EntreContos

Detox Literário.

Ecdise (Fátima Heluany)

O objetivo do Ensino é a formação básica do cidadão. Para isso, segundo a Lei de Diretrizes e Bases Nacional, é necessário:

I. o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo;

— Ser bruto?

— Não.

— Vegetal?

— Não.

— Animal?

— Sim.

—Inseto?

— Talvez.

— Gente?

— Sim!

 

— Vovó, conta história!? Da cigarra que explodiu de tanto cantar.

— Ah!  Da formiga e da cigarra? A cigarra sempre canta, a formiga pode ser boa ou má… Qual você quer?

A cigarra, mais precisamente o canto, ondulo-contínuo a pregar-se adstringente nas camadas fundas do cérebro, corporificado — som vermelho-escuro agarrado à matéria cerebral, descendo em frêmitos pelo corpo e intermitente tremulando, piscapiscante na ponta assustada dos dedos… canto que foi esvaziando as mesas e ampliando o vazio, engolindo tudo, plurivoraz.

Se o canto parasse os ouvidos explodiriam de silêncio, e a criança abria os olhos ainda limpos da adultice ameaçadora do tempo, e os seus olhos diziam: mistério; a boca desenhava, nítida, o espanto. Alumbramento. A criança era toda, uma pergunta tensa e maravilhada; do ser espremido saiu o suco acinzentado de seu sonho, espanto e verdade:

— A cigarra!

Era cigarra.

Começou a busca temerosa, inútil olhar debaixo das mesas: a cigarra transcendia a pequenez hilariante dos móveis, rasteiros e sem sobressaltos em sua mórbida domesticidade morna, só o lá fora poderia conter o bicho. Era um bicho (bicho?) sem forma precisa, mas carregado de cores: arcoirisado. E grande, uma coisa (coisa?) mais que grande: os olhos da menina se apagavam em decepção. Não seria também a noite pequena para conter a cigarra? e, se por acaso, estivesse ela na noite, não estaria ela ofuscada pelo deslumbramento?

A primeira angústia começou, quase cinza, a percorrer em pânico o semi-corpo da menina em transe e febre, uma cigarra também é muito grande para apenas poucos anos de vida… mas o bicho tinha de ser descoberto e as pessoas que já não acreditavam em cigarras começaram a desarrumar tudo, correndo o risco de quebrar a menina. Mas ela — e só ela — sabia da inutilidade daquela busca, como dizer isso? também não saberia dizer que a cigarra estava nela e, só ela, em sua pequeninidade frágil, poderia conter toda a dimensão e multiplicidade do sonho.

Foi então que a frase soou velha de muito tempo para ela, carregada de falso espanto, prosaica como a mamadeira de todo o dia:

— A cigarra! aqui a cigarra! vem ver a cigarra!

Jô-menina olhou com desprezo para a pequenina mancha, no chão. Vê lá se aquilo era a cigarra, e se admirou da burrice dura dos grandes.

II. a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;

Na sala de aula, Jô desprende-se do corpo. Vai andando ao longo-longo das carteiras, para e paira à janela. Havia o rumor das cigarras, ruído modulado, quase cinza profundo, de sobressaltos. Jô sabia que elas estavam ali, num ângulo do telhado, e deixava-se embalar pelos sons, perdendo também, por alguns instantes, a manhã estuporada de luz. Tempo de Jô: correr contra o vento zunitente nos ouvidos, acariciante nas faces, frio-doce no peito. Bom correr contra o vento, em cânticos… depois deitar-se à sombra de uma árvore, povoar de imagens e ardorada mente, sentir o sexo umidificar… dolorida-prazerosa-violência.

— Palmas para o amor número um!

— Palmas para o amor número dois!

— Palmas… é o amor número cinco? É?

— Ganhou o amor número cinco!

Amor, coisa indistinta, e me aperto e me seguro para dizer-me que sou. Apalpo-me, tenho carnes e até ossos, a roupa pode ser, sim, sentida, em doce perpassar acariciante sobre a pele. então sou? Tenho que fazer essa cara, se não, não sou?

Nesse tempo a geografia de Jô estava extremamente reduzida, o amor-raiva-cigarra que lhe nascia no peito — indefinido antemanhã — acalmava-se trêmula sob as conchas quentes das mãos astutas… e ela molente, em riso lasso, Jô de tudo esquecida, embalada pela orquestração de fora. Um mundo novo se abria (se fechava) para ela (Sobre ela?).

Jô-mocinha olhou com desprezo para o quadro-negro. Vê lá se aquilo era saber, e se admirou da burrice dura dos professores.

 

III. o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores;


Não sei como vou reagir à solidão de estar aqui. Como bicho? Posso enroscar- -me, contrair os nervos, fechar os olhos por longos momentos; cada coisa distrai um pouco, mas tudo somado é nada. Vou passar meia hora. Jô fixava os minutos no relógio e começava a inventar coisas, imagens-relâmpago passando pela cabeça, fugas por terras mal sonhadas. Voltava ao relógio, o tempo passou muito pouco, mas rápido pelos cantos dos olhos, enchendo-os de franjas e sulcos e os apaga, enruga a pele, endurece os músculos. O despertador batetiquetaqueando é quase uma companhia. Não estou sabendo é explicar essa dor. Essa dor, sabe, doidoendo manso… estou sem pontos de referência? É verdade que P aumentou minha desinquietação, porque em silêncio me dizia: eu te odeio, pois que é possível odiar. Amo-o mais (ou desamo menos?) Agora estão passando vozes na rua. Julgo identificá-las. Espero que, materializadas, batam à porta e façam-me companhia. Inútil.

 

Estou afastando também a presença de N. Ele se crava em mim, faca, doceagudamente. Quase está aqui. Quase posso tocá-lo. E N apaga um pouco o inconsolo da situação: ele apanhou uma cigarra diante da casa. Um inseto grosseiro, tão diferente dele. Foi assim: um gesto, duas mãos convergindo, o bicho resistindo e N colhendo-o. Pobre N… estava levando um pedaço de mim e doíadoíadoía… não quis olhar, foi-se, fez-se um vazio.

(Olha aqui: eu fiquei expulsando N o dia todo de minha cabeça, fiquei o desmerecendo, inventando casos, comprometendo… mas doeu, doeu o dia todo, uma dor sobre o coração, tão contínua, machucando, não tinha jeito. O dia custoso de passar e olha que era um dia cheio de canto, cigarras mansas se oferecendo às pedradas, quase ao alcance das mãos; um dia de bosques silenciosos com muitas árvores bonitas, de caminhos floridos, de sombrinhas coloridas e muito sol. E eu com a mão no peito, tentando estancar aquela dor, até que compreendi: a dor era N, a sua partida voltava a cada momento ensombrecendo o dia. O carro virava, tomava o asfalto, eu ficava esperando que voltasse, esquecido da irreversibilidade das direções, e nem tivéramos os últimos minutos juntos, foi tudo um susto.

E ficou o susto e um quarto vazio, uma cama vazia, eu sozinha no vazio, as mãos vazias interrogando, suadas, em desespero, e agora tenho que sustentar essa conversa e rir e mal disfarçar a mão sobre o peito. Eu em obscuridade, não mais distinguindo seu rosto, em ansiedade e aquele pranto interno me molhando por dentro. Eu naufragada, em escombros. Nenhuma possibilidade de ou para…

Mas rio, rio-me e falo, falo das coisas certas em seu lugar, da marcha dos dias e das coisas, do que deve ser e do que não deve ser. O silêncio da paisagem me invade e com ele o vento batendo frio nas plantas, canalizo o vento para dentro de mim, vou secando as lágrimas. O que fica são estrias de dor. De dor fria, amarelada. O carro vai indo, perdendo-se na estrada. Tudo mudo, menos as cigarras… minha dor aumentando, as pessoas em torno de mim abrem as bocas e gesticulam; e eu vou engolindo as palavras para sempre inúteis.

De alguma forma, Jô trazia para cá a vida vivida e em viver contínuo-descontinuada, com seus transes e transas, outros e lugares. Jô-mulher olhou com desprezo para a noite-negra. Vê lá se aquilo era amor, e se admirou da burrice dura dos homens.

IV. o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social;


Jô queimava caixas e caixas de papel: cartas, planos, notas, documentos arrancados do repouso. A mania de guardar o passado: vida (re) vivida! Não olho para nenhum papel, há o perigo perigoso de tomar-me de amores por algum deles e de novo começar a amontoar inutilidades. Subiu uma fumaça espessa para o alto, pesada, como não querendo ir. O fogo pega a custo, depois foi só ir mexendo, tudo se consumiu e o coração leve, amaciado, quase-pássaro-cigarra.

Depois do fogo Jô ficou olhando as crianças, tristes e arredias.

— Quando crescer — o futuro se delineia brilhante — vou empregar-me. — diz uma delas. e fica ao meu lado, feliz, um riso idiota, macabro.

O mau-cheiro do quintal ficava bem ao ambiente, e a velha lia, numa revista, os progressos da ciência.

 

Visitas uma após a outra: — isoladas — em grupo. Cresceram, envelheceram, mas contam as mesmas coisas: morreu X, houve uma briga, Y quebrou o pé. Deixavam-se levar sem rumo certo, cansados, os olhos apagados e inconsoláveis, muitas vezes servindo-se de mim. Eu também não sabia aonde conduzi-los e nem como.

Vou compondo sorrisos, prolongando as conversas, reimplantando-me num buraco sempre o mesmo, apenas mais cinzento agora e ainda recoberto pelo estrilo das cigarras.

E veio o vento, não os ventos da violência e da fúria, dos corcoveios e arrastações. Eram os ventos da tristeza mais triste, cantando indefinidamente (em coro com as cigarras) por longas noites sem manhãs, angustiosos, insanos, prolongados, imenso choro desabrido e impossível. E ficamos mais tristes ainda, nossa pele foi enrugando e nossos corações espremidos até as últimas ramificações da angústia.

Sempre fui obrigada a ficar comigo. Hoje já me acostumei. Talvez sequer me situe. Apenas ouço os ecos lá de fora. Meu estar é estar aqui. Às vezes em dor, às vezes em semidor, poucas vezes em alegria. Mas sou (ou suo) um indivíduo.

Um dia senti que havia chegado, quase nada mais restava de mim, um pouco gente, um pouco bicho. Eu era um pedaço de terror revestido de mulher. O lugar era aquele: brancas ossadas recobriam uma planície sem fim. o silêncio podia ser apanhado, em camadas moles e flácidas, um grande sol avermelhado se fixara para sempre em morte no longe horizonte. Era o crepúsculo.

Jô-exúvia olhou para o arrebol. Vê lá se aquilo era vida, e se admirou da burrice dura dos humanos.

 

Sou a soma de tudo o que faço. O acumulo de todas as experiências, minhas, e de quem me rodeia. Uma essência, uma espécie de pó, um simples sopro…”

(Arnold Gonçalves)

 

— É Jô?

— Adivinhou… e o enigma acabou.

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42 comentários em “Ecdise (Fátima Heluany)

  1. M. A. Thompson
    27 de abril de 2018

    Olá autor(a).

    Não foi a leitura mais leve que fiz no desafio. Acho que poderia ser um texto mais enxuto, porém o(a) autor(a) soube se valer das metáforas para narrar as fases da vida da personagem. O experimentalismo achei muito dentro da zona de conforto e as imagens não sei se ajudaram.

    Boa sorte no desafio!

  2. Amanda Dumani
    27 de abril de 2018

    Conto difícil de ler. Como sou da turma que achar que o leitor pode ter um pouco de trabalho também, posso dizer que gostei. As metáforas me confundiram em alguns pontos, mas com atenção consegui embarcar nas suas reflexões sobre o ciclo da vida. Bem, espero que tenha conseguido extrair boa parte da sua mensagem… ainda tenho dúvidas sobre isso. Bastante experimental sem dúvida.

  3. Ana Carolina Machado
    27 de abril de 2018

    Oiii. Achei bem criativa a forma como o conto criou uma conexão entre os princípios da educação e as cigarras que nada mais são do que uma metáfora das fases da vida da pessoa que aparece no conto. Achei algumas frases meio complexas por isso tive dificuldades de entender o significado de algumas palavras, mas achei algumas frases bonitas em sua complexidade. Acho que o conto deu muitas idas e vindas e tive um pouco de dificuldade. Desculpe se algo em meu comentário soou meio rude, não foi minha intenção e lhe desejo sucesso na arte da escrita. Parabéns pelo seu conto. Abraços.

  4. Matheus Pacheco
    27 de abril de 2018

    Primeiramente eu devo me desculpar pela pressa que este comentário está sendo escrito, correndo riscos de má interpretação dos contos ou erros gramaticais..
    Há uma loucura incompreendida nesse texto por parte da personagem narradora, com metáfora belas e confusas, um experimentalismo que não me fez questionar e passagens excepcionais…
    Abração ao Autor, em breve voltarei e questionarei mais.

  5. Anderson Henrique
    27 de abril de 2018

    Tem muita, muita coisa nesse texto. É espetacular. Frases belíssimas que funcionam soltas e que ganham tamanho encaixadas como estão no texto (ex: “Eu era um pedaço de terror revestido de mulher”). É um texto primoroso, cheio de coerência e metáforas internas que vão sendo resgatadas e recombinadas por todo o conto. É um trabalho admirável e provavelmente estará no topo. Parabéns.

  6. André Lima
    27 de abril de 2018

    Esse conto me dividiu. Eu simplesmente achei a ideia genial. A trama é excelente, as metáforas e a pitada poética são em doses perfeitas, mas não consegui admirar tanto a execução.

    A linguagem utilizada e essa confusão proposital (Como se o próprio autor discordasse de si mesmo em alguns pontos) não funcionaram tão bem, pois tornaram o texto muito pesado, de difícil leitura.

    Há alguns supostos erros de revisão que não sabemos se são propositais, também. Acredito que sejam.

    Embora a linguagem não tenha me agradado por completo, fiquei perplexo com os dois últimos “capítulos” da obra. São verdadeiras obras de arte. Belíssimas imagens, belíssimas metáforas, belíssimo paralelo com a vida.

    Parabéns pelo conto e boa sorte no desafio!

  7. Rubem Cabral
    27 de abril de 2018

    Olá,Quem Sou Eu?

    Deixei o seu conto por último; havia tentado lê-lo antes, mas não é conto para leituras rápidas e descompromissadas; ele exige muita atenção.

    Gostei de conhecer a história poética da vida de Jô, que descobrimos ser a vovó que conversa com o(a) neto(a) no início e que é a “cigarra-humana”. Desde a descoberta da sexualidade, o acidente de carro, a velhice. Gostei em especial dos neologismos, pois tbm sou de criar alguns meus, e alguns foram realmente inspirados, mereciam virar palavras mais corriqueiras.

    O conto resultou um tanto difícil, creio, pelo uso de muitos elementos: prosa poética, metáforas, neologismos, fluxo de pensamentos, etc. O saldo, contudo, foi positivo. Foi bem agradável de ler e se encantar.

    Abraços e boa sorte no desafio.

  8. Renata Afonso
    26 de abril de 2018

    Olá, autor!
    Bela construção, vc domina a arte da escrita, com toda a certeza, estou aqui admirando e admirada com seus versos – conto poético de grande complexidade e perfeita combinação de ação e reflexão.
    texto para ser lido e relido, assim como eu acredito que muitas mulheres podem ter se visto tbm em algumas passagens….muito bom mesmo, parabéns!

  9. Daniel Reis
    26 de abril de 2018

    Um despertar transmutado, em fases muito bem descritas. Só acho que as imagens ao longo do texto (várias, inclusive) não contribuem com a história. No mais, um texto diferente, com teor de experimentação mediano. Boa sorte no desafio!

  10. Gustavo Aquino Dos Reis
    26 de abril de 2018

    Carga poética e ótimas construções. É uma obra que requer muito do leitor – coisa que mais amo numa leitura. Nada é trivial. Todas as peças precisam de ponderação. Começando até mesmo pelo título.

    O experimentalismo está presente e muito bem respaldado por conta de sua magistral escrita, autor(a).

    Parabéns.

  11. Sabrina Dalbelo
    24 de abril de 2018

    Olá,
    Eu gosto de prosa poética e foi isso que percebi.
    Vi uma transformação acontecer, delineadamente descrita, com linguagem erudita e aveludada. A transformação de um ser.
    Além disso, creio que os elementos afetos às diretrizes de educação vieram como uma informação a acrescentar um terceiro elemento à prosa e à poesia escondida por detrás dela: a crítica.
    Estamos vivendo um tempo em que temos tantos deveres que mal reconhecemos nossos direitos; e temos direitos que não são respeitados.
    É possível transformar-se em uma sociedade que te acolhe; em uma que te exclui, em uma que não te reconhece.
    Assunto complexo, bem abordado, mas que requer leitura detida e imaginação do leitor.

  12. Thata Pereira
    24 de abril de 2018

    Jesus, Maria, José!

    Bom, primeiro, parabéns por conseguir escrever um conto tão complexo. Acho que nem se eu quisesse conseguiria uma coisa assim rsrs’ Pensei que eu estava entendendo, fazendo associações aos ciclos das cigarras com o o período de aprendizagem de Jô. Mas esse final me deixou bastante confusa. Li de novo. Acho que no final Jô envelhece, associo então a outro ciclo: nascer/crescer/morrer. Mas e aí o início ficou novamente vagando na minha cabeça :/

    Uma pena, pois a escrita é impecável. Mas de tão impecável e experimental, atrapalhou a compreensão.

    Boa sorte!!

  13. Mariana
    24 de abril de 2018

    Aprender não é apenas na escola, mas também na vida. Aqui acompanhamos Jô, e seus ciclos. Uma escrita intimista, de difícil compreensão – necessitamos fazer algo muito difícil nos dias de hoje que é parar, prestar atenção e ler. É algo interessante: cada vez mais estamos acostumados ao fácil, ao mascado. Quando tudo não é entregado de bandeja, quando nos deparamos com o interior, eis o estranhamento. Ler o conto foi uma experiência interessante, diria que quase antiga. Parabéns e boa sorte no desafio

  14. Priscila Pereira
    23 de abril de 2018

    Olá autor(a),
    Eu não entendi nada!! Me desculpe, com certeza não sou o público para esse conto. Não consegui captar tudo que seu conto queria passar. Foi um enigma mesmo para mim… Espero poder decifrar no final do desafio. Te desejo boa sorte!

  15. Catarina Cunha
    23 de abril de 2018

    Frase chave: “Sempre fui obrigada a ficar comigo.”
    Um texto feminino e erudito com conotações de autoanálise. Hoje em dia poucos escrevem assim, logo se tornou experimental. O mundo está tão preguiçoso e acelerado, acostumado com literatura fast-food, que estranha um conto lento e denso como este. Claro que sou uma das que compõe este mundinho caótico. Decidida a quebrar meus paradigmas reli o conto com olhos de tartaruga. Cansei, mas gostei.

  16. angst447
    22 de abril de 2018

    Os vários ciclos da vida de uma mulher. Seria ela uma cigarra ou uma formiga? Cantaria até estourar ou se contentaria com uma vida comum, sem experiências únicas? Jô admira-se o tempo com a burrice dos outros, que se atêm à superfície do que acontece à volta.
    A linguagem traz inovações, mas também se mostra bem densa e carregada de significados, o que dificulta a leitura. O ritmo tem que ser tomado como quem pega um trem e está muito atrasado, vai dependurado mesmo, tentando se encaixar no vagão ( no caso, na narrativa).
    A referência à educação formal, seguindo os (chatos, eu acho) parâmetros das Diretrizes e Bases, ficou interessante para dar um contraste à Jô. O que se aprende mais? O que está escrito nos livros e é passado de forma mais tradicional ou o que se vivencia, os fatos tomados de forma empírica?
    Não sei por que mas seu conto me fez pensar em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Será que foi a visão da cigarra ou talvez pela busca do entendimento humano. Sei lá, estou divagando novamente…
    Boa sorte!

  17. Amanda Gomez
    22 de abril de 2018

    Olá,

    Devo dizer que seu texto me devorou, não consegui decifrá-lo, confesso que em determinando momento até desisti de fazê-lo é apenas fui seguindo o fluxo das palavras.

    Um texto com um enredo difícil, escrita estranhamente…não sei que nome dá, é algo que não estou acostumada, não me vejo lendo algo assim fora do desafio.

    Então me desculpe autor , mas não tenho gabarito pra essa charada, entendi…ou penso que entendi as fases da menina de criança a adulta, é como cada regra moldou ela durante esse ciclo. Deve ter muitas metáforas pra essa cigarra, espero mais tarde sabe quais são.

    A descrição da história da canto da cigarra foi algo impressionante. O texto tem imagens fortes ( em forma de palavras) as fotos são mais que fotos….como já disse não cheguei aonde o autor pretendia….

    Em todo caso, um trabalho para poucos, parabéns!

    Boa sorte no desafio!

  18. Luis Guilherme Banzi Florido
    22 de abril de 2018

    boa noiteee, tudo bem?

    olha, sendo sincero não posso dizer que gostei. na verdade, passei a maior parte do tempo sem entender muito bem o que lia. no fim, acho que captei, mas a dificuldade na leitura me tirou um pouco o interesse, pois o ritmo ficava toda hora comprometido pelas paradas para releitura.

    sem dúvidas você usou e abusou do experimentalismo, o que é um ponto positivo. porém, acho que isso acabou, também, deixando tudo muito confuso.

    pelo que entendi, o conto fala sobre as mudanças e o amadurecimento/envlhecimento da protagonista, usando alegorias e metáforas que até caíram bem.

    enfim, é um conto denso e complexo, que não me pegou como leitor, e isso não é culpa sua. ainda assim, parabéns e boa sorte!

  19. Andre Brizola
    21 de abril de 2018

    Salve, Quem!

    Olha, é muito difícil de comentar esse conto. É fácil de enquadrá-lo no tema do desafio. Mas é difícil enquadrá-lo em qualquer outra coisa que seja. É denso, extenso e com um vocabulário difícil, lançando mão de neologismos e de uma pontuação caótica às vezes (não sei se proposital ou não).
    Aliás, essa questão da pontuação me chamou muito a atenção. Inicialmente achei que poderia ser realmente proposital (poderia ser aí parte do experimentalismo do conto). Mas ao ver tanto rebuscamento no texto, imagino que a pontuação deveria seguir essa característica, acompanhando-a no decorrer do conto. Há frase começada com parêntese, que não é fechado em nenhum momento. Há um “enroscar- -me”, com esses dois hifens. Letras variando entre minúsculas e maiúsculas dentro da mesma frase, como em “Um mundo novo se abria (se fechava) para ela (Sobre ela?)”. Enfim, toda essa variação dentro do texto foi me deixando cada vez mais cansado. É um texto de difícil compreensão, e a pontuação da forma como ficou me incomodou bastante.
    Dito isso, e tentando deixar a parte da pontuação de lado, temos um enredo que parece ir em duas direções. Achei interessante basear cada um dos quatro trechos do conto nos pilares da educação. Esse formalismo da linguagem educacional, embora antiquado e razoavelmente ultrapassado, combina com o estilo do conto. E ao contrário do que acontece com as crianças na escola, a tendência aqui é atrair o leitor cada vez mais.
    Novamente, é um texto difícil, com uma pontuação que não ajuda. Mas ainda assim é interessante e bonito.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  20. Luís Amorim
    21 de abril de 2018

    Uma espécie de fábula com cigarra e formiga muito bem contada e comparada da cigarra com a mulher e as suas fases da vida. Mas era escusado as fotos ao longo do conto. Ainda assim nota bastante positiva.

  21. Jorge Santos
    21 de abril de 2018

    Olá. Parabéns pelo seu conto. Consigo compreender o sentido, mesmo sem compreender completamente todos os pormenores. O conto fica em aberto, com um leque de explicações bastante grande. No fim de contas, fica ao autor o trabalho de compreender o que leu, se bem que a complexidade deste conto me parece excessiva. Algumas pistas mais, não muitas, e o texto atingiria a excelência. Mesmo assim, consigo ver a um conjunto de alegorias sobre momentos da vida, neste caso de uma mulher. A linguagem poética prende o leitor pelo desafio, os múltiplos sentidos recompensam no final. O autor revela domínio da linguagem. Só faltaram algumas pistas.

  22. Rsollberg
    21 de abril de 2018

    Fala, Jô

    Aqui, sem sobra de dúvidas o experimentalismo está no conteúdo.
    O autor cria um paralelo entre os fundamentos do ensino formal e o processo empírico, de observação e sentir, construído nas experiência vivida a ferro e fogo, acho eu. Uma fábula moderna onde o processo cognitivo embala a história, deixando questões para reflexão, como valorar o conhecimento? Como animal essencialmente gregário, já dizia Aristóteles; fora da sociedade somos selvagens ou demiurgos, nos unimos muito em conceitos estabelecidos em detrimento de nosso poder de observação. E nesse sentido, é interessante acompanhar a jornada de Jô e suas perspetivas, e suas conclusões mais atiladas, especialmente em um ambiente tão mendaz.

    No que diz respeito a escrita, é possível identificar claramente o cuidado por trás das escolhas das palavras. O autor faz uso de neologismos para enriquecer a experiência, tentando dizer até o que as vezes não há como ser dito. Fato que o texto não é fácil de ser digerido de imediato, tal qual um prato, tal qual um cazu marzu que ultrapassado o momento de desconforto torna-se viciante.

    Por fim, creio que o grande mérito deste conto é justamente trazer esse desconforto da forma, para em seguida revelar o melhor da reflexão. Ou seja, um texto que te faz pensar, muito!

    Parabéns e volte sempre

  23. Higor Benízio
    20 de abril de 2018

    As imagens aqui não funcionaram, como já indiquei num outro comentário. Também não acho que teve experimentalismo. Sempre que me deparo com textos assim, a moda “O pêndulo de Foucault”, do Eco, torço o nariz, porque as dificuldades de estrutura e vocabulário parecem estar presentes somente para inflar o ego do autor. Dois exemplos de bons livros, com estruturas e vocabulário mais pesados, mas que não passam essa imagem, mas sim uma sinceridade e beleza latente, são “Madame Bovary”, e “A ladeira da memória”, de José Geraldo Vieira. Acho legal o autor (a) dar uma olhada.

  24. Bianca Machado
    18 de abril de 2018

    Olá, autor/autora. Não me sinto em condições de fazer comentários muito técnicos
    dessa vez. Então tentei passar as minhas impressões de leitura, da forma como senti assim que a terminei. Desde já, parabenizo por ter participado!

    Então, vamos ao que interessa!
    ————————————————
    .

    Quando me deparo com textos escritos da forma como escreveu o seu, autor/autora, fico pensando: ler “Grande Sertão: Veredas” deve ser algo assim, com
    um pouquinho mais de delírio, rs. Gosto de textos nesse estilo. São bons para acalmar, não sei por que, mas me acalmam, sim. Isso certamente fez com que a
    minha leitura fosse tranquila, como se eu desfrutasse dela plenamente. Quem dera eu escrevesse coisas desse tipo, parabéns!

  25. iolandinhapinheiro
    17 de abril de 2018

    Olá!

    Um conto experimental em forma e conteúdo, uma leitura densa, um tanto arrastada, mas com grande carga poética e significados dentro de outros. Coisa de gente grande.

    Mesmo não sendo o tipo de leitura que me atraia, ou me emocione, reconheço a grandiosidade da escrita, a profundidade da história, e não deixarei que as minhas limitações como leitora interfiram no meu julgamento deste conto.

    O primeiro diálogo logo me lembrou um outro entre Peter Pan e o Capitão Gancho, então esperei um texto mais para o lúdico, e me deparo com este fluxo intimista de pensamentos, emoções, sensações, impressões…

    Sua escrita é muito madura e encantadora para um público que aprecia um mergulho no inconsciente dos personagens, o que nem sempre me encanta e, geralmente, para mim, acaba comprometendo a fluidez e meu interesse pela história.

    Não veja esta análise como uma crítica ao seu texto ou a vc, mas uma autocrítica como leitora que encontra obstáculos para apreciar um conto com as características deste que vc apresentou aqui.

    Tenho certeza que vai angariar excelentes notas e que o pódio aguarda a sua visita. Um grande abraço e desejo sorte no desafio.

  26. Jowilton Amaral da Costa
    16 de abril de 2018

    Gostei muito, sobretudo dos neologismos, um contaço. O texto é bastante introspectivo, ao meu ver, uma metáfora da vida, uma cigarra descobrindo o mundo com os olhos de uma mulher-menina, – tô viajando kkkkk -, complexo e muito bem escrito. A narrativa tem estilo e o autor demonstra experiência na escrita. Boa criatividade, ótima técnica, impacto alto. Boa sorte no desafio.

  27. Evandro Furtado
    16 de abril de 2018

    Assim que o conto começou, me peguei a pensar na fábula da Cigarra e da Formiga, e como nos ensinaram errado pra nos convencerem de certas coisas. Eu gostei muito de como você usou essa premissa pra contar sua história. A mulher-cigarra, vida breve, mas intensa, real. Vida de cigarra mesmo. E você trouxe a coisa em si, informações sobre seu ciclo de vida, e comparou-os com as fases da vida da mulher. Confesso que as fotos, no entanto, me deram uma baita ojeriza. Odeio cigarras, bicho nojento.

  28. Rose Hahn
    14 de abril de 2018

    Caro Autor, alinhada com a proposta do desafio, estou “experimentando” uma forma diferente de tecer os comentários: concisa, objetiva, sem firulas, e seguindo os aspectos de avaliação de acordo com a técnica literária do “joelhaço” desenvolvida pelo meu conterrâneo, o Analista de Bagé:

    . Escrita: Bagual (tradução: porreta);
    . Enredo: Não entendi bulhufas, o que é positivo, dado o tema proposto;
    . Adequação ao tema: Por conta do gráfico em pizza e das Diretrizes do ensino;
    . Emoção: “O fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social”. Quando essa lei entrará em vigor?
    . Criatividade: Alta. A minha é que foi baixa para entender a proposta do autor.

    . Nota: Sorry, ainda estou avaliando.

  29. José Américo de Moura
    13 de abril de 2018

    Quem sou eu para julgar ou opinar sobre um conto tão complexo assim, viajei na maionese. Li duas vezes e mesmo assim por mais que me esforçasse não conseguia acompanhar. Lia para aprender um pouco mais, queria estar alí mas infelizmente eu confesso … e se admirou da burrice dura dos humanos.

    boa sorte

  30. Paula Giannini
    12 de abril de 2018

    Olá autor(a),

    Tudo bem?

    Quem sou eu? Quem somos? Quem é o outro? Ainda mais, quem somos todos se inseridos (ou não) em um contexto social? Seríamos os mesmos sem a bagagem que carregamos? Cultura, educação, meio?

    O texto tem início com uma grande interrogação lançada ao leitor em forma de charada. Quem sou eu? Quem é Jô? O que ela é? Quem é você, leitor? Qual o seu papel dentro desse universo ora criado pelo(a) autor(a)? A cigarra que explode de tanto cantar, livrando-se de seu exoesqueleto a cada nova mutação de alma? Ou a formiga que, de acordo com a narrativa pode ser boa ou má?

    Assim, cheios de questionamentos e alumbramentos com os belíssimos momentos criados na narrativa, seguimos, leitores, pela trajetória de vida de Jô. Menina, moça, mulher, velha, sempre admirada da burrice (ou seria do modo raso como) daquilo que a cerca. Nada é o que é. Nada é exatamente como nos dizem ser na decoreba burra e repetitiva de um sistema educacional que não nos permite investigar o mundo para além das fronteiras delimitadas.

    Neste trabalho há inúmeras camadas e modos interpretativos investigativos diversos, pois que a palavra fala para além da palavra em si e a história, igualmente para além da trama. No entanto, gostaria de citar a que mais me toca, a metáfora da exúvia. O ato necessário e dolorido de nos livrarmos de nossas carapaças a cada nova etapa de nosso crescimento real, a cada mudança de vida. O que há por fora é ilusão, a casca, a máscara, o que fica, modifica-se e se educa, crescendo a cada nova experiência, a cada nova aquisição de conhecimento do mundo e de nós mesmos.

    Parabéns.

    Sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  31. Ricardo Gnecco Falco
    12 de abril de 2018

    PONTOS POSITIVOS = A prosa poética que permeia as palavras, frases e parágrafos, elevando a leitura (e os sentidos) para um nível além do normalmente encontrado em contos. Parabéns!

    PONTOS NEGATIVOS = Talvez por demérito meu mesmo, ou por falta de costume com leituras com este tipo de referências, achei a leitura de difícil fluidez. Alguns neologismos utilizados e sentidos extrapolados contribuíram para isso.

    IMPRESSÕES PESSOAIS = Um trabalho muito bem feito, sensível, universal, poético, educativo, profundo e, sobretudo, maduro. Acredito que consiga se comunicar de forma mais simbiótica com o universo feminino, ou de educadores, embora nem de longe excluindo os demais. Somos, todos, simples sopros em um universo multiempoeirado. De dúvidas, erros e cascas duras…

    SUGESTÕES PERTINENTES = Acho que o texto está tão bem explicativo que até dispensaria o experimentalismo das imagens; com exceção da imagem-título.

    Boa sorte no Desafio!

  32. Evelyn Postali
    1 de abril de 2018

    Conhecer, fazer, conviver, aprender a ser. Esse conto me tocou particularmente. Não sei se vou comentar com propriedade porque se eu colocar no papel tudo o que senti, ou pensei, talvez não formule frases coerentes. Só sei que ele é um poema-conto ou um conto-poema e em alguns momentos é feito uma lança de guerreiro a cruzar o coração do leitor. Tenho medo dessa criatura que escreveu, porque parece ter escrito para mim – sem ofensa, muito pelo contrário. Agradecida por me fazer sentir o que senti. Um dos melhores.

  33. Cirineu Pereira
    31 de março de 2018

    Somente a mim esse conto lembrou Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector? Um tanto hermético. em alguns pontos demais pro meu gosto, mas sou apenas um. Diria que é um conto válido.

  34. Antonio Stegues Batista
    26 de março de 2018

    Um conto com um um linguajar complicado, cheio de metáforas e palavras inventadas, creio. A história é simples na sua essência, o que se destaca é exatamente o linguajar, a narrativa. A leitura e compreensão não é tão simples ,e é aí que reside o experimental. E o perigo! Boa sorte.

  35. Regina Ruth Rincon Caires
    26 de março de 2018

    Que lindeza de trabalho!

    Uma tremenda narrativa que caminha por duas pistas, no mesmo sentido. Cabeça a cabeça, as situações vão sendo postas. Uma de maneira lógica, sistemática, didática, da LDBN (quanta teoria, meu Deus!). A outra, a sequência normal da vida. A vivida, não a sonhada.

    Como as experiências, geralmente, não são assimiladas por quem não as viveu, as fases, inclementes, passam. E, só depois de cada etapa vencida, uma conclusão fica escancarada (sempre de maneira tardia).

    “Jô-menina olhou com desprezo para a pequenina mancha, no chão. Vê lá se aquilo era a cigarra, e se admirou da burrice dura dos grandes.”

    “Jô-mocinha olhou com desprezo para o quadro-negro. Vê lá se aquilo era saber, e se admirou da burrice dura dos professores.”

    “Jô-mulher olhou com desprezo para a noite-negra. Vê lá se aquilo era amor, e se admirou da burrice dura dos homens.”

    “Jô-exúvia olhou para o arrebol. Vê lá se aquilo era vida, e se admirou da burrice dura dos humanos.”

    E são tantos trechos de pura prosa poética:

    “…e a criança abria os olhos ainda limpos da adultice ameaçadora do tempo,”

    “ A primeira angústia começou, quase cinza, a percorrer em pânico o semi-corpo da menina em transe e febre, uma cigarra também é muito grande para apenas poucos anos de vida… mas o bicho tinha de ser descoberto e as pessoas que já não acreditavam em cigarras começaram a desarrumar tudo, correndo o risco de quebrar a menina. Mas ela — e só ela — sabia da inutilidade daquela busca, como dizer isso? também não saberia dizer que a cigarra estava nela e, só ela, em sua pequeninidade frágil, poderia conter toda a dimensão e multiplicidade do sonho.”

    “Nesse tempo a geografia de Jô estava extremamente reduzida, o amor-raiva-cigarra que lhe nascia no peito — indefinido antemanhã — acalmava-se trêmula sob as conchas quentes das mãos astutas… e ela molente, em riso lasso, Jô de tudo esquecida, embalada pela orquestração de fora. Um mundo novo se abria (se fechava) para ela (Sobre ela?).”

    “E veio o vento, não os ventos da violência e da fúria, dos corcoveios e arrastações. Eram os ventos da tristeza mais triste, cantando indefinidamente (em coro com as cigarras) por longas noites sem manhãs, angustiosos, insanos, prolongados, imenso choro desabrido e impossível. E ficamos mais tristes ainda, nossa pele foi enrugando e nossos corações espremidos até as últimas ramificações da angústia.”

    Enfim, Quem Sou Eu, você construiu um baita texto! Parabéns!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  36. Fheluany Nogueira
    26 de março de 2018

    Texto experimental com recursos variados e bem amarrados: o jogo “Quem sou eu?”, a estrutura do texto com quatro subtítulos (os princípios básicos da educação), e o paralelo das fases da metamorfose da cigarra e do ciclo vital de Jô, com as ilustrações. Na linguagem, temos neologismos, construções frasais diferenciadas, repetições estilísticas, jogos de palavras, vocabulário rico.
    Jô pode ser apelido de Joana, Joyce, Joelma Josiane, enfim de qualquer mulher. Ela representa todas as mulheres com a capacidade de adaptação às circunstâncias, sujeita a mudanças. Senti, também uma forte crítica aos sistemas automatizantes (burrice dos adultos, dos professores, dos homens e dos humanos). Gostei bastante do texto e deve ter sido uma experiência muito boa executar esse bom trabalho. Parabéns. Abraço.

  37. Paulo Luís Ferreira
    26 de março de 2018

    “Um antigo mito grego relata que a esfinge de Tebas estava sempre atenta aos viajantes que passavam naquela cidade. Esta abordava o transeunte com o seguinte enigma: “Qual o animal que de manha tem quatro patas, ao entardecer tem duas e ao anoitecer tem três patas”? Caso o enigma não fosse respondido corretamente pelo viajante, este era devorado pela esfinge. A resposta pontual era o “homem”.
    Este “Enigma da Esfinge” é a melhor resposta para este enigmático conto que navega entre a fábula e a real condição humana.
    Peço aqui, emprestado, trecho de um artigo publicado pela competente Psicoterapêutica, Soraya Rodrigues de Aragão, para dar mais sentido ao que entendi deste brilhante conto.
    “A humanidade, enquanto espécie, em sua caminhada existencial, sempre se questionou quem é, de onde veio, para onde vai. Muitas destas perguntas eram respondidas através de narrativas fantásticas, nascendo, assim, o mito. Tanto os fenômenos externos quanto seus processos internos eram explicados simbolicamente.
    Em uma abordagem figurativa e mitológica, eram elucidados os questionamentos existenciais que os angustiavam, proporcionando, deste modo, alivio ou conforto psíquico para as perguntas que aturdiam os “enigmas” da vida de um modo geral e acerca das questões existenciais humanas. Este mesmo homem fez grandes progressos. Conseguiu compreender muito da essência de seres microscópicos e das leis da natureza, descobriu a existência de energias, mesmo aquelas invisíveis aos olhos humanos, bem como explorou o universo afora, motivado em encontrar vida em outros planetas. De fato, o homem é um explorador nato focado no mundo externo.
    Neste desejo continuo de conhecer o que está “fora de si” e condicionados às intempéries externas da vida prática em nome da sobrevivência de sua espécie, em sua historia filogenética, o homem foi se formando em sua complexidade como ser multi-determinado, mas esquecendo de perscutrar seus processos dinâmicos internos e desta forma, reforçando a estereotipia comportamental através do distanciamento da sua auto-escuta, tendo em foco os apelos externos.
    Este mesmo ser humano conhecedor de tantas ciências, contraditoriamente não aprofundou no conhecimento de sua própria essência, pois ainda não foi capaz de responder ao grande enigma do famoso “Conhece-te a ti mesmo”, anexado no Templo de Delfos desde 650 a.C. Este enigma, o de “quem nós somos”, uma vez não revelado, encontra-se diretamente relacionado à eufagia do próprio ser: somos constantemente aniquilados pela ignorância de não sabermos quem de fato somos”.
    Fico aqui na esperança que as diretrizes escolares tomem conhecimento desta outra brilhante tese. Para não dizer que tudo são flores, vale lembrar que o autor, talvez empolgado pela própria obra, achou por bem complicar o que poderia ser de melhor compreensão. Sem prejuízo, portanto, do belíssimo conto.

  38. werneck2017
    26 de março de 2018

    Olá,

    Um texto que traz um esmero no linguajar e na linguagem. Um conto que fala da vida, que não é fácil, que não é ingênua, que não é de alegria sempre. O vocabulário é preciso e rico, lembra um pouco Mia Couto nos neologismos. A narrativa traz uma sofrência inerente a quem vive. Meu único senão é o verbete que remete à didática, que nos afasta do personagem a cada vez que ele se torna presente. Quanto ao experimentalismo, o quesito não foi plenamente preenchido. Um bom texto..

  39. Ana Maria Monteiro
    25 de março de 2018

    Olá Quem Sou Eu?. Li o seu conto muito lentamente; não gosto de voltar atrás ou de reler, para compreender melhor e dei-me conta, logo de início, que para evitar uma leitura displicente e absolutamente não merecida, deveria ir com calma. Um trabalho magnífico. Quem sou eu para questioná-lo em algum ponto? Não o farei, até porque não necessita (embora tenha notado, algures, uma palavra no masculino que deveria estar no feminino, mas não anotei qual era). O seu conto, mais que um comentário, seria digno de uma tese – que não farei. Tem duas leituras que se desenrolam a par, pelo menos assim o li e foi nessa linha que o entendi enquanto experimental. Para mim foi realmente uma experiência! Li a história de uma pessoa, mulher no caso, desde a infância até à velhice. Revi em Jô todas as mulheres e as suas sucessivas metamorfoses (até me recordei de mim, em certas fases do meu crescimento e percurso, acredita?). Paralelamente a essa história maravilhosamente narrada, acompanhei o desenvolvimento de toda uma teoria sobre o sistema de ensino ou, melhor dito, de condicionamento do indivíduo desde que nasce a uma ordem estabelecida e que se aceita sem questionar. Poderíamos viajar até quase à origem dos sistemas hierarquizantes, mas nem é necessário ir tão longe, basta regressar à revolução industrial, a última (até ao momento) grande revolução a nível mundial, a que abriu as portas à instalação do sistema capitalista e criou a necessidade de “formatar” também as pessoas; as crianças devem ser educadas, em casa e na escola, de forma a que encaixem na engrenagem. Os homens deverão ser académicos que criam mais académicos para prosseguir na senda do desenvolvimento e pesquisa ou operários que criam mais operários para alimentar a máquina de produção. Há imensa política no conto lido por este “quem sou eu” que agora comenta. E vai casando as duas histórias, no final de cada parte com a constatação permanente em que a mudança reside na perspectiva e idade da observadora: “e se admirou da burrice dura dos grandes.”, “e se admirou da burrice dura dos professores.”, “e se admirou da burrice dura dos homens.”, até culminar em ” e se admirou da burrice dura dos humanos” (pessoalmente, teria preferido ler humanidade, penso que era esse o sentido).
    Poderia continuar por aí fora comentando e jamais esgotaria todo o sumo extraível deste conto admirável.
    Tem frases fantabulásticas e neologismos soberbos que nem enumerarei, mas prendeu-me muito particularmente: “Mas sou (ou suo) um indivíduo.” Bravo!
    Mais tarde ou mais cedo, todos explodimos de tanto cantar (a menos que impludamos sufocados por um não-viver).
    Parabéns! Desejo-lhe boa sorte no desafio, mas convenhamos que é de somenos.
    Fico a aguardar o final para descobrir quem é você (além de grilo falante)

  40. Angelo Rodrigues
    24 de março de 2018

    Cara (Quem sou eu?)

    Comecei ontem a ler o seu texto. Pensei em escrever e me achei incompetente. Então voltei hoje a ler. Sentia um certo desconforto na compreensão. Não querendo fazer uma avaliação (muito) equivocada, deixei descansar.
    Tive a impressão de que você, até mesmo pelo título que se deu como autor, quis nos fornecer um enigma (quem eu sou?). Cigarra, menina etc.
    Confesso que não consegui que as coisas se acalmassem. Talvez esteja equivocado, mas, um texto bem construído como foi, criou uma trama de tantos fios que se tornou barroco.

    Gostei das construções onde palavras-valise (portmanteau) aparecem aqui e ali, ampliando os significados primários das palavras.
    (Talvez o maior pedaço de um portmanteau seja o poema o Jaguadarte, ou Pargarávio, de Lewis Carroll, que diz Solumbrava, e os lubriciosos touvos em vertigiros persondavam as verdentes; trisciturnos calavam-se os gaiolouvos… e por aí vai).
    Outro cara que usa bastante esse recurso é Mia Couto em seus contos (dele só conheço contos).
    Bem, aí voltei e comecei a reler.
    Acho que estou equivocado, mas acho que algumas construções me levaram à confusões, por exemplo:

    “Se o canto parasse os ouvidos *explodiriam* de silêncio, e a criança *abria* os olhos ainda limpos da adultice ameaçadora do tempo, e os seus olhos *diziam*: mistério; a boca *desenhava*, nítida, o espanto.”

    *explodiriam* está no futuro do pretérito, ao passo que os demais verbos, na mesma frase, estão no pretérito imperfeito. Isso, a mim, me pareceu dificultar, de forma temporal, a localização dos fatos.
    Tudo bem, se esse é o desejo.

    Outra hora volto a ele para outra avaliação. Nota em suspenso, temporariamente, até melhor maturação.

  41. Fabio Baptista
    23 de março de 2018

    Meu, essa leitura foi complicada… 😦

    Reconheço o mérito da escrita que soube fazer um bom jogo de palavras em determinados momentos e criar belas imagens em outros, mas, no geral, o texto se arrastou, me obrigando a voltar várias vezes para retomar um parágrafo e ver se entendia alguma coisa (e não obtive muito sucesso).

    Acredito que o maior experimentalismo aqui seja na linguagem empregada. Dizem que Ulisses do Joyce faz vários jogos de palavras e neologismos e acaba sendo uma leitura difícil. Talvez esse conto seja nessa vibe que, infelizmente, não é muito a minha praia.

    Voltarei para uma releitura quando houver mais comentários, para ver se os colegas captaram alguma coisa que provavelmente deixei passar.

    Abraço!

  42. Fernando Cyrino.
    23 de março de 2018

    Olá, Quem sou eu, aqui estou eu encantado com o seu conto. Nessas mudanças de esqueleto fui me identificando com a menina, moça, mulher, velha. A “metamorfose ambulante”, como dizia o poeta Raul, que vai se mudando, que se transforma no olhar que tem do mundo, que cresce e amadurece, envelhece (e me enternece) enfim. E me vejo, acho até mesmo que de mais de uma forma, na metáfora da cigarra: acontece que de alguns anos pra cá, fruto de perda auditiva, tenho uma cigarra a cantar nos meus ouvidos. Graças a Deus que me acostumei com o canto e ela não me incomoda em nada. Dizem e quando ela começou seu recital isto me assustou, que há gente que se desespera, eu, tal a Jo, curto que cante até explodir, só que a minha cigarra não chega ao tempo de mudar de esqueleto, não explode. Na questão da Linguagem, Quem, te digo que seu jeito de escrever aqui no desafio, me lembrou alguns experimentalismos de Rosa mais para o final da sua fantástica criação, principalmente em Primeiras Estórias e em Tutaméia, as Terceiras Estórias, quando ele investiu nos contos mais curtos. Dentro dessas memórias, a Jo me fez recordar o menino e o encantamento com o peru de As Margens da Alegria. Será que esta foi uma lembrança também sua? Fiquei curioso. No mais, cá estou a pensar se o seu conto não se sustentaria melhor, não ficaria ainda mais bonito se tirasse essa questão técnica dos objetivos do ensino, dos pilares da educação. Sim, eu sei que os colocou para reforçar o experimentalismo. Mas na minha opinião não ajudou. As imagens também são estupendas, mas, pessoalmente, prefiro que deixe mais livre a minha imaginação. Depois do desafio, quem sabe não valeria a pena reeditá-lo sem esses penduricalhos. Seu texto já é por demais experimental. Brava, bravo, pódio. Muito bom mesmo, arlequinal, abraços de parabéns.

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Publicado às 23 de março de 2018 por em Experimental e marcado .