EntreContos

Detox Literário.

Hora H – Conto (Juliana Calafange)

Enquanto aguardava na fila, Feliciano tentava conter a ansiedade. Lembrava-se vagamente de ter lido em um livro que isso só atrapalha na hora H. Inspirar e expirar bem devagar, dizia o livro, acalma o espírito. Estava concentrado na respiração quando sentiu uma cutucada no ombro.

– É sua primeira vez? – perguntou o cara que esperava atrás dele na fila.

– É sim. Quer dizer, é a primeira vez que eu sou recolocado.

– É a minha primeira recolocação também. Estou tão nervoso.

– Você nunca leu que o nervosismo é perigoso nesses momentos? Pode provocar algum problema na hora H.

– Hora H??

– Maneira de falar, eu me refiro ao momento de atravessar o portão.

– Ah, ta. É, já ouvi falar que é um momento delicado, que temos de ficar tranquilos pra não prejudicar o desempenho da nossa anfitriã… Mas mesmo assim estou muito tenso, sabe?

– Eu também. Ajudaria se a gente se lembrasse da primeira vez que atravessamos o portão, né? Essa sensação de estreia é que incomoda, dá um frio na barriga…

– Comigo não é na barriga, não. É nos intestinos mesmo, ta brabo…

– Se controla aí, irmão. Não vai fazer cagada… – Feliciano riu sozinho da própria piada – Perdoe o trocadilho, é pra descontrair um pouco…

– Tudo bem, sem problema…

Nesse momento, um rangido alto de dobradiça enferrujada ecoou por todo o ambiente.

– Lá vai mais um – disse Feliciano.

– É. Quem será a anfitriã dele?

– Só Deus sabe! – e riu sozinho de novo.

– Será alguma princesa, hein?

Feliciano olhou com incredulidade para o colega.

– Acho bem difícil, né? Mas vai depender da missão dele, sei lá…

– E você já sabe qual será a sua missão ao atravessar esse bendito portão?

– Bom, eu tentei negociar direitinho. Combinei de pagar minha dívida em módicas prestações, assim não fico sobrecarregado. Então têm umas coisinhas que eu preciso construir, outras que preciso destruir… Mas “missão”, “missão” mesmo eles não contam pra gente. O fator surpresa é muito importante para o resultado. É o que dizem.

– Pô, acho então que me enganaram. Não me deixaram negociar porra nenhuma, já vieram com um contrato cheio de cláusulas que eu tive que assinar sem ler.

– Sério? Sem sequer ler? Caraca! O que foi que você aprontou por lá que já chegou aqui sem moral nenhuma?!

– E eu me lembro?! É isso que eu acho injusto…

– A gente nem se apresentou. Eu tenho sido o Feliciano. E você?

– Eu tenho sido o Michel. Mas não me pergunte muito mais porque eu não lembro. Só sei que eu vim do Brasil.

– Jura? Que coincidência! Eu também!  Foi por isso que eu escolhi o Haiti pra recolocação. Já estou acostumado a uma relativa miséria, não vou estranhar tanto.

– Haiti?! Mas me disseram que eu ia pra Dubai! Aliás, foi a única coisa que eles me deixaram saber, que eu ia pra Dubai, Emirados Árabes, lugar civilizado, rico, finesse, glamour, tudo a ver comigo. Mesmo começando por baixo, com a minha experiência pregressa, em Dubai eu vou crescer rapidamente e me tornar um empresário de muito sucesso! Acho até que é essa a minha “missão” além do portão…

– Então você está na fila errada, meu chapa. Aqui é pro Haiti, eu tenho certeza. Deixa eu ver o seu ticket.

Michel mostrou seu ticket, onde estava escrito DESTINO: HAITI.

– Olha aqui, ó Michel. Ta escrito Haiti. Acho que te sacanearam mesmo. É isso que dá assinar contrato sem ler…

– Puta que pariu! Não acredito! O que diabos eu vou fazer no Haiti?!

– Só lendo o contrato pra saber, né?…

– Com quem eu reclamo aqui? Me chama o gerente!

– Psiu! Fala baixo, senão vem alguém nos castigar. A gente pode acabar indo parar no final da fila.

Michel olhou para trás. O fim da fila se escondia atrás do horizonte.

– Não quero nem saber! Isso é palhaçada! Como eles prometem uma lebre e me dão um gato vira-latas? Isso é uma afronta aos Direitos Humanos!

– Mas lá no Haiti você vai poder trabalhar com Direitos Humanos. Quem sabe não era isso que estava no seu contrato? Você parece ser um cara sensível a essa questão…

Michel interrompeu Feliciano bruscamente.

– Não é desse tipo de Direitos Humanos que eu estou falando. Estou falando dos MEUS Direitos Humanos! Eles disseram que eu ia pra Dubai e me deram um ticket pro Haiti! Alguma coisa está fora da ordem por aqui!!!!! Cadê o gerente dessa merda??? – Michel começou a gritar.

Feliciano levou as mãos à cabeça. E eu que só estava tentando relaxar enquanto aguardava a minha vez, pensou.  E Michel, continuava, aos berros:

– Na hora de me enganar tinham uns três caras de terno, sorrisinho nos lábios, agora não aparece ninguém pra me atender aqui. Que espelunca é essa?!

As demais pessoas na fila começaram a ficar impacientes, todos temendo uma punição.

– Porra, mermão! Deu um trabalho danado pra negociar esse contrato aqui e você vai estragar tudo!!! – dizia um.

– Não ta satisfeito, vai pra Cuba! – falava outro.

Mas Michel estava mesmo indignado.

– Olha, eu não sei de que buraco vocês saíram. Mas eu estou acostumado com palavra de honra. De onde eu venho, um fio de bigode vale muito!!! Não tem essa de prometer e não cumprir. Que inferno é esse aqui afinal?

E exatamente no instante em que Michel pronunciou esta última frase, ouviu-se um estrondo descomunal, como uma enorme explosão. O chão começou a rachar e, ao longo de toda a fila, formou-se uma fenda profunda, de onde brotavam labaredas colossais. Todos que estavam na fila, começaram a se segurar uns nos outros para não caírem no gigantesco buraco que se formava diante deles.

Feliciano não acreditava no que estava acontecendo.

– Pronto! Agora estamos todos fodidos! Já era Haiti…

Então uma voz grave e soturna bradou pelos 4 cantos:

– Quem é o cretino que ousa reclamar das minhas decisões?! Tive que largar a minha sagrada cervejinha de segunda-feira à tarde só pra resolver esse abacaxi! Quem é o filho da puta?

Numa fração de segundo, todos na fila apontaram o dedo para Michel, que começou a se borrar todo, sem saber de onde vinha aquela voz.

– Deixa eu ver aqui no sistema… Michel Miguel Elias T… És tu, Michel? Puta que pariu, nem morto tu perde a pose, né? Que vergonha…

– Co-como assim? Quem está falando? – arriscou Michel.

– Quem está falando, seu bosta, é o Senhor do Reino do Inferno. Foi você quem chamou por mim há dois minutos, não lembra?

– Mas… isso aqui é o Inferno??

– Prefiro chamar isso aqui de entreposto. O Inferno mesmo é mais embaixo… Achou que era o quê? O teu gabinete em Brasília? – e o Senhor das Trevas riu sozinho da própria piada.

– Seu Diabo, olha só, deve haver algum engano, porque eu não…

– Pra começar, deixe-me explicar uma coisa. É um equívoco bastante comum, mas eu não me chamo Diabo. Meu nome é Lúcifer. Sou o encarregado por aqui…

Ante a cara de “não entendi” de Michel, Lúcifer explicou:

– Eu não sou Deus, mas sou filho Dele. Aquele que ficou encarregado de punir os filhos da puta como você, Michel Miguel. Falando nisso, tua mãe não era muito criativa, era?

Michel abriu a boca para argumentar, mas Lúcifer interrompeu:

– Pessoas como você, são enquadradas na Categoria Especial aqui. Categoria daqueles que tiveram oportunidade de fazer alguma coisa decente na vida, mas não fizeram. E eu não estou falando de um merdinha sem instrução (apontando para Feliciano), que viveu de roubar e dar golpes em pobres coitados, crédulos e aposentados negativados. Eu falo de um canalha que fodeu com centenas de milhões de pessoas, incluindo pobres coitados, crédulos e aposentados negativados!

Nesse momento, Feliciano pensou se Lúcifer estava se referindo a tal ‘meritocracia’, palavra que ele já ouvira muito, mas nunca soube o que é.

Lúcifer continuou:

– E pensar que você, Michel Miguel, tendo tido casa, comida e roupa lavada, educação de primeira, uma família que sempre foi fiel aos preceitos cristãos!

Feliciano deu um risinho com o canto da boca, agora mais convicto de que o tema do discurso devia ser mesmo essa diaba dessa ‘meritocracia’.

Michel franziu a testa, aborrecido.

– Não faz essa cara porque eu só estou lendo o que você colocou no próprio currículo… – disse Lúcifer – Tem mais: recebeu título de Doutor Honoris Causa… – segurando o riso – …do Instituto de Direito Público!

– E agora vai pro Haiti, porque acabou com os direitos públicos! – Feliciano deu uma risada, finalmente entendendo o que Lúcifer queria dizer. No que foi seguido por alguns outros da fila.

– Eu achei que ia pra Dubai… – murmurou Michel, fazendo bico, cabeça baixa, quase inaudível.

Lúcifer, se divertindo muito, continuou:

– Espera que ainda não acabou. Com mais de 70 anos, o filho da puta ainda conseguiu ser Presidente da República!

A fila toda desatou numa sonora e vibrante gargalhada. Até que Lúcifer interrompeu, com um pigarro gutural profundo, e todos se calaram imediatamente.

– Pequeno em vários aspectos, mas com um ego gigante, este senhorzinho teve uma vida inteira de chances pra fazer algo que prestasse, mas em todas elas, preferiu pensar só no próprio cu.

– Não foi bem assim… – disse Michel, já afinando a voz de tanto medo.

– Foi exatamente assim. E eu nem vou entrar nos detalhes sórdidos. Todos que estão aqui na fila fizeram muita merda na vida, mas pelo menos admitiram seus erros e negociaram o pagamento de suas dívidas. Mas você não, arrogante, presunçoso, ficou negando tudo até o fim. Por isso foi enquadrado na Categoria Especial.

– Então, se eu sou tão “especial”, Excelência, será que não rola da gente negociar aqui e agora? Posso ganhar muito dinheiro em Dubai, divido tudo com Vossa Excelência… – ainda tentou barganhar, pateticamente, o pobre Michel.

Um estrondo maior ainda se fez ouvir pelo espaço. Lá na Terra iniciou-se um pequeno dilúvio, dois terremotos e um vulcão que há anos estava inativo começou a expelir fumaça.

– Categoria Especial aqui não negocia! Sequer tem direito a ler o contrato! Categoria Especial só tem direito a ser enganado, na mesma proporção que enganou em vida!

O clima esquentou nitidamente. Naquele momento já faziam uns 80° Celsius naquele inferno de lugar. O rangido do portão se abrindo voltou a ser ouvido.

– Quer saber? Agora eu me aborreci! Vais ser recolocado imediatamente! Porém, mudei de ideia. Você não vai mais pro Haiti…

Michel chegou a esboçar uma expressão de alívio, que durou muito pouco.

– Vou te mandar pra Somália!

Um arroto de Lúcifer fez com que Michel fosse lançado do lugar onde estava até a beirada do portão, onde uma imensa cegonha preta o esperava. Ela pegou Michel pelo bico e o levou embora, planando com garbosa e inacreditável leveza.

Ainda ouviu-se o grito de Michel, enquanto era carregado direto ao seu próximo destino:

– Somália nããããão…..

Feliciano, até agora suando frio, agradeceu a Deus por ter sido esperto e negociado sua dívida com Lúcifer.

– Acho que vou abrir uma igreja no Haiti… – murmurou.

 Nesse mesmo instante, uma raquítica negra, de pernas arreganhadas, paria após nove horas de esforço, um franzino bebezinho, em meio aos trapos imundos de uma barraca improvisada, numa remota aldeia na região central da Somália. Mesmo fraca e desnutrida, ela abraçou de forma débil o seu bebê, ainda todo melecado em sangue e placenta. Vai se chamar Michelle, pensou, ao perceber que era menina. E então desmaiou, por inanição.  Michelle, ao nascer, nem chegou a chorar. Talvez por não saber ainda do futuro miserável que esperava uma menina naquele fim de mundo. Ainda mais com defeito, só quatro dedos na mão esquerda. Ou talvez não tenha chorado por ter nascido tão fraquinha, coitada. Nascer é foda.

 

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4 comentários em “Hora H – Conto (Juliana Calafange)

  1. Regina Lopes Maciel
    17 de novembro de 2017

    Olá Juliana,
    Confesso que tive certa relutância em ler o conto, em função da característica inicial de um texto longo que não se revela (fila de que?, anfitriã?, contrato?) e que já me levou a pensar na sua intenção de uma reviravolta. Não que esta característica em si seja um problema (pelo contrário), mas pela constância que aparece aqui no site ela está se desgastando e exige mais habilidade para provocar a surpresa.
    No entanto, o texto foi me levando (o que já é um diferencial), a ideia me cativando e ao final achei boa a forma encontrada de fazer a crítica humorada a estas figuras e ao estado atual do nosso país.
    Então, a única sugestão que faço (se é que você me permite) é a de “repensar” o início do texto (haverá outra forma de chegar no resultado final?). Você já demonstrou habilidade para fazê-lo no texto sobre o cigarro, um texto muito bom.
    Abraços
    Regina

  2. Luis Guilherme
    16 de novembro de 2017

    Tarrrrde, Juliana, tudo bem por aí?

    Engraçado, quando comecei a ler, pensei: que mal gosto, escolher o nome do nojento do Feliciano pro personagem do conto.. e quem diria, ein? era dele mesmo que você tava falando! hahahah

    Gostei!

    Por mais que no fim tenha se manifestado o conceito do inferno, minha impressão inicial foi de carma.

    Enfim, o conto é estruturado quase completamente por diálogos, que foram bem construídos e parecem reais.

    A situação é cômica, apesar de intrinsecamente trágica.

    Uma crítica ácida da sociedade que vivemos, representada pela ganância irrefreável de nossos governantes.

    Leitura divertida e ágil. Parabéns!

    • Juliana Calafange
      16 de novembro de 2017

      Valeu, Luis! Que bom que vc se divertiu. Diante de tanta M que o nosso país atravessa, ao menos a gente pode fazer umas piadas, né? E no caso do nosso Presidente, com a aprovação nacional que ele tem, a gente pode fazer piada à vontade, q ninguém vai reclamar q é politicamente incorreto, né? kkk
      Abração!

      • Luis Guilherme
        16 de novembro de 2017

        Kkkkkk sim! Esse ai nao divide opiniões, entao nao tem perigo de virar uma discussao politica aqui hahaha

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Publicado às 15 de novembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .