    Salve, Espirro!

    O conto é interessante e traz um enredo muito bem trabalhado pelo tamanho do texto. É curto, mas diz tudo que é preciso dizer, sem abrir mão de uma boa caracterização do personagem principal. Entretanto, acho que os cortes com os relógios acabam sendo desnecessários. Sei que eles serviram para delimitar aquela confissão, mas no geral não acrescentaram muita coisa, e deixaram a leitura menos fluida.
    Há uma frase não terminada que fiquei sem entender se é proposital ou se foi algo esquecido na revisão, “Era bom estar ali, exposto sem rótulos, sem os”. Acredito que tenha sido uma falha, pois me parece algo totalmente fora de contexto.
    No geral é um trabalho consistente, mas que poderia ficar melhor em outro formato.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  21. Luís Amorim
    21 de abril de 2018

    Realmente os relógios, apesar de ser pretensão do autor que pontuem o ritmo da história, poderiam não estar lá. As personagens entram, saem de cena e voltam depois sem alguma lógica sequencial, talvez a ideia inicial fosse essa, o próprio título o diz. No entanto, o conto está muito bem escrito e sem erros.

  22. Jorge Santos
    21 de abril de 2018

    Olá, Espirro Mental. Este seu conto lembrou-me da série 24 que se passava em tempo real. No caso do seu conto, passa-se durante meia hora na vida de um rapaz. O conto serve como chamada de atenção para as decisões que tomamos de uma forma leviana e das suas consequências, neste caso, levado ao extremo. Gostei da forma e o conteúdo fez-me reflectir.

  23. Higor Benízio
    20 de abril de 2018

    Tirando os reloginhos, puramente estéticos, não vi nada de experimental aí. O enredo, apesar de narrado com qualidade, também não tem nada demais. É um texto ok, eu diria, e deslocado do desafio.

  24. Evandro Furtado
    18 de abril de 2018

    O conto, em si, é bastante interessante, apesar de o final vir abruptamente e não estar no mesmo nível do restante da história. O experimental ficou faltando. O relógio não contribui para a história, podendo facilmente ser removido. Ter começado meia-noite foi interessante, mas terminar 30 minutos depois? Talvez se terminasse ao meio-dia, teríamos uma ideia de ascensão, mostrando que o garoto encontrou a si próprio, saindo de uma madrugada de tristeza em direção a um dia de alegria. Pelo que foi, no entanto, não funcionou.

  25. iolandinhapinheiro
    18 de abril de 2018

    Olá, autor!

    Não tive perspicácia suficiente para localizar onde se encontrava a parte experimental do conto, talvez seja a de mexer com nossas emoções, procede?

    Acho que o fato de ter um único filho e homem, tenha me deixado mais sensibilizada pelos fatos acontecidos com o Júlio.

    Uma mãe negligente, um pai que nunca está em casa, pessoas que veem o menino apenas como um produto a ser manipulado, e a solidão do garoto que se seduz quando descobre que naquele bizarro mundo novo, como Juju, ele, finalmente, terá alguma atenção, e ali ele nega a própria sexualidade para se transformar no que querem, e assim continuar no centro, sendo alguém, mesmo que este alguém não seja ele mesmo.

    Uma criança solitária e desamparada, querendo agradar a qualquer custo. A vítima perfeita para os aproveitadores.

    Seu conto me entristeceu, senti o desamparo do seu personagem e acho que mexer com as emoções do leitor mostra seu bom desempenho como autor, parabéns.

    Terminei o seu conto sem saber o quanto o apreciei, mas tenha certeza que não vou esquece-lo tão cedo.

    Boa sorte no desafio, um abraço.

    • iolandinhapinheiro
      18 de abril de 2018

      Correção: Esquecê-lo.

  26. Rose Hahn
    13 de abril de 2018

    Caro Autor, alinhada com a proposta do desafio, estou “experimentando” uma forma diferente de tecer os comentários: concisa, objetiva, sem firulas, e seguindo os aspectos de avaliação de acordo com a técnica literária do “joelhaço” desenvolvida pelo meu conterrâneo, o Analista de Bagé:

    . Escrita: Bagual (tradução: porreta);
    . Enredo: Primoroso e melancólico, careceu de melhor estruturação;
    . Adequação ao tema: Tic-tac, não funcionou.
    . Emoção: Várias passagens, como “Continuava distante, no sentido mais literal que a palavra distante poderia ter”.
    . Criatividade: Excelente contista.

    . Nota: Tic-tac 10, tic-tac 9, tic-tac 8, tic-tac 7, tic-tac 6…

  27. Mariana
    13 de abril de 2018

    Eu diria que esse conto me causou náuseas. E falo como elogio, pois literatura é causar sensações/reflexões. O crescente abuso e abandono, uma sensação de claustrofobia, solidão. A cena com as maquiadoras está primorosa, angustiante. Não vou entrar na questão da transexualidade, algo muito complexo. Mas encarei esse trabalho como uma história sobre abandono e exploração infantil. Deixo como sugestão a retirada dos relógios, eles dão uma quebra e para esse texto cabe pressa. Por fim, é um ótimo conto, só não percebi experimentalismo – algo que não tira o mérito do mesmo. Parabéns e boa sorte no desafio.

  28. José Américo de Moura
    12 de abril de 2018

    Uma maneira interessante e divertida de contar histórias O sofrimento de uma mãe que entrega uma criança a alguém sem escrúpulo que em um passe de mágica transforma um menino em uma menina. Um belo trabalho que me faz pensar na maravilha que é a nossa imaginação.

    Parabéns autor e sucesso com seu conto.

  29. Paula Giannini
    9 de abril de 2018

    Olá autor(a),

    Tudo bem?

    Há alguns anos li o livro “Sexo Trocado”. Terrível narrativa confessional na qual o autor utilizava-se, inclusive, de um pseudônimo muito infeliz (ao menos no Brasil), para preservar a própria identidade. Bem, na época a discussão transex estava longe de eclodir como hoje a vemos e a história real e dolorida do livro, mostra um menino que, após uma cirurgia de fimose (ainda em bebê), tem o sexo amputado por um terrível erro médico. A solução dos pais e dos profissionais envolvidos na época? Apagar o menino da história e trata-lo como uma menina.

    Em seu conto, o abuso se dá de modo bem mais sutil e diferente, mas, ainda assim, por algum motivo, me passou quase a mesma sensação estranha que tive ao ler o livro. O abuso psicológico e até não proposital pode ser tão terrível quanto aquele que não reconhecemos como um abuso propriamente dito. O conto trás algo que cala no leitor um sentimento de incômodo. E isso não é ruim. Literatura também é feita para tirar o leitor de sua zona de conforto.

    Quanto à narrativa, ouvimos daquele que nos “conta” a história, uma trama que supostamente ele ouviu de um outro alguém. Desse modo, podemos imaginar que a história como chega até nós poderia estar modificada, visto que cada um narra o que ouve de uma maneira diferente. Esse contar o que se ouviu, parece deslocar, de certo modo, o leitor para um ponto que se situa em algum lugar passivo, como mero expectador, sem ser convidado, desse modo, a interagir ou criar empatia com o personagem central, um menino que ao sofrer abuso se transforma.

    A premissa é ótima. A atmosfera do mundo do cinema e da moda, também. O ponto alto, em minha opinião, vai para a cena com as maquiadoras.

    Parabéns por seu conto.

    Sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  30. Evelyn Postali
    9 de abril de 2018

    Chocante – de grande impacto, mas não é experimental. Está bem escrito e a leitura é corrida, apesar das quebras. Se o quesito fosse outro, a nota seria melhor. Não posso dizer como transformar esse conto em experimental. Eu mesmo não sei se o meu conseguiu atingir essa meta. O fato é que os relógios não funcionaram. Talvez se mudasse os ponteiros do relógio ou se incorporasse ao conto outros elementos. Colagens, talvez. Outas referências, quem sabe.

  31. Ricardo Gnecco Falco
    7 de abril de 2018

    PONTOS POSITIVOS = O tema abordado, de difícil ‘aceitação’, embora muito atual e bem escrito.

    PONTOS NEGATIVOS = A falta de ousadia (paradoxal, não é?). Aqui, no quesito experimentalismo. Os reloginhos não significaram, pelo menos para mim, nenhum tipo de transgressão ou rito de passagem para ‘fora da caixinha’. Ficou, contudo, parecido com o conteúdo, ou seja, um conto pseudo-experimental. Ou, ‘paratemeando’ o seu trabalho: uma coca-cola com cara de fanta. (desculpe a brincadeirinha maliciosa…)

    IMPRESSÕES PESSOAIS = Não gostei. Mas, sem dúvida, achei uma crítica, ou tema, pertinente e bem atual. Parabéns!

    SUGESTÕES PERTINENTES = Acredito que a obra encontrará leitores mais favoráveis do que eu.

    Boa sorte no Desafio!

  32. Ricardo Gnecco Falco
    7 de abril de 2018

    PONTOS POSITIVOS = O tema abordado, de difícil ‘aceitação’ (por envolver certo tipo de abuso de menor e a chamada ideologia de gênero), embora muito atual e bem escrito.

    PONTOS NEGATIVOS = A falta de ousadia (paradoxal, não é?). Aqui, no quesito experimentalismo literário, como proposto pelo Certame. Os reloginhos não significaram, pelo menos para mim, nenhum tipo de transgressão ou rito de passagem para ‘fora da caixinha’. Ficou, contudo, parecido com o conteúdo, ou seja, um conto pseudo-experimental. Ou, ‘paratemeando’ o seu trabalho: uma coca-cola com cara de fanta. (desculpe a brincadeirinha maliciosa…)

    IMPRESSÕES PESSOAIS = Não gostei. Mas, sem dúvida, achei uma crítica, ou tema, pertinente e bem atual. Parabéns!

    SUGESTÕES PERTINENTES = Acredito que a obra encontrará leitores mais favoráveis do que eu.

    Boa sorte no Desafio!

  33. jowilton
    3 de abril de 2018

    Achei um bom conto e também polêmico. Na minha opinião, criancas têm sim sexo. Biologicamente falando, também têm. Ou são XY, meninos, ou XX, meninas. Acho bastante bizarra a visão contrária a isso. E acredito que nunca mudarei de opinião. Depois de adulto qualquer um faz da vida o que quiser e acho bem justo que o faça. O autor foi habilidoso nas palavra, fiquei badtante desonfortável em algumaa partes. Percebe’se uma sensualidade quando o menino é transformado externamente em menina, flertando com a pedofilia. O autor nos dar margem a entender que o garoto estava satisfeito com o resultado. No entanto, não podemos afirmar se é uma opinião do autor se sobrepondo a voz narrtiva ou apenas a voz narrativa interpretando o que vê. Isso também me deixou desconfortável. Kkkkkkk Enfim, um bom conto. Boa sorte no desafio.

  34. Ana Maria Monteiro
    30 de março de 2018

    Olá, Espirro. Ainda que a ideia dos relógios marcando o ritmo da narrativa da história que foi ouvida ao longo de 30 minutos seja original e experimental, acabou por revelar-se frustrante. O que quero dizer com isto? dar sequência a uma história, ligar cada parágrafo ao anterior, fazer o leitor empreender uma caminhada, tudo isto são elementos que fazem parte da arte narrativa e que não foram usados, antes se tendo recorrido à contagem dos minutos para dar os respectivos “saltos”. Assim, a carga do abuso de confiança, a culpa da mãe imersa nas suas próprias depressões, os interesses comerciais, as próprias maquiadoras e os seus risinhos sórdidos, tudo isso se perdeu um pouco. Esta é uma história (e não é a única neste desafio) que se me afigura ficaria melhor no formato tradicional (ou então usando outro experimentalismo qualquer que nem me passa pela cabeça).
    Lá pelo meio encontrei uma frase incompleta e também este “ao” deveria ter sido “o”: “Sua confiança beirava ao histerismo”. De resto nada mais me incomodou. Penso que este conto merece ser tratado de novo, substituindo os relógios pela tal sequenciação narrativa. Tem excelentes momentos e é bastante interessante, pois aborda uma série de problemas bem presentes na sociedade atual: manipulação, abuso, a sede dos mídia, a plasticidade do ser humano enquanto jovem… tem muito, muito por onde. Gostaria muito de a ler em muito mais de 2000 palavras e explorada bem fundo. Todos somos culpados, duma forma ou doutra, mesmo quando não compactuamos com as situações, fechamos os olhos a muita coisa aparentemente (é fácil pensar que é só aparentemente, que só não está muito bem) pouco importante. Podemos não ver programas (e são tantos!) onde se utilizam crianças para captar audiências, mas não nos manifestamos activamente. Até a maior parte da publicidade destinada às crianças é pornográfica, não no sentido sexual, mas moral. E que fazemos? Pois, nada. Quando muito desligamos a televisão ou não cedemos aos pedidos insistentes que os filhos nos fazem para lhes oferecermos esta ou aquela porcaria publicitada e que não serve para nada. Enfim, já chega que estas considerações não são para aqui chamadas. Mas reescreva por favor, aumente este conto, dê-lhe todo o espaço que reclama e merece. Se o resultado não for experimental, não terá a menor importância pois já nem estará no desafio, mas noutra esfera – a que nos leva a escrever, a da literatura, que cada dia mais escasseia. Parabéns e boa sorte no desafio.

  35. Antonio Stegues Batista
    29 de março de 2018

    Comecei a ler o conto e até a metade não sabia do que se tratava, nem descobri o significado do relógio, do tempo em segundos, já que a história ocorre em dias! Então, percebi que se tratava da transformação de um rapaz em moça. Não vi nenhuma exploração de criança por adulto, já que, Julio gostou de ser mulher e no fundo, ele era. Achei que teria alguma surpresa no final, mas não tinha, pelo menos não achei nada que me surpreendesse. Boa sorte.

  36. Cirineu Pereira
    29 de março de 2018

    Experimentalismo nenhum, pelo contrário, um estilo narrativo bastante convencional. Os minutos a pontuarem os parágrafos, a marcação do tempo por si só não agrega muito, até porque não tem qualquer associação com a estória. Estória essa a propósito, linear, em ritmo inclusive, com personagens simplesmente saindo de cena, sem mais, nem menos. Apesar de fácil, não foi propriamente uma leitura prazerosa.

  37. Paulo Luís Ferreira
    28 de março de 2018

    Afora o reloginho de hora parada não consegui enxergar em nada o experimentalismo. Embora um enredo rico em sua mensagem, quanto ao tratamento dado a tantos casos reais de abuso infantil, até mesmo exploração de seu trabalho intelectual e artístico visto em muitos casos da vida real. Uma história bem contada, bem comportada com seu começo, meio e fim, bem ajustados e no lugar certo, mas sem grandes novidades quanto a experimentação, mas como o experimental também é válido mais para quem o experimenta do que para quem se destina, está mais do que aceito. O que mais vale mesmo é a ideia, a mensagem do trabalho em si. Ainda mais com um enredo tão delicado e denunciante como o seu. Entretanto achei o desenvolvimento um tanto desenhando desde os primeiros minutos do conto.

  38. Regina Ruth Rincon Caires
    28 de março de 2018

    Olá, Espirro!

    O mais complicado da leitura foi “pular” os reloginhos. A narrativa ficou um pouquinho seccionada . Os reloginhos tiram a inteireza do texto.

    O trabalho tem pouco deslize de escrita, tem estrutura, há uma ideia a ser transmitida. Diferentemente dos comentários que li, acho que o teor dá menos importância ao “abuso” (exploração) da criança e mais ao “transformar”.

    Dentro da fragilidade familiar em que o menino vive, com o desequilíbrio emocional da mãe, com a ausência do pai, ele está lidando com a insegurança da vida, das várias fases. Aqui, essencialmente, com a puberdade/adolescência. Achei sensacional a descrição das emoções vividas por Júlio, chega a ser sensorial. A exploração da sua imagem nada mais foi do que um gatilho, do que um descobrir da sua verdadeira identidade. E tudo foi contado de maneira pueril, sem qualquer malícia. Foi narrado exatamente como foi sentido pelo menino.

    O autor colocou uma gama de tristura na narrativa. Tem melancolia, tom cinzento.

    Há muitas expressões fortes, reflexivas.

    Observei:

    “… ainda guardava semelhança com um anjo, sem asas e sem sexo.”

    “Júlio começou a se incomodar com os arrepios que se repetiam. Não eram de frio, mas da ausência de privacidade.”

    “Sem poder de se esquivar da própria nudez, emudeceu qualquer susto.”

    “O silêncio percorreu todo o caminho de volta, mais constante do que a presença da mãe.”

    “O pior era quando não havia lágrimas, nem gritos, nem soluços. Só o nada.”

    “A pouca idade, não lhe invalidava a crescente ambição, sem escalas para revisão de escrúpulos.”

    “Como se houvesse ali um casco de réptil acobertando sua timidez e fazendo as vezes de abrigo contra qualquer mau tempo.”

    “Os risinhos tomaram conta do momento, enquanto Júlio deixava-se manipular pelas mãos alvoroçadas pela novidade do dia.”

    “A pele, repuxada e manuseada com perícia de cirurgião, estava muito sensível ao toque. Não era dor, mas algo que provocava estímulos desconhecidos.”

    “Os calcanhares encostados na parte traseira das coxas causavam uma sucessão de pequenos estalos de excitação.”

    “O que havia começado com receio e constrangimento tornou-se prazer, percorrendo seus neurônios encharcados de hormônios. O frenesi continuou durante mais de duas horas, com muita troca de roupa e acessórios.”

    “Sentia-se belo como nunca. Talvez, porque aquela fosse a beleza dela e não mais do menino fauno.
    Viu-se sem sexo, ou pelo menos, sem o sexo que lhe acompanhava desde o nascimento. Não sentia mais qualquer desconforto, acostumando-se com a velocidade dos flashes.”

    “Júlio, como um fruto proibido, deliciava-se com a transgressão, antes imposta e agora desejada.”

    “Sentia-se decepcionado como menino. Os óculos, os cabelos mais curtos, a falta de adereços, enfeites, maquiagem, tudo lhe tirava o poder que experimentara durante as sessões de fotografia.”

    Enfim, é um conto interessante. Gostei muito.

    Parabéns, Espirro!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  39. Angelo Rodrigues
    27 de março de 2018

    Olá, Espirro Mental,

    Seu conto conta essa história, a de um abuso infantil, lento e gradativo, de um menino.
    A estrutura narrativa, picotada como flashes ficou assim, tipo mais ou menos. Talvez levado pela necessidade de apresentar algo “experimental”.
    Acredito que um texto corrido, sem os tais picotes, na minha compreensão, traria um efeito mais coesivo ao conjunto.
    Numa análise mais apurada, o relógio, embora compreenda o objetivo de sua presença, não é de grande ajuda, mais parecendo um elemento decorativo. Digo isso porque acredito que em literatura, o que não ajuda muito, atrapalha bastante e precisa ser cortado.

    Sob o ponto de vista da formação da personalidade do menino, tenho dúvidas quanto ao processo construtivo. As vontades de outros (fotógrafos, Laura, diretores de arte etc), não me parecem capazes de transformar a sexualidade de um garoto de onze anos, dado que (me pareceu) ele acabou por se transformar de Júlio em Juju, a nova estrela da publicidade brasileira. Discutível tal punção sexual, assim, tão sem mais e em tão pouco tempo sendo revertida, sucumbindo a tal transformação.
    Creio que você tenha querido dizer que esse específico abuso foi capaz de o transformar. Será? A ver.

    Mas, vamos lá. Percebi algumas coisas que, a despeito de o texto estar bem escrito, houve algumas escapadas:

    “Antes do relógio disparar…”, creio que seria …de o relógio disparar…

    “Era bom estar ali, exposto sem rótulos, sem os” Esta frase ficou incompleta, pareceu-me.

    “O contrato internacional foi reincidido…” Creio que o correto seria rescindido e não reincidido.

    Boa sorte no desafio.

  40. Fheluany Nogueira
    27 de março de 2018

    O conto apresenta questões que envolvem uma relação que tem dois lados — o jovem e o adulto. O rapaz é explorado e exposto pela omissão dos pais, não entendi bem o papel da “amiga” que o induz e pelo lucro da agência de publicidade. Ele vai sendo conduzido por uma onda, inconsciente; e, o mundo foi sendo desenhado (ou fotografado) com novo contorno, até que a zombaria dos colegas o trouxe à realidade. O texto está bem escrito, e formatado, com a marcação de tempo, de forma que as frases e parágrafos curtos lembrassem os flashes das fotos (um minuto é o tempo para cada foto?). Ficou interessante e crítico. Parabéns pelo trabalho. Abraço!

  41. werneck2017
    27 de março de 2018

    Olá, Espirro.
    A premissa do seu conto é atual e engajada, sobre a exploração infantil de qualquer natureza. Aqui, trata-se dos pais e da agência de publicidade. Muito pertinente. O que se passa atrás das lentes e que ninguém vê, ou melhor, ninguém quer ver. Só interessam o glamour e o dinheiro que se consegue mobilizar em contas bancárias. No entanto, eu entendo que qualquer boa estória deve trazer um conflito humano, de forma que o personagem o vivencie e passe ao leitor sua angústia, seu dilema pessoal – e que ao mesmo tempo é comum a toda raça humana – e é exatamente isso que – a meu ver – faltou no seu conto.
    Os parágrafos curtos – que lembram realmente instantâneos de uma vida contada em 30 minutos – foram bem bolados, mas a alma do conto passou ao longe. O leitor sabe do abuso, mas não sente. O leitor compreende, mas não o vivencia numa experiência empática com o personagem. De resto, muito bom.

  42. Fernando Cyrino.
    27 de março de 2018

    Olá, Espirro Mental, uma história de abuso. Uma criança, um menino pré-adolescente que vai sendo usado por interesses comerciais apenas. Uma história que mostra a perda da inocência e a entrada da malícia. Uma história que me mostra até aonde caminha a possibilidade da maldade humana. Mais que maldade a perversidade humana, partida – e isto é assustador – do lugar no qual aquele menino mais deveria ter encontrado segurança. Gostei bastante do seu conto, Espirro Mental. Considerei-o criativo e bem redigido. Gostei da sua narrativa. A experimentação se deu através dos flashes curtos – as fotografias – que foram me trazendo a história do Júlio e da sua mãe deprimida. Narração que vai num crescendo até explodir na grande campanha publicitária com a Juju (e não mais Júlio) em página inteira no jornal. Um conto pesado, incômodo e que me faz refletir em coisas que podem ocorrer por trás das câmeras nas campanhas publicitárias. Parabéns pelo seu trabalho. Um abraço.

  43. Fabio Baptista
    26 de março de 2018

    Eu gostaria de ter gostado desse conto, pois ele está muito bem escrito, mas não gostei.

    Entendi que o personagem (Juju) contou ao autor sua história e isso demorou 30 minutos. Infelizmente, essa contagem dos minutos, a despeito do relógio bonitinho (teria sido mais legal se os ponteiros fossem evoluindo na figura…), serviu apenas para picotar o texto e quebrar a fluidez narrativa. Não teve, ou eu pelo menos não vi, nenhuma relação dos minutos com a história contada, nem chegou a criar uma tensão ao se aproximar dos 30 minutos (pensei inicialmente que seria uma contagem regressiva, ou algo assim).

    A história do garoto é bizarra e triste. É possível sentir a exploração dos pais e publicitários e a perda da inocência do garoto, começando a se deslumbrar com os flashes e tal. Nessa parte o(a) autor(a) acertou em cheio, mas essa é uma história que pede bem mais do que 2 mil palavras para se desenvolver de modo adequado.

    – Era bom estar ali, exposto sem rótulos, sem os
    >>> sem os ????

    Abraço!

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Informação

Publicado às 26 de março de 2018 por em Experimental e marcado .