EntreContos

Detox Literário.

Uma questão de cor – Conto (Regina Maciel)

Minha esposa nem parece que é brasileira. É tão branca, tão branca que chega a ser verde, verde das veias; eu sou um pouco menos claro, sou mais pr’aquela transparência azulada. O nome dela é Alva, eu a chamo de Alvinha, no entanto, seu pai carinhosamente a chama de Preta. Ela não se irrita, até gosta e diz que é a única branca retinta de que já ouviu falar.  

Somos daqueles seres que se dão bem usando bonés, mangas compridas, protetor solar; vivemos melhor nos túneis, nas sombras, debaixo de marquises, sombrinhas, dentro de carros, e por isto mesmo nos conhecemos no metrô. Ela agarrava firmemente a barra de segurança no vagão quando reparei em seus anéis, usava um monte deles nos dedos, um monte, um monte mesmo, nem parecia enfeite e sim, escudo protetor.   Pra puxar conversa perguntei se algum deles tinha super poderes, e ela respondeu que sim, que tanto poderiam torná-la surda e invisível – quando algum engraçadinho começasse um papo furado demais, quanto atrair para seu lado e envolver em campos de força aromáticos aqueles que fossem interessantes, quanto lançar raios de desmaterialização nos “ditos cujos” que ultrapassassem a zona de segurança. Perguntei em qual categoria eu me encaixava e ela disse que, já que eu não percebia, ela iria dar um jeito de usar o poder de persuasão de um dos anéis, mas… que pra tudo havia limite de entendimento, e daí para a destruição total era questão de segundos. Gostei desta forma direta de falar, assim no tapa.

Ela era fã, fanzíssima, fanzona dos super-heróis, assim como eu, e contou que assistia mil vezes aos filmes, colecionava figurinhas, produzia as próprias fantasias e criava suas histórias. Eu era dono de uma coleção enorme de miniaturas e tinha na ponta da língua todos os bordões e gritos de guerra. E daí que, envolvidos pelos Poderes de Asgard e pelos anéis do Lanterna Verde, nós dois, seres das profundezas sempre derrotados pelos super-heróis, acabamos nos rendendo ao bem e ao amor. Dali pra cama foi um vôo de Super-Homem.

Falando assim até parece que sou destes caras afoitos que vão com qualquer uma e a toda hora, mas havia um facilitador entre nós: pessoas transparentes dão mais certo entre si. Por conta da minha branquelice, sempre preferi transar no escuro, mas com Alvinha tive a oportunidade de acender as luzes, olhar cara a cara, corpo a corpo e me sentir mais escuro. Foi um conforto, nenhuma brincadeira tipo – casal café com leite, cocada mista, casadinho, casal prestígio, olho de sogra, retrato em branco e preto – e pior, aquela pergunta fatal: você nunca tomou um solzinho?   

Sabe, fico chateado com isto – as brincadeirinhas – as pessoas acham que só preto é que sofre e não é bem assim, não! Marieta, minha colega de trabalho, que é assim da cor de cuia, me dá a maior gozeira e diz que na praia, com os primeiros raios solares eu fico cor-de-rosa, e paulatinamente o rosa misturado ao tom azulado dá em lilás. Como uso um calção verde, pareço aquelas bengalas coloridas penduradas em árvore de natal. Já comprei calção de todas as cores, mas ela sempre arranja uma comparação diferente: anêmona-do-mar, lagosta azul, chup chup de uva. Daí, já nem quero mais ir à praia, vou acumulando ressentimento contra Marieta e outros engraçadinhos e tenho vontade de descontar. Só que não sou lá tão espirituoso e pior, gosto mais da cor da pele deles do que da minha. Mas Alvinha já me disse que quanto mais ressentido mais eu dou bandeira, pois minha cor fica assim meio enxofrada, e todo mundo sai de perto, que é pra não levar uma…

Aliás, Alvinha é que sempre me salva. Ao invés de me fazer cafuné e consolar dizendo assim – Oh branquinho!, ela diz é pra eu largar de ser besta, e que pra tudo na vida vale a pena ver o outro lado, o ponto de vista do outro. Uma vez me contou um caso que aconteceu com ela mesma. Estava na praia em João Pessoa e viu duas crianças tão brancas, tão brancas, que à distância não podia identificar exatamente o que eram, pareciam um monstrengo, uma coisa sem pele, uma meleca, uma ameba, como se, na ausência da cor, tivessem perdido a forma do corpo. Claro que não se pode falar em ausência de cor, porque branco é cor também, mas que pela primeira vez ela tinha realmente compreendido o estranhamento com a cor branca. Ainda relacionou com outro caso, onde ouvira uma criança pequena comentar que, o neném (um neném negro ao seu lado) era muito bonito, muito colorido. Neste aspecto, Alvinha é bem brasileira, leva tudo na esportiva. Sempre que me ajuda assim, me dando a noção de ridículo, eu compro milhares de anéis novos para ela.

Trabalho numa empresa de instalação de internet e lá, a tribo humana, em se tratando de cor de pele, constitui um verdadeiro arco-íris: morena jambo, acastanhado, parda-preta, amarelosa, sarará, opaco, bem chegado, bugrezinha-escura, cor de trigo, cor de catupiry, escuro-escurinha, canelada, cor de leite, cor firme, amarela-queimada, café, encerado, regular, nego aço, agalegado. Como atuamos em equipes e lugares diferentes, e há muito desencontro entre nós, resolvi organizar um almoço de confraternização no final de ano. Coisa simples, uma macarronada, umas cervejas e a alegria de estarmos juntos.

A princípio eu não queria pedir ajuda alguma para Alvinha, coitada, que já tem seu trabalho, seus estudos e os afazeres da casa. Mas quando ela me viu fazendo a lista de compras, achou por bem me aconselhar a contratar uma fábrica de massas caseiras, que atende a pequenos eventos. Em se tratando de contas, números e compras, ela diz que eu só funciono a partir das centenas, e isto às vezes traz problemas para o nosso orçamento. Foi uma decisão acertada, e eu ainda preparei duas surpresas, que não contei nem pra ela.

Eu sempre sonhei ser cantor de música sertaneja. Não é o estilo de música que Alvinha mais goste, no entanto ela ajeitou o quarto de empregada para mim, colocando um revestimento acústico pra nenhum som externo me atrapalhar, e até sai de casa nos dias em que eu me tranco lá dentro, que é pra não me inibir. Pois bem, neste almoço eu resolvi fazer minha primeira apresentação em público e me fantasiei de Hanzo, um herói do game Overwatch.  Alvinha sempre veste suas fantasias de super-heróis quando vamos transar, e para agradá-la, eu é que queria fazê-lo, pois Hanzo é um dos heróis de que gosta. Caprichei bem: modelei o cabelo com gel, de modo a deixar aquela franja em forma de vírgula no rosto, coloquei um quimono japonês aberto, escancarando o peito e o braço esquerdo (onde fiz uma grande tatuagem), empunhei arco e flecha, aljava nas costas, meias colantts, escudos protetores nos braços e pernas, bota prateada e, cantei, cantei muito, cantei todo o repertório que eu tinha, e com toda a força dos meus super poderes.

Ao que parece, não foi uma decisão acertada, pois aquela gama rica de cores do arco-íris se modificou: o trigo murchou, o café raleou, o jambo ficou verde, o castanho sapecou, o catupiry mofou, o que era firme desatinou, e… Alvinha… Alvinha turvou. Nunca a tinha visto turvada.

Pouco a pouco, enquanto eu cantava, as pessoas foram deixando a festa. E pouco a pouco, durante os dias posteriores, eu tive que engolir sozinho a segunda surpresa – os trezentos beijinhos que encomendei de sobremesa. Sozinho, porque depois da festa Alvinha me abandonou. Ela não gostou da surpresa e disse que eu sou ridículo, mas que não precisava ficar mostrando isto assim, a todo mundo; que não precisava expor nossas intimidades e ainda por cima comprometer a imagem dos super-heróis.

Agora, eu estou mais para sub-herói sertanejo vivenciando o drama do amor perdido. Atiro flechas de perdão para todas as direções, flechas brancas, azuis, verdes, amarelas, pretas, vermelhas, não importa a cor, desde que atinjam o alvo, Alvinha.

Anúncios

10 comentários em “Uma questão de cor – Conto (Regina Maciel)

  1. iolandinhapinheiro
    22 de novembro de 2017

    Olá, Regina! Vc criou aqui uma comédia romântica inusitada e muito gostosa de ler. O seu texto é enriquecido por referências geeks e vc conduz o texto de maneira suave, sem solavancos. O conto diverte e a gente ri das situações bem arquitetadas pela autora. Talvez eu desse uma enxugada leve só para o texto fluir melhor. No mais, tudo tranquilo.

    Um abraço.

    • Regina Lopes Maciel
      22 de novembro de 2017

      Olá Iolanda, obrigada por ler e comentar. Enxugar o texto é algo que me “atormenta”, pois a minha maior tendência é cortar e cortar. Há algum tempo estou fazendo um exercício no sentido contrário e espero chegar a um ponto mais equilibrado entre a minha preferência de escrita, e a necessidade do leitor querer um pouco mais de história. Percebo também que, ao esticar o texto, eu sou obrigada a aprofundar algumas questões, a pesquisar, a trabalhar melhor as palavras.
      Vou caminhando. Abraços

  2. Neusa Maria Fontolan
    20 de novembro de 2017

    Ola Regina, muito divertido o seu texto, foi uma leitura gostosa.
    Parabéns.

    • Regina Lopes Maciel
      21 de novembro de 2017

      Obrigada por ler e comentar, Neusa.

  3. Marco Aurélio Saraiva
    17 de novembro de 2017

    Um conto bem diferente! É uma comédia relaxada, que conta a história de um casal inusitado e bem nerd. Você, eu chuto, deve ser nerd também, pois para fazer referência a Overwatch, menos que 9000 pontos de nerd você não deve ter… rs rs rs.

    Além da história louca de amor e guerra entre o casal diferentão, você ainda aproveitou para falar com muita coragem sobre um assunto polêmico: a discriminação contra os brancos.

    E haja coragem! Este tipo de discriminação existe sim, é muito legal ler sobre ela, mas é provável que você sofra um bocado liberando este texto ao público, pois muitos não vão entender onde você quer chegar com isso. Bem, de qualquer forma, eu absorvi muito bem.
    Acho que, sobre esta parte, você resumiu muito bem a ideia em apenas uma frase:

    “Claro que não se pode falar em ausência de cor, porque branco é cor também…”

    Você escreve de forma muito natural. Suas hipérboles reforçam o bom humor da leitura, e as repetições que você usou para explorar o mesmo aspecto não ficaram cansativas (“um monte, um monte mesmo” ou “fã, fanzíssima, fanzona”).

    Acho que só notei dois pontos de melhoria:

    1) A ausência de diálogos atrapalhou um pouco o desenvolvimento dos personagens. Há pelo menos dois momentos onde um diálogo gritava para ser usado: primeiro, no primeiro encontro entre o narrador e Alvinha. Segundo, quando os amigos do narrador zombavam dele no trabalho.

    2) Logo no início do conto, você separa uma ideia no parágrafo com travessão, mas não fecha o mesmo, o que confunde a leitura:

    “…que tanto poderiam torná-la surda e invisível – quando algum engraçadinho começasse um papo furado demais, quanto atrair para seu lado e envolver em campos…”

    Abração!

    • Regina Lopes Maciel
      17 de novembro de 2017

      Olá Marco Aurélio, obrigada pelos comentários. Me sinto bastante solitária escrevendo e ter algumas referências é muito bom.
      Marco Aurélio, eu não tenho absolutamente nada de nerd, pelo contrário, sou um zero à esquerda com as mínimas tecnologias (a geração dos 60 anos). Quando resolvi inserir super heróis eu fiz uma pequena pesquisa.
      Em relação às 2 observações: não gosto muito de diálogos, quase não os uso, mas com sua observação eu pude visualizar que um diálogo facilitaria a leitura de um dos parágrafos. Vou fazer um exercício aqui comigo pra ver se chego em um melhor resultado. Quanto ao travessão, creio que o problema é mais do que isto e você o percebeu bem. Em várias releituras do texto eu senti dificuldade com o ritmo exatamente neste ponto. Preciso refazer esta frase e foi boa a sua confirmação.
      Um abraço
      Regina

  4. Luis Guilherme
    16 de novembro de 2017

    Boa noite, Regina. Tudo bem?

    Que conto divertido, mulher! Hahahah

    Dei várias risadas. O tom agradável e descontraído facilita a leitura, que flui super bem.

    A parte que descreve o arco iris de cores da empresa foi bem divertida! Nem sabia q existiam tantas tonalidades de pele rsrs.

    Outro ponto forte foi a inserção dos herois na historia.

    Fiquei com pena do rapaz, no fim. Dá uma chance pra ele, Alvinha! Pára de ser mal humorada! Kkkkkk

    Parabens, bom conto!

    • Regina Lopes Maciel
      16 de novembro de 2017

      Aqui tudo bem, Luís e com você?
      Que bom que o conto te agradou. Tive a intenção de fazer um texto humorado, mas fica sempre a dúvida: será que consegui?
      Toda a gama riquíssima de cores usada no texto é real, vem de uma pesquisa feita com brasileiros, onde eles descrevem a própria cor. Esta pesquisa faz uma contraposição à pesquisa do IBGE onde só se pode responder: branco, pardo, negro, amarelo e vermelho. Na pesquisa apareceram 136 descrições diferentes, e eu a usei como tema pra fazer o texto.
      Fiquei muito contente de alguém ter lido, pois o texto anterior que enviei, passou em branco (pra não esquecer das cores, rs,rs).
      Abraços

      • Luis Guilherme
        16 de novembro de 2017

        Serio? Que legal! Vou procurar a respeito. Me interesso bastante pelo assunti, afinal, a diversidade racial, de sotaques, cultural eh o grande tesouro do brasil, e aquilo q o torna único, nao 3h?

        Gostei bastante, mesmo!

        Simm, precisamos agitar o periodo off, ne? Dessa vez quero ler e comentar todos!

        Parabens pelo trabalho! Um abraço!

      • Luis Guilherme
        16 de novembro de 2017

        Corrigindo: “nao eh?”

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 15 de novembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .