EntreContos

Literatura que desafia.

Columbários (Sobrinho Filho)

O lugar

Brumas do Ontem, em qualquer tempo que fosse e estivesse, uma povoação sempre perdida no abstrato. Minto: os sujeitos dos lugares concretos e vizinhos não a encontravam (mesmo porque desconheciam sua existência), exceto por mero acaso. Como quem cai num buraco insuspeitado ou tropeça em cadáver oculto. Com uma diferença importante: corpo falecido não impede ninguém de ir e vir, enquanto Brumas não deixava as pessoas saírem de seu perímetro. Um lugar vivo. Emaranhava seus moradores. Eu inclusive, por vezes. Os que insistiam, sempre habitantes muito recentes, ainda desconhecedores de onde estavam, caíam na loucura ou na morte.

Por isso as ruas, quando não desertas, cheias de insanos correndo para todos os lados, dizendo-se perseguidos por uma algazarra dentro de suas cabeças. Eram os fantasmas do lugar, eles diziam. Desnudavam-se, arrancavam os cabelos e os limites do recuperável. Muitos jamais conseguiam voltar, serem eles mesmos.

Porque morriam demais, superpovoavam o cemitério. A maioria dos corpos era de uma gente morta de exaustão, de tanto buscar inutilmente a saída. Os que permaneciam vivos, pode-se dizer, eram covardes ou tinham apurado instinto de sobrevivência: não queriam enfrentar nem a loucura nem a morte. Com o decorrer do tempo, alguns deles até passavam a gostar de Brumas, talvez por já terem perdido completamente a lembrança do que eles foram em seus lugares de origem. E mesmo de onde eram. Brumas apagava as histórias.

Planalto e planície interligados, fazendo da geografia do lugar um antagonismo que se revelava em seus habitantes. Os de cima eram muito mais antigos, alguns desde que o lugar apareceu no tempo e ocupou aquele espaço. Como os integrantes de minha família, a Columbários. Taciturnos, sorrisos só mesmo quando fundamental, pouco saíam de suas casas e menos ainda desciam à planície; os de baixo, quase todos, eram os recentemente capturados pelo espaço de Brumas e, porque tristes como todos os que concluíam pela impossibilidade de fuga, buscavam algum consolo nas bebidas alcoólicas, nos botequins, todos de pau a pique ou simples tendas.

Da parte mais alta, especificamente de um chafariz no jardim de nossa mansão, vertia um rio de sangue, que serpenteava à esquerda e à direita, rasgando o terreno coberto pela aridez e pelo chorume, subindo ao céu, penetrando nuvens, circundando o lugar o até descer à planície, onde entrava no cemitério pelo muro quebrado dos fundos e mergulhava numa velha cova sem restos de ninguém. Não se sabia dizer onde se abrigava tanto rio após deslizar rumo ao fundo, se passava a compor um lençol freático sanguíneo ou o quê. Os mais antigos afiançavam: ele era, na verdade, o mitológico rio Aqueronte.

Havia um incômodo com a existência da correnteza ensanguentada: nos dias sem chuva (o sol era uma estrela que nunca se mostrava em Brumas) aquele grande volume líquido fedia como se nele toneladas de cadáveres boiassem, a caminho do cemitério. Isso era sinal inequívoco: em muito breve nas ruas haveria um féretro a ser seguido pelas pessoas, pelos fantasmas e pelas pombas negras. Nalgum momento seria o meu.

Desde que os fantasmas se cansaram do cemitério e o abandonaram, a fedentina passou a existir. Eles teimosamente insistiram em coabitar as casas, praças, biroscas, viver com as pessoas de carne e osso. Translúcidos e encharcados de bebida, quase sempre. Foi uma tomada de território a que eles preferiam chamar de “Recolonização”.

 

Meu cadáver

O dia quase no meio. O cortejo, taturanamente, desceu a morraria na lentidão que o ritual ordenava, e ao chegar à planície colocou seus muitos pés na parte infelicíssima de Brumas, cujos habitantes viviam junto aos fantasmas mais precários. Seus horizontes estavam todos arruinados no mundo de Brumas e mesmo noutro qualquer que porventura houvesse fora, se um dia conseguissem fugir dali.

Quase todos na procissão fúnebre eram verdadeiros amigos falsos do cadáver. Ou melhor, amigos postiços da pessoa que o habitara até ontem. No caso, eu.

Um cortejo sem caixão, diga-se. É que os mais antigos da parte alta do lugar, inclusive minha família, adquiriram aos poucos, e depois de tantas mortes, um costume estranho até aos habitantes da planície: o cadáver de quem fora uma vergonha para a família era o rio que levava ao cemitério, sem nenhuma embarcação que sustentasse. Inteiramente nu e flores cobrindo apenas as vergonhas. Como vergonha é coisa que nunca tive, foi até divertido ver meu corpo naquele estado.

Acompanhado do alto por um sem-fim de pombas negras que quase engoliam o céu, o cadáver navegava o rio, mas minha alma não. Explico: nós, os Columbários, também tínhamos outro costume, invenção dos primeiros ocupantes de Brumas: os homens da casa, e apenas eles, carregavam no colo a alma do defunto que envergonhasse a família, como se tratasse de uma pessoa desmaiada.

Entretanto, a morte sobrecarrega, pesa nos braços alheios. De tal sorte que o morto era passado de um parente a outro quando a carga já fosse demasiada. Quem via, até achava o revezamento coisa bonita de se apreciar, exemplo de família unida. Bem, alguma solidariedade havia porque, ao menos em se tratando de mim, todos os homens da família sentiam muito próximo de seus narizes os odores da alma que apodrecia rapidamente. Sim, ela também cheira mal por ocasião da morte, a depender do caráter do falecido. No entanto, a despeito do inconveniente, ninguém sequer pensava em romper com a tradição: era necessário permitir que o bodum de minha alma entrasse nos narizes até chegarmos ao jazigo perpétuo. Quanto ao corpo, bem… o rio desembocava no cemitério.

Apesar da força dos costumes, era visível, ao menos para mim, o aborrecimento nos rostos dos que me carregavam e nos que apenas acompanhavam desde o planalto ou que o fizeram a partir da planície. É que Brunas era ruas nuas de calçamento. Por esse motivo, e por culpa da chuva que caíra durante boa parte da escuridão da noite anterior, todos foram forçados a molhar sandálias e sapatos em poças d’água, lama e chorume.

Os Columbários tínhamos ainda outro hábito arraigado: exceto os garotos, ninguém do sexo masculino pertencente à família era sepultado. Para que a memória do homem se mantivesse viva na vida dos Columbários, o cadáver era banhado em óleos vegetais, aromas da natureza e envolvido em tiras de panos. Eram sustentados em pé, geralmente crucificação. Espantalhos no próprio cemitério, em lugares de circulação pública, nas bodegas. Fazíamos isso para que durante as noites mais pretas e sem chuva eles se juntassem aos homens da planície e conversassem todos sobre seus passados de que ninguém mais se lembrava e sobre os futuros inalcançáveis. Eu mesmo, quando vivo, participei de várias dessas confabulações. Foi assim que conheci um dos meus bisavôs. Como todos os crucificados, arrastava consigo sua cruz.

Entretanto, eu não seria fincado na terra, como meu pai e meu avô. Faltava-me merecimento moral, o resto da família assim havia decretado. Meu rumo seria o mesmo das crianças, das mulheres e de um ou outro homenzinho da família: a solidão da sepultura.     

Minha alma estava no colo de alguém quando percebi, sem surpresa: sete ou oito parentes lamentavam ou traziam o coração espremido o bastante para verter lágrimas por mim, tornado ex-varão da família, de repente morto por inesperada lâmina que me rasgou de alto a baixo o estômago de modo a escorrer cachaças e algum sangue ralo. Duas ou três das minhas tantas irmãs, pombas negras nos ombros ou nas mãos, choravam qualquer coisa. Mas em nenhum momento o desespero, a ânsia de arrancar suas almas pela boca, fugir correndo, amaldiçoar a injustiça do destino. Minha morte fora um alívio. Até mesmo para mim, devo dizer.

Na verdade, os mesmos olhos delas que lacrimejavam mal e porcamente, às vezes se entretinham com o céu de chumbo. Minhas irmãs acariciavam a negritude dos pássaros que traziam consigo. Saias redondas como a noite sem estrelas e véus de filó as interiorizavam a ponto de pensarem em seus ontens — um jardim de flores mortas — ou talvez numa das poucas certezas que eu tinha: o sol era uma lenda em Brumas. Eu, pelo menos, nunca vi. Para minhas irmãs era qualquer coisa hipnótica ver o aguaceiro suspenso nas nuvens — hematomas no céu —, os pássaros pretos entrando e saindo delas junto com o rio e meu corpo. Era a delícia da dúvida: as nuvens repetiriam durante o dia o que fizeram durante a noite anterior? E se chovesse, haveria espaço para outro céu, mais claro, talvez até com sol? Os mais sequestrados pela superstição quiseram enxergar nesse chove não molha um sinal de que os dias de tempestade em família estavam chegando ao fim (uma hipótese desagradável a todas as irmãs, diga-se de passagem).

Outros amigos supostos, cabisbaixos, se pudessem mandariam o céu para o Inferno. Dispersos na indiferença quase absoluta daquela tristeza por obrigação. Pensamentos deambulantes, tentavam pescar na memória imagem que justificasse caminharem cheios de sisudez sob uma possível chuva que talvez se derramasse, pois de fato aquele cortejo não fazia muito sentido para eles. Nem para mim.

Vindos dos botequins, olhos fantasmas e atentos. Observavam as pessoas vivas seguindo rumo ao cemitério de Brumas e o quanto eu ficava desajeitado na ciranda dos colos. Principalmente, acompanhavam a presença no cortejo de muitos outros colegas fantasmas, os únicos que, por desnecessário saltar poças ou fazer desvios aqui e ali, não receavam a água e chorume acumulados nas ruas.

As assombrações estariam na multidão junto às irmãs e aos mais ou menos amigos meus por qualquer vínculo de amizade comigo, ou seria apenas escárnio, outra maneira de lembrar aos moradores que o domínio dos fantasmas após a “Recolonização” permanecia inabalável? — eu me perguntava. Eu me respondia: nesse caso seria não apenas escarnecer, como também um deboche do destino, pois ao acompanharem o féretro eles voltavam ao território de onde fugiram — o cemitério de Brumas — no intuito de tornarem a viver cotidianos como se encarnados fossem.

 

Mamãe e titia

A pouca luminosidade no interior do jazigo perpétuo vertia tons ainda mais dramáticos na dor de Deslúcia Columbário, uma de suas moradoras. Estranhamente, o avançado estágio da Moléstia do Apodrecimento da Memória, que a matara e havia sequestrado seu espírito, não a impedia de entender que eu, seu filho, morrera. Centímetro por centímetro, sentiu, morta há décadas que estava, a laceração da faca que ontem me rasgou a barriga. Seu grito lá embaixo sincronizado comigo segundo a segundo enquanto eu morria. Quanto menos vida eu tinha nas veias, mais desespero lhe dava.

Sempre odiei mamãe.

Seus gritos, no entanto, ela não queria acreditar neles.

Porém…

Como incêndio em mato seco, a minha dor que ela sentiu por empréstimo se alastrou ainda mais tão logo a confirmação lhe chegou, sem nenhum cuidado. É que Ledice Columbário, outra moradora do jazigo e minha tia, não esperava que Deslúcia compreendesse, nem mesmo associasse o nome do recém-morto ao fato de um dia alguém ter nascido de seu ventre, embora nutrisse a velhíssima fome de machucá-la muito quando tivesse o prazer de anunciar-lhe a morte do filho. Mas era um sentimento vago, quase forasteiro. Não acreditava na real possibilidade de matar seu apetite venenoso.

Havia razão para a incredulidade de titia. Desde os últimos anos em vida,  Deslúcia não reconhecia ninguém, tampouco sua irmã gêmea Ledice, a lucidez em pessoa. Mesmo quando igualmente falecida, algum tempo depois. Camaleoa, sempre conseguiu mentir afeto, como se amasse Deslúcia. Por conta disso, quando viva, foi a única criatura da família que se dispôs a cuidar da irmã. Sem muxoxos nem desculpas. Fez isso não por qualquer tipo de carinho, e sim pela possibilidade de sentir a delícia da vingança ao testemunhar, dia após dia, o irrevogável destroço no qual se transformava Deslúcia Columbário.

Desde que passou a morar no jazigo perpétuo, alguns anos após Deslúcia, Ledice repetia à irmã gêmea a mesma pergunta diuturnamente, quase sem alterar as palavras, quase escandindo as sílabas, num tom de quem mataria a velha com muito prazer se ela pudesse morrer de novo.

— E então, minha maninha filha de uma puta? Sem memória não há passado do qual se vangloriar. Assim, de que lhe serve agora o veludo de sua língua feroz, que lambeu muita carne masculina, língua cheia de uma probidade usada apenas contra meus incêndios corporais, ao passo que seus apetites estavam sempre satisfeitos? Sabia que nunca conheci homem dentro de mim, e por sua causa tive de satisfazer-me eternamente com toques e fantasias? Muitas vezes gozei diante de você, aparvalhada e em estado de catatonia por causa de sua doença.   

Há muitas décadas, quando ambas eram vivas e a Moléstia do Apodrecimento da Memória estava definitivamente instalada, aguardava a chance de dizer-lhe tais palavras. Mas não era um grito preso que estivesse na garganta, pronto para ser arremessado. Ao contrário, acariciara longa e felpudamente as palavras, à espera do momento exato, desde a adolescência, quando Deslúcia se fizera matrona por incumbência da mãe sem tempo por causa do trabalho longe de casa. Por isso a enorme satisfação ao alimentar à base de mingaus e sopinhas imaginárias aquela velha fantasmal, semissólida no túmulo.

— Olha o aviãozinho…

Vingança em estado puro. Nem o miasma do ambiente, intenso por causa do mofo e do negrume, incomodava essa alegria cotidiana e disfarçada de falsos cuidados. Houvesse mais alguém naquela grande escuridão sepulcral teria visto o quanto o sorriso nos olhos e nos lábios, clarão de ódio, relampeava o rosto de Ledice.

O jazigo perpétuo, externamente, era a réplica em escala menor da casa de nossa família, na parte alta de Brumas. No piso, os túmulos muito largos. As irmãs gêmeas foram enterradas lado a lado, sem separação, com espaço para mais um corpo. Os demais membros da família, em outros túmulos do jazigo, também amplos. Os Columbários, um exemplo de unidade.

Mas eu sempre odiei mamãe.  

Logo no início da “Recolonização”, todos os outros parentes escaparam do jazigo como se nada, de maneira a não serem obrigados a ouvir os choros, as lamentações sem fim de Deslúcia, a testemunhar as torturas de Ledice. Ela gostava de morder a alma de sua vítima, aumentando aos poucos a força até arrancar pedaço, com os quais se alimentava. E ria dos gritos cruciantes.

— Tenha sangue-frio, minha alma gêmea… A dor é só impressão sua. Você sabe que o pedaço arrancado vai se recompor. Sempre acontece. Sabe quanto tempo eu a como aqui na sepultura? Eu gostaria mesmo era mastigar o que você tinha entre as pernas, e que lhe deu tanto prazer em vida. Prazer desconhecido para mim.

Todos ausentes, Ledice sentia-se num parque. Seu rancor debaixo da terra provocava-lhe o apetite de cuspir no rosto da velha, urinar em sua água e comida imateriais. Odiava a ponto de conseguir produzir algo semelhante a saliva e urina. Certamente Deslúcia não perceberia o significado dos falsos humores aquosos, pois a alma doente não enxergaria nomes nem contexto. Por isso, mesmo se testemunhasse os “atentados” contra si, seriam nulos de sentido. Não passariam de atos flutuando no vazio. Impunidade, portanto.

— Isso mesmo que você ouviu, minha irmã… Seu filhote morreu. Coitadinho. Triste, não é? — e arrancou um pedaço do peito de Deslúcia com uma mordida.

— Não! Não é verdade!

— É, sim. Aliás, lembra-se quando Vossa Senhoria inventou para mamãe aquela conversinha sobre mim e meu único namorado na vida, a mentira-mantra de que eu teria perdido minha virgindade na cama dele? Que eu teria gostado do sabor e experimentado noutros lugares, atrás da igreja e à noite na praça? Sua ordinária… Fez isso para entregar-se a ele, nas posições mais cabeludas possíveis. Espero em Deus que a imagem lhe esteja muito viçosa, foi a causa da minha morte em vida. Minha alma morreu aos dezessete anos, e arrastei meu cadáver vivo até a velhice, esperando você morrer. Ah, é verdade… a Moléstia do Apodrecimento da Memória lhe impede as lembranças. Mas a morte de seu filho você conseguiu sentir perfeitamente, não é? Mesmo assim, vou repetir a boa nova até que a loucura e eu devoremos suas entranhas. Experimente agora um fiapo de dor. Não chega nem às bainhas do ferimento de vergonha que você me fez sentir, mas já será alguma coisa. Afinal, Deus é grande.      

Repetindo o mesmo gesto de todos os dias, Ledice estava sentada sobre a tampa do seu caixão, onde havia um crucifixo em alto-relevo. Perante a irmã envolta em trapos com os quais procurava livrar-se de uma friagem inexistente. A menos que o frio fosse a notícia da morte. Olhava para cima, o infinito na escuridão, e num momento raro de lirismo pensou que seria bom se dentro das sepulturas houvesse um céu estrelado. Tamborilava no caixão enquanto tramava maneiras ensanguentadas de arrebentar os sentimentos da velha, de modo que não houvesse mais possibilidade de alegrias, mesmo com a minha chegada, o que aconteceria em breve.

— O que você ouviu é isso mesmo que você ouviu, minha irmã… Seu filhote morreu. Coitadinho. Triste, não é? — e arrancou outro pedaço do peito de Deslúcia com uma mordida.

Catarse íntima. Gargalhava quando Deslúcia, ao ouvir tim-tim por tim-tim o bando de palavras ditas com maldade e prazer, gradualmente arregalava a fisionomia de sua alma. O choro brotando e o desespero. A boca se abrindo para dar vazão ao grito imprestável porque ninguém ouvia. Exceto Ledice. E afinal, quem dá ouvidos aos mortos? As mãos esqueléticas de Deslúcia, como se pertencessem a um corpo material, pretendendo escalar a parede cheia de musgos, vermes e memórias da morte. Fugir dali. Salvar seu filho. Carregar-me no colo, fazer-me dormir o sono dos anjos.

— Para onde, minha irmã? Estamos presas uma à outra neste subterrâneo. Só nossos parentes, em outros túmulos, se livraram. Você não é capaz; eu não quero.    

O choro de Deslúcia e o riso de Ledice olhavam a abertura no que simultaneamente era teto da sepultura e chão do jazigo perpétuo. A enganosa sensação de que alguém houvera arrastado ligeiramente a laje. Não mais que uma greta, mas parecia enorme à Deslúcia, como a porteira do Inferno. Se conseguisse chegar lá…

Foi obra do tempo. Ele, em sua correria, mastigou parte do cimento da laje de todos os túmulos do jazigo, o bastante para os outros da família escaparem, há anos, como fossem neblina, e por onde eventualmente descia alguma chuva, réstia de luz, o cinza do céu. Ao mesmo tempo em que soluçava choros e chorava soluços, Deslúcia, mãos para o alto em mendicância, punha olhos na fenda do teto querendo encontrar qualquer salvação.

— O seu anjo de guarda, minha santa? Ele, se algum dia houve, certamente abandonou sua alma faz tempo, por decepção. Afinal, a protegida dele nunca foi uma boa menina, convenhamos. Boa menina fui eu, desertificada por dentro em função de suas mentiras! Quem sabe o seu anjo agora não está comigo? Tente imaginar a cena: eu e o seu anjo, na cama, enfiados um no outro, todos os gemidos de prazer do mundo.

— Ah, Deus… como vou viver sem meu filho…? Ontem mesmo ele esteve aqui, conversamos sobre os tempos bons… Ou foi a parte boa do ontem travestida dele? De qualquer maneira, era meu menino…

— Ontem, minha irmãzinha? Acho que não…

— É certo que sim. Desceu por aquela fenda. Era uma visita. Estava de passagem, vestia seu melhor sorriso. Desceu o morro para ir à feira, perguntou se eu gostaria de morangos. Tão carinhoso comigo, sempre…

— Ele nunca esteve aqui, imbecil. Ao menos, não ainda. Jamais foi afetuoso contigo. Muito pelo contrário, xingava seu passado e batia em seu rosto nas noites em que estava explodindo de tanto álcool para esconder no esquecimento a infelicidade causada pela deseducação que você lhe deu.

 

O sepultamento

Silenciosos observavam o cortejo de fora, nas ruas centrais. Quando em dias sem mortes, eram quase completamente desertas as ruas da parte baixa de Brumas porque entregues aos fantasmas fugidos do cemitério. Essas almas do outro mundo, mesmo em sua maioria bêbadas, nas portas dos botequins percebiam com alguma nitidez: seus colegas de fantasmagoria que acompanhavam o enterro eram meus parentes, falecidos em distintas épocas, todos enterrados no jazigo da família, no cemitério de Brumas. Parentes fugitivos. E também invasores das ruas.

Se a embriaguez permitisse, teriam visto detalhes importantes. Um deles é que todos os parentes do cortejo eram, na verdade, versões de mim mesmo, fossem homens ou mulheres. Outras roupas e identidade corporal, mas o rosto era um só. Nossos olhos intensamente verdes e ausência de sobrancelhas; nossa negra pele de querubim; nossos dentes podres; o azedume de nossos suores em abundância; principalmente, as asas reprimidas pelas roupas, formando a corcunda. Uma procissão cheia de mim mesmo era onde eu estava.

A pergunta que se faziam, além do motivo pelo qual irmãs e amigos estarem tão alheios, revelava uma estranheza: por que os fantasmas da minha mãe e da minha tia também não estavam presentes? Sim, elas não faziam parte do bando fugitivo que conquistou bares e ruas de Brumas, mas nem uma escapadinha para acompanhar o filho e o sobrinho? — enquanto inalavam as fumaças nicotinas e os álcoois derramados no piso dos bares pelos bebuns de carne e osso, especulavam.   

Na porta do cemitério. Graças a Deus. Estava desconfortável ficar de colo em colo de parentes. A chuva havia desistido de cair. Consegui ver o rio de sangue fazendo seu percurso e descendo de uma nuvem espessa, e nele meu corpo, que em breve estaria no cemitério.

Entramos.

Os homens da família que mereceram a honra de não serem sepultados, e sim postos em estacas e cruzes no cemitério como fossem bonecos a espantar pássaros daninhos, recepcionaram-me muito mal: cabeças viradas em minha direção, de repente romperam os trapos que escondiam suas asas e elas se mostraram, gigantes. Ruflaram em evidente sinal de protesto. Os homens verteram sangue pelos olhos e o ar ficou empesteado de gemidos do esfaqueamento. Suas vozes simultâneas eram trovões, mas era impossível entender as pragas a mim dirigidas. Ao mesmo tempo, as pombas negras pousavam sobre todos os túmulos e ciscavam o chão.

Quando finalmente chegou a hora de me abandonarem no jazigo perpétuo, ninguém da família, sobretudo minhas irmãs, arrepiou céus e terra por causa das condições do sepulcro. Capim e musgo na imitação da casa dos Columbários. Buracos nas lajes dos túmulos. Bobagem franzir a testa, demonstrar algum aborrecimento, pois a fratura no mármore agilizaria o trabalho de remoção da campa pelos coveiros. Ademais, quando ela fosse reposta certamente seriam cobertos os espaços vazios. Porém, acaso não fosse assim, nenhuma das minhas irmãs se incomodaria, pois não viam a hora de voltar ao tanto morro de Brumas e, é claro, retomarem as brigas em família.

Ninguém ouviu as últimas e desimportantes palavras antes do sepultamento. Indisfarçável tédio de muitos. A curiosidade divertida dos fantasmas da família próximos do esquife e conversando fiado.

— Lembra-se de quando ele subiu no sótão, o rompeu o forro e caiu feito uma jaca no meio da sala?

— Se me lembro… Eu ainda era vivo à época. E quando ele resolveu fugir por causa da surra da mãe? Dormiu na rua e tudo…

— Melhor foi quando ele entrou no bar e aprendeu a beber com os fantasmas da rua, menino já feito homem. Era todo amargura.   

Minha alma foi jogada na escuridão aberta. Suspiros de alívio, graças a Deus pelo fim do ritual. A parentalha cheia de açodamento e aporrinhação porque a vida, mesmo desinteressante, era preferível ao fastio. Fantasmas abandonavam lentamente o campo-santo para retornar à vagabundagem, à bebedeira e ao caos da família Columbários, enquanto os coveiros, ao fecharem o túmulo, mantiveram a fenda. Ouvi o sem-número de asas negras levantando voo.   

 

Hemorragia e fuga

Lembro com a nitidez de hoje: minha alma despencou sepultura abaixo durante uma eternidade. Enquanto caía, revi todo o meu passado inglório, do nascimento à definitiva facada. É… talvez a família tivesse razão em considerar-me uma vergonha: às vezes eu era uma penumbra me arrastando no espaço de Brumas — pensava enquanto caía em direção aos vermes, restos mortais e caixões em ruínas.

A pancada no fundo me atordoou e as imagens do passado eram uma tempestade que de repente fugiu. Gritos de dor como fosse poeira que subisse por causa de grande ventania, e como se eu tivesse de fato ossos a serem quebrados.

Deslúcia também era gritos, mas porque aterrada pela maneira pouco elegante como seu filho chegou. Encolhida na parede como houvesse um animal querendo atacá-la. O pânico fazia com que desse cabeçadas contra a parede. A gargalhada de Ledice, talvez porque eu ainda estivesse zonzo, me lembrou os monstros que ela plantava em mim por meio das estórias infantis.

— Levante-se, meu sobrinho, caso não queira morrer afogado. Ouve o escarcéu da correnteza? Não são fantasmas arrastando correntes, e sim o rio Aqueronte forçando a entrada para entregar seu corpo. Isso significa que a explosão de sangue não vai demorar.

— Tia?! Quanta saudade… — falsifiquei uma candura.

— Sua mamãe não o ensinou que é muito feio mentir, garoto? Aproveite e parabenize-a por isso. Ali, aquela ratazana acuada.

— Não é possível… Nem morto você me deixa em paz, Dona Deslúcia?!

— Mas, filho…

— Eu disse que ele não esteve aqui ontem contigo, cheio de seus bons tempos. Nunca houve bons tempos entre vocês. Eu não deixei. Fiz com que caísse na escuridão da realidade, mostrei-lhe a bruxaria disfarçada de mãe que era você. Por isso, a partir de hoje eu e ele seremos dois a torturá-la, Dona Deslúcia. Será preciso muito mais Moléstia do Apodrecimento da Memória para se esquecer de nós, alma dos infernos. Não é mesmo, querido sobrinho?

Uma pantera antegozando o sabor da presa, gargalhadas de hienas em bando: o Aqueronte urrava nas paredes externas do sepulcro. Já havia rachaduras, por onde o sangue vazava feito menstruação, trazendo pele e carne minhas como pedaços de criança abortada escorrendo pela vagina. Havia chegado a hora. O sepulcro sacudia e os trovões dos homens dignos eu ainda conseguia ouvir. A partir de então, a conversa entre mim e Ledice prescindiu de palavras: o olhar nos fazia entender.

Eu deveria imobilizar Deslúcia, impedir qualquer reação; Ledice mastigaria os braços e as pernas da velha, de modo que ela se percebesse completamente naufragada diante do Aqueronte. Se não conseguisse comer tudo, levaria consigo o resto para saborear depois, nos botequins, como tira-gosto. Da velha restaria apenas um cotoco de alma no jazigo.

Com a enxurrada de sangue, ela teria a desesperante sensação de morrer afogada, mas, sem braços, não poderia usar meu esfarelado cadáver como boia. Enquanto isso, eu e titia fugiríamos do jazigo e nos somaríamos aos fantasmas da “Recolonização” de Brumas.

Não consigo dizer quanto deleite senti com a gritaria de Deslúcia, os pedidos de ajuda dirigidos a mim, agônicos, para que eu não permitisse que fosse devorada. Certamente não viu meus olhos fazerem festa, brilhando.

— Tenha piedade, meu menino… Eu o amei tanto… Socorro…

— Quer um pedaço da coxa, sobrinho? Alma doente é uma bebida dos deuses…

Ledice, ao mesmo tempo em que saboreava os pedaços de Deslúcia, dançava em torno dela, cantando alto melodias conhecidas de um tempo que me parecia anterior a mim mesmo, mas as palavras eram ditas em um idioma ignorado. Quando mais girava, maior a impaciência do Aqueronte. Como se o convidasse a entrar. Antes de terminar sua dança, arrancou um grande pedaço da cara de Deslúcia com apenas uma mordida, mas não conseguiu engolir tudo: a boca da velha caiu no chão, de onde continuava sua ladainha.

— Filhinho… Não me deixe morrer assim… Os dentes de sua tia parecem navalhas…

Assim que meu cadáver atravessou a parede, a hemorragia invadiu o espaço e Deslúcia. Ela parecia lagartixa em chapa quente, contorcendo-se e ainda tentando um socorro meu. Aos poucos ela foi se dissolvendo, integrando-se ao Aqueronte, e fugimos eu e titia debaixo do escárnio dos respeitabilíssimos homens da família.

 

Viva a morte!

— Será que a esta hora ela já virou hemoglobina, tia?

— Aquela alma indigente nunca deixará de ser um coágulo. Espero que sua história tenha chegado ao fim, que tenha morrido para sempre. Brindemos?

— Saúde! Um brinde à morte e aos bares que nos recebem de braços abertos. A alma do próximo Columbário não deverá tardar a percorrer as ruas, com as águas do rio trazendo o corpo ou não, a depender da circunstância.

Lambemos no chão os restos de álcool, presentes para “o santo”. Voltamos nossas cabeças para o tempo e vimos as pombas negras batendo asas de volta, lideradas por minhas irmãs nuas. Para voar foi necessário livrarem-se de tanta saia e roupa. Percorriam o sentido oposto da correnteza do ensanguentado Aqueronte. Novamente as nuvens não suportavam tanto peso. Desabariam litros e litros de chorume em cima de Brumas do Ontem.

Anúncios

19 comentários em “Columbários (Sobrinho Filho)

  1. Edinaldo Garcia
    20 de outubro de 2017

    “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.” Machado de Assis.

    Dentre os contos que li até agora, este é o mais difícil de comentar. Vamos aos apontamentos:

    Escrita: Primorosa. A poética é magistral. O nível da escrita é de um escritor maduro e rodado, calejado pelas letras, e que bebeu muito das águas da boa literatura (tanto é que me lembrei de nosso grande Machadão ao ler o seu conto). Me pareceu um texto escrito no século XIX. É bom? Sim. Agradável? Nem tanto. Eu realmente não entendi quase nada (ou nada). O enredo é confuso (ou confuso foi só a maneira como foi narrado, eu realmente fiquei na dúvida). Tudo me pareceu muito alegórico, nada muito concreto. Foi impossível criar as imagens na mente, envolver-se com os personagens então, impossível.

    Sei bem que camadas fazem parte de quase toda obra. Veja bem, pegaremos por exemplo um filme da Pixar. A criança e o adulto vão assistir. A criança vai se divertir, vai compreender o enredo perfeitamente; já o adulto vai se divertir também, tendo acesso a uma camada que a criança não tem, algumas tiradas, uma piadinha adulta feita sutilmente aqui, uma simulação de algo mais profundo ali e assim todos se divertem tendo visões diferentes da mesma obra. No seu conto, eu mesmo sequer cheguei a entrar na primeira camada, a camada mais rasa e superficial. Acontecimentos estranhos, diálogos confusos. Sei lá… incesto, luxúria, tortura, inferno, purgatório, aborto, canibalismo…

    Nível de interesse durante a leitura: Confesso que foi sofrível chegar ao final. Mas olha, eu gostei muito da primeira cena, quando descreve o lugar, depois disso nada mais fez sentido para mim.

    Terror: É sim um conto de terror.

    Língua Portuguesa: É maravilhosa. Tenho algumas observaçõeszinhas, nada que seja uma defeito. Talvez ajude numa futura revisão ou talvez seja só frescurite minha mesmo:

    nos que apenas acompanhavam desde o planalto – acredito que se substituísse “nos”, por “aqueles” ficaria melhor e mais inteligível.

    É que Brunas era ruas nuas de calçamento – Essa construção também ficou muito rum.

    Choravam qualquer coisa – quem chora simplesmente chora. Talvez “lamuriavam qualquer coisa” sei lá.

    Seus gritos, no entanto, ela não queria acreditar neles.
    Porém… – Houve um tropeço nas próprias pernas devido ao andar rebuscado do texto. Aqui o sentido se perdeu. Também há duas conjunções adversativas quase que coladas. “No entanto” e “porém”, é bem estranho.

    Veredito: Um texto incrivelmente bem escrito, cansativo é verdade e um enredo que se perdeu em firulas.

  2. werneck2017
    18 de outubro de 2017

    Olá,

    O rio mitológico Aqueronte onde Caronte, o barqueiro, leva as almas recém-chegadas ao outro lado do rio. Ou ainda, no Inferno de Dante, faz fronteira com o Inferno na região chamada de Ante-Inferno. Brumas de Ontem é o próprio Inferno onde os pobres mortais têm de expurgar suas culpas e seus pecados. Os personagens estão fadados a reviver as relações mal-resolvidas que tiveram em terra, no tempo em que viviam. A convivência familiar tem suas mazelas. O texto é primoroso e muito bem narrado em seus horrores. Um terror sutil, mais vil, mais profundo, mais grotesco. Uma perfeita recriação do Inferno neste texto cujo autor sabe bem o que está fazendo e onde está nos levando. Parabéns.

  3. Luis Guilherme
    17 de outubro de 2017

    Boa noiteee, td bem??

    Esse desafio me agrada bastante particularmente, uma vez que amo o genero. Por isso, tenho lido os contos com bastante expectativa. Dito isto, vamos ao seu:

    Seu texto tem uma qualidade literaria absurda! Acho que eh um dos mais ricos que li no desafio, com uma veia poetica e construçoes incriveis (destaco especialmente o trecho da menstruaçao e do aborto). Voce conseguiu empregar um clima deprimente e desolador, que causam uma leitura dolorosa e tensa.

    Sem duvida esse eh o ponto alto do conto e o que o conduz. Ou seja, pra mim, nao houve um enredo forte que conduzisse a leitura, trabalhada no campo estetico.

    Devo admitir que em alguns momentos achei meio cansativa a leitura, pois tinha que parar e reler constantemente pra compreender.

    Quanto a historia, que desespero! Tanto odio e magoa e ressentimentos. Nao sei se viajei, mas as brumas de ontem me pareceram uma metáfora do inferno. Enxerguei demais?

    A tortura da tia a mae do garoto eh muito angustiante, e essa repetiçao de torturas e magoa e odio me deram essa impressao dw inferno. Tudo sendo repetido infinitamente.

    Enfim, belissimo texto esteticamente, otimas construçoes, metaforico e poético, mas que se tornou cansativo em alguns momentos.

    parabens e boa sorte!

  4. Rafael Soler
    17 de outubro de 2017

    Cara, sendo bem sincero, não entendi nada do texto. Não que isso seja ruim, pois acho que muitas obras precisam apenas ser absorvidas e não compreendidas. Se a ideia foi fazer algo abstrato e alegórico, muito bom. Mas se o intuito era criar uma trama em um mundo fantasioso, acho que houve alguma falha no percurso.
    A ambientação gótica e a escrita me agradaram muito, lembrando-me de poemas e contos de terror dos séculos passados. A estranheza que o texto passa também é muito interessante, pelo “desnorteamento” que causa.

    Bom, acho que gostei do conto. Na verdade, ainda estou tentando digeri-lo. Hahahaha

    😀

  5. Fheluany Nogueira
    15 de outubro de 2017

    Escrita e revisão – Sente-se no cristal da linguagem, bem refletida, a individualidade do autor ao comunicar aos leitores a sua vivência estética. Com seguro e hábil manuseio das palavras vai-se narrando e construindo personagens, ambiente e espaço (o texto é atemporal).

    Enredo e criatividade – O pseudônimo resume o enredo, um sobrinho, junta-se –a tia para atormentar a mãe. Parece que ali no limbo, repetem-se ações que já ocorriam em vida.

    Terror e emoção – sem um conflito externo, a extensão, a sofisticação e a densidade do texto cansam e quebram o impacto. Clima deprimente e angustiante.

    Parabéns. Abraços.

  6. Ana Maria Monteiro
    15 de outubro de 2017

    Olá, Sobrinho. Você esmerou-se para esta produção e isso torna-se sensível, quase tangível. É bom? é mau? a julgar pelos comentários anteriores, tende mais para o bom. Ainda que, pessoalmente, gosto mas prefiro não sentir tanto o trabalho do autor. Está muito bem escrito, quanto a isso não restam dúvidas. Mas gostei mais do conteúdo que da forma, por demais pomposa.
    Não o classificaria como conto de terror em momento algum, mas,para efeito do desafio, considero-o adequado. No entanto,para mim, eu li um conto, rodado num universo do reino do fantástico, carregado de constatações sobre a realidade da vida (as pessoas são tal e qual como ali se encontram retratadas), num tom de humor negro, quase comédia negra, que a extrema circunspecção carrega ainda mais.
    Num mundo onde os vivos estão mais mortos que vivos e os mortos mais vivos que mortos, você colocou e descreveu a crueza da verdade nossa de cada dia,com toques por vezes magistrais.
    Notei alguns pormenores que aponto porque seria crime, deixar passar mácula vista em texto tão primoroso; assim, temos: “alguns deles até passavam a gostar de Brumas, talvez por já terem perdido completamente a lembrança do que eles foram”, esta combinação de tempos verbais não funcionou bem ao ouvido, “passavam”, “terem” e foram”, na mesma frase e em relação ao mesmo sujeito não funcionou; e nesta “mais conseguiam voltar, serem eles mesmos.”, teria ficado melhor substituindo a vírgula por “a ser”; aqui, um erro de digitação: “É que Brunas era ruas nuas”, Brumas saiu com “n”; também esta frase: “Os Columbários tínhamos”, ficou estranha, seria: “Nós, os Columbários, tínhamos” ou “Os Columbários tinham”; por fim uma interrogação pois não sei se está bem ou mal, aqui: “tiras de panos”, nós, em Portugal, dizemos tiras de pano e não de panos,mas admito que aí, como com tantas outras construções, usem regra diferente – se não for o caso, merece a alteração.
    Quanto ao mais, o conto tem méritos inegáveis e está entre os poucos que tem conteúdo e não apenas blá, blá, blá.
    Você escreve como poucos e é um excelente conhecedor da natureza humana. Sabe escrever muitíssimo bem e domina perfeitamente o idioma. Gostaria de ler mais coisas suas para entender se normalmente se espartilha tanto à forma, ou se foi apenas um recurso usado aqui.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  7. Antonio Stegues Batista
    14 de outubro de 2017

    ENREDO; Brumas do Tempo, um lugar fora do tempo e da realidade e a história de uma família que nele habita. Bom enredo.

    PERSONAGENS: Caricatos, não gostei muito.

    ESCRITA: Boa, um errinho aqui outro ali, sem muita importância. As descrições são boas, a ideia é boa e começou bem,mas depois desandou para a ironia e humor-negro. As descrições do lugar remetem a imagem de uma alucinação, pesadelo, ao limbo, onde as almas ficam até o julgamento. Porém o tom sério se perdeu da metade para o fim. Tornou-se para mim, monótona, principalmente a discussão das almas do parente recém morto. A ideia é boa, o que era para ser surreal, original, tornou-se uma comédia de humor-negro.

    TERROR: As descrições do lugar são horríveis, mas o resto da história estragou o que vinha sendo bom. Boa sorte.

  8. Andre Brizola
    13 de outubro de 2017

    Salve, Sobrinho!

    Em primeiro lugar, preciso comentar o pseudônimo. Foi simples, mas genial. Queria ter pensado em algo assim pro meu!
    Agora, meu, eu não sei se estou á altura do desafio de comentar o seu conto. Primeiro porque ele tem uma construção tão densa, tão meticulosa, tão artística, que tenho certeza ter deixado pra trás muito do que você contou. O que mais me gerou dúvidas foi Brumas do Ontem, e ainda me pego relendo alguns trechos pra tentar me situar mais adequadamente. Com certeza voltarei ao início outra vez após o desafio.
    Entretanto, não posso deixar de comentar o seguinte: um conto de terror tão difícil de absorver de primeira, acaba perdendo o “punch” do gênero. Sei que isso vai de leitor pra leitor, e aqui eu me coloco como um tipo defeituoso para esse tipo de texto, mas senti que um pouco de simplicidade poderia ter deixado os momentos tensos muito mais intensos, sem perder a elegância.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  9. angst447
    13 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Um estilo mais rebuscado transborda em uma narrativa muito bem cuidada. A linguagem utilizada mistura poesia a palavras escolhidas para valorizar o texto. Hesitei em ler este conto, pois por um momento, achei que precisaria usar luvas para virar as páginas de seda.

    R (revisão) – Nada a comentar, apenas dois erros se tanto de digitação.

    R (ritmo) – As descrições feitas em camadas, com frases bem construídas e originais. envolvem o leitor. No entanto, o ritmo inicial é bem lento. Do meio para o fim, há uma aceleração sutil. deixando a leitura mais fluída.

    O (óbvio ou não) – Nada de óbvio neste conto. Há o rio mitológico Aqueronte, o terror de se perder um filho, o ódio recebido pelos entes que deveriam ser queridos. As imagens descritas em nada reproduzem algo já lido e relido.

    R (restou) – Uma necessidade de pausa para digerir o que foi lido. O conto é denso, diria que, em algumas passagens, difícil mesmo , mas de muita qualidade. Parabéns.

    Boa sorte!

  10. Paulo Luís
    13 de outubro de 2017

    São tantas as variantes do texto que fica difícil acompanhar o mínimo sentido do enredo. Por não haver um tempo cronológico o conto muito longo, cansa. Poético sim, lindo texto. Literatura pura, entretanto rebuscado por demais em sentido a uma lógica aceitável. Pretensioso até, mas qual a pretensão, poetizar ou complicar? A repetição passa a ser uma constante de termos em prosa poética. “Sete ou oito parentes lamentavam ou traziam o coração espremido o bastante para verter lágrimas por mim, tornado ex-varão da família, de repente morto por inesperada lâmina que me rasgou de alto a baixo o estômago de modo a escorrer cachaças e algum sangue ralo”. Saias redondas como a noite sem estrelas e véus de filó as interiorizavam a ponto de pensarem em seus ontens — um jardim de flores mortas — ou talvez numa das poucas certezas que eu tinha: o sol era uma lenda em Brumas. Mesclados com linguagem coloquial. “enxergar nesse chove não molha” (uma hipótese desagradável a todas as irmãs, (diga-se de passagem). “…por causa do trabalho longe de casa.”, Cito apenas algumas para ilustrar o que senti. Sabe aquela vontade imensurável de dizer o indizível, uma ânsia infinita de ir a Brasília, matar todos os ratos e voltar calado como um torrão de argila. Mais não conseguir botar o pé na estrada, apenas visualizar o caminho e abafar essa mágoa contida? Não sei se é isso o que acontece com o seu conto, falar, falar e nada dizer, assim como eu estou fazendo agora!

  11. Paula Giannini
    12 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Seu conto é magistral. Amarrado dos pés à cabeça, pensado em cada milímetro, cada palavra, cheio de camadas e mais camadas, mas, mais que isso, pois não é só de teoria que vive a obra, ele contém PAIXÃO em cada palavra, cada vírgula.

    Uma leitura extremamente prazerosa, escrita em um ritmo igualmente prazeroso. Literatura é música e você compôs uma sinfonia. 😉

    Como já dito em outros comentários, seu conto também me remeteu a um de meus escritores preferidos, Garcia Marquez e sua realidade fantástica, seus personagens, sua Macondo, a tristeza implícita de, por exemplo seu Florentino Ariza. Mas, o autor também parece ter visitado outras paragens neste texto e me levou para passear na Saramandaia de Dias Gomes. Não há, também, como não lembrar de Machado e seu Quincas Berro D´Água ou mesmo como não pensar nas Brumas impenetráveis de Avalon no bestseller dos anos 80. Enfim, o texto é de uma riqueza só.

    Quantas camadas identifiquei? Quantas deixei passar? Quantas criei a partir do campo fértil e adubado com tanta destreza? Vale a releitura, a pesquisa, o que é, aliás, outra ótima característica deste trabalho. Ele instiga, faz pensar, leva o leitor ao interesse na pesquisa. No pós texto, como diriam os novos inventores de palavras (rsrsrs). Dever de casa, inclusive, que já fiz ao me deparar com o intrigante nome “Deslúcia”. Lúcia é a portadora da luz, e o autor, lindamente deu-lhe o sufixo “Des”, transformando-a em trevas.

    Do sepultamento seletivo, às relações familiares, bem como à mea culpa amoral do morto em seu sepultamento, tudo aqui contribui para que embarquemos na atmosfera fúnebre e pútrida daquele que será o fim de todos nós.

    No mais, meus comentários por aqui seriam apenas para pavonear minha “sapiência” e cultura. Isso, porém, não se faz necessário. A obra fala por si. Está aí para ser apreciada e desvendada por leitores da primeira à última camada, como a terra que recobre os caixões, palmo a palmo, em um Columbário.

    Parabéns!

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  12. Regina Ruth Rincon Caires
    12 de outubro de 2017

    Misericórdia! Credo! Que texto fascinante e horroroso! Genial!

    Primeiro, encontrei uma sigla interessante: MAM – Moléstia do Apodrecimento da Memória. Posso ter viajado. Os nomes dos personagens são criativos: Deslúcia, Ledice, Camaleoa. Agora, ô narrativa mórbida, cruz credo!

    Texto excelente, narrativa genial, estrutura perfeita, enredo inteligente e esplendidamente costurado. Total domínio da linguagem, escrita fluente.

    O diálogo das irmãs, quando Ledice desfia a maldade de décadas, é tétrico, odioso, “fantasmal”, de “morder a alma”.

    “ — E então, minha maninha filha de uma puta? Sem memória não há passado do qual se vangloriar. Assim, de que lhe serve agora o veludo de sua língua feroz, que lambeu muita carne masculina, língua cheia de uma probidade usada apenas contra meus incêndios corporais, ao passo que seus apetites estavam sempre satisfeitos? Sabia que nunca conheci homem dentro de mim, e por sua causa tive de satisfazer-me eternamente com toques e fantasias? Muitas vezes gozei diante de você, aparvalhada e em estado de catatonia por causa de sua doença.”

    “ — É, sim. Aliás, lembra-se quando Vossa Senhoria inventou para mamãe aquela conversinha sobre mim e meu único namorado na vida, a mentira-mantra de que eu teria perdido minha virgindade na cama dele? Que eu teria gostado do sabor e experimentado noutros lugares, atrás da igreja e à noite na praça? Sua ordinária… Fez isso para entregar-se a ele, nas posições mais cabeludas possíveis. Espero em Deus que a imagem lhe esteja muito viçosa, foi a causa da minha morte em vida. Minha alma morreu aos dezessete anos, e arrastei meu cadáver vivo até a velhice, esperando você morrer. Ah, é verdade… a Moléstia do Apodrecimento da Memória lhe impede as lembranças. Mas a morte de seu filho você conseguiu sentir perfeitamente, não é? Mesmo assim, vou repetir a boa nova até que a loucura e eu devoremos suas entranhas. Experimente agora um fiapo de dor. Não chega nem às bainhas do ferimento de vergonha que você me fez sentir, mas já será alguma coisa. Afinal, Deus é grande.”

    Enfim, o texto dá a impressão de que o autor, munido de filtro com a palavra “terror”, pescou TODAS as palavras relacionadas ao tema. Só pode ser isso. Não há palavras solares. Nada de claridade, tudo sem cores do arco-íris, tudo muito sério, fantasmagórico.

    Parabéns, Sobrinho Filho! Que bela história de tia e mãe…

  13. Nelson Freiria
    11 de outubro de 2017

    Não consegui realizar uma boa imagem mental de Brumas do Ontem, espero que essa névoa que pairou em minha cabeça seja o resultado desejado pelo autor(a), que aos poucos vai nos contando sobre o que é, afinal, essa ‘cidade’, mas não entrega o jogo totalmente. Daí minha confusão se Brumas é somente algo no mundo espiritual ou se ela também se sobrepõe ao nosso mundo físico.

    Quando começam os diálogos de ressentimento entre as irmãs, o texto fica mais ‘digerível’, mas não perde seu lado poético, nem reduz a sensação sufocante. Acabou sendo esse ressentimento o conflito de todo o enredo, já que o personagem-narrador não teve dificuldade em aceitar sua morte.

    Algumas palavras e o estilo do autor(a) me fizeram empacar um pouco, mas nada que uma relida não resolvesse. Porém não me senti totalmente inserido em um trama de terror. A ambientação está lá, os personagens e seus motivos também, mas é como se tivesse faltado algo em nosso protagonista, algo que não seja só observar e contar ao leitor, talvez ação. Mas é um bom conto, bem revisado, um pouco confuso em algumas passagens e marcantes em outras.

  14. Fernando.
    10 de outubro de 2017

    Meu querido Sobrinho Filho, gostei do seu apelido, eis que ele diz bastante, me prenunciando o que acontecerá no jazigo dos Columbários na planície de Brumas. Que conto você me traz, amigo! Puxa, aqui me vejo entrando nesse inferno do cemitério cortado – e mergulhado – pelo Aqueronte. Inferno este que se amplia, que vai, tal qual as pombas negras, voando em torno para assumir toda a realidade de Brumas, eis que a casa era, sem dúvida infernal. O inferno toma a Brumas sem sol. Dizia Sartre que “o inferno são os outros” e n clã do nosso protagonista narrador, os infernos são descomunais (e aqui caio em conta da besteira que acabo de escrever, eis que é requisito deles que assim o sejam). Bem, eis uma história que me faz querer ter, aqui ao lado, alguém para, em volta de um bom vinho, refletir mais sobre as relações humanas, as confusões dos universos familiares, as disfunções entre pais e filhos, entre irmãos e mães… Belas construções você me traz. Sim, são lúgubres, são telúricas e carregadas de tristeza, mas sem dúvidas que, mesmo assim, estão cheias de beleza. Um conto que demandou muito trabalho, eis que tem, como o túmulo, junto ao mitológico Aqueronte, níveis distintos a serem explorados. Não sou um aficionado pelas histórias de terror, mas você me cativou com o seu Columbários, Sobrinho. Bacana mesmo. Parabéns.

    • Fernando.
      11 de outubro de 2017

      Continuando mais um pouquinho, reparei que me esqueci de dizer que Brumas do Ontem me recordou Macondo. Mais trágica ainda, obviamente.

  15. Angelo Rodrigues
    10 de outubro de 2017

    Ola, Sobrinho Filho,

    Leio rascunhando o que vou escrever adiante, e como vou fazer muitos comentários – estão anotados aqui ao lado -, digo de princípio que gostei muito do seu conto. Difícil de ler, claro, muitas camadas como já foi dito, bom ritmo, leve na redação e na narrativa. Belas imagens produzidas com palavras e frases.
    Objetivamente, fiquei em dúvida se o qualificaria como uma grande metáfora para uma vida morrinha dentro de uma família, com ódios e invejas, ou, efetivamente um relato que buscava demonstrar o Terror, uma espécie de arquetipação terrena do Inferno, ou o próprio Inferno, distante de ser apenas uma metáfora mundana.
    Esse fato se torna mais notório – para mim – quando, baseado numa grande desfuncionalidade em relação ao “mundo real”, surge a frase “…por causa do trabalho longe de casa.”, transferindo à Cidade Brumas uma normalidade mundana, talvez incabível num mundo de Terror, onde, creio, ninguém sai para trabalhar. Notei que isto ocorreu algumas vezes. Se isso ajuda ou atrapalha, não sei, fiquei em dúvida.
    Notei a busca, durante a narrativa, de que o conto assumisse um tom solene baseado na escolha correta das palavras. Isso é bom, mas… notei momentos em que a regra apertar/soltar o rigor da solenidade se perdeu. Exemplifico:
    – “…o estômago de modo a escorrer cachaça e algum sangue ralo.”
    – “…mandaria o céu para o Inferno.”
    – “…eu me perguntava. Eu me respondia.”
    Por óbvio essas construções não estão erradas, embora acredite que desandam o ritmo solene da narrativa e podem funcionar em direção ao leitor como um tom de pilhéria ou fraqueza narrativa.

    Com o objetivo de ajudar a funcionalidade narrativa, faço algumas observações.
    – Correnteza ensanguentada. Algo ensanguentado não é feito de sangue, tem apenas “algum” sangue, quando me pareceu que se quis dizer que o rio era “de sangue”.
    – No parágrafo que começa com “Um cortejo sem caixão…”, creio, ficou ausente um conectivo para a palavra “hábito”/”costume” perante a construção “…adquiriam aos poucos…”
    – Idem para “…como se tratasse de uma pessoa desmaiada.”, onde talvez fosse melhor “…como se SE tratasse de uma pessoa desmaiada.”
    Acredito piamente na solenidade das palavras. O conto é atravessado por uma narrativa solene – já disse – com algumas escorregadelas, como a opção – um exemplo – pela palavra “bodum” ao invés de “cheiro”, “mal-cheiro” ou “odor”. Óbvio que “bodum” não está errado, embora quebre o ritmo solene da narrativa, dado que me parece um pouco jocoso/vulgar demais.
    – Outra coisa. Notei em alguns contos que li, a frequente ausência de conectivos preciso na construção das frases. A ausência de conectivos, às vezes, traz um caráter poético às frases, às vezes não. Cito: “É que Brumas era ruas nuas de calçamento.”
    – Rever: “Tim-tim por tim-tim”, por “tintim por tintim”.

    Gostei bastante da sacada da materialização da alma, dela poder ser levada de colo em colo e outras coisas mais.

    Na linha que você adotou na conversa entre irmãs intra-túmulo, recomendo a leitura de Bobók, de Dostoiévski. Um clássico (um conto pequeno) imperdível acerca das conversas que os mortos podem ter sob uma sepultura.

    Valeu, Sobrinho Filho, excelente conto e obrigado por nos deixar conhecê-lo.

  16. Fabio Baptista
    10 de outubro de 2017

    Sem dúvida o conto mais diferente e difícil do desafio. O estilo do autor é bem evidente e único. Belas imagens (bom… talvez não tão belas assim, mas nesse desafio isso é elogio) são criadas o tempo todo, ambientando o conto com maestria e trazendo uma sensação de desgosto e desolação ao leitor.

    Apenas dois apontamentos:

    – circundando o lugar o até descer
    – ele subiu no sótão, o rompeu o forro
    >>> nessas duas frases, fiquei com impressão que sobrou um “o”

    Impossível não lembrar daquele rio sagrado na Índia (aliás, tudo é sagrado por lá…), onde as pessoas jogam seus mortos. Nesse mesmo rio, seguindo a correnteza, tem um grupo de canibais que “pesca” os corpos. Enfim… o horror, o horror.

    Sinto que mesmo se eu ler 10 vezes esse conto, não vou conseguir captar todas suas referências, camadas e nuances. Então, do meu (por imposição da natureza, não vontade própria) modesto posto de leitor-médio, devo dizer que gostaria de ver uma trama mais delineada, algo que eu pudesse acompanhar com mais facilidade. Algo que me fizesse ficar mais grudado na história do que o festival de bizarrices muito bem construído, de onde destaco essa imagem particularmente terrível:

    “trazendo pele e carne minhas como pedaços de criança abortada escorrendo pela vagina”

    Como disse, é um texto difícil, ele fica chato em alguns pontos e dá vontade de largar em outros. Mas consegue evocar sensações como nenhum outro conseguiu até aqui.

    Ótimo trabalho.

    Abraço!

  17. Olisomar Pires
    9 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: alto.

    Narrativa/enredo: vida e morte do narrador, mais morte que vida. E a punição dos mortos num lugar onde todos se encontram ou pensam se encontrar. Não há reabilitação, mas o seguir com os mesmos problemas agravados pela loucura.

    Escrita: muito boa. Sem erros aparentes. Uma melodia tranquila, muito bem conduzida como um rio em seu leito.

    Construção: a ambientação do lugar foi excelente, bem como a caracterização das personagens citadas. Tudo bem casado e angustiante.

    Um conto de difícil classificação, mas a qualidade apresentada supera esse detalhamento.

    Aliei ao inferno o sofrimento descrito, pois não há Deus em nenhuma parte.

    Realmente um texto excepcional e que me é totalmente inacessível como escritor, visto que tendo ao papel do “contador de estórias”, por isso aguardo ansiosamente as análises dos colegas muito mais preparados para que eu possa entender o que penso ter enxergado.

    Parabéns, parabéns !

    • Olisomar Pires
      10 de outubro de 2017

      Detalhe: Não captei propriamente um clima de terror nos moldes que expectei para esse desafio. Em certos momentos lembrei do filme “A noiva cadáver” .

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 9 de outubro de 2017 por em Terror.