EntreContos

Literatura que desafia.

O Gênesis Revisto (Novo Apóstolo)

DA GÊNESE

No princípio tudo era trevas, um vazio sem início ou fim. Uma terra de formas abstratas e desordenadas, um abismo cujo interior refletia o desespero pela criação, totalmente desguarnecido, cercado de águas negras e turvas. Uma pintura sem moldura, solta. Foi quando viu-se Sua silhueta, uma bocarra abriu-se na escuridão e liberou um grito ensurdecedor, porém mudo, na forma de um feixe de luz. Um rugido celestial que iluminou e repartiu todo o espaço.

Dessa claridade, Deus chamou dia. De suas sombras, chamou noite. O grande firmamento sobre o abismo, colocou o nome céu. Da convergência das águas, os mares. À seca, terra. E em Sua vaidade, viu que era bom. O rugido perdurou por seis dias. Cresceram as mais diversas plantas sobre a superfície plana da terra. Uma luminária de labaredas incandescentes para orientar o dia, enquanto uma outra, menor e álgida, para a noite. Explosões de luz, ainda menores, para as estrelas.

Monstros dominaram a imensidão dos mares, cada qual à sua maneira. Nas profundezas, os mais insones, de olhos vidrados e cegos de nascença, com lâminas afiadas no lugar de dentes. Sobre eles, as criaturas tentaculares, de forma incongruente e protuberâncias pegajosas no lugar dos membros. E sobre elas, os mais afortunados, de escamas finas e nadadeiras. No céu, as espécies voadoras. Dos bicos pequenos aos enormes, regurgitando alimento às crias e expelindo ovos, com os corpos cobertos de plumas multicores. As feras terrestres, caminhando sobre quatro patas, uns de pele rústica e fria, outros peludos e desconfiados.

E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. E na terra fofa e adubada formaram-se ossos, carne, tecidos, ligamentos e pele, uma mão surgiu dela, logo depois um rosto afoito por ar, pelo fôlego da vida, retirando-se por completo do solo. Um corpo nu, sujo e perdido. Adão, à semelhança dos celestiais. Incumbido a comandar toda a terra e todo o ser que sobre ela arrastava-se, mas mais vulnerável. No sétimo dia o rugido cessou.

 

DA SOLIDÃO DO HOMEM

Adão nunca viu a face de Deus, apenas ouvia Sua voz, áspera e carregada, por vezes sobreposta. Como um eco acelerado. Sentia-se vigiado a todo instante, porém não o incomodava. Vivia no Éden, em total liberdade. Comia o fruto das mais deliciosas árvores. Bebia a água dos quatro rios que regavam o jardim. Sempre o suficiente, nunca em excesso. Prevenindo a fome e a sede. Havia no centro do Éden uma enorme árvore, cujos frutos brotavam de seu tronco, pequenas esferas escuras e opacas, sendo a única proibição de Deus para Adão. Ouviu do próprio Senhor: mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás, porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

A pele macia de Adão, de pelagem fina e acastanhada, se distinguia da dos demais animais. Seus olhos eram grandes feito jabuticabas, negros como a noite, observando atento todas as criaturas de Deus. Em caminhada ao longo do rio Pisom, seguindo seu ritual diário de reconhecimento de toda a terra e seus habitantes, admirou-se ao ver enormes pepitas douradas nas margens do rio, distraindo-se. Foi quando ouviu seu nome. Adão… A voz sussurrava em seu pescoço. Virou-se, mas nada encontrou. Adão… a voz sussurrou novamente, dessa vez mais próxima, mais adocicada, mas ainda ácida e aguda. Um som agridoce, falhado. Mirou os céus, fitando os anjos em suas armaduras angelicais, guardando o firmamento. Foi quando deu por fé de uma caverna logo à frente, onde o rio virava e criava uma pequena depressão sobre a terra.

Adão… Adão… Adão… O homem não apenas ouviu, mas sentiu o chamado do desconhecido vindo da caverna. Da voz morta e penetrante que o convidava, áspera como lixa. Se aproximou o suficiente para enxergar seu vulto. Uma criatura bípede, podia ter certeza. O dorso amplo, as pernas achatadas e curvadas, os braços compridos e desproporcionais ao restante do corpo. A cabeça, como dos lagartos que corriam sobre as dunas de areia. Chifres subiam-lhe da fronte, alongados. Um vulto agachado no fundo da caverna, cujos olhos brilhavam como dos felinos, refletindo a luz do lado de fora, as pupilas grandes e dilatadas.

Quem és?, questionou Adão. Nunca a vires por aqui. Por que me chamas? A criatura moveu-se um tanto em direção à luz, deixando iluminar suas escamas granulares que cobriam-lhe a pele. Ah, Adão… Ela respondeu, a voz ainda áspera, como vinda diretamente das fossas marinhas. Sou tantas coisas, possuo tantos nomes… Samael, Lúcifer, Satanás… Tantos outros hei de ter… Belzebu, Diabo, Baphomet…

Por que mentes para mim? Cada criatura que por sobre a terra caminha, sob o mar mergulha ou que pelo firmamento levanta voo, de mim receberam vossos nomes. Pois vejo que estás perdida. Confusa. Adão, cândido de nascença imaculada, considerou o encontro uma surpresa. Não apenas encontrou uma nova criatura, como também uma que comunicava-se assim como ele. Pois saibas que não estou, meu homem. A bem da verdade, trago-lhe luz para clarear vossos pensamentos. Percebes que não és o único a falar a fala sagrada. Não sente-se só? Cercado de tanto e de todos, mas só perante Deus? Cuja face nunca viras, cujo caloroso abraço nunca sentires?

Pois vejo que és astuta. Tenho as criaturas de nosso Pai como companhia. Nada me falta, nem faltará. Darei-lhe o nome de Serpente, aquela que me confunde. Um passo à frente e Adão se aproximou mais da criatura, podendo enxergá-la um pouco melhor, o pretume das escamas, as pupilas afunilando feito navalha afiada. Dos animais que nomeastes, quais vivem só? Digo de tu, Adão. E entrando mais fundo na caverna, num caminhar cambaleante e úmido, a criatura sumiu. Mas não sem antes dar seu último aviso, numa palavra seca e sensual. Peça…

Retornando ao Éden pelo rio Pisom, Adão parou para admirar seu próprio reflexo nas águas. Sentou à margem, passando os dedos sobre a imagem refletida, criando pequenas ondas. Alguém como eu, pensava, à minha imagem. Dos céus, a voz carregada e sobreposta de Deus fez-se ecoar: que te afliges, filho? E dentro de seu corpo oco, Adão sentiu-se casca de árvore, um vazio tomando conta de seus sentimentos e emoções. Sinto-me só, Pai.

 

DO RITUAL DE SANGUE

Percebendo Deus que Adão sentia-se só, fez com que o homem caísse em sono profundo. À sombra de um jacarandá, ele deitou e sonhou. O anjo Ydsal foi enviado pelo Senhor, com a tarefa sagrada de retirar-lhe uma costela, matéria-prima da qual criaria sua companheira. Ydsal nunca pusera os pés na terra e perdeu alguns instantes admirando as criações feitas pelo Pai. Agachou-se para observar o homem nu à sua frente, reparando nos detalhes da pele, na textura, em sua cor. O anjo, assim como as aves do céu, também era possuidor de asas. Dois pares no total. Mas no lugar de penas, feitas de um couro grosso e rústico em seus quatro apêndices. Caminhava como Adão, porém um bico curvo e estreito surgia da região onde seria seu rosto, com dois pequenos globos dourados que serviam-lhe de visor. Na extensão dos braços, garras. Ao parar para analisar Adão, Ydsal lembrou dos irmãos de classes superiores, dos serafins e querubins. Lembrou do Caído. E do exército angelical que levou junto a ele. Percebeu o quanto de seu último aviso nos céus estava se cumprindo, a preferência do Pai para com outros.

Ydsal desceu os olhos sobre o sexo do homem, tão selvagem e brutal. A classe angelical era essencialmente completa, a reprodução parte daqueles que são virtualmente incompletos. Pois há a necessidade de completar-se. Unir-se. Os animais e plantas, em sua completude, viviam cada qual sua própria vida, seu próprio destino. Por que, pensou Ydsal, o Senhor daria atenção para um ser tão incompleto e delicado, tão vulnerável e vazio, tão assustado e asqueroso? Por que faria suas vontades tão egocêntricas? Para o anjo, Adão era uma mancha escarlate sobre o verde do Éden. Algo que não compreendia, mas que mexia com seu interior. Sua aparência, tão semelhante às hordas de querubins. Aos anjos superiores. Por um momento, imaginou o antigo Caído ali, em seu lugar.

Fincando a garra direita na lateral do dorso de Adão, o anjo Ydsal fez uma pequena incisão, rasgando-lhe a pele em direção aos quadris, abrindo no corpo um corte grande o suficiente para dois punhos atravessá-lo. Exagero? Talvez. E como se mergulhando a mão no mar a fim de capturar uma concha, o ser celestial revirou as entranhas do homem, sangue vermelho transbordando pelas laterais, ouviu-se um estalo seco e Ydsal retirou uma costela frágil de lá de dentro. Apesar de ter vivido toda sua existência às margens do abismo e sobre a terra, conhecia o ciclo de vida das criaturas que o Senhor criara. Sabia que, se não fechasse o corte, Adão morreria ali mesmo, devido à perda de sangue, em sono profundo. Sabia, também, que não era certo.

Levou as garras ensanguentadas ao bico, de onde aflorou uma língua, lambendo o líquido viscoso. Queria sentir-se como Adão, dar-se por notado, experimentar a mortalidade, o sexo, sangue quente. Mas sabia que não era certo. Com a garra esquerda, tocou o ferimento, que instantaneamente fechou-se. Esticou suas quatro asas de couro cru e levantou voo, em direção ao trono do Pai.

Da costela de Adão, Deus criou a mulher. Não da mesma forma de antes, germinado sob a terra, mas diferente. Replicou ossos e pele, mas os diferenciou na essência. Adão a chamou de Eva, segurou-lhe a mão e partiu em direção ao rio Giom, animado para mostrar-lhe toda a criação. Todos os animais que conhecera e nomeou, todas as frutas que podiam desfrutar. Não estava mais sozinho. E Eva, de cabeleira farta, recém-criada, compartilhava de tamanha empolgação. Saíram ambos nus pelo Éden, mas não se envergonhavam.

 

DOS PRAZERES DA SERPENTE

Adão e Eva passavam as manhãs caminhando às margens dos rios do Éden, ele apresentou todo o ambiente à ela, sempre eufórica pelo novo. Enquanto Adão, mais racional e maduro, analisava as situações com determinada distância, Eva não continha sua animação, seu desejo pelo desconhecido, por aprender e evoluir. À tarde, subiam pelos relevos do jardim, colhendo e comendo os frutos das árvores. Adão mostrou-lhe a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

Questionadora, Eva imaginou tratar-se de fruto venenoso. Por qual motivo sua ingestão seria reprimida? Já havia notado, é verdade, que determinados alimentos faziam mal àqueles que o comessem. Mas para sua surpresa, Adão, até então grande conhecedor do Éden, nomeador de todas as criaturas, não sabia a resposta. Simplesmente não podiam comer.

Os dois se aproximaram das árvores, admirando sua exoticidade. Enquanto a primeira, de folhas douradas e frutos minúsculos que brotavam da ponta de seus galhos, a outra possuía um ar mais sombrio. A Árvore do Conhecimento, de copa púrpura e tronco negro, cujos frutos brotavam da própria casca, como bolotas azuladas, chamava mais a atenção. Por detrás da árvore, Adão ouviu uma voz conhecida, profunda. Pois, Eva, que o fruto destas árvores é tão tóxico quanto as maçãs, as peras ou as uvas podem ser. A criatura de multinomes, ora Satanás ou Samael, surgiu por trás do tronco, apenas a cabeça à mostra, triangular, escamas reluzentes, os olhos de meia lua, duas protuberâncias saindo de sua testa. Deixava escapar dedos com ventosas nas pontas, agarrando a lateral da árvore, enquanto uma cauda acinzentada feito chicote balançava pesada no chão.

À luz do dia, Adão não deixou de reconhecer estranha figura. Tú és a serpente, não? Lembro de ti, na caverna. Eva, curiosa, não deixaria o momento propício esvair-se. Conte-me, serpente. Se não é tóxica, se não causa o mal, por que desta árvore não podemos comer? Por que  Deus a criaria se não pudesse ser desfrutada? E num sorriso malicioso, exalando enxofre de eras e demonstrando a serenidade e o conhecimento de um grande sábio, a serpente entrelaçou-se mais ao tronco, iniciando seu discurso. Ah, minha pequena Eva, minha Pandora… Vosso Pai proíbes que destes frutos possam comer porque, assim, tornar-se-ão, de fato, à sua semelhança. Serão como Deus. Descobrirão o prazer da criação, prazer este sempre proibido. Até quando pensam em vagar a esmo por estas terras? Comam e verão que não minto.

Pois mente, Adão em surto repentino, o Senhor disse-me que, se dessa árvore comermos, na certa morreremos!

Ah! Pois coma! Verás que não minto, posso garantir, nem tóxico e nem assassinos tais frutos são. Eva, tentada pela curiosidade, arrancou uma das bolotas do tronco da árvore. Eva, pare! Mas de nada adiantou. Adão, a serpente está certa, não há motivos para tudo isso. Se fosse assim tão perigosa, certamente esta árvore nem aqui poderia ficar. E se aqui está, por qual motivo não podemos comer? E numa bocada só, mandou o fruto pra dentro, mastigando-o com gosto. Vês? É até gostoso! Experimente! E arrancando outra bolota, entregou-a a Adão, que retumbou a princípio, mas que também cedeu ao desejo e à curiosidade.

E, como prenunciado pela serpente, não morreram. Pelo contrário, sentiram o sangue pulsar mais forte, as veias e as pupilas dilatarem-se, o calor subindo-lhes o corpo e, pela primeira vez, deram conta do vigor um do outro, do físico, da carne. Compreenderam que estavam nus, que eram diferentes, apesar de semelhantes. Vosso Pai, Deus, os fez à semelhança dos anjos, dos celestiais. Mas os privaram do prazer, algo que não possuem, que nem os animais possuem, algo que é só de vocês. Pois estão acima deles. A força do desejo, que é a força do Homem, única e intransponível. Nem bem, nem mal. Apenas o é.

Os feromônios pairando pelo ar, ambos tocaram-se pela primeira vez. Um toque quente, tímido, mas acalantado. Os pelos do corpo eriçaram. O sangue, voltando a pulsar. O desejo percorrendo pelas veias. Esse é o conhecimento do bem e do mal? Pensou Adão. Enquanto, ao fundo, os olhos da serpente voltavam a afunilar-se como navalhas. O céu, antes de um azul celeste e límpido, passou a pretejar, grandes nuvens carregadas tomando forma, relâmpagos clareando de vez e outra. Deitados sobre a grama, à sombra da grande Árvore, Adão e Eva entrelaçaram-se feito ofídios, a cauda da serpente a enrolarem os corpos, numa mescla de vozes, corpos, texturas e prazeres. Ao estalo abafado por um trovão, a seiva e o sangue escorreram pelas pernas dos consortes, pingando sobre a terra fértil do Éden. Um novo estrondo ecoou no Paraíso e o solo, que serviu de leito ao pecado, perdeu seu vigor, suas plantas murcharam, sua grama ressecou e todas as árvores ao redor, dos pessegueiros às amoreiras, com exceção das duas antes proibidas, secaram. As copas, de magníficas e robustas, entristeceram e choraram um choro fúnebre.

O mundo mergulhado em escuridão. A terra, o mar e o céu, as criações de Deus, na penumbra. Do gozo sagrado à vergonha estampada nas faces de Adão e Eva que, constrangidos, cobriram-se com as folhas secas e caídas. Ouvem o riso de Satanás, a serpente. E a voz de Deus, profunda e sobreposta, procurando-os. No temor pelo que fizeram, fugiram nas sombras.

 

DO CASTIGO DA CARNE

Ambos em pecado, correram ao lado do rio Eufrates. Um rastro de morte e destruição deixado para trás. Pisam sobre a água gelada, caminhando em meio ao rio, desnorteados. Onde estais? Ouviram. As passadas foram ficando cada vez mais pesadas, lentas e carregadas. Lama. Os corpos, outra vez, sujos. Apesar da penumbra, podia-se ver os peixes boiando, mortos; os dois no lamaçal. E percebendo a inutilidade de fugir, de escapar do que não é prisão, retornaram à terra firme, carregando nas costas o peso da morte. O pecado a corromper tudo. O pecado, esse, diga-se, obscuro e secreto. Mais que prazer pelo que fizeram: culpa. Teriam perdão?

Exaustos, Adão e Eva sentaram e aguardaram a sentença final. O som de uma trombeta perfurou os céus. Ouviram algo que os rodeavam, o farfalhar de folhas secas no chão, um ranger de dentes.

Ouvi a tua voz no jardim e tive medo, porque estava nu. E escondi-me. Um diálogo às escuras tomou forma, vozes no abismo da ignorância. Ao longe, uma  pequena abertura de onde via-se um pouco de claridade, como se trancafiados. Nessa claridade, em contraste, uma silhueta já conhecida e escamosa. Quem te mostrou que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses? Ouviu-se outro estrondo de trombeta. A mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi. Adão, em prantos e arrependido, praticamente cego na escuridão, buscava surtir no Pai a compreensão.

