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Detox Literário.

O homem sem sombra – Poesia (Jefferson Lemos)

Eu perdi a noção do tempo
como o humano que naufragou
no universo de suas emoções
e foi confundido com um astronauta;
todas as suas ações eram sem gravidade
sem amor, sem ódio
sem querer, sem sofrer
cem vezes tentou saltar
de seu próprio abismo
mas não era capaz
de cair em si mesmo.

Cheguei num ponto
onde minha identidade
é vista por fora, e não por dentro
por isso me trato como ele
estou distante até de mim mesmo
o grito pastoso
da minha voz congelada
arranha meus próprios ouvidos.
antes cuspia diamantes
hoje vomito rochas sedimentadas
e cada palavra parece mais longínqua
mesozoica, Jurássica, Cretácea
extinta.

Sou um homem de lata na terra dos homens de ferro
sou um marciano daltônico que se exilou do planeta vermelho
e hoje vive num mundo insosso e marrom
sou, e talvez eu não seja, o símbolo imortal
de uma serpente buscando a própria cauda
ou talvez apenas um cachorro correndo atrás do próprio rabo.
a busca incessante do que não se sabe,
almejando o que não se vê
e tendo o que não se deseja.
eu trago um cigarro
e baforo a fumaça para o céu
na esperança de que ela encontre
um buraco negro capaz de me tragar
e me soprar no espaço
como poeira estelar.
e assim, só assim,
eu serei conhecido
como o primeiro homem
que deixou de ser gente
e virou estrela.

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2 comentários em “O homem sem sombra – Poesia (Jefferson Lemos)

  1. Fil Felix
    18 de novembro de 2017

    Fala, Jeff! Muito bom, adorei. Um poema que traz uma angústia, mas ao mesmo tempo uma violência e vontade de seguir em frente, levantando as questões que sempre nos cercam (principalmente a gente, ligados às criações), de querer sempre alcançar mais e mais, de como nos vemos, somos vistos e como queremos que nos enxergam, esses contrastes que vão se formando na vida. Criou várias metáforas e relações interessantíssimas, como do Astronauta/ Gravidade, do Diamante/ Rochas (indo pra lapidação), as Eras, entre outras, gerando um texto esteticamente bem primoroso, um estilo que curto muito, esse baque exagerado e requintado. Uma narrativa se forma, bastante visual, numa crescente, como quando fala da fumaça subindo e fechando com uma estrela. Parabéns.

  2. Luis Guilherme
    16 de novembro de 2017

    Boa noite, Jefferson, blz?

    Caraca, que bela poesia!
    Eu amo poesia, tenho muita vontade de escrever, mas sei o quanto é difícil transmitir os sentimentos às palavras.

    Voce pareceu ignorar essa dificuldade. Ficou mto bom.

    Uma sensação de nó na garganta e vazio se apoderou de mim durante a leitura, e acabei arrebatado pelo belo desfecho.

    Enfim, desnecessário me prolongar demais. Parabéns! Adorei.

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Publicado às 15 de novembro de 2017 por em Poesias e marcado .