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Detox Literário.

Ausência – Conto (Iolanda Pinheiro)

Era a última noite de pescaria. O crepúsculo havia findado há um par de horas e a brisa marinha, de tão leve, somente ondulava a superfície negra do oceano.

Três homens em uma pequena embarcação partilhavam o mesmo anseio. Calados, aguardavam o destino mirando as cordas que sustentavam a rede, ainda sem peso.

Quando havia luz e o mar transparecia, era possível ver as franjas da rede balançando como mechas de cabelo em flutuação sinuosa – um balé submarino. A noite sem lua deixava o mar como um gigantesco abismo: insondável e assustador.

As esperanças se entremeavam nas tramas das cordas, nos nós que contavam suas vidas de vento e sal. O samburá vazio aumentava a urgência dos homens que nada falavam, concentrados no salpicar da água riscando os bordos do frágil barco. Vez por outra, guinchos de pássaros invisíveis anunciavam peixe.

Acenderam seus cigarros de palha. Uma agitação na água chamou a atenção dos três. O vento voltou a soprar, silvando e arrancando o chapéu do mais velho, que caiu na água a menos de um metro da quilha da canoa. Quando se inclinou para pegá-lo de volta, sentiu uma forte pancada na madeira do fundo, fazendo com que se desequilibrasse e caísse no oceano. Os outros dois foram até a borda para trazê-lo de volta, mas antes que pudessem tocar a sua mão, viram o homem ser puxado para baixo e sumir, engolido pela escuridão.

-XXX-

Muitas luas se passaram e Carolina ainda os esperava. Origem e destino no fundo do mar que contemplava a cada aurora – uma figura solitária sentada no píer. Perdera, numa única noite, suas referências masculinas, pai, marido e filho.
O oceano, nada lhe devolvia. Despojos, certezas, algum sinal que as ondas lhe trouxessem. E assim, sem ter o que sepultar, mantinha os olhos presos na linha, no horizonte mudo de notícias.

O armazém ia minguando sem apego. Sem os peixes dos homens da família, dependia dos pescadores avulsos, preço descombinado a cada dia. Nem mesmo lutava contra a injustiça. A tragédia lhe enterrara os sonhos.

Em casa: a solidão acompanhada. A mãe alheia a tudo, nunca chorara a morte do companheiro. Na foto da parede, marido e filho sorriam para a moça. Os rostos congelados e felizes como num aceno de até breve.

Um dia viu o barco com os três. Da terra, acenava, gritava e ria. As pessoas acorreram e a levaram para casa. Foram três dias de febre e delírios. Quando se pôs de pé novamente, voltou com todo o coração para sua miragem. De lá não saiu mais. Comia e bebia do que lhe traziam as boas almas do lugar. Dizem que foi se desvanecendo aos poucos até que um dia o cais amanheceu vazio.

Na casa de Carolina a mãe fechava os olhos pela última vez. O armazém baixou as portas.

Era domingo e ninguém quis navegar. Depois do cortejo da idosa, apenas um pequeno barco tremeluzente se desenhava, solitário, na paisagem marinha.

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12 comentários em “Ausência – Conto (Iolanda Pinheiro)

  1. Olisomar Pires
    23 de novembro de 2017

    Ótimo e poético conto. Apesar de curto, conseguiu transmitir dor, angústia, esperança, desesperança e medo.

    Parabéns !

    • iolandinhapinheiro
      23 de novembro de 2017

      Agradeço pela leitura, amigo Olisomar. Este texto faz parte de um projeto que permite ao autor escrever um conto com limite de 500 palavras. Adorei você ter identificado tantas nuances neste curto espaço de texto. Abraços.

  2. Marco Aurélio Saraiva
    21 de novembro de 2017

    Putz! Que conto! Foi a sua inspiração para o conto de terror? O início tem um quê de suspense/terror, apesar do conto ser mais sobre a solidão e a desolação do perder alguém amado – na verdade, de perder todos os seus alguéns amados.

    Você escreve bem demais, meu deus. Parabéns mesmo. A melancolia foi passada com exatidão – tanto durante a pesca, tanto durante a espera de Carolina no cais.

    Sensacional.

    Destaque para o parágrafo abaixo:

    “Quando havia luz e o mar transparecia, era possível ver as franjas da rede balançando como mechas de cabelo em flutuação sinuosa – um balé submarino. A noite sem lua deixava o mar como um gigantesco abismo: insondável e assustador.”

    Só um pequeno detalhe: a vírgula a seguir é mesmo necessária?

    “O oceano, nada lhe devolvia.”

    Abração!

    • iolandinhapinheiro
      21 de novembro de 2017

      Marcos, as vírgulas são minhas piores inimigas, kkkkk. Então. Esse era o conto para o desafio do FOLCLORE, mas não tive tempo de terminar, e aproveitei para o projeto de As Contistas. Em tudo que eu escrevo tem um toquezinho de terror, não consigo escapar deste vício.

      Muito obrigada. Quis fazer um texto quase prosa poética desta vez. Vou tentar ser suave sempre, para ver o que acontece, rs.

      Valeu demais pela divulgação, pela leitura e pelo comentário. Um beijão.

      Iolanda.

  3. Neusa Maria Fontolan
    20 de novembro de 2017

    vou repetir aqui o que disse la no blog das contistas.

    Muito bom! Da pra sentir na pele a dor de Carolina.
    Parabéns, menina 🙂

    • iolandinhapinheiro
      20 de novembro de 2017

      Obrigada, linda. Coisa boa a gente repete mesmo. Amo. Beijos muitos.

  4. Fil Felix
    20 de novembro de 2017

    Oi, Iolandinha! Conto muito interessante, trazendo alguns arquétipos marinhos, assim dizendo. A espera do marido (nesse caso, mais o filho e pai) que foram em alto mar e nunca mais voltaram, tem algo místico nisso, quase mitológico, como a espera de Penélope por Odisseu, que se perdeu no mar. A todo momento as imagens das sereias ficaram na minha mente, talvez por não explicitar o que acontece com a canoa, dando margem à interpretação do leitor: foi tombada pelo mar, algum animal, alguma outra criatura, um acidente? Isso dá maior profundidade ao texto.

    A escrita, sempre ótima, com destaque para os detalhes: citar a ausência de presença masculina, a decaída da loja, o intercâmbio dos peixes, a loucura se aproximando, tudo num curto espaço de tempo.

    • iolandinhapinheiro
      20 de novembro de 2017

      Olá, Fil. Bem-vindo. Faço parte de um grupo que tem alguns projetos literários, dentre estes existe um jogo no qual a partir de uma imagem todos têm que escrever um texto de até 500 palavras. Daí, fatalmente, texto que poderiam render muito mais, acabam sendo feitos num formato mais “telegráfico”. O objetivo é justamente exercitar a capacidade de falar muito escrevendo pouco.

      Esse específico conto foi, inicialmente, escrito para participar do Desafio Folclore. Mas eu não consegui terminar a tempo e guardei os pedaços que fiz.

      O monstro em questão foi baseado numa lenda aqui da minha terra, um monstro marinho que foi uma princesa amaldiçoada. Para libertar a princesa e todos os tesouros de seu reino seria preciso levar um voluntário até um portal submarino, num lugar chamado Pedra Furada na praia de Jericoacoara.

      Para fazer este conto acabei aproveitando apenas os primeiros parágrafos do conto original. Que bom que você gostou.

      A parte da Carolina eu deixe meio inconclusiva propositadamente. Gosto de deixar meus contos assim, ao talante dos desejos do leitor.

      Muita agradecida pela análise e visita (sempre festejada).

      Beijos, beijos.

      Iolanda.

      • Fil Felix
        20 de novembro de 2017

        Valeu por contextualizar mais! Então não pensei tão fora do texto ao lembrar de lendas e mitos! Muito bom.

  5. Eduardo Kessler
    20 de novembro de 2017

    Conto muito bonito e bem escrito.

    • iolandinhapinheiro
      20 de novembro de 2017

      Agradeço pela leitura, Eduardo. Abraços.

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Publicado às 20 de novembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .