EntreContos

Detox Literário.

A segunda onda Ou Marianas (Bento da Silva)

1

Dos Objetos

 

Teste de gravidez

Modelo: Tira

Estado: Usado

 

Um teste de gravidez de farmácia carrega a ansiedade. No atraso das regras, a única certeza é a de que o exame pode ser realizado ali, no recôndito oculto de uma casa. No silêncio da espera, a bula promete precisão para detectar níveis mínimos de HCG.

Para a futura ou não mamãe, porém, importa apenas a promessa de resultados visíveis logo após a coleta da urina. No hiato do segredo, todavia, minutos têm a capacidade de se alongar como intermináveis horas.

 

Par de alianças

Material: Aço-cirúrgico-banhado-a-ouro

Estado: Novas


Uma aliança de aço-cirúrgico contém em si a promessa de eternidade. Infinito, imortal, posto que não amassa, que não enferruja, que assim é para sempre, de brilho perfeito. Uma noiva desavisada, talvez, no pedido do noivo incerto quanto ao amanhã, não deveria, jamais, diferenciá-las daquelas autênticas, as de ouro.

 

Caderno escolar

Modelo:  Pautado

Estado: Em-branco

 

Quando um caderno em branco é aberto, um mundo inteiro se oferece escancarado, às histórias. Em seu silêncio mudo, tudo que aguarda é o ato de ser preenchido, a fim de que se cumpra sua função primeira e única, a de ser caderno, e de contar finais felizes ou mesmo aqueles que nem sempre.

 

Correspondência

Remetente: Faculdade

Estado: Violada/Aprovada

 

Um comunicado de seleção de bolsistas via correio costuma ter um prazo de entrega de dois dias. No resultado, dentro da correspondência, repousam emoções capazes de alterar os cursos, modificar os destinos.

 

Um anzol

Modelo: Gancho

Estado: Novo. Em-saquinho. Contendo também uma vela-de-12-anos.   

 

Junto ao anzol se lança o desejo, o do pescador. Excitação da expectativa incerta de se conquistar a presa. No silêncio das águas, submerso, o outro lado da moeda aguarda quieto e talvez em igual expectativa. Disso, entretanto, em terra-firme jamais se virá a saber.  

 

Chinelos

Material: Borracha.

Estado: Seminovo

 

Chinelos de dedo prometem a sensação de pés descalços. Liberdade em tiras, que algumas vezes, ou em muitas delas, têm a capacidade de ferir as carnes.

Batom

Modelo: Retrátil

Estado: Usado

 

O uso de um batom pode continuar após seu desgaste quase total com o auxílio de um pincel. Diz o imaginário popular que seu formato pode revelar, de modo certeiro, da boca o jeito, da alma os anseios e daquela que o usa os segredos.  

 

2

Dos Animais

 

Peixe

Espécie: Curimba

Tamanho: Gigante

Sexo: Macho

 

Matusalém era muito antigo. Agigantado pela idade, sua carne dura certamente desagradaria paladares. Vivia em um jogo de esconde-esconde com um pescador teimoso, um local, como ele. Sobrevivente de longos anos naquelas bandas e águas. Eram velhos conhecidos, pescador e ele, e, embora se enganassem mutuamente, travavam disputa honesta, entrega justa de pacto não verbal e, ainda assim, pacto. Ele, peixe, adquirira a habilidade de beliscar a isca, roubá-la para si e devolver o anzol intacto às mãos de seu adversário.

Um dia travariam a derradeira batalha. Nesse dia, sabia, encararia os olhos do inimigo agradecendo ao carrasco por sua lealdade. E já sem o filtro da água nos olhos, partiria em paz, conhecendo em um vislumbre, aquele mundo imenso de terra firme.   

 

Cachorro

Espécie: Vira-lata

Tamanho: Médio

Sexo: Fêmea

 

Mangaba vivia prenha. Frutos de seus passeios de fêmea não castrada, junto àquela que mais amava em sua vida de cão. Sua menina, Mariana. E não desgrudava da miúda nem quando esta, usando calçados, entrava naquela casa cheia de crianças e por lá permanecia por horas.

Horas, por vezes se parecem com dias, meses. Ainda assim, aguardava na porta. Demorava. Mas sabia, Mariana sempre retornaria.  