Então Deus questionou Eva, que é isto que fizeste? E assim como Adão, ela ainda mais cega na escuridão, porém firme e comprometida com sua descoberta, não omitiu fatos. A serpente enganou-me, e eu comi. Homem e Mulher, criados por Ele e em Sua semelhança. Falhos. A serpente, que assistira até então calada, contorceu-se de dor. Gritou muitos gritos antigos, vozes seculares, uma por cima da outra. Um coral de vozes de sofrimento e amargura, que ecoaram na caverna improvisada. Uma legião de vozes contorcidas, amaldiçoada por Deus. Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo. Sobre o teu ventre andarás e pó comerás todos os dias da tua vida.

A serpente, em espasmos, abriu sua bocarra e algo lustroso e cilíndrico apontou de sua garganta, como um verme, uma longa língua escamosa que, ao deixar toda a antiga pele pra trás, murcha e degenerada no chão, rastejou-se sobre si mesma e perdeu-se de vista no horizonte. Ao amaldiçoar sua própria criação, lançou a inimizade sobre Adão e Eva. À Adão, as fúrias da terra e as marcas do corpo; à Eva, a perpetuação do sangue e das dores da concepção.

A voz de Deus, assim como o farfalhar das folhas secas e o ranger de dentes, cessou. No lugar, o estridular das cigarras e dos grilos, o coaxar dos sapos e o zumbido dos besouros. O sussurrar das baratas no ouvido dos dois, que os obrigaram a correr em direção à claridade, saindo da caverna e coçando todo o corpo. Não estavam mais no Éden, disso tinham certeza, porém não podiam pensar com clareza. As súplicas por misericórdia de nada adiantaram. Um morro e diversas ondulações estendiam-se da entrada da caverna até onde os olhos podiam ver. Alguns animais e árvores, em lugares distintos, sem ordem. Correram e, pela primeira vez, sentiram frio e fome. O estômago apertou de maneira que caíram no chão, levando as mãos à barriga. Tremeram.

Ovelhas que por ali divagavam, desabaram mortas e sua pele, aveludada e alva, desgrudaram do corpo, deixando à mostra a pele vermelha em brasa. As árvores tomaram a forma dourada, com os frutos crescendo rapidamente e despencando da ponta dos galhos. Ouviram, pela última vez, a voz sobreposta do Pai, em despedida lúgubre e apoteótica. Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal. Ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente.

Feito feras irracionais, agindo pelo instinto jamais tido, devoraram os frutos caídos e cobriram-se com a lã das ovelhas. Longe do Éden, feito bestas condenadas. Escorraçados, sujos e humilhados. Mas não mais na sombra da ignorância e sim à luz do conhecimento. Condenados.

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20 comentários em “O Gênesis Revisto (Novo Apóstolo)

  1. Luis Guilherme
    21 de outubro de 2017

    Ola, amigo, tudo bem?

    Olha, sendo sincero, nao consigo ver seu conto como terror. Veja bem: o conto ta mto bom. A escrita eh boa, fluida e instigante.

    Nao conheço a biblia, conheço pouquissimo da historia de adao e eva, entao nao sei dizer quanto da historia eh igual a origina e qto eh releitura, porem, a forma como voce contou foi bem interessante.

    Gostei da descriçao do diabo. Alias, as descriçoes sao o ponto alto do conto, vc eh excelente nelas!

    Dito tudo isto, volto ao ponto inicial: nao sei nadinha de terror no conto. Isso eh uma pena, pois nao da pra ignorar o tema do desafio. Fiquei o tempo todo naquela expectativa do terror surgindo, achei q fosse ter uma super mudança aterrorizante da historia original.

    Enfim, belo conto, mas que peca no aspecto mais importante, o tema.

    Boa sorte e parabens!

  2. Antonio Stegues Batista
    20 de outubro de 2017

    ENREDO: Versão do Gênese, um dos livros da Bíblia. Gostei, foi bem descrito com nova roupagem.

    PERSONAGENS: Muito bons, corresponde a força que devem ter.

    ESCRITA: Muito boa, sem exagero, frases perfeitas, palavras bem calculadas, lógicas e correspondente à história. A estrutura é igual a da Bíblia, com uma descrição moderna e bem dramática.

    TERROR: Não vi nem senti. Infelizmente um texto sobre passagem da Bíblia, achei meio estranho entre outros tantos subtemas de terror. A história e a mesma, só que contada com outras palavras.

  3. Fheluany Nogueira
    20 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – O conto é o que título e pseudônimo sugerem: uma paráfrase sob a ótica de um apóstolo do século XXI, com introdução de novos/antigos conhecimentos de mitologia, ciência, política e mais.

    Escrita e revisão – Linguagem grandiloquente que simula o estilo pomposo de algumas traduções bíblicas. Vamos notando a grandeza das palavras exatas, essenciais tão afastadas do discurso cotidiano, riquezas conotativas, abrindo para o leitor imenso campo de recriação, através das sugestões apresentadas. Muito bom trabalho.
    De outro lado, ocorrem deslizes gramaticais importantes que, talvez, em textos de outra natureza, passassem despercebidos: posição do pronome átono (“Não sente-se só?,” Darei-lhe o nome de Serpente), uso da crase (“ à ela”, “À Adão”), mistura de tempos, modos e pessoas verbais, concordância (já citados).

    Terror e emoção – O terror está, para mim, no texto original. Aqui, tudo muito previsível. Gostei muito da premissa e da releitura, da linguagem e mesmo da inclusão de novos elementos, como a cena da criação da mulher. É muito difícil trabalhar em cima de um texto com milhões de interpretações através do tempo e espaço. Parabéns pela ousadia e sucesso. Abraços.

  4. werneck2017
    20 de outubro de 2017

    Olá,

    Neste texto, fica evidente a qualidade elevada da linguagem ao recriar o Gêneses com uma pitada de horror. Um ou outro erro já relatado pelos colegas não tiram o brilho da escrita segura. Chamo a atenção apenas para a sentença abaixo:

    Enquanto a primeira, de folhas douradas e frutos minúsculos que brotavam da ponta de seus galhos, a outra possuía um ar mais sombrio.

    Senti falta apenas de uma visão com um ponto de vista mais pessoal do autor. No trecho :

    Replicou ossos e pele, mas os diferenciou na essência. No qual ele faz referência à mulher, achei que caberia muito mais, linguagem, a resistência para dores, a vaidade. No entanto, o autor só vai retomar às diferenças no parágrafo abaixo, aludindo à animação, à curiosidade e a vontade de evoluir (o que não reputo como sendo exclusiva da mulher) e que poderia ter gerado comentários interessantes. No mais, muito bom. Parabéns pela elegância da linguagem.

  5. Rafael Soler
    19 de outubro de 2017

    Gostei do texto. Muito bem escrito e com um excelente ritmo. Mas embora o conceito da expulsão do paraíso ser aterrador, não achei que foi um conto propriamente de terror.
    Acho que o(a) autor(a) poderia ter ido mais fundo na história e distorcido algumas coisas a mais, para criar uma sensação de horror maior.
    E como foi uma releitura de uma história bem conhecida, o texto se tornou bem previsível. Se tivesse um final com plot twist ou algo inesperado, teria um impacto mais legal.

    É um bom texto, mas poderia ser bem mais impactante.

    🙂

  6. Nelson Freiria
    18 de outubro de 2017

    Não consegui, infelizmente, encaixar o conto dentro do tema do desafio. Uma pena, pois achei ele mto bom.

    A partir do último parágrafo do ‘pacto de sangue’, senti uma diferença grande na maneira de narrar em relação aos parágrafos anteriores, teria sido esse um recurso do autor(a) para marcar a narrativa com a chegada de eva? Se sim, achei incrível e mto bem feito. Se não, foi um acaso formidável.

    Além da sensação de ausência de terror, o conto só perde no quesito originalidade, não só pq é uma história contada e recontada em diferentes formatos nesses sei lá quantos mil anos, mas pq o autor não precisou se dar ao trabalho de criar algo “próprio” para o desafio. É como pegar um atalho…

  7. Lucas Maziero
    17 de outubro de 2017

    Realmente, trata-se de um Gênesis revisto, e quase ao pé da letra. Cheguei a pensar que o conto seguiria a linha de uma Fanfic, ou quem sabe a de uma história alternativa, onde novos elementos são inseridos, o que aconteceu deixaria de acontecer para um novo acontecimento surgir; mas neste conto não há nada de inovador, é só um mito recontado.

    Veja bem, não estou desmerecendo este trabalho, apenas que, na minha visão, a ideia deste conto funcionaria se a Gênese se restringisse apenas ao pano de fundo, e a ação, e pelo menos grande parte dos acontecimentos, fossem diferentes do que nos foi contado pelo próprio primeiro livro do Pentateuco e por outras releituras. Em resumo, algo novo do que conhecemos, principalmente, como seria de se esperar neste desafio, algo que fosse terror.

    Então, vamos ignorar tudo isso que falei, e vamos nos focar no conto em si:

    Em sua quase totalidade está bem escrito, porém encontrei alguns erros de colocação pronominal e concordância verbal e com o sujeito do verbo. Alguns exemplos (tem outros parecidos):

    Foi quando viu-se…  (O advérbio pede o pronome para próximo de si, que nada mais é a próclise)
    Foi quando se viu…

    .Se aproximou  (Iniciando a frase, o verbo deve ser enclítico, a não ser que for fala do personagem, aí se admite o ‘se aproximou’)
    .Aproximou-se

    ‘Uma que comunicava-se’ e ‘não sente-se’  (mais uma vez, o que e o não chamam para perto a partícula ‘se´)

    Quem és?, questionou Adão. Nunca a vires por aqui
    Quem és?, questionou Adão. Nunca a viste (pois ele tratou a serpente por tu) por aqui

    Cuja face nunca viras (pretérito mais que perfeito), cujo caloroso abraço nunca sentires (infinitivo pessoal, errado)?
    Cuja face nunca viras, cujo caloroso abraço nunca sentiras?

    Bem, como eu havia dito num dos primeiros comentários deste desafio, não vou ficar à cata de erros, pois ninguém leva em consideração e é chato esse negócio de corrigir. Apenas dessa vez apontei como forma de prestar uma ajuda ao autor(a).

    Seguindo, ignorando o terror, ignorando que é uma releitura ao pé da letra, ignorando alguns errinhos, não posso dizer que o conto esteja ruim, só não gostei muito. E para não dizer que não tem algo novo, a vinda do anjo Ydsal para o ritual de sangue, sim, merece parabéns, uma cena bem narrada.

    Parabéns!

    • Novo Apóstolo
      17 de outubro de 2017

      Que pena que não gostou tanto assim do conto, mas obrigado pelos apontamentos gramaticais. Toda essa coisa de Tu e cia. é um tanto complicado quando não se tem o costume de usar.

      De fato trata-se de uma releitura da criação do mundo e expulsão dos humanos do Paraíso, que pra mim é um pequeno conto de horror na Bíblia (são os três primeiros capítulos só), mas tentei criar a minha versão, sem fugir do que realmente acontece. Cenas como a do anjo Ydsal, Adão conhecendo a serpente antes, explorar os rios (que só são citados), a primeira fuga, abordar a fala de Deus “a nossa semelhança” (como o Selga apontou, foi a primeira coisa que percebi ao ler: quem é nós?), a ideia da caverna de Platão etc não são mostrados no livro sagrado, então não vejo que seja ao pé da letra. Em relação ao gênero, que mexe o emotivo, é difícil pois se trata de percepção. Onde eu vi terror, na tirania, maldição e desmembramento da própria criação; muitos viram a beleza da gênese, da misericórdia e dos princípios de certo e errado.

      • Lucas Maziero
        18 de outubro de 2017

        De fato, a expulsão do paraíso deve ter sido o mais terrífico acontecimento para o começo da humanidade, e a partir daí nasceu o medo.

        Caro autor, também não vamos levar ao pé da letra o pé da letra que mencionei.

        Como eu disse, e como você também disse: De fato trata-se de uma releitura da criação do mundo… E como eu disse, pela minha opinião, eu gostaria que o conto tivesse tomado um rumo diferente, novos acontecimentos…

        Mas cá estamos. Valeu pelas informações extra-oficiais, e um abração!

  8. Eduardo Selga
    17 de outubro de 2017

    É um intertexto com o mito cristão da criação do mundo, expresso no Gênesis bíblico. Como narrativa está muito bem feita, constrói-se uma cadência mais ou menos uníssona do início ao fim. No entanto, é um intertexto parafrásico, ou seja, o eixo da narrativa matriz não é alterado e mesmo certos detalhes se repetem. Houve, sim, uma poetização e estetização das passagens, feito de maneira bem competente, como “Uma pintura sem moldura, solta”, falando da Terra primitiva, e “[…] liberou um grito ensurdecedor, porém mudo […]”, uma surpreendente antítese.

    Será, entretanto, terror? Supondo que o presente conto fosse inserido noutro contexto, não num Desafio como este, a leitura desencadeara terror na maioria dos leitores? Acredito que não, na medida em que o discurso bíblico, que faz parte da fundação do Ocidente e das sociedades ditas civilizadas (ainda que “civilização” significasse trucidar povos originários em nome de Deus), se insere nos sujeitos desde a mais tenra idade e, por esse meio, se naturaliza. E a interpretação que nos é legada pela família e sociedade em geral, não se relaciona ao terror. Assim, se o presente conto não estivesse num ambiente em que todos os textos se pretendem de terror, poucos o enxergariam assim, a despeito de sua qualidade.

    Alguns mitos bíblicos são arquétipos, ou seja, modelos narrativos que acompanham a humanidade desde sempre e se reproduzem nas mais variadas culturas de diversas maneiras. Nesse sentido, considerei muito feliz a referências de outros mitos, Narciso (“Retornando ao Éden pelo rio Pisom, Adão parou para admirar seu próprio reflexo nas águas”) e Pandora (“Ah, minha pequena Eva, minha Pandora […]”), também considerada a primeira mulher existente, na mitologia grega.

    Há um detalhe muito curioso: vez por outra pequenos trechos narrativos em segunda pessoa do plural, que pode apontar para a natureza do portador do discurso. Tentando explicar melhor, temos “E disse Deus: façamos o homem à NOSSA imagem, conforme a NOSSA semelhança”. Se Deus fala “nossa”, refere-se a ele e a mais quem? As outras duas pessoas da Trindade? Não está posto, e exatamente por isso ficou muito bom.

    Outro exemplo. Adão diz à serpente: “Pois vejo que és astuta. Tenho as criaturas de NOSSO Pai como companhia”. Ou seja, Deus também é criador do Mal, ao menos relativamente, uma ideia contrária ao catecismo cristão.

    Mais um: “Eis que o homem é como um de NÓS, sabendo o bem e o mal”, diz a voz do Pai, pelo que entendi da narrativa. NÓS quem? Torno a dizer, essa ocultação ficou muito interessante.

    Apesar de haver diálogos, não há a marcação deles por travessão ou parágrafo, e sim por itálico. Não sei se foi essa a intenção autoral, mas achei pertinente porque de certa maneira tira a individualidade de Adão, Eva, e mesmo de Deus. É como se fosse um caldeirão discursivo o mundo recém criado, em que, como numa casa mal assombrada, de vez em quanto identifica-se uma ou outra voz.

    Em “[…] correram ao lado do rio Eufrates. Um rastro de morte e destruição deixado para trás. Pisam sobre a água gelada […]” há a mistura do pretérito e do presente num mesmo lapso temporal.

    Em “Dessa claridade, Deus chamou dia” entendo devesse ser A ESSA CLARIDADE.

    Em “Da convergência das águas, os mares” entendo ser A ESSA CONVERGÊNCIA.

    Em “Nunca a vires por aqui. Por que me chamas?” o subjuntivo VIRES deveria ser o pretérito perfeito do indicativo VISTE.

  9. Ana Maria Monteiro
    17 de outubro de 2017

    Olá, Novo Apóstolo. Então vou comentar aquele que, até ao momento considero o melhor conto do desafio? reúne dois temas de que mantenho longe pelo mesmo motivo: tenho-lhes horror. Nunca li a Bíblia, excepto um trecho ou outro em momentos diversos, e tenho uma noção muito geral do seu conteúdo que considero do mais puro terror.
    Antes de me alongar mais sobre o tema, comento a escrita: primorosa. Notei alguns deslizes, particularmente nos tratamentos misturados por tu e por você e também na forma de falar e conjugar verbos da serpente. Mas talvez tenha sido propósito seu, é possível que a Bíblia esteja assim mal escrita, não sei. Uma ou outra crase a mais ou em falta (disto já não posso culpar o livro), não foram suficientes para toldar o brilho da narrativa.
    Destaco três frases de que gostei particularmente: “A força do desejo, que é a força do Homem, única e intransponível. Nem bem, nem mal. Apenas o é.”, este apenas o é celebrando a mais pura das verdades; “percebendo a inutilidade de fugir, de escapar do que não é prisão”, esta constatação que não imagino como poderia ser mais bem feita; e “Escorraçados, sujos e humilhados. Mas não mais na sombra da ignorância e sim à luz do conhecimento. Condenados.” a última frase, magnífica.
    Sim, estamos condenados, havendo a lamentar apenas o facto de muitos permanecerem na sombra da ignorância.
    Não sei. Acho que nem devia dizer mais nada.
    Lendo os comentários, interrogo-me como houve colegas que não acharam o seu conto adequado ao tema. Haverá coisa mais terrífica que essa promessa de expiação com que todas as religiões do mundo assombram as almas dos seus fieis? Haverá algo mais terrível que a suposta vingança divina? Deus, o vingador, o executor das sentenças macabras, o criador do próprio mal, o que brincou com a inocência das suas criaturas oferecendo-lhes a porcaria da árvore e prevenindo para que dela não comessem? Se era para não comerem, não a colocasse lá! E muito menos chamasse a atenção afirmando que era proibida. Todos os pais déspotas deste mundo devem sentir-se perfeitamente bem na sua pele com estas leituras e crenças. De igual modo, todos os ditadores se encontram justificados; todos os carrascos devem experimentar a sensação de cumprir uma missão divina.
    Não, não vou dizer mais nada. Não quero criar inimigos (e por esta altura, decerto já arranjei alguns por “atrever-me” a falar deste modo). Estou condenada, bem o sei, mas não preciso de maior carga que a que transporto.
    Para mim é o melhor conto do desafio até ao momento. E o de mais puro terror.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  10. Andre Brizola
    16 de outubro de 2017

    Salve, Novo!

    Meu, gostei demais do conto. Muito mesmo. O texto ficou bonito e condizente que o original. Praticamente não há deslizes técnicos, e eu li de uma vez, praticamente sem olhar para o lado (o que é bastante significativo, pra mim, uma vez que o fiz durante o horário de almoço, no restaurante).
    Minha única crítica é com relação á opção de seguir os acontecimentos conforme foram descritos no Gênesis. Os diálogos ficaram legais, as descrições são todas palpáveis, até, mas no final, é um enredo já conhecido, com o grande terror contido em um evento que já sabemos que vai acontecer desde o início.
    Se é terror ou não, acho que vai ser uma questão de interpretação. É difícil de sentir o terror se já sabemos de antemão os acontecimentos. Por outro lado, o texto é ágil o suficiente para conseguir incutir no leitor aquela tensão, aquele arrepio, tradicional de um bom conto de terror.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  11. Regina Ruth Rincon Caires
    15 de outubro de 2017

    Que domínio de linguagem! Que capacidade de “brincar” com as palavras de maneira fluente, sem qualquer esforço! Uma narrativa perfeita, conhecimento total do assunto e do rumo a ser dado. Não senti terror, senti medo, vi ameaça, angústia, culpa. Trata-se de uma escrita elevada, fora do padrão corriqueiro. Não achei leitura fácil. Ao leitor que nada entende ou conhece desta passagem do A.T., fica difícil se conciliar com a narrativa. Se a leitura caiu no meu gosto ou não, pouco importa. Quero apenas enaltecer a escrita elegante, o zelo ao construir cada frase, a escrita valiosa. Parabéns, autor! Um trabalho admirável!

    Boa sorte!

    Abraços…

  12. Paula Giannini
    15 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    É engraçado como, quando nos afastamos da bagagem cultural, social ou política da bíblia, e lemos uma “recriação” de uma de suas partes, conseguimos apreciar de outro modo um de seus aspectos menos explorados “o literário”. Talvez não seja isso, quem sabe o modo como vi seu conto se deva ao momento em que o leio, já mais velha e longe das aulas de catecismo.

    Seu conto é, inegavelmente, muito bem escrito e a passagem da criação da mulher, ou melhor, do anjo retirando sua matéria prima para a criação divina do ser feminino é digna de nota.

    Concordo plenamente com o autor quando sugere que a criação do universos e seus seres seja algo terrível e assustador. A premissa é perfeita. A criação enfocada do viés filosófico é tão assustadora quanto. O(a) autor(a) nos convida aqui a espiar uma das grandes questões da humanidade, mostrando-nos a gênesis tal qual ela se apresenta no original, pintadas no entanto, com a pena de um artista (não que a original não o seja).

    No entanto, como leitora, gostaria de tecer algumas reflexões. Confesso que senti uma certa falta de uma espécie de ponto de vista do autor, inserido no contexto. Me explico, o título me propôs uma “recriação” da passagem e, em minha cabeça (entenda que esse é o meu ponto de vista e em nada desmerece o seu belíssimo texto) a tal recriação iria além de uma abordagem estética da coisa em si.

    A Gênesis parece nos contar uma bela história a fim de explicar os motivos do sofrimento e da dor humanos. Os seres desobedeceram Deus e foram expulsos do paraíso. Porém, a culpa do ato em si recai, tanto na bíblia quanto aqui, sobre a mulher. Aqui, como lá, o homem é culpado por omissão, e punido igualmente (como já dito nos comentários de alguns colegas). A punição da mulher são as dores do parto. Ela será obrigada a sofrer com o nascimento de sua prole. Porém a punição do homem é o seu suor. Bem… Parece que quem escreveu o original não reparou que mulheres trabalham incansavelmente em suas vidas, sejam elas de nosso século ou antigas senhoras em seus lares e cavernas.

    No entanto, a punição que mais me chama atenção é a terceira. A de ambos. A do sofrimento e da dor.

    Isso me remeteu ao poema de Leandro Gomes de Barros, que conheci através de uma postagem recente de um colega do E.C., através de uma reflexão do mestre Ariano Suassura.

    “Se eu conversasse com Deus
    Iria lhe perguntar:
    Por que é que sofremos tanto
    Quando viemos pra cá?
    Que dívida é essa
    Que a gente tem que morrer pra pagar?
    Perguntaria também
    Como é que ele é feito
    Que não dorme, que não come
    E assim vive satisfeito.
    Por que foi que ele não fez
    A gente do mesmo jeito?
    Por que existem uns felizes
    E outros que sofrem tanto?
    Nascemos do mesmo jeito,
    Moramos no mesmo canto.
    Quem foi temperar o choro
    E acabou salgando o pranto?”

    O que será que fizemos, autor(a), para que homem sofra tanta? E por que diabos, eu ousaria perguntar, a culpa por tudo isso recai sobre nós as mães e as mulheres?

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  13. Fabio Baptista
    14 de outubro de 2017

    O texto é excelente. Infelizmente não poderei dar uma nota tão boa por conta da adequação ao tema – não é porque tem diabo na história que necessariamente seja uma história de terror.

    Bom, além desse pequeno grande detalhe, praticamente só tenho elogios: a técnica é muito segura, experiente, emulou com precisão a linguagem séria e épica que a história pedia. Só mudaria um “e mandou pra dentro” que soou moderno demais, quase uma gíria, destoando do restante. Também trocaria “Ouviram algo que os rodeavam” por “Ouviram algo os rodeando”.

    A trama, apesar de ser uma releitura quase 100% fiel ao original, foi bem contada, inserindo elementos novos e detalhes que trouxeram ar de novidade. A descida do anjo para arrancar a costela de Adão é sensacional, todos os sentimentos dele foram muito bem descritos ali. Bom… e não é novidade que esse tema me atrai pra caramba! kkkkkk

    Num certame de tema bíblico ou algo assim, a nota ficaria próxima da máxima.

    Abraço!

  14. Olisomar Pires
    13 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: alto.

    Narrativa/enredo: releitura dos capítulos 01 a 03 do livro sagrado Gênesis contido no Antigo Testamento da Bíblia Cristã.

    Escrita: muito boa. Sem erros aparentes, talvez mínimos. Leitura fluida e envolvente.Cativante e enlevada.

    Construção: os pilares do conto estão todos no livro sagrado, entretanto, a roupagem dada, a caracterização e “vida” dos personagens aliadas à descrição da Serpente renovam a mensagem e traduzem para muitos o horror, o terror dos acontecimentos.

    Uma idéia excelente e que foi produzida com esmero pelo escritor.

    A título de contraponto à misoginia que muitos atribuem ao Antigo Testamento é possível dizer que teologicamente a “mulher” não é responsabilizada pelo pecado original, mas o casal humano, sim. Tanto que ambos sofreram punições: a dor no parto, o suor do trabalho e a morte para ambos (morte física, espiritual e eterna).

    Inclusive, São Tomás de Aquino e Santo Ambrósio defendem desde a antiguidade que a “mulher” não seria culpada pelo mal que entrou na Terra, visto que o próprio Deus culpa Lúcifer pelo mal da Terra em função de sua inveja.

    Não se esquecendo da promessa de Deus no livro de Gênesis de que a mulher exterminaria a serpente:

    “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Gênesis 3:15

    A semente da “mulher” é Jesus Cristo nascido da Virgem Santíssima que veio para a remissão do pecado que dissociou Deus e os Homens. Um papel indubitável da excelência feminina.

    Mas estou fugindo do tema.

    O conto possui o arquétipo ancestral de terror e o texto com suas imagens descritivas da Besta trazem um ar totalmente assustador que abala qualquer estrutura de defesa.

    Dificilmente lerei o Gênesis novamente sem lembrar deste conto.

    Apenas para que não fiquemos somente nos elogios, saliento que a conclusão:
    “Mas não mais na sombra da ignorância e sim à luz do conhecimento. Condenados.” não reflete meu entendimento sobre o episódio, apesar de muitos enxergarem nele uma metáfora para o início da ciência.

    No mais, parabéns pelo belíssimo texto.

  15. Fernando.
    13 de outubro de 2017

    Os capítulos iniciais do livro do Gênesis, o primeiro livro da Torá Hebraica e cristã, tem muito mais da beleza da criação, do que de algo que possa gerar terror. Uma linguagem poética para nos dizer que o mal entrou no mundo. E aí me pergunto, Novo Apóstolo: onde está o terror em sua narrativa? Você me reconta, de forma, também poética, o mito da criação judaico cristã, mas não consigo ver em seu recontar o terror. Bem pode ser que se trate de algo pessoal meu, um cara que de histórias de terror sabe um quase nada. Nesse caso te peço para deixar essas minhas elucubrações de lado, eis que serei eu a não conseguir vislumbrar, por trás da árvore do bem e do mal o que você desejou me trazer. Uma bela história recontada. Você escreve bem, conta legal a trama, parabéns, mas pra mim não rolou esse tal terror. Abraços.

    • Novo Apóstolo
      13 de outubro de 2017

      Olá, Fernando! Recentemente li o Gênesis e, um pouco diferente da sua visão, achei a expulsão do Paraíso algo bem horrível, foi quando pensei em criar minha versão dos eventos, com a adição de alguns pontos, mas sem mexer no desfecho, trazendo a questão da tirania e da nudez. Obrigado pelo comentário!

      • Fernando.
        13 de outubro de 2017

        olá, Novo Apóstolo, mas eu não acho que tenha sido bacana. Foi horrível mesmo. O que disse é que se trata de uma forma poética de narrar o começo do mundo. E nesse narrar os hebreus ( e nós também) nos deparamos com o mistério do mal (o tal pecado, que nas línguas semitas é sinônimo de erro de alvo). Como não sabiam de que maneira explicar a entrada do pecado no mundo, criaram este mito. E, repare que, como se tratava de uma cultura de varões (quero evitar o termo machista) meteram a culpa do mal na mulher. A questão, Novo Apóstolo, é que elas estão pagando esta fatura até hoje. Cá entre nós, eu acho que muito mais que o começo, o que os narradores desse livro (que foi escrito muito depois dos primeiros livros, quando os judeus eram escravos na Babilônia) querem nos mostrar é o fim. Ou seja, mais do que ter saudade desse tempo, que tal pensar em viver a esperança da sua vinda? Mas aqui já estou filosofando. Meu abraço de paz e bem.

  16. Angelo Rodrigues
    13 de outubro de 2017

    Caro Novo Apóstolo,

    conto bem escrito, bom ritmo. Notei alguns deslizes na escrita mas nada que em fizesse anotar e dizer. Bacana as imagens criadas.
    Não entendendo quase nada do que diz a Bíblia Católica, confesso que fiquei apenas com um cheiro de que o senhor sobrescreveu o Gênesis, perpassando com novas tintas e ideias A criação dos céus e da terra e de tudo o que neles há; A formação do homem; A formação da Mulher; A queda do homem.
    Fiquei animado porque achei que o senhor fosse redimir a mulher tirando-a do desgosto de haver estragado tudo nesse mundo de Deus, no abrir das cortinas da existência, só que não.
    Achei que o senhor seria a última chance para a redenção das mulheres mas tudo foi perdido: a mulher mais uma vez vai pagar caro por tudo que está aí, e o seu Testamento é prova disso, e logo no Outubro Rosa.

    Boa sorte, caro, e obrigado por nos deixar conhecer seu conto.

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Publicado em 13 de outubro de 2017 por em Terror.