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Tieta do Agreste – Jorge Amado – Resenha (Fil Felix)

Jorge Amado publicou em 1977 o livro Tieta do Agreste, que viria a ser uma de suas obras mais famosas, em parte pela novela de 1989, exibida pela Globo e protagonizada por Betty Faria. Trata-se de um romance que aborda a pobreza do sertão nordestino, o preconceito e moralismo das pessoas de bem, a vida de aparência, o corporativismo, pedofília, estupro, machismo e feminismo em meio a muito humor e situações das mais absurdas. Num linguajar bastante carregado de regionalismos e numa estrutura onde o próprio autor se transforma em personagem, é uma excelente leitura!

Tieta foi pastora de cabras na adolescência, subindo e descendo as dunas de Santana do Agreste, onde perdeu a virgindade ao ser estuprada por um mascate, dando início à uma agitada vida sexual, se tornando a mais admirada e desejada pelos homens da cidade, causando a inveja de sua irmã mais velha, Perpétua, que a denuncia ao pai, Zé Esteves, o fazendo escorraçar e expulsar Tieta de casa, passando humilhação pública, apanhando de cajado na rua e desaparecendo do mapa.

Um ponto que já fica bastante visível no estilo do autor de narrar os fatos é a sua liberdade, sem papas na língua, como ao citar o estupro logo no início: “conheceu o gosto de homem, mistura de mar e suor, de areia e vento. Quando o mascate a arrombou, igual a cabrita horas atrás, ela berrou. De dor e contentamento“. Tieta, longe do Agreste, cresce como uma das maiores cafetinas de São Paulo, dona de um randevu frequentado pelos maiores políticos do país. E apesar de nunca ter voltado à sua cidade natal, passados 25 anos ela continua ajudando a família enviando cheques e presentes todos os meses, tomando conhecimento de como estão Perpétua, agora viúva e mãe de dois filhos – o moleque Peto e o coroinha Ricardo -, a irmã caçula Elisa, pobre e bem casada, e de Carmosina, a Agente dos Correios e Telégrafos, outrora sua melhor amiga.

Apesar de agir como cafetina, a fama de Tieta em Agreste é outra: de irmã digna, que esqueceu e perdoou o pai, que ajuda a família, com um excelente marido e rica. Principalmente rica. Quando as cartas e o cheque que Tieta envia todos os meses atrasam, uma comoção toma conta do lugar. Perpétua, sempre agourenta, acredita que tenha morrido: e, não tendo filho, certeza que os seus próprios, Peto e Ricardo, serão herdeiros de sua fortuna. Dá-se início, inclusive, de missa para o descanso da alma da defunta. Tudo interrompido com uma carta que Carmosina lê (aliás, ela lê todas as cartas, de todo mundo) e anuncia: Tieta não só está viva, como viúva e vindo para Santana do Agreste, trazendo a afilhada Leonora!

O retorno de Tieta à cidade é quase uma apoteose, um verdadeiro evento. Enquanto todos a esperam vestida de luto, ela desce estonteante da marinete de Jairo, encarando familiares e amigos, todos de preto no calor do sertão: “será ela? Peto fica em dúvida. […] Na porta, sobre o degrau, majestosa, Antonieta Esteves – Antonieta Esteves Cantarelli, faça o favor, exige Perpétua. Deslumbrante. Alta. Fornida de carnes, a longa cabeleira loira sobrando do turbante vermelho”. Do corpo da musa, pra reviver a inveja da irmã e causar rebuliço nos homens, o autor não economiza nos detalhes: “vermelho igual à blusa esporte, de malha, simples e elegante, marcando a firmeza dos seios volumosos. […] A calça Lee azul colada às coxas e à bunda, valorizando volumes e reentrâncias, que volumes! que reentrâncias!”.

O livro é longo, 600 páginas, sendo as 100 primeiras narrando o dia a dia de Agreste, até este retorno. O que se segue são as situações mais escandalosas da estadia dela na cidade, que seria só um mês de férias pra comprar terreno, investir um dinheiro e pronto, se estendendo em dois, três meses, devido sua estimada presença e as grandes mudanças que trouxe pro povo do Agreste, como a tão esperada energia elétrica vindo de Paulo Afonso, há anos negada ao Prefeito mas que, com duas ligações de Tieta, logo em sua chegada, conseguiu fechar negócio. De início, ela promete ficar até a instalação da luz.

Os personagens são carismáticos e bem delineados, com a inclusão e afastamento de um ou outro no decorrer do livro. Perpétua, sempre de preto e carrancuda, é extremamente religiosa, ambiciosa e avarenta, contrasta com a irmã Elisa, ainda jovem e ingênua, porém bonita e alegre, sonha em viver na cidade grande. Ricardo, adolescente em crescimento, coroinha da Igreja, é o sonho de consumo das beatas: “– Belezinha de coroinha! – murmura Cinira, gulosa, à beira do barricão, uma coceira nas partes”; logo também se transforma em sonho (e pesadelo) de consumo de Tieta. E aqui entramos em alguns dos muitos temas polêmicos que o livro aborda. Tieta e Ricardo, seu sobrinho, dão início à um caloroso e proibido romance. Ela, “cabra velha e experiente”, capaz de ensinar até o ipsilone ao jovem, ainda cordeiro de Deus, virgem de tudo. Ainda há Leonora, a “enteada” de Tieta, jovem loira de São Paulo, criada no berço de uma das melhores famílias, filha do ricaço Felipe. Não só desconhecem sua vida como prostituta, como também que Felipe, na verdade, fora cliente (porém fixo, diga-se!) de Tieta. Carmosina, a Agente dos Correios e Telégrafos, a mais inteligente da cidade, metida a sabe tudo e de opinião forte. Entre muitos outros.

Em meio ao cômico, Jorge Amado aborda a pobreza do interior do Nordeste, do abandono do Governo e da vida sofrida no sertão. A grande engrenagem que faz a história se movimentar é a chegada de representantes da empresa Brastânio, que planeja instalar uma indústria de dióxido de titânio, se transformando na possível salvação ou não de Santana do Agreste: enquanto o candidato a Prefeito, Ascânio Trindade, acredita que isso será a redenção da cidade, finalmente sendo posta no mapa, crescendo e ganhando dinheiro; outros, como a própria Tieta, acredita que será o fim da paisagem paradisíaca das praias do Mangue Seco, da calmaria, que atrairá poluição e desgraça.

Além da clara crítica ao sistema capitalista, às indicações políticas e falcatruas industriais, há no texto de Jorge Amado um requinte que versa com a ironia e o caricato, como os nomes dos chefões que tramam por detrás de tudo: temos do Jovem Parlamentar ao Doutor Magnífico. E Santana do Agreste é ricamente narrada por ele, uma cidade fictícia (mas bastante real) na divisa entre a Bahia e o Sergipe, com seu clima quente, praias belíssimas, coqueirais, dunas e cômoros, contrastando com a ganância e avareza de muitos de seus cidadãos.

Há um trecho, que particularmente achei um dos melhores, em que a Brastânio deixa na Prefeitura alguns presentes de Natal para darem às crianças pobres. Porém a distribuição mal organizada se transforma numa confusão, colocando em cheque a opinião de Perpétua e Tieta: “– Essa gentinha não merece a caridade de ninguém. Então, os homens mandam um avião de presentes e o resultado é essa vergonheira… Até dá nojo. […] Tieta toma a defesa do povo de Agreste, humanidade sofrida, condenada à miséria, cujos filhos não conhecem outros brinquedos além de bruxas de pano e caminhões feitos com restos de madeira, tampas de cerveja no lugar de rodas”. Brilhante como, em poucas palavras, temos a representação clara de dois tipos de pessoas que estamos acostumados a ver por aí.

Há, também, a coisa das “aparências”. Todo o romance se constrói em cima disso: “Lá [em São Paulo], os sentimentos, como os corpos, estão expostos. Aqui, a cada passo, ela tropeça em simulação, engano e falsidade: ninguém diz tudo o que pensa nem demonstra por inteiro seus desígnios: todos encobrem algo por interesse, medo ou pobreza. Mundo de fingimento e hipocrisia, em acirrada luta por ambições tacanhas, minguados interesses”. A dissimulação com que Jorge Amado escreve alguns parágrafos chega a ser hilária, como quando Ascânio, apaixonado por Leonora, critica algumas mulheres que se ofereceram pra cima dele: “a face de Leonora reflete pureza, fidalguia, sentimentos nobres. Percebe-se de imediato a família de bons princípios, educação primorosa. As outras, coitadas, o que podem ser senão… piranhas, para não aplicar a palavra torpe e exata”.

Inclusive o seu estilo de narrar é bastante solto, criando capítulos especiais onde ele mesmo, quase como um personagem, dá um pitaco sobre tudo que vem ocorrendo na história, falando até de um amigo, Fúlvio D’Alambert, um crítico chato: “Desta vez, protesta ele contra a ausência de Tieta, cuja figura anda desaparecida. […] abandono regra comezinha da novelística ao abandoná-la. Personagem principal não pode ser relegada a segundo plano, ensina-se Fúlvio D’Alambert”. E não apenas essas regras, como toda a construção de frases segue um estilo próprio, sem se preocupar se os diálogos precisam ser no formato correto, se o tempo narrativo fica no passado ou presente, até mesmo em terceira ou primeira pessoa. Tudo numa constante mudança. O que não atrapalha, mas sim dando outra imersão na história.

Os capítulos finais, em especial o epílogo, são excelentes e te prendem do início ao fim. Tudo fica mais rápido, até corrido, e queremos descobrir que coisas mais nos esperam até a chegada da luz de Tieta. É onde ocorrem, também, algumas das cenas mais icônicas e imortalizadas na novela, como o aguardado embate entre Tieta e Perpétua. E é importante comentar que a novela, até por conta de seu formato, amplia e cria muitas outras subtramas que não estão presentes no livro, porém perde nas sutilezas das críticas e no escancaramento que Jorge Amado lida com tudo. Apesar das polêmicas, é um romance que envelheceu super bem e se mantém atemporal ao que se refere à natureza humana. Cada personagem é viva, estando presente aos montes ao nosso redor. A questão que fica, ao terminar de ler, é: vale tudo em nome do progresso?

Tieta, a Joana D’Arc do Sertão, cafetina de randevu paulistano, ao contrário de tudo que podiam esperar dela, nos deixa ensinamentos como o “de amor não se morre, se vive!”, de se manter íntegra e sensata, mas também se permitir e se entregar aos prazeres da carne. Escorraçada pelo pai, retorna triunfante à cidade, no alto de seus 40 anos, rica e poderosa, mas ainda com a fome e o gosto de viver de garota.

“Cabrita montês, queimada de nascença, fui-lhe servida com champanha. […] Tieta do Agreste, morena de cabelos anelados, curtida no sol do sertão, educada nos bordéis dos povoados pobres, a flor da casa.”

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2 comentários em “Tieta do Agreste – Jorge Amado – Resenha (Fil Felix)

  1. iolandinhapinheiro
    20 de novembro de 2017

    Grande resenha para um grande livro. Tive a felicidade de ler quase toda a obra deste imenso autor baiano, um escritor de estilo sólido e marcante e, mesmo escrevendo sobre diversos temas se deixava identificar pela maciez da escrita que nos escorria sem dificuldade. Seiscentas páginas. Li ainda menina e nem notei. Ler é uma maneira de falar, engoli o livro com vontade, temperado com dendê e servido numa terrina de barro. Achei delicioso, como tudo o que fazia. Um abraço e parabéns pela escolha. Beijos.

    • Fil Felix
      25 de novembro de 2017

      Obrigado, Iolandinha! Adorei o livro e confesso que tenho dificuldade em ler essas edições com 400, 600 páginas, acho cansativo. Então é uma sensação até de superação, ao terminar. Agora vou tentar ler os outros dele, Gabriela e Dona Flor estão no topo da lista.

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Publicado às 20 de novembro de 2017 por em Resenhas e marcado .