Gostava de correr livre, andar sem coleira e de comer manga caída do pé.

Naquele dia, mal suspeitava, iria ao veterinário, e faria, de tudo, aquilo que mais odiava. Colocaria focinheira. E, para sua sorte, se tivesse tempo de ter descoberto, saberia, não tomaria injeção.

   

3

Dos Humanos

 

Franca Apolinário  

Idade: 19

Sexo: Feminino

Estado civil: União estável

Profissão: Manicure

Escolaridade: Primeiro grau.

 

Apaixonada. Era esse o estado de Franca. Não era da Silva, mas Apolinário. No entanto, queria ser chamada assim. Da Silva.

Morando com o namorado há seis meses tinha a certeza de que a vida poderia ser boa. Viviam na casinha dos fundos do terreno da mãe daquele que agora chamava marido, mas em breve teriam a sua. Própria, de papel passado. Com quintal e um cachorro, um filhote de alguma fêmea da região. E casamento, também com papel e até sobrenome. Da Silva.

Não tinha certeza, por isso aguardava ansiosa a mudança de cor na tira molhada que segurava firme. Um dia teria muitos filhos.

 

Marina dos Santos

Idade: 20

Sexo: Feminino

Estado civil: Solteira

Profissão: Estudante

Escolaridade: Terceiro grau/cursando.

 

Sonhava em se formar. Medicina. Na falta de faculdade em sua cidade, estudava no município vizinho. Na ida, atravessava de carona na caminhonete do carteiro. Na volta, pegava ônibus. Duas horas para ir. Três para voltar. Mas compensava.

Um dia seria médica, embora, por hora, cursasse pedagogia, única cadeira existente na região. Nesse dia, realizaria seu sonho. Era só aguardar a carta liberando a bolsa para uma faculdade na capital. Acreditava. Traçava planos. Moraria com a irmã da mãe, uma tia que mal conhecera em menina durante o velório que mudaria sua vida para sempre. O de sua mãe.

Um dia salvaria vidas. Muitas.

 

Gladiston dos Santos

Idade – 55

Sexo – Masculino

Estado civil – Viúvo

Profissão – Padeiro

Escolaridade – Primeiro grau/incompleto.

 

Três meninas. Já crescidinhas, mas ainda com muito trabalho a dar pela frente. Ao enviuvar, aos 46, prometeu cuidar das três ao pé-do-ouvido da defunta. Daria estudo. Casa. Ensinaria uma a uma. Seriam boas e dignas, como fora a mãe, de quem mantinha retrato na cabeceira para beijá-la todo o santo dia. Ou quase.   

Quando as meninas estivessem encaminhadas, viajaria para Aparecida a fim de agradecer à Santa, de joelhos, pela ajuda concedida. Por hora, porém, apenas planejava confessar ao padre que, ultimamente, dera para pensar em outra, mas que jamais cederia. Reclamaria da penitência, porque a culpa daquela danação era da Santa, obviamente, por ter deixado o criador levar sua Clara tão cedo e antes dele.

Gostava de pescar. E passava as horas vagas lançando iscas que, nem sempre, de uns tempos para cá, voltavam com peixe grudado nelas.

Naquela quinta-feira, não iria ao baile. Chegaria em casa tarde, pois passaria na venda. No dia seguinte seria aniversário da filha do meio, e não se permitiria decepcionar a mais festeira das três rebentas.

 

Maria das Dores

Idade: 9

Sexo: Feminino

Estado civil: Solteira

Profissão: Estudante  

Escolaridade: Primeiro grau/cursando.

 

Gostava de andar descalça, para subir mais fácil nas árvores quando os meninos corressem atrás dela. Era rápida. E ágil. Teimava com a mãe e só usava calçados para ir à escola. Porque era obrigatório. Quando crescesse, sonhava em ser veterinária. E cuidaria de bicho como o tio da fazenda da Santa na qual morava e que, para sua felicidade, carregava seu nome.

Naquele dia, tinha lição. Matemática. Sua maior dificuldade. Por isso se dirigia à casa da amiga Betina, cuja avó assava bolos como nenhuma outra. E que, por ser muito protetora, fazia as lições de casa da neta e, às vezes, as da amiga também.

Antes da lição, porém, queria encontrar Mariana, que tinha uma cadelinha linda, para a qual trazia, escondida, sua coxa de frango do almoço.

     

Lucas Cruz

Idade: 27

Sexo: Masculino

Estado civil: Solteiro

Profissão: Carteiro

Escolaridade: Segundo grau

 

Esperava todos os dias. De olho no relógio. 9 horas, deixava as cartas na central da cidade vizinha e estacionava em frente à Praça da Matriz comendo os segundos com olhos e ouvidos atentos nas badaladas do sino. Não sem antes passar colônia, no pescoço, que era para Mari sentir, quando lhe desse um beijinho amigo no rosto.

Mari morena, como Marina não gostava de ser chamada, ainda não sabia, mas naquele dia, Lucas trazia no bolso uma correspondência violada. E um anel. De compromisso. Banhado à ouro e com nome e data, escritos na parte de dentro.   

   

 

Aparecida (sem sobrenome)

Idade: 39 aproximadamente

Sexo: Feminino

Estado civil: Desconhecido

Profissão: Catadora de latinhas

Escolaridade: Analfabeta

 

Trabalhava e trabalhava. Só assim para pagar o quartinho que alugara na casa de Dona Hilda.

Aluada. Era o que ouvia dos outros, pelas costas, quando abria o saco de lixo e retirava latinhas das quais tomava o restinho, antes de voltar a atar o nó, cuidadosamente. Era caprichosa. E aluada sim. Por que não? Aluada, gritava em resposta, rindo escancarada com a dentadura frouxa. E com muito orgulho.

Naquele dia exato, comprara caderno e lápis, com borracha e apontador. Iria tomar sua primeira lição do bê-á-bá. E aprenderia a escrever a primeira palavra de sua vida. O próprio nome, sem sobrenome, finalmente estamparia um papel.

 

Hilda da Silva

Idade: 54

Sexo: Feminino

Estado civil: Divorciada

Profissão: Quituteira

Escolaridade: Segundo grau

 

Pé de valsa, assim era conhecida pelos amigos. Gostava de dançar no salão da cidade, especialmente a partir do dia em que conheceu um viúvo teimoso e para lá de sisudo que se negava a entregar seu coração por inteiro usando as filhas como desculpa.

Mãe de dois rapazes, fazia bolos para fora e alugava um dos quartos de sua casa a fim de ajudar na criação da neta que vivia com ela desde que o mais velho, Bento, desaparecera em busca de ilusões de ouro e de mulher em um Garimpo no norte do país.

O mais novo morava com a namorada em um puxadinho nos fundos de seu quintal.

 Adorava bancar a professora, sonho irrealizado de menina, com toda e qualquer cobaia que por ali aparecesse.

Naquela noite, usaria batom. Cor de rosa. E iria com as unhas feitas roubar um beijo do viúvo só para vê-lo pigarrear e descobrir, de uma vez por todas, se ele a queria ou não.

 

 

Mariana dos Santos

Idade: 10

Sexo: Feminino

Estado civil: Solteira

Profissão: Estudante

Escolaridade: Primeiro grau/cursando

 

Mariana não tinha mãe. Mas sim um pai e duas irmãs. A mais velha, séria como o pai, um dia seria médica. A do meio, sorridente, seria mãe, pois adorava passar o dia brincando de boneca, ao contrário dela, que amava mesmo era passar a vida com sua cadelinha.

Estava preocupada. E quando o pai chegasse, pediria que não fosse ao baile, mas que a levasse à Fazenda Maria das Dores onde morava a amiga e havia veterinário para examinar sua bichinha que estava muito gordinha e andando com dificuldade.

 

Humberto Resende

Idade: 42

Sexo: Masculino

Estado civil: Casado

Profissão: Bombeiro

Escolaridade: Terceiro grau

 

Naquele dia 05 de novembro de 2015, o Tenente Coronel Humberto Resende retirou vários objetos da lama. Um teste de gravidez, alianças, um caderno escolar, uma correspondência violada, um anzol, chinelos, porta retrato e um batom.

Obstinado, puxou do lodaçal, com as próprias mãos, animais que se debatiam no desespero das horas em que se transformam os minutos do momento de uma morte. Entre eles, um peixe. Imenso. Apenas um entre tantos, tantos outros.

Na tentativa de encontrar sobreviventes, perdeu unhas e estribeiras, arrancando do barro os corpos que engrossaram a lista daquele obituário insano. Franca Apolinário, Marina e Gladiston dos Santos, Lucas Cruz, Hilda da Silva e Aparecida, sem sobrenome.

Enterrado com honras de Estado, o Tenente Coronel sucumbiu ao ser surpreendido pela segunda onda de lama, logo após resgatar a menina Mariana, única sobrevivente da tragédia batizada com o nome da cidade onde morava. Coincidentemente, também o seu. A seu lado, a cadelinha ainda com vida e salva pela focinheira que usava no momento da avalanche.

Não fosse a inesperada segunda onda, o Tenente ainda teria tido tempo de resgatar com vida, as meninas Maria das Dores, Betina da Silva e Mara dos Santos, irmã do meio de Mariana.   

Os que acompanharam os trabalhos de resgate, juram que o herói só foi colhido pela derradeira onda por se recusar a largar a mão de Benito da Silva preso aos escombros pouco acima das três meninas.

Resende, o tenente, deixou no mundo duas filhas. Benito, por sua vez, não teve tempo para descobrir, em sete meses, teria sido pai.

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28 comentários em “A segunda onda Ou Marianas (Bento da Silva)

  1. Rsollberg
    21 de abril de 2018

    Fala, Bento!

    Antes de tudo, em relação a estrutura, experiência pura, muito legal você desenvolver a história através dos objetos e animais pois todos eles carregam essas cargas. Eles tem vida (não no sentido de a Bela e a fera,rs), tem razão de existir, cumprindo suas missões e resistindo aos desvios de objetivo.
    No desenvolver do relato, aos poucos vamos ligando os pontos, cada relação feita e descoberta realizada funciona como um biscoito lançado, no melhor estilo reforço positivo, para seguir adiante. Os personagens, sem exceção, são ótimos. Apesar do curto espaço para uma apresentação, eles possuem características, anseios, objetivos e personalidade singular, não demora muito e estamos plenamente confortáveis com suas existências. São principalmente criveis.
    Quando tudo se conecta nesse pequeno microcosmo dessa diminuta cidade ficamos felizes, porém, essa felicidade dura pouco.

    O último paragrafo literalmente joga por terra tudo, desfazendo todas as sensações anteriormente despertadas, forçando na base do choque novos sentimentos. Revolta, procura de culpados, dor e por útlimo uma melancolia sem fim.
    Um conto triste, mas lindíssimo.

    A escrita é impecável, precisa! Direta onde tem que ser, elaborada quando necessária e dramática na medida certa.
    O título é excepcional e revela a genialidade do plano do autor.
    Com todo respeito, é um conto que não deveria existir, com histórias que não deveriam cessar, com sensações que não precisavam ser despertadas. Mas, cest la vie!

    Certamente o meu preferido desse desafio.
    Um beijo grande pela sua competência e, especialmente, por sua sensibilidade.
    Parabéns

  2. Andre Brizola
    21 de abril de 2018

    Salve, Bento!

    O começo nos dá a falsa ideia de que o conto é, na verdade, um compêndio de diversos minicontos. Mas aos poucos eles vão se entrelaçando, fazendo alusões aos personagens dos minicontos já lidos, e aumentando nosso interesse a cada reinício. Muito criativo.
    Enredo que mistura o cotidiano com o lastimável episódio do desastre da barragem em Mariana-MG. Mais do que uma crítica, mas a realidade nua e crua do que ocorreu, embalada na forma de conto. Poderia ter ficado piegas. Mas não ficou. Achei que o tom da crítica foi muito bem dosado.
    Um dos contos que mais gostei desse certame!

    É isso! Boa sorte no desafio!

  3. Luís Amorim
    21 de abril de 2018

    Conto muito longo com a mesma apresentação durante a maior parte das linhas, com as cansativas (para os leitores) apresentações. O desenlace é bom, ainda que curto. A história poderia ter sido arranjada de uma outra forma. Fica com nota bem positiva, graças à parte final.

  4. Jorge Santos
    21 de abril de 2018

    Este texto choca pela crueza do desfecho, completamente inesperado (sobretudo para quem, distraído como sou, não prestou atenção ao título). A surpresa é sempre bom vinda em literatura, mesmo aquela que incomoda, como é o caso deste conto. O autor está de parabéns.

  5. Bianca Machado
    18 de abril de 2018

    Olá, autor/autora. Não me sinto em condições de fazer comentários muito técnicos
    dessa vez. Então tentei passar as minhas impressões de leitura, da forma como senti assim que a terminei. Desde já, parabenizo por ter participado!

    Então, vamos ao que interessa!
    ————————————————
    .

    Chorei, chorei, chorei muito. Quando li “onda” e “Marianas”, já sabia do que se
    tratava. Enquanto fui lendo, já percebi o plot. Mas isso não tirou o “gosto” da leitura. Um gosto amargo, mas sensível, doce, nostálgico, porque chorei tanto com essa tragédia, mesmo daqui de longe. Não foi fácil ler sabendo que tudo não se acabaria bem. Emoção define, não tenho mais o que dizer. Pra mim não foi cansativo, de forma alguma, porque me enredou. Parabéns.

  6. Evandro Furtado
    18 de abril de 2018

    Maldito. Me fez chorar que nem uma criança agora. Isso foi, simplesmente, genial. Apresentou coisas, e bichos, e gentes. Sim, gentes. Com suas vidas ordinárias, e história não exatamente especiais. Mas, especiais demais pra se perder. Esse conto não é só uma obra de arte, mas uma lição de vida. Ensina a valorizar tudo o que parece desimportante. Porque, no final, tudo tem sua importância, tudo tem um valor. E a gente só percebe isso quando perde.

    Ooooooooooooooooooooooooooooooooooutstanding!!!

  7. iolandinhapinheiro
    17 de abril de 2018

    Olá, querido autor!

    Já ia reclamar da quantidade de personagens quando ao chegar ao fim do texto descobri a importância de cada um deles na tragédia recente.

    Suas vidas entrelaçadas, seus pequenos dramas pessoais e a lama enterrando o resto da vida de tantos.

    Achei interessante falar um pouco da vida de cada um, assim gerou o envolvimento necessário do leitor para que posteriormente pudesse lamentar a tragédia com sentimento real.

    Gostei do formato criativo para falar do que geralmente se vê em noticiários da tv.

    Um conto muito bom, parabéns e sucesso.

  8. jowilton
    16 de abril de 2018

    Tenho que dizer que até chegar no tenente eu já estava me cansando com a leitura. Então, chega a conclusão e tudo fez sentido. Uma boa ideia essa. O conto está bem escrito, a narativa é simples, descritiva, sem muitos floreios. A história ser baseada em fatos reais acrescentou bastante no impacto final. Boa sorte no desafio.

  9. Rose Hahn
    14 de abril de 2018

    Caro Autor, alinhada com a proposta do desafio, estou “experimentando” uma forma diferente de tecer os comentários: concisa, objetiva, sem firulas, e seguindo os aspectos de avaliação de acordo com a técnica literária do “joelhaço” desenvolvida pelo meu conterrâneo, o Analista de Bagé:

    . Escrita: Tocante;
    . Enredo: Tragicamente orquestrado;
    . Adequação ao tema: Tragicamente encaixado;
    . Emoção: “Liberdade em tiras, que algumas vezes, ou em muitas delas, têm a capacidade de ferir as carnes”.
    . Criatividade: Alta. O modelo “Tira” do teste de gravidez, no 1o parágrafo, causa um estranhamento com as tiras do chinelo da imagem do texto.

    . Nota: Mais do que vc. imagina. Parabéns!

    • Rose Hahn
      14 de abril de 2018

      PS.: Considerei positivo o efeito do “estranhamento”.

  10. José Américo de Moura
    13 de abril de 2018

    Que coisa fantástica, emocionante essa forma de narrar uma tragédia anunciada. O autor me passou uma emoção tamanha que no final não pude conter as lágrimas ao me lembrar da tragédia da cidade de Mariana. Mais trágico ainda é me lembrar que estive, há uns 5 anos atrás tão próximo dessa cidade mas por preguiça peguei um ônibus em Ouro Preto e vim direto para minha cidade sem conhecer Mariana.

    Tenho certeza que seu conto estará entre os melhores,

    Parabéns

  11. Priscila Pereira
    13 de abril de 2018

    Olá Bento,
    Você me fez chorar…
    Seu texto é interessante e instigante, me prendeu, não achei cansativo, saboreei cada peça que ia se encaixando e já sabendo do que se tratava pelo título, já estava me preparando, mas mesmo assim me emocionei no final e olha que isso é difícil. Parabéns! Experimental e muito bem escrito.
    Boa sorte!!

  12. Paula Giannini
    12 de abril de 2018

    Olá, autor(a),

    Tudo bem?

    O que faz de um texto de literatura, Arte? Uma história cativante? A busca pela trama perfeita? A linguagem e o modo como ela conduz a narrativa? Um enredo cheio de pontos de virada, altos e baixos, clímax? A catarse? Aquele ponto intuitivo e preciso, quando o(a) autor(a) conduz seu leitor através da empatia com o objeto narrado? Ou tudo isso junto? Ou nada do que foi dito?

    Jamais saberemos e, creio, é essa a resposta que cada um de nós aqui busca como escritores.

    Neste texto temos a desconstrução. Mais que isso, um desfilar aparentemente aleatório de objetos, personagens que, ao final da narrativa, se amarram em uma trama. Um enredo que nos fala de uma triste página de nossa história brasileira. Pergunto-me se quem é de outro país entenderia o episódio Mariana. Talvez não. Porém a história, como a entendo, poderia fechar-se aqui com qualquer outra tragédia. Momentos da humanidade quando tudo se acaba em um piscar de olhos. Me ocorre Hiroshima, uma bomba que interrompeu histórias de vida como as aqui (entre)mostradas.

    Ainda sobre esse desfilar de personagens e objetos, materiais para a construção de uma trama, acho interessante imaginar que a história propriamente dita se construirá para cada um dos leitores de uma forma diferente. Com palavras ou mesmo sem elas. Uma espécie de des(história), como em “Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados”. Cada um faz da frase o que bem entende. Assim, aqui, o quebra-cabeças montado por mim será um, pelo(a) autor(a) outro, e, por cada um dos leitores, um outro ainda.

    Parabéns.

    Sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  13. Mariana
    9 de abril de 2018

    A escrita é perfeita, conduzindo o leitor a partir de objetos tão comuns e que, nessa banalidade, carregam tantas histórias e significados. Na verdade, o seu texto me emocionou e eu não vou conseguir realizar uma análise técnica.

    Tão necessário dar o nome daqueles atropelados pela lama da história. Um texto importante, mesmo: não podemos esquecer de Mariana. E que os culpados paguem. De um jeito ou outro, paguem. Parabéns e boa sorte no desafio.

  14. Evelyn Postali
    1 de abril de 2018

    Ler esse conto foi mergulhar num mar de tristeza, porque vai devagar até o fim e no fim, somos levados pela onda, morrendo um pouco também junto com o Tenente Coronel. Você foi muito cruel ao me fazer chorar no final do conto nesse domingo de Páscoa. Eu, aqui, esperando a família se aprontar para o almoço comemorativo. Não é fácil. A escrita em partes, como peças de um quebra-cabeça foi um primor. Vai se juntando tudo e vai ligando tudo à medida que se vai lendo. Eu fui me preparando para um final e, não deu outra. Lá estava ele. Soberbo. Um final de arrepiar, de fazer chorar. Sacanagem – no bom sentido da coisa. A vida é muito curta. Vou largar essas leituras e curtir a companhia. Fui!

  15. Ana Maria Monteiro
    30 de março de 2018

    Olá Bento. Quanta angústia me provocou! Fui lendo o desenrolar (uma fórmula bem experimental!) das apresentações que lentamente iam tecendo e mostrando os laços que uniam todos os intervenientes – desde os humanos, aos objectos, passando pelos animais. A história não nos é contada, conta-se (não sei dizê-lo de outra forma). E nem sei se é bonita, mas tem momentos de grande beleza, como este “Um dia travariam a derradeira batalha. Nesse dia, sabia, encararia os olhos do inimigo agradecendo ao carrasco por sua lealdade. E já sem o filtro da água nos olhos, partiria em paz, conhecendo em um vislumbre, aquele mundo imenso de terra firme.” Lindo, isto, lindo. E a imprevisibilidade da vida, no final, a roubar o futuro a tudo e todos e a deixar o leitor com um nó na garganta. Gostei imenso. Parabéns e boa sorte no desafio.

  16. Ricardo Gnecco Falco
    29 de março de 2018

    PONTOS POSITIVOS = O final apoteótico (e triste) da história, baseada infelizmente em fatos reais. Foi bem legal o fechamento do conto, juntando todos os pedaços pré-narrados e misturando-os de forma a revirá-los, literal e tragicamente. Parabéns pela boa ideia!

    PONTOS NEGATIVOS = O tamanho do texto. Devido ao formato (experimental), todas as apresentações das personagens (futuramente ressurgidas e justificadas) ficam com o mesmo jeitão e, com o passar do tempo, a leitura vai se tornando repetitiva e cansando o leitor menos disposto a saborear cada escama de seu filé de peixe com calda de metais pesados.

    IMPRESSÕES PESSOAIS = Sabia que haveria uma surpresa no final; e houve. Embora com uma preparação (bem) alongada, que em determinados momentos deixava a leitura um pouco enfadonha, principalmente por seguir sempre um mesmo formato na apresentação das personagens, o final consegue emocionar e causa o impacto necessário para salvar o trabalho.

    SUGESTÕES PERTINENTES = Manter apenas as melhores “ondas” na história (algumas das que antecedem o final revelador da tragédia), cortando as marolinhas menos significativas.

    Boa sorte no Desafio!

  17. Higor Benízio
    29 de março de 2018

    É um bom retrato, bem escrito e com boas construções. Cumpre também com o tema e tem algum valor como imagem da tragédia que aconteceu. Porém, é cansativo. Talvez se o tema central fosse evocado de um jeito mais claro logo no início, as descrições seguintes ganhariam mais carga emocional e provavelmente ficariam menos entediantes.

  18. Cirineu Pereira
    29 de março de 2018

    Gostei. Já havia lido textos com esse formato e sabia o que esperar, mas a revelação do cenário realmente surpreendeu, achei uma ótima sacada. Infelizmente pareceu-me que o autor não foi hábil o bastante para fazer com que os personagens despertassem no leitor a tão carecida empatia (principalmente face à associação à tragédia histórica). É um conto, é experimental. Boa sorte.

  19. Antonio Stegues Batista
    29 de março de 2018

    O conto retrata a tragédia em Mariana, Minas Gerais. A apresentação de algumas das vítimas, perfil social e a descrição de um resgate, tudo muito bem escrito.A estrutura ficou lega. É uma história triste e é só. Boa sorte

  20. Angelo Rodrigues
    27 de março de 2018

    Olá, Bento,

    conto bem construído e bem amarrado em retalhos de uma desgraça.
    Quando comecei a ler imaginei que pudesse não ser amarrado como foi, o que me decepcionaria. Não foi assim, e os pedaços foram se juntando numa estrutura lógica que culminou no heroísmo do bombeiro.
    Resgate de uma tristeza que não pode ser esquecida.

    Parabéns pelo conto e boa sorte no desafio.

  21. Regina Ruth Rincon Caires
    27 de março de 2018

    Bonita maneira de construir uma história. Vários retalhos espalhados (personagens), cada um com sua estampa – floral, infantil, risca-de-giz, animal, xadrez, poá – e que, ao final, juntam-se numa mesma colcha. Fazem parte do mesmo infortúnio.

    Texto muito bem escrito, criativo, inteligente. O autor, com muito cuidado e mestria, manteve um liame lógico entre todos os “pedaços” da narrativa.

    Parabéns, Bento da Silva! Obrigada pelo presente!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  22. angst447
    27 de março de 2018

    Interessante o jogo de imagens que requer o encaixe de todos os dados, elementos separados como se estivessem em um catálogo. Ao final da narrativa,consegui juntar as peças e compreender o drama apresentado. Linguagem limpa, clara, sem artifícios desnecessários. A perda revelada em seus aspectos mais banais. São detalhes como um caderno, um anzol ou uma aliança que tornam tudo tão cruel. Gostei da forma como o tema foi abordado. Experimento aprovado.

  23. Fabio Baptista
    26 de março de 2018

    Mais um conto que usa a estratégia de vários recortes como peças de quebra-cabeça, evoluindo a história aos poucos dentro de cada elemento. Confesso que pouco depois da metade eu comecei a me entediar, sentindo que a coisa não andava, que já estava demorando para que tudo se interligasse.

    Daí veio esse magnífico último parágrafo. Não que ele tenha juntado tudo, explicado, montado o tal quebra-cabeça. Na verdade ele me deixou com a sensação de inacabado, de fim abrupto, de descontinuidade. Tudo que normalmente é prejudicial num conto, aqui funcionou perfeitamente, pois deu o tom da tragédia, um lodaçal inexorável arrasando com tudo, interrompendo vidas de modo totalmente inesperado, sem dar tempo para despedidas ou últimos encontros.

    Na parte técnica, algumas vírgulas sobraram, mas nada que tenha me incomodado muito.

    Gostei!

    Abraço.

  24. Paulo Luís Ferreira
    26 de março de 2018

    Flaches de cotidianos objetos, animais e humanos. Tudo isso para descrever com toda sua dignidade uma tragédia anunciada e covarde. Um belo recorte, o suficiente para retratar, as dores de uma população. Embora eu tenha percebido o trabalho mais para um documento/relato de uma testemunha ocular dos fatos de tão verossímil e angustiada descrição, ficando um pouco aquém de uma linguagem experimental. Valendo mais pela denúncia da cruel tragédia. Daria um belíssimo filme/documentário, usando do conto como roteiro originalíssimo.

  25. Fheluany Nogueira
    26 de março de 2018

    Fui lendo o texto como quem vê uma revista ilustrada, legendada e tentando imaginar onde ia dar. Ao final, uma emocionante e triste surpresa, sobretudo para a mineira que sou: todos os elementos da lista — objetos, animais e humanos, retirados da lama, mortos. Todos conotavam uma expectativa para o futuro, que se rompeu com a barragem de rejeitos de mineração, considerado o desastre industrial que causou maior impacto ambiental.Parabéns pela ideia. Boa sorte no desafio. Abraço!

  26. werneck2017
    26 de março de 2018

    Este é um texto que lembra um quebra-cabeças em que o sentido só se completa ao final, um quadro tenebroso de tragédia, de vidas desperdiçadas e que nos cala na alma, um arrepio de dor, um sentimento que sofre a catarse final ao ver as vidas que nunca transbordaram, amadureceram, sonhos que nunca se concretizaram. Um manejo eficiente da gramática, dos elementos que desemboca em um final contundente. Parabéns ao autor. Maestria e Gênio em uma pequena obra-prima.

  27. Fernando Cyrino.
    26 de março de 2018

    Olá, Bento da Silva, esta história, acho que seja importante que saiba, tem o poder de mexer profundamente comigo. Não faço ideia de sua naturalidade, mas para ter escrito sobre essa tragédia, creio se tratar de um conterrâneo mineiro. Pois é, essa calamidade imensa nos entristece a todos, mas mais ainda a nós que somos da terra. Comigo eu creio que um tanto mais, eis que a minha vida profissional toda foi na área de mineração. Só na Vale (uma das donas da empresa onde tudo aconteceu) trabalhei por mais de 37 anos e, depois de aposentado ainda presto serviços como consultor em mineradoras pelo Brasil afora. Conheço gente das duas bandas. Dirigentes e gerentes de uma banda e morador que perdeu tudo da outra parte. Bem, chega de falar disto. Acontece que sua história é muito boa. Esse jeito de contar como se fossem uma série de fotografias ficou bem legal. O conto me passa a impressão de ser um belo de um álbum de retratos. O final mais do que trágico fechou muito bem tudo o que você veio me contando ao longo da sua história em fotografias com uma descrição das vidas que se ocultavam por trás delas.

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Publicado em 25 de março de 2018 por em Experimental.