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Detox Literário.

Dessas coisas que acontecem todo dia – Conto (Eduardo Kessler)

Quando Beatriz mostrara aquela arma a Mônica dias antes, jamais poderia imaginar o mal que estava prestes a causar. Mônica conhecia muito bem seu marido, suficiente para agüentar certas coisas. Mas como toda paciência chega ao fim, e com seu típico pavio curto, era de se esperar que àquela história não acabasse bem.

O dia em que a sorte de Jonas acabou começou normalmente. Mônica bebeu seu café preto e sem açúcar, como de costume, deu as ordens do dia para a empregada e saiu apressada para o trabalho. Mas por um descuido que mais tarde se provaria conveniente, esquecera seu celular sobre a mesa da cozinha.

Resolveu ligar para seu marido levá-lo até ela. Após certa demora, ele atendeu um pouco ofegante:

─O que foi Mônica?

─Esqueci meu celular. Você pode trazer pra mim?

─Agora? Estou meio ocupado.

─Preciso muito dele!

Ouviu-se baixo um praguejar, “que merda”e logo ele respondeu:

─Tá legal. Daqui a pouco levo para você!

Instantes antes de desligar, Mônica ouviu uma terceira voz que indagou:

─Era ela?

Mônica ficou estática, o coração batendo forte. Ajeitou os óculos e de súbito pegou as chaves e foi para casa.

O carro de seu marido ainda estava lá. Ela entrou em silêncio e subindo as escadas da garagem pode ouvir risadas, que foram aumentando de volume conforme ela subia, ao chegar na sala as risadas tinham outro tom. O chão se foi quando viu Jonas e a empregada juntos sobre a mesa da cozinha. Com o coração parado, Mônica ainda pensou. “Não! Não farei nada agora! Mas ele vai me pagar!…”

─Beatriz! Preciso de sua arma emprestada. Mônica disse ao telefone.

─E pra que você precisa de uma arma? Sua doida.

─Tenho que resolver uma coisa.

─Como assim? Você pirou? Vai matar quem?

─Se der tudo certo, ninguém.

─Ahh não! Eu não vou te emprestar, tá na cara que você vai fazer besteira. Me conta! O que aconteceu?

─Só vou contar se você me emprestar.

─Meu Deus! Não acredito que vou fazer isso… Passe aqui em casa.

Mônica não revelou nada a Beatriz, que apesar de contrariada acabou cedendo e emprestando o revólver a ela.

O malandro disse que à noite teria um jantar com seu sócio e que iria sozinho. “Agora é toda semana.” Mônica pensou, vendo tudo com mais clareza.

Resolveu segui-lo. Estava nervosa, zangada e excitada por estar fazendo algo assim. Seguindo seu marido sorrateiramente, coisa que jamais tinha feito.

Após alguns quilômetros sem chegar a nenhum restaurante as ruas começaram a parecer familiares para Mônica.

Então viu seu marido parar diante da casa de Beatriz.

Mônica estacionou na entrada de uma casa mais a frente e ficou observando Jonas que saiu do carro e sumiu pela lateral da casa.

Ela se esgueirou pelo corredor escuro e surpreendeu os dois aos beijos diante da porta dos fundos.

Só notaram sua presença quando Mônica puxara o cão do revolver para trás, fazendo seu típico estalo.

─Bea!? Como você pôde?… Desse cretino aí eu já esperava! Mas de você?… Minha melhor amiga!

─Mônica fica calma! Abaixa ess…

─Cala boca seu desgraçado!

─Nós…Nós íamos te contar Mônica. Disse Beatriz. Nós decidimos que pararíamos de mentir para você. Nós vamos morar juntos.

─Ah! Disse Mônica rindo. Você vai casar com ele então! Que merda hein!…Então acho que tem uma coisa que você precisa saber.

           ─Mônica nã…

─Já disse pra calar essa boca!!! Ela gritou apontando o revolver para cabeça de Jonas.

─Sabe  a nossa empregada Júlia?

─O que tem ela?! Indagou Beatriz.

─Vai ter que levá-la também, por que o Joninhas ai, não vive sem aquela safada!

Beatriz encarou Jonas com decepção. Ele apenas deu de ombros sem ter o que dizer.

─Olha! Não vou mais perder meu tempo com gente como vocês! Disse Mônica que então puxou o braço de Bea, abriu sua mão e pôs o revolver engatilhado sobre sua palma.

─Faça o que quiser! Ela completou.

Virou as costas e saiu tranquilamente. Certa de que estava plantada a semente do mal, e que havia feito a escolha certa. Ao entrar no carro pode ouvir o disparo que vinha de algumas casas abaixo, atiçando os cachorros. Tateou os bolsos e então pensou ”Onde está mesmo meu celular?

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4 comentários em “Dessas coisas que acontecem todo dia – Conto (Eduardo Kessler)

  1. Regina Lopes Maciel
    21 de novembro de 2017

    Eduardo, tudo bem?
    Penso que mesmo tendo como objetivo o humor, a trama deste conto não me convenceu. Lógico que quando escrevemos usamos o fictício, mas sempre tentando torná-lo crível para o leitor (e pra isto será preciso criar uma forma especial de narrar).
    Abraços
    Regina

  2. iolandinhapinheiro
    20 de novembro de 2017

    Olá, Eduardo. Começo por agradecer a vc pela leitura do meu conto Ausência. Então você é novato? Na verdade todos nós estamos aprendendo, no dia em que nos sentirmos completos aí paramos de evoluir. Seu conto tem uma trama boa. Mulher traída descobre que o marido está pegando a sua melhor amiga e não apenas ela, mas também a sua empregada.

    Eu ratifico os apontamentos feitos pelo Fil e acrescento as seguintes observações:

    a) Invista nos personagens. Sua trama vai direto para a ação e a gente não tem tempo de criar uma ligação com a protagonista. Quando não há empatia entre o leitor e um personagem a gente não consegue torcer por ninguém.;
    b) Invista na ambientação. Descreva o cenário porque isso ajuda muito ao leitor a imergir na história, sentir o ambiente, imaginar as cenas;
    c) Dê espaço a sua história, desenvolva. Uma trama boa como a sua merece ser enriquecida;
    d) Atenção às incoerências. A amante do marido jamais entregaria uma arma à mulher enganada. É pedir para morrer. E mais: a amante atira no cara só porque descobre que ele pega a empregada também? Achei muito exagerado. Enfim…

    Boa sorte e continue escrevendo. Nunca pare de ler, a leitura de bons autores é a melhor faculdade de literatura. Beijos.

    Iolanda.

  3. Eduardo Kessler
    20 de novembro de 2017

    Cara, muito obrigado por suas observações, isso tem um enorme valor pra quem esta começando.

  4. Fil Felix
    20 de novembro de 2017

    Eduardo, boa tarde! Bom, o conto tem uma trama bacana, porém está com alguns problemas. A mulher traída, descobrindo que seu marido sai não só com uma, mas com duas (e se bobear, mais), criando uma reviravolta ao final, isso ficou bom. Mas não para um conto tão curto, porque as situações se atropelam, sem tempo do leitor simpatizar com ninguém e nada parecendo muito verossímil.

    Vou citar alguns pontos que acredito que possam ser melhor trabalhados. O lance do celular no início: ela esquece de propósito e depois liga para o marido. Liga de onde? Ela vê a cena e deixa pra lá? Ninguém a vê? No que se deu o retorno do telefone? Essa falta de detalhes faz o conto ficar indo de um ponto ao outro, sem se aprofundar em nada. A conversa com a Beatriz poderia, também, ser melhor explorada. Eu não daria uma arma na mão da esposa de alguém que estou saindo, acho que ninguém faria isso! Mas se fez, melhorar o contexto pra comprarmos a ideia. Por isso seria uma história pra um texto maior, pro final ser O clímax. Mas bem-vindo ao EC e o esperamos nos desafios!

E Então? O que achou?

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Publicado às 20 de novembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .