EntreContos

Literatura que desafia.

Por acaso você tem alguma história assustadora para me contar? (Hitchcock)

Transcrevo aqui, verídica ou não, a história que minha amiga, Cecília, narrara-me em uma de nossas conversas pelo Messenger. Para não entediar o leitor, ater-me-ei apenas às partes importantes, deixando de fora, na medida em que o entendimento de quem vier a ler estas linhas não seja prejudicado, grande parte das amenidades trocadas entre nós durante o relato que ela me fazia. Tudo começara quando eu lhe fizera esta simples pergunta:

“Por acaso você tem alguma história assustadora para me contar?”

Acrescento o fato de minha amiga sempre ter algum causo para compartilhar comigo. Porém, se eu soubesse o que viria nos próximos minutos, jamais lhe teria feito essa pergunta infeliz, uma vez que Cecília nunca me contara nada que cheirasse sequer a um terror trash. Agora entendo por quê.

“Bem, tem aquela do meu pai”, respondeu-me, “de quando ele foi fazer a trilha do Matadeiro com uns amigos.”

Logo que li a mensagem recebida, tentei imaginar o que haveria de assustador ao se fazer uma trilha. Morcegos frugívoros voando entre as árvores? Aranhas do tamanho de um punho? Alguma cobra surgindo de supetão? Ri comigo mesmo, eu sempre tivera pouca imaginação. No entanto, pedi-lhe para continuar.

“Talvez seja apenas um conto local”, continuou, “ou meu pai sonhou. Mas tenho para mim que ele estava bêbado e presenciou tudo com lentes de aumento. No fim das contas, pode não passar de invenção dele. Sei lá, só sei que toda vez que ele conta essa história eu fico toda arrepiada.”

Nesse ponto, Cecília ganhara a minha total atenção. Então, antes que nossa conversa se dispersasse, pois era típico de minha amiga misturar os assuntos, incentivei-a a prosseguir com o que me passou a interessar.

“Que estranho! Lembrando agora, é como se eu ouvisse a voz de meu pai pertinho de mim… Fabinho, não sei se quero falar sobre este acontecido, onde eu estava com a cabeça? (rs).”

Eu já esperava por isso. Não incluirei as palavras que usara para estimulá-la a levar até o fim aquela história, nem o modo como insistira; apenas que, ao cabo de uns bons vinte minutos, Cecília enfim cedera, mais por causa de minha curiosa persistência do que por sua própria vontade. Eis o teor do que ela relatara-me (se estivéssemos conversando por áudio, era provável que eu a escutasse gaguejar):

‘— Lá vem vocês de novo! — disse Jairo para a esposa e a filha, quando mais uma vez elas afirmaram não acreditar em Deus. — Se existe o lado ruim, então o lado bom também tem que existir.

— Não concordo com você, pai. Não existe o lado ruim. Além do mais, o capiroto é só uma crendice popular — replicou Cecília.

— Nem eu concordo — completou a mãe, Neiva.

— Ah, não existe o lado ruim? — tornou Jairo. — Escutem: vou lhes contar uma história. Já era hora mesmo de vocês saberem o que me aconteceu quando fui fazer aquela trilha do costão, lembram?’

As duas disseram que lembravam, pois não se passara nem um ano desde então. O ano corrente era 2006.

“Por um momento pareceu que uma sombra cobriu os olhos do meu pai, tornando-os escuros, dois buracos no lugar dos glóbulos”, disse Cecília. “Senti um calafrio, olhei para a minha mãe, que estava vendo novela, sem se interessar pelo que o meu pai dizia, e voltei a olhar para ele. Não notei mais nada de estranho em seu olhar, mas vi que as suas mãos começaram a tremer.”

‘Se depois que eu terminar a minha história’, disse Jairo, iniciando a sua narração, ‘vocês continuarem a duvidar da existência do bem e do mal, e acho que vocês nunca mais duvidarão, então lavo as minhas mãos. Bem, naquela sexta-feira, pouco depois de chegar do trabalho, escutei batidas de palmas conhecidas na frente de casa, era o nosso finado vizinho Edgar a me chamar. Começamos a jogar conversa fora, quando lá pelas tantas ele me fez um convite:

— Jairo, eu e o Luizão estamos pensando em pescar lá na Lagoinha, tu não queres ir?

Pra falar a verdade, eu precisava mesmo relaxar e, além do mais, sou de recusar uma pesca? Assim que lhe respondi que iria, passamos a falar sobre como chegaríamos até lá, se por barco ou pelas trilhas.

— O que tu achas, Jairo? A gente pega a trilha do Matadeiro, não seria má ideia dar uma circulada no sangue, e de quebra aproveitamos a natureza do percurso.

Realmente, era uma ideia muito boa. Os meus quarenta e cinco anos não me pesavam em nada, eu ainda me sentia forte e pronto para encarar qualquer trilha. Jogamos mais um pouco de conversa fora e acertamos alguns detalhes, e em seguida nos demos boa noite. Antes de entrar, acompanhei com o olhar o Edgar indo pro barzinho, aquele da esquina, provavelmente pra convidar mais alguém da turma e encher a cara, o malandro.

Ansioso como sou, e com os pensamentos todos mergulhados na pescaria, tanto que até me deu uma baita dor de cabeça, logo tratei de ajuntar o equipamento necessário pra fazer a trilha, acampar e pescar: assim, coloquei tudo dentro da mochila e a deixei ao lado da vara e da garatéia, pra não esquecer de nada no dia seguinte. Enquanto isso, a maldita dor de cabeça não me deixava, como se fosse um aviso pra eu não ir. Só que naquele dia eu não pensei assim, tudo que eu queria era me livrar do bendito latejamento em minha testa, tomando um comprimido de paracetamol. Não resolveu nada.

Já no sábado, e depois do almoço, peguei as minhas coisas e fui até o barzinho, onde o pessoal esperava por mim. Lá descobri que mais dois de nossos amigos iriam conosco, o Beto e o Jamaica. Cumprimentei a todos. Os dois cachaceiros da turma, Edgar e Luizão, já estavam meio embriagados, vi quatro garrafas de cerveja vazias em cima da mesinha. O Jamaica, baixinho como ele só, fumava um cigarro de palha, apoiado no batente da porta pra fumaça não entrar, mas mesmo assim entrava. Senti-o esquisito, caladão. O Beto contava umas piadas, e o pior é que ele era bom nisso, nós ríamos de todas, mesmo as mais sem graça.

— Demoraste, hem, Jairo — disse Edgar. — Sente aqui, pegue um copo e tome a saideira com a gente, depois a gente pega o ônibus e bota pra quebrar.

Nem respondi, o madraço sabia muito bem que eu não punha um pingo de álcool na boca’.

— Mas agora tu bebes bastante, mamas que é uma beleza na garrafa, né, pau-d’água — cutucou Neiva, sem perder a chance de provocar o marido e com isso aliviar a mágoa que sentia do alcoolismo dele.

“Meu pai nem se deu por achado”, explicou Cecília, “ele queria mesmo era nos contar aquela história, pois não discutiu com a minha mãe, coisa rara entre eles.”

‘Finalmente’, recomeçou Jairo, ‘depois de mais duas garrafas de cerveja, e eu já começava a perder a paciência, pois já eram quase três da tarde, o Edgar se levantou e gritou pro Zeca pôr na conta. Luizão queria tomar mais uma e o Beto queria terminar de contar aquela do português, mas eu e o Jamaica estávamos do lado de fora os chamando pra irmos, mais impacientes do que o noivo esperando a noiva. Logo após, vi os pândegos pegarem duas garrafas de cachaça e só então nos pusemos a caminho. Pra variar, notei que o Beto não levava equipamento nenhum, era mesmo um piadista nato. Em contrapartida, eu e os demais estávamos adequadamente paramentados para a nossa pequena aventura.

Fomos andando até o ponto de ônibus e, quando ali chegamos, ainda tivemos que esperar meia hora pra a circular passar e nela embarcarmos. Por volta das dezesseis horas desembarcamos no ponto de ônibus na praia da Armação, praia que atravessamos, sob um sol delicioso, pra podermos alcançar a praia do Matadeiro. Nessa altura, nós caminhávamos descalços, semelhando-nos mais a crianças ou adolescentes do que a adultos indo pescar, o que dá na mesma, acho; ora alternávamos nossos passos sobre a água fria, ora sentíamos sob nossos pés a areia quente, sem, contudo, deixar de observar os poucos banhistas e os surfistas se arrojando nas ondas espumosas do mar. O contato com aquele lugar nos causava boas sensações, prometendo um tranquilo fim de semana. Mas que digo? Antes de nos darmos conta, a praia chegou ao fim e vimos surgir à nossa frente a entrada da trilha que subia pelo morro verdejante. Enfim, estávamos preparados pra, se antes eu disse aventura, naquele momento eu bem poderia ter dito desventura.

Depois de calçarmos novamente as botas, Edgar e Luizão foram os primeiros a adentrar a mata e começar a subida, com o Beto atrás, animado como só os jovens na casa dos vinte anos sabem ser e gracejando sobre alguma coisa. Olhei pro lado e vi o Jamaica se persignar, o que me causou uma má impressão. Não sei se foi um gesto instintivo ou algo sugerido pelo momento, pois ele não era religioso. Eu era. Por minha vez, fiz o sinal-da-cruz e só então me senti preparado pra iniciar a caminhada pela trilha, movendo primeiro o pé direito. Tenho um pouco de superstição também. A dor de cabeça, que pela manhã havia desaparecido, voltou com tudo.

O sol beirava o horizonte, seus raios batendo em meus olhos. Constatei, verificando o meu relógio, eram cinco e cinco, que em pouco mais de uma hora anoiteceria, e lembrei o fato aos meus amigos.

— Relaxa — disse Edgar, a uns dez metros de mim. — Se a gente for depressa, logo vamos nos cansar. Seja como for, rápido ou devagar, já vai estar tudo um breu quando chegarmos à Lagoinha, é ou não é?

Era óbvio. Fomos adiante. Sendo eu o mais atlético, digo isso sem querer me gabar, vocês sabem, logo ultrapassei os três figurões, que iam cada vez mais devagar, e o motivo não era outro senão que passavam a garrafa de aguardente de mão em mão entre eles.

— É pra esquentar — Beto brincou.

— E pra manter as forças — rematou Edgar.

Jamaica me acompanhava com suas passadas curtas porém ligeiras, mais quieto do que nunca. Tive pra mim que alguma coisa o incomodava, pois olhava com exagerada precaução pra todos os lados a cada metro vencido. Não lhe fiz nenhuma pergunta, deixei-o com os seus receios, sejam eles quais fossem. E não é que no fim ele tinha razão por tê-los?

Decidi caminhar ainda mais rápido, tentando percorrer a maior distância pra sair logo daquela mata fechada e poder admirar a paisagem enquanto houvesse iluminação. Mas em muitos pontos o matagal era tão alto e denso que o sol, quase se pondo, não podia ser visto, muito menos clarear a contento o caminho. Por causa da minha pressa, acabei escorregando em uma pedra grande, e, se o Jamaica não tivesse me segurado, eu teria me machucado feio. Meu amigo estava atento a tudo.

Comecei a me sentir cansado, afinal se tratava de uma subida custosa. Olhei pra trás e não avistei o restante do grupo. Paramos um pouco pra descansar, eu e Jamaica, e pouco depois os retardatários nos alcançaram. Pararam também, estavam mais cansados do que eu, e tontos, meia garrafa de caninha havia secado. Quarenta e cinco minutos já se haviam passado, meu relógio marcava dezoito em ponto. Um escrúpulo passou a martelar em meus pensamentos, em ritmo com a minha dor de cabeça. Era a hora das Ave-marias, momento em que podemos sentir com mais facilidade as emanações espirituais, seja para o bem ou para o mal. Reza a lenda que não se deve percorrer trilhas nem cavar buracos nesse período, em respeito às almas. Esse era o meu escrúpulo. Tive um arrepio.

— Estão sentindo isso? — disse Beto, de repente, meio sério, meio debochado.

Jamaica ficou tenso, ele também parecia sentir algo.

— Sentindo o quê? — quis saber Edgar.

— Essa coisa ruim — tornou Beto, seu sorriso maroto morrendo aos poucos. — Uma sensação ruim.

— Ó fanfarrão, não estou sentindo nada, deixa de brincadeira — disse, por sua vez, Luizão, com um tremor em sua voz.

Eu ia dizer que também não sentia nada, quando então escutei, ou achei ter escutado, diversas vozes lamentosas e estalos como os de varas de bambu cortando o ar. Olhei pra frente e pra trás, acreditando que a qualquer momento outras pessoas apareceriam pela trilha, mas não vi ninguém além dos meus amigos.

— E essa agora, escutaram? — insistiu Beto, dessa vez todo sério.

Tive outro arrepio.

Ficamos atentos, esperando algo mais acontecer. Nada, apenas o pio dos pássaros e o rumor de cachoeiras à distância. Enfim, nada que não fosse natural. Porém, a partir daquele momento, perdi toda a vontade de continuar. Ou seria a coragem? Alguma coisa estava errada, o Jamaica já havia pressentido lá no começo. Como se não bastasse, a dor em minha cabeça palpitava intensamente.

Não ocorrendo nenhuma outra estranheza, nós recomeçamos a andar, eu a contragosto. Segui na retaguarda, indo agora devagar, desconfiado a cada passada. Anoitecia, e pra mim foi um anoitecer medonho. Pouco a pouco, íamos enxergando menos o nosso caminho. Jamaica não saia do meu lado, eu ainda mais calado do que ele. Edgar, Beto e Luizão conversavam, já indiferentes, julguei eu, ao que havia acabado de suceder. Escureceu por completo. Saquei então a minha lanterna, Edgar a dele, ninguém mais havia trazido. O estranho foi que, pouco depois, nossas lanternas piscaram e se apagaram. Decerto as baterias se esgotaram, coincidências acontecem.

Presumi que, o que quer que estivesse à nossa espera, em breve se revelaria.

Não demorou muito e um cheiro de perfume, antes agradável que repulsivo, porém não menos pavoroso, se insinuou no ar e nos deixou um tanto sufocados. De onde vinha?, perguntava-me. Repentinamente, algo como um cobertor invisível e rodopiante nos envolveu, ora nos oprimindo como um estrangulamento, ora apenas roçando a nossa pele. Caímos de joelhos sobre as pedras e ali ficamos, um colado ao outro, sem nada enxergar. Dizem que o medo aguça a visão. Balela.

Então o terror tomou posse definitivamente de nossos corações quando uma gargalhada inumana, ao mesmo tempo triste e ameaçadora, ressoou como uma trovoada.

— É o fantasma do Chambourcy! — gritou Beto, com uma voz que nos pôs ainda mais assustados. Luizão soltou um gemido e passou a tremer feito vara verde.

Em contrapartida, se nos encontrávamos privados da visão por falta de luz, nem por isso deixamos de perceber uma procissão, que imaginamos ser de espíritos, passar ao redor e através de nós, pro nosso horror. Enquanto isso, como um farol em meio ao maremoto, ouvi o som produzido pela cachaça se agitando dentro da garrafa. Passavam-na outra vez de mão em mão. Esse som conseguiu me tirar, ainda que por um instante, do meu estado de pavor. Num impulso agarrei a garrafa e tomei vários goles, e juro que nem senti a minha garganta arder. Ao contrário, me deu uma sensação de alívio muito bem-vinda naquele transe. Até abrandou a dor em minha cabeça.

Na sequência, as mesmas vozes medonhas se fizeram ouvir de novo, acompanhadas da sinistra gargalhada. Aliás, conforme esta aumentava, aquelas se tornavam mais tristes, o que me levou a perguntar:

— Chambourcy?

À segunda menção desse nome, Luizão soltou outro gemido, e ficou a bater os dentes.

Pelo nosso estado de atordoamento, não sabíamos o que fazer, se voltar atrás pelo caminho percorrido ou prosseguir. Em todo caso, não havia como tomar tais ações, pois uma força ou vontade, difícil de resistir, nos retinha ali, como que pregados no chão. Não nos cabia outra coisa senão nos sujeitarmos a essa vontade sobrenatural, esperando por algum desfecho inimaginável. Apesar de tudo, a situação permanecia estável, continuávamos vivos, e aos poucos fomos recobrando a calma, sem dúvida ajudados pela bebida.

— Sim, Chambourcy, o cara que se atirou pelo costão abaixo, a partir da mesma trilha em que estamos. Essa gargalhada… eu a reconheço de quando ele era vivo… — explicou Beto.

— Eu me lembro vagamente de ter lido essa notícia no jornal — disse Edgar. — Faz uns dois anos…

Se era ou não o fantasma do Chambourcy que estivesse ali pra nos atormentar, era algo que eu não conseguia entender. Por que se manifestar justo a nós? Que eu lembre, nunca antes relataram um causo de assombração na trilha do Matadeiro.

— Ele era meu amigo… — disse Beto, sendo interrompido por Luizão, que disse, quase perdendo as estribeiras:

— Guri, é melhor tu calares essa tua boca imunda, não te metas com o que não é da tua conta, ninguém quer saber sobre isso, não é mesmo, pessoal? Hem? Hem?

Essas palavras tiveram o mesmo efeito sobre Beto como a lenha na fogueira. Vejam bem, naquele momento nós não pensávamos direito, e não percebíamos com clareza o que realmente acontecia conosco. Mas hoje eu tenho certeza de que era o espírito suicida do Chambourcy que mexia com a nossa mente. O Beto se sentiu insultado, mas então já não era mais o nosso divertido amigo, era agora um Beto perverso, dominado, não tive dúvidas, pelo espírito maligno. Arrependo-me deveras por não o ter feito calar a boca, e talvez com isso eu pudesse ter evitado o mal sobre nós.

— Querem saber o que aconteceu? — perguntou Beto, tomado por uma sanha diabólica. — O Chambourcy, o pobre do Chambourcy tinha uma namorada, sabem, e ele era doido por causa dessa namorada, dessa puta…

— Desgraçado! Cale a boca, cale tua maldita boca… — Luizão gritava.

Ocasionalmente o Jamaica acendia um cigarro com seu isqueiro, e nesses instantes de luz podíamos entrever uns aos outros, nossas faces ensandecidas, olhos arregalados. Em paralelo a tudo isso, a garrafa não deixou mais a minha mão, e seu conteúdo há muito passou para as minhas entranhas. Foi a primeira vez que senti o doce torpor que o álcool proporciona.

— Janine, a meretriz, esse era o nome dela — continuou Beto, impelido pela entidade —, sabem o que ela fez? Se enrabichou com o nosso amigo aqui, o Luizão!

— Maldito!

— Sim! Vocês dois, o vagabundo e a puta, enganaram o coitado do Chambourcy, que sofreu muito, mas muito quando descobriu essa traição. Mas vocês não se importaram, que se foda o apaixonado Chambourcy!, contanto que nós nos fodamos, vocês dois provavelmente diziam, rindo do cornudo Chambourcy.

Luizão se estapeava, seus gritos já roucos, a um passo da insanidade. Entendemos que aquela história lhe era dolorosa, o infeliz talvez estivesse arrependido de seu ato pregresso. O Beto foi adiante com a sua ladainha:

— O resto, meus amigos, vocês já devem imaginar! Não imaginam? Pois saibam que o nosso Chambourcy, dilacerado pela dor da traição, não lhe restando mais o amor de sua Janine, sabem o que ele fez?

Beto desatou a rir, a rir como os loucos devem rir, e naquele momento eu compreendi que ele estava perdido.

Como uma cartada final, a gargalhada fantasmagórica ecoou com um som dissonante, mais intensa agora, mais infernal, agredindo a nossos tímpanos, confrangendo nossos corações. Chambourcy se regozijava, e nós nos encolhíamos. As vozes prosseguiam em sua lamentação, tentando, assim pensei, evitar uma desgraça.

— Caralho! — Foi a única palavra que o Jamaica disse desde que nos metemos naquele purgatório, e a última também. E então aconteceu…

 

“Fabinho, preciso fazer uma pausa, me desculpe, estou um pouco abalada”, disse-me Cecília, abruptamente. “Peraí, já volto.”

Confesso que eu também estava perturbado, sentia meu peito vibrar, minhas mãos, braços e pernas formigavam. Sou muito impressionável. Não nego que fora um alívio a minha amiga interromper a sua narrativa. Porém, quando eu menos esperava, Cecília chamava-me novamente, com essa mensagem:

“Vale lembrar que era a primeira vez que meu pai nos fazia conhecer aquela história, e na ocasião me lembro de que ele, enquanto nos contava e até chegar ao ponto onde parei, havia aberto pelo menos cinco latinhas de cerveja, era a única forma, dizia ele, de suas mãos pararem de tremer. A minha mãe já não assistia mais à televisão, estava toda concentrada na história, e por incrível que pareça não fez nenhuma recriminação quanto às latinhas. Acho que ela, assim como eu, não percebia mais nada, tão absorvidas estávamos por tudo o que o meu pai nos dizia.”

 

‘E então aconteceu’, disse Jairo, ‘o que ninguém esperava: Luizão, fora de si, e naquele momento pudemos enxergar o nosso entorno, pois havia luz, corria feito um cometa com uma tocha de galhos secos na mão, ateando fogo no mato à nossa volta. Era por isso que o Jamaica soltou aquele palavrão, o isqueiro dele havia sumido. Vocês podem me perguntar se nós não percebemos nada antes que o fogo se alastrasse, e eu respondo que não, deve ter acontecido enquanto ouvíamos as palavras do Beto. O diabo nos engana enquanto esfregamos um olho.

Tentem visualizar o que eu vi e vivi, embora tudo o que aconteceu me pareça agora um sonho distante: Luizão não era mais Luizão, o espírito obsessor de Chambourcy, eu cria com todas as minhas forças, se apoderou dele e através dele orquestrava todo aquele horror.

Quase perdi a vida naquele dia. Infelizmente houve quem perdeu. De um lado havia o costão, com o mar lá embaixo, de onde não haveria volta caso caíssemos; de outro lado as chamas. Não dava pra atravessar aquela barreira de fogo, e não me perguntem como o mato verde entrou em combustão, eu não saberia explicar. Era tudo uma loucura. Estávamos encurralados. A última visão que tive do Luizão foi a de ele correndo e saltando, como um animal endemoninhado, e se lançando, com um berro assustador, vertente abaixo. Houve um baque em seguida, e foi só.

Era difícil de assimilar. Por um momento eu fiquei desprovido de todos os meus sentidos, uma escuridão desesperante tomou conta de mim, me seduzindo pra que me entregasse a ela. O espírito maligno queria que eu me rendesse, sussurrava em minha mente, de uma forma tentadora, pra que eu me jogasse ao mar, ou…

A escuridão deve ter vencido o Edgar, ou a embriaguez guiou os seus passos, pois ele tentou passar pelo fogo. Acabou tropeçando em alguma saliência nas pedras e se emborcou nas chamas. Foi um espetáculo dos mais horríveis ver o meu amigo se estrebuchando enquanto seu corpo crepitava.

Jamaica estava tal qual uma estátua, como se tudo aquilo já fosse de seu conhecimento. Era um mero espectador apenas confirmando os seus receios, mas sem esboçar reação alguma. Beto se encontrava deitado, talvez catatônico, talvez morto.

Comecei a rezar’.

 

“Meu pai acreditou que a oração, principalmente naquele momento, pois ainda corria a hora do Ângelus, teria um poder redobrado, e assim os bons espíritos o protegeram. Ele me disse também que se você confiar em Deus, o mal não pode vencer”, acrescentou Cecília.

 

‘Quando dei por mim, o fogo havia se extinguido, e já não havia mais gargalhada nem vozes, tudo se aquietou, menos as batidas do meu coração. Os ruídos da natureza voltaram a imperar, e a impressão que ficou foi como se nada daquilo houvesse acontecido. Mas acredito que a procissão de espíritos estava ali pra cuidar do Chambourcy, pra alçar a sua alma até o céu ou a arremessar no inferno, o que seria o mais provável. A única certeza que tive foi que Chambourcy obteve a sua vingança.

Não me lembro se passei aquela noite acordado, ou se dormi. Quando amanheceu, fui espiar pela borda do costão, procurando pelo corpo do Luizão. O mar deve tê-lo levado. Avancei e recuei pela trilha, o Jamaica não estava em parte alguma. Desde a noite terrível nunca mais o vi. Chego mesmo a considerar se ele alguma vez existiu ou se não passava de um fruto da minha imaginação. Não importa. Quanto ao Beto, ele continuava num estado de dormência, babando pelo canto da boca. Andando e correndo, sentindo a minha cabeça voltear, completei a trilha e cheguei à Lagoinha do Leste, onde encontrei algumas pessoas, pra as quais pedi, ou melhor, gritei por ajuda. Socorreram a mim e ao Beto, que foi encaminhado pra um hospital e depois transferido pra uma clínica especializada em doenças mentais, onde permanece internado até hoje. E assim tudo terminou.

Agora, minha filha, minha esposa, vocês acreditam na existência do bem e do mal? O quê? Não acreditam? Também não acreditam em mim? Pois bem, desisto!’.

“Assim meu pai terminou de nos contar a sua história. E aí, Fabinho, o que achou? Acha que tudo isso foi verdade ou não passa de uma mentira deslavada? Bem, aí está o que você me pediu. Não sei se para você foi assustadora, para mim sempre é, embora eu nunca acreditei nela (rs). Agora preciso desligar. Até mais, beijos.”

Essa história fora-me narrada em 2016.

Mas ainda não é o fim. Antes, porém, quero mencionar o quanto me senti impressionado com essa história, a tal ponto que me vi impelido, não por algum espírito, mas por minha própria vontade, a viajar até Florianópolis e empreender a trilha do Matadeiro. A obsessão é uma coisa engraçada. É verdade que ali, vencendo subidas íngremes, em meio a uma vegetação deslumbrante, bebendo água em fontes cristalinas e deixando a vista se perder num horizonte azul e líquido, não havia nada de sobrenatural. Tudo transcorrera de forma prazerosa e a salvo. Senti-me desapontado.

Nessa viagem aproveitei para conhecer pessoalmente a minha amiga, com a qual, é preciso dizer, já não nutria uma amizade íntima, pois sua personalidade mudara muito de um ano para cá, e a minha também. Ou seja, desde que compartilhara comigo essa malfadada história. Devo acrescentar que o pai dela morrera de cirrose hepática. É estranho. Já pensei muitas vezes sobre isso. Seu Jairo sobrevivera à “vingança do Chambourcy”, contudo… O vício alcoólico a que se entregara o pai de Cecília não poderia ter sido ocasionado por um efeito colateral dessa vingança, como um câncer que se espalha? São só conjeturas.

Às vezes, tal como Jim Hawkis, acordo no meio da madrugada com a impressão de ter ouvido, não a voz aguda do capitão Flint dizendo: Peças de oito! Peças de oito!, mas uma gargalhada, uma terrível gargalhada que me faz perder o sono. Ponho-me então a refletir se o fantasma do Chambourcy teria algum assunto a tratar comigo. O que faço é afugentar esses pensamentos e dizer a mim mesmo: balela! No entanto, onde há fumaça, há fogo.

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18 comentários em “Por acaso você tem alguma história assustadora para me contar? (Hitchcock)

  1. werneck2017
    19 de outubro de 2017

    Olá,

    Um texto original no modo de narrar. Um conto dentro de um conto que, se por um lado é inédita, por outro afasta um pouco o leitor do relato. No entanto, uma boa estória de fantasma. Flint faz referência ao papagaio da Ilha de Tesouro que morreu por excesso de rum?
    Mas atendo-me ao modo como foi construído o texto, verifiquei uma certa inconstância sobre a linguagem, ora erudita (com mesóclises) e ora coloquial demais (pro, pra, etc) . Também os verbos no passado mais que perfeito incomodam um pouco.
    Acredito que se a história fosse relatada diretamente de Cecília para o leitor ganharia maior agilidade e credibilidade. Também senti falta de verossimilhança sobre determinados fatos que diz respeito à amizade e ao horário da pesca em si.
    Boa sorte no desafio.

  2. Luis Guilherme
    18 de outubro de 2017

    Boa noite, amigo, tudo bem?

    Como tenho dito, estava ansioso por este desafio, uma vez que adoro o gênero. Por isso, estou lendo os contos com bastante expectativa.
    Dito isto, vamos ao seu:

    Pra começar, devo dizer que não gostei do título, que me causou uma certa antipatia. Não sei, não ficou muito prático, nem fluente, pra mim. A frase é muito longa, talvez seja isso.

    Enfim, comecei a ler com essa ideia na cabeça, mas a princípio o conto me gerou curiosidade. Você criou um clima de mistério que me deixou bem interessado, um certo suspense, mesmo, em cima da historia da tal trilha.

    Porém, achei que a execução não foi tão boa quanto o esperado. Acho que a história careceu de um tom mais sombrio que condissesse com as promessas de terror da garota e da sua recusa em contar a história.

    Note, tem vários pontos positivos e a história é mesmo bem curiosa. Acho que esse é o ponto forte, uma vez que é difícil criar esse ambiente de expectativa e mistério. Porém, achei que do meio pro fim, você não aproveitou bem esse clima que havia criado. Acho que foi ali que perdeu um pouco o tom de terror.

    Claro q é só minha opinião.

    Enfim, o conto tem muito potencial, e você tem uma capacidade descritiva e de prender atenção que se destacam.

    Parabéns e boa sorte!

  3. Fheluany Nogueira
    17 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – História de assombração é terror clássico. Premissa muito boa, com ares de causos. Nada muito criativo a não ser que a narrativa trouxesse novidades.

    Escrita e revisão – Internet, muitas vozes narrativas — o estilo pedia uma linguagem mais próxima da fala, coloquial. Não aconteceu: mesóclise, pretérito mais que perfeito, vocabulário são recursos de formalidade, sofisticação. Há também pontas soltas na estrutura, na semântica de algumas palavras e quanto à verossimilhança, já citadas por outros comentaristas.

    Terror e emoção – Todos esses deslizes quebraram, em parte, o susto, o medo. As descrições estão muito bem feitas. Gostei muito de trechos como o da trilha.

    Parabéns pela participação. Abraços.

  4. Rafael Soler
    17 de outubro de 2017

    Ótimo conto, gostei bastante do toque de modernidade que a trama tem por ser contada por meio de um mensageiro eletrônico.
    O domínio sobre o português por parte do autor(a) é notável, me deixando com uma certa inveja branca. Hahaha

    A história tem três camadas: uma do narrador contando o caso para o leitor; de Cecília contando o caso para o narrador e do pai da moça lhe contando a história. Adorei essa construção, mas achei que faltou uma certa autenticidade nas falas. Em conversas de texto, nunca – pelo menos em minhas experiencias – alguém conta algo com tamanho nível de detalhamento.

    No geral, gostei bastante da história, mas faltou um toque maior de realismo da forma de contá-la.

    😀

  5. Ana Maria Monteiro
    16 de outubro de 2017

    Olá, Hitchcock. Confesso que até mais de meio do conto a minha interrogação era sobre qual o motivo da história estar a ser contada por alguém que ouviu de alguém que ouviu de alguém. Depois pensei: “A razão deve estar guardada para o final” e pus a interrogação de lado,continuando pacatamente a ler. Mas a resposta não veio. Calculo que aconteceu, tendo em mente desde o início, a criação do suspense final sobre o que virá. Mas esse suspense não funcionou, não comigo.
    Li também os comentários dos colegas e,no geral, concordo com eles quanto à utilização do mais-que-perfeito, algo que até uso muito e é bastante frequente em Portugal, mas realmente, aqui ficou inadequado; sendo, até que houve momentos em que poderia e deveria tê-lo usado e não o fez.
    Depois, talvez porque sempre vivi na cidade, talvez porque para mim não existe nada mais assustador que a realidade, isso de “causos” que vocês tanto comentam, pode ser que exista em Portugal, mas desconheço em absoluto.
    Se alguém surgir a contar histórias mirabolantes como essas, é tomado por ignorante ou maluquinho e ninguém lhe dá ouvidos.
    Isso não impede que o conto se enquadre plenamente no tema do desafio, porque enquadra. É mesmo coisa minha, além de não sentir medo a ler seja o que for, não dar a menor importância a relatos assustadores.
    E houve alguma falta de consistência, por exemplo,no início você escreve estas palavras de Jairo: “Lá descobri que mais dois de nossos amigos iriam conosco, o Beto e o Jamaica.”, repare no “nossos amigos” e no final, o mesmo Jairo diz: ” o Jamaica não estava em parte alguma. Desde a noite terrível nunca mais o vi. Chego mesmo a considerar se ele alguma vez existiu ou se não passava de um fruto da minha imaginação.” Então, primeiro eram amigos e no final não sabe se algum dia existiu ou não?
    Enfim, o conto está adequado ao tema e a história também, apenas não funcionou a 100%.
    Parabéns por participar e boa sorte no desafio.

  6. Antonio Stegues Batista
    16 de outubro de 2017

    ENREDO: Grupo de amigos saem para pescar e são atacados por um fantasma.Regular. A estrutura do texto ficou legal, a história dentro da história

    PERSONAGENS: Bem construídos, cada um com sua personalidade, se destacando o Jamaica.

    ESCRITA: Me pareceu duas pessoas escrevendo, uma no início e a outra completando, mas creio que foi apenas um aprimoramento do autor enquanto escreve. Gostei, foi uma leitura simples, fácil e uma boa história.

    TERROR: Muito bom. As descrições de tensão e medo foram excelentes e as ações bem sacadas.

  7. Andre Brizola
    14 de outubro de 2017

    Salve, Hitchcock!

    Até agora foram poucos contos abordando um dos temas mais clássicos das histórias de terror: assombrações. Pra mim, seu conto assume a típica configuração de estória de fantasmas, e é muito legal que tenha sido assim.
    A opção pela narração da narração ficou meio confusa. Entendo que você tentou trazer para os dias atuais a cena tradicional daquela rodinha de amigos em volta da fogueira, ou da mesa de bar, compartilhando histórias assustadoras. Mas acabou não funcionando muito bem. Se fosse somente o pai contando para a filha e a mãe acho que teria funcionado melhor (mas esse é só o meu ponto de vista).
    Por outro lado, algumas cenas funcionaram muito bem. Toda a parte da trilha é bastante legal, e as inserções dos primeiros contatos funcionam bem para criar o clima de assombração. Ponto positivo!
    Pra finalizar, como outros colegas disseram, a escolha de alguns nomes não foi muito feliz para o clima de terror que o conto pede.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  8. Paula Giannini
    13 de outubro de 2017

    Olá Autor(a),

    Tudo bem?

    Acredito que seu conto seja inspirado na “Procissão das Almas”, lenda caiçara, que faz parte da cultura popular brasileira. Diz a lenda que na véspera de finados as almas faziam uma grande procissão rumo ao cemitério para encontrar com seus túmulos.

    Trazer um pouco de nossa cultura popular, e o melhor, dentro de um contexto contemporâneo, é o ponto alto do texto.

    Seu conto traz a estrutura de causo e busca, claramente, utilizar um modo narrativo mais elaborado ao optar por contar a história através de alguém que a ouve de um terceiro, ou melhor, de um quarto, já que a menina conta ao narrador que, por sua vez, transmite a trama ao leitor. Gosto muito de opções narrativas diferentes e elaboradas, ainda que, algumas vezes, estas não funcionem tão bem quanto o(a) autor(a) imaginou. Narrativas inusitadas são um experimentos válidos de elaboração do conteúdo e é só errando e acertando que conseguimos chegar a um bom resultado. Afinal, escrita é prática e mais prática, não é?

    Sobre a estrutura narrativa, entretanto, vejo que muitos colegas já falaram por aqui. Então, gostaria de falar um pouco sobre a verossimilhança e o universo criado pelo(a) autor(a).

    Quando um(a) autor(a) cria um texto, seja ele um conto, um romance ou mesmo uma crônica, ele cria um universo. E, esse universo tem suas próprias leis. Ainda que o conto seja uma criação do gênero fantasia, por exemplo, as tais leis devem estar presentes ali fazendo com que o todo tenha coerência e credibilidade para quem lê.

    No seu conto há o universo família. Ainda que história seja contada entre amigos, o relato original partiu de um pai preocupado com sua filha e esposa, e, pelos diálogos, supõe-se que o homem tem uma certa religiosidade (visto que fala no bem e no mal insistentemente), além de ter amigos e interagir com estes com frequência. No entanto, a menos que a história que o pai narra à família seja uma espécie de “mentira de pescador”, há um ponto em seu conto que vai contra toda a sua narrativa. O pai vai ao encontro dos amigos em data recente (menos de um ano), um amigo é morto nesse encontro e o homem volta para casa como se nada houvesse acontecido. Mãe e filha não fazem a menor ideia da morte de um deles. Ele não foi a velórios, tampouco a morte do amigo foi investigada.

    Sei que o leitor deve “comprar” algumas ideias que inserimos nas histórias a fim de que estas possam funcionar. Afinal, trata-se de ficção. No entanto, houve algo muito grave para que não houvesse ao menos uma menção ao amigo como… Quando o Chambourcy morreu… Ou… A verdade é que a morte do Chambourcy não foi bem como contamos…

    Como vê, coisa pequena e fácil de se ajustar, caso concorde comigo.

    Bom, já falei demais. Tudo que escrevo aqui é na mais pura intenção de aperfeiçoamento, o meu e o do(a) escritor(a) por trás do texto lido. 😉

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  9. Paulo Luís
    12 de outubro de 2017

    É uma narrativa um tanto complicada, em vista de quem conta a história, são tantas as vozes que atrapalham o entendimento. É aquele caso do disse que me disse, não sei quem? No mais a ideia do conto é boa, mas acredito que a forma de contar é que prejudicou. A repetição dos verbos no pretérito mais-que-perfeito incomoda um pouco. A “gente pega a trilha do Matadeiro” se é um termo regional, podia ser, de alguma forma, melhor esclarecido, não? “Garatéia”, o acento foi abolido, assim como “ideia”.

  10. Regina Ruth Rincon Caires
    12 de outubro de 2017

    Bom conto, escrita boa, sem muitos deslizes. Autor experiente, narrativa fluente, lógica sequencial. História bem estruturada. Há uma narração dentro de uma narração, técnica interessante e difícil de ser conduzida. O tempo verbal, utilizado pelo narrador 1, ficou um pouco cansativo, “mais-que-perfeito” ficou “muito mais”. Usado, na medida, enriquece o texto, mas, quando usado em demasia, distancia ainda mais leitor/história. Quando se lê: Beto e Jamaica, ninguém controla um “ah!”, não tem jeito… Agora, quanto ao final do conto, volto à questão do mínimo de 3000 palavras, há pessoas que falam mais com menos…

    Parabéns, Hitchcock! Boa sorte no desafio!

  11. Nelson Freiria
    12 de outubro de 2017

    Achei o quinto parágrafo mto inocente. Mais a frente, em “Cecília enfim cedera, mais por causa de minha curiosa persistência do que por sua própria vontade”, isso já estava implícito no texto. Há erros de digitação.

    O conto tem uma boa história para contar, entretanto, transcrevê-la por terceiros é complicado… aquela pausa para a cerveja não necessitava de uma pausa na narrativa da história, apenas uma menção ao tremor das mão de Jairo bastaria.

    Há uma mensagem sobre bem vs mal que ficou bem camuflada, quase totalmente coberta pelas crenças do personagem, mas que ainda me pareceu dar aquela pontadinha de leve no leitor.

    O final me pareceu deslocado. O conto poderia ter acabado no relato tranquilamente. Não sei se foi para aumentar o conto, que o personagem foi até aquele lugar, mas isso não acrescentou nada. Aquela risada maléfica que foi citada me deixou desanimado.

    Mas o conto tem uma boa qualidade que é fazer um causo parecer mesmo um causo. É claro que há toda uma mistura com elementos de terror a mais para impressionar, mas eu gostei, ficou bacana. Me fez lembrar que faz tempo que meu avô não conta umas histórias duvidosas desse tipo.

    Não costumo dar tanta importância a nomes, mas Beto & Jamaica… segura o Tchan aí

  12. Olisomar Pires
    11 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: baixo.

    Narrativa/enredo: amiga conta ao amigo uma estória que ouviu do pai sobre assombração em um trilha.

    Escrita: boa, não notei erros fáceis.

    Construção: o narrador principal (Fabinho) ficou muito chato com seus verbos no futuro do pretérito o tempo todo. Sem falar que não combinou o personagem.

    Depois há uma certa confusão com a garota contando (escrevendo) a estória.

    De início parece que é outra pessoa contando e não a filha porque ela trata o pai pelo nome – “tornou, Jairo”, “disse jairo” e se trata como terceira pessoa: “disse cecília” etc… Mais na frente o pai da cecília toma o relato para si, mas ele não está falando com o fabinho que é o primeiro narrador e está lendo a estória. É cecília. O texto nos faz crer que esse é o relato escrito da garota para o amigo, mas infelizmente ficou difícil acreditar nisso. Confusão total.

    Pode parecer pequena coisa mas a ruptura da narração desconstruiu o conto inteiro, pelo menos na minha opinião.

    Se trabalhado por outro ângulo pode vir a render bem mais, nota-se que o autor tem conhecimento do idioma, agora é só escolher um estilo melhor.

    • Olisomar Pires
      12 de outubro de 2017

      *correção: verbos no pretérito mais-que-perfeito*.

  13. Angelo Rodrigues
    11 de outubro de 2017

    Caro Hitchcock,

    conto bem escrito, bem trabalhado na redação.
    Me pareceu um conto que vem do sul: “GURI, é melhor TU calares…”
    Tenho algumas observações a fazer de modo a que o conto mais se aprume. Aqui vão elas.
    – Não desacredite a própria história iniciando com “…verídica ou não…”, ou ainda “ou meu pai sonhou. Mas tenho para mim que ele estava bêbado e presenciou tudo com lentes de aumento…” quando me contou esta história. Em suma, a história vai cada vez mais perdendo a credibilidade junto ao leitor.
    – Logo de início, eu me perguntei: por que a própria Cecília não me (leitor) contou esta história? Acredito que o motivo disso está no extremo encapsulamento narrativo. Se não estou enganado, Jairo disse, o pai de Cecília ouviu, que contou à filha Cecília e à mãe, Neiva, que contou ao narrador, Cecília, que está me contando. Isto tornou o conto muito distanciado do leitor, algo que não ajuda, dado que matou o frescor da narrativa, tornando-o aquela alface queimada pelo frio no fundo da geladeira. Por que não pegar o conto e contar apenas a história dos amigos? Acho que ficaria bem melhor e mais bem resolvido. Não sei se é o caso, mas tenho a impressão de que alguns contos aqui do desafio, eram menores que 3.000 palavras e foram “engordados e engordados” para cumprir a meta. Digo isso com dor, porque o mesmo se deu com o meu conto, que, resolvido com cerca de 2.500 palavras, “engordei-o com mais cerca de 500.
    – Notei também que o conto tem baixo sentido de verossimilhança. A despeito do uso de palavras marcantes que indicam medo, horror, terror, isto não se transfere ao ambiente cênico ou “espiritual” das personagens. O uso permanente da cachaça, também, reduz a credibilidade dos fatos.
    – Entrando na polêmica levantada pelo Fábio Baptista, dei uma olhada no Thesaurus do professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo – Dicionário Analógico da Língua Portuguesa – e lá estava (lembrem-se de que se trata de um thesaurus, que trata de palavras correlatas): Glóbulo pode estar associado ao sentido de pequenez/pouquidão/esfericidade. Assim, temos que, glóbulo pode estar associado a …sombra, alguma coisa, talisca, grão, grânulo, (glóbulo)… / ou a …esfera, esférula, globo, orbe, terra, satélite, planeta, astro, sol, bola, (glóbulo)… Dessa forma, “Por um momento pareceu que uma sombra cobriu os olhos do meu pai, tornando-os escuros, dois buracos no lugar dos glóbulos”, pode estar associado a que as duas esferas (escleróticas) representadas pelo olhos estivessem ausentes, dois buracos, no caso, negros. Bem, parece que rola uma subjetivação, dado que “a sombra cobriu os ‘olhos’ do meu pai”, dizendo que eles estavam lá, depois não estavam mais. Tudo bem, embora inusual o uso de glóbulos para globos (no caso), tornou-os bem pequenos, olhinhos.
    – Quero saber quem é o agente literário desse tal de Beto. É o terceiro conto em que ele aparece, ora como protagonista, ora como figurante. O homem não fica desempregado de jeito nenhum.
    – Algo que me pareceu estranho: quatro garrafas de cerveja vazias não deixam dois cachaceiros bêbados.
    – Sou terminantemente contra gargalhadas inumanas nos contos, no cinema, na televisão – em qualquer lugar. Já deu, acho. Quando leio que monstros gargalham, lembro imediatamente do clipe Thriller do Michael Jackson e tudo vai por água abaixo.
    – Para terminar, quem diabos é Jim Hawkis e o Capitão Flint? O surgimento de personagens-enigma destroçam o ânimo do leitor. Acho que ele, o leitor, se sente meio incompetente por não saber quem são os tais caras e, pumba! repelem o trabalho. Ninguém esteve obrigado a ler A Ilha do Tesouro.

    Caro Hitch, o conto pode se tornar bem legal, aparando, acrescentando, remodelando. Uma ideia que pode funcionar muito bem, com vinganças e tal. O lance é escrever e reescrever.

    Grande abraço, boa sorte com o desafio e obrigado por nos deixar conhecer seu trabalho.

    • Angelo Rodrigues
      11 de outubro de 2017

      Ajustando:
      … quem diabos é Jim Hawkis e quem diabos é o Capitão Flint?…”

  14. Fernando.
    11 de outubro de 2017

    Meu caro amigo, Hitchcock, Cá estou eu às voltas com a sua história. Sim, esses causos trazidos da experiência familiar costumam render várias narrativas de medo, toda família tem das suas. Note que elas costumam ser relatadas pelos mais velhos e no caso temos o pai da amiga Cecília como o contador da tragédia. Apesar de tudo, apesar do seu conto estar bem relatado, um apuro mesmo quem sabe excessivo com a linguagem – aponto aqui a mesóclise que despenca, qual um meteoro, no meio do texto – ele não me convenceu. Achei os diálogos meio forçados, bem como a preparação que você foi fazendo da entrada na tal trilha maligna. O persignar-se, o silêncio do Jamaica, a lembrança da hora do ângelus, foram apontamentos que não me criaram empatia, ou, dito de outra maneira, foram incapazes de gerar algum suspense. Chambourcy, mais que uma pessoa, um pobre sofredor que perdeu o amor para o rival, me remete a uma cidadezinha muito agradável na França e ao iogurte bem famoso ( e que nem sei se existe mais). Fiquei achando que poderia usar outro nome para o transtornado suicida. Resumindo, amigo. Uma boa história, um relato bem redigido, mas que para mim não funcionou. Quem sabe valeria a pena reescrever a história? Tentar outras abordagens nela. Por exemplo, reflito aqui se não seria o caso de eliminar a Cecília (que funcionou como uma mera “atravessadora”, uma contadora do contador de você o terceiro contador que me traz a trama) e fazer com que a história fique assim mais próxima do narrador. Talvez contada pelo pai do narrador, teria havido menos coisas sobrepostas e a linguagem teria ficado mais leve, mais fluida. Mas repare que esses são comentários de alguém que não entende praticamente nada de histórias de terror. Releve então o que disse. Só eu comentei até agora, tomara que os que virão tragam novidades, tenham mesmo apreciado seu conto. Receba o meu abraço, Fernando.

    • Fernando.
      11 de outubro de 2017

      escrevo o comentário (colocando a nota) antes no word. Quando o fiz não havia outro comentário. Agora vejo que já tem um. Curioso o li e vejo que há ressonâncias entre o que te disse e o que o outro comentarista traz. Outro abraço.

  15. Fabio Baptista
    10 de outubro de 2017

    Então… não se pode dizer que o conto esteja mal escrito, mas eu não gostei de quase nada.

    Vamos lá:

    Na parte técnica, fiquei bastante incomodado com o excesso desnecessário de verbos no pretérito-mais-que-perfeito, enquanto Fabinho narrava as cenas “de bastidores” do relato. E o que foi aquele “ater-me-ei” lá no começo? Acabei me lembrando de Michel Temer! (tudo bem que ele é uma figura que evoca o terror, mas…).

    A parte do relato está bem melhor, apesar de certa bagunça com as aspas duplas e simples, devido ao fato de ser a transcrição do relato do relato. Essa estrutura, aliás, tirou completamente o impacto do conto, que até começou promissor, despertando a curiosidade gostosa de “putz, qual será a história dessa mina?”. Quando ela começa a contar a história do pai e dos cachaceiros, a ameaça fica muito distante.

    – dois buracos no lugar dos glóbulos
    >>> não sou perito no assunto (e dessa vez o Google não me ajudou muito), mas acho que “glóbulos” se aplica ao sangue. No caso dos olhos acredito que seria “globos” (por mais estranha que soe essa palavra). Mas não tenho certeza.

    – Beto e Jamaica
    >>> Sequência infeliz de nomes… Não pude deixar de lembrar do cantor do É o Tchan bradando “que que é isso, ordinária?” junto ao compadre Washington.

    – esperar meia hora pra a circular
    >>> para

    – semelhando-nos
    >>> marquei como apontamento, mas acabei vendo que existe o verbo “semelhar”. Só conhecia o “assemelhar”

    – É o fantasma do Chambourcy!
    >>> Putz… outra escolha de nome que não funcionou. Pô, esse nome Chambourcy não faz medo em ninguém rsrs

    – embora eu nunca acreditei nela
    >>> embora eu nunca tenha acreditado nela

    Acabada a história do pai e a viagem do meu xará para Florianópolis, pensei que o conto daria uma nova chance ao terror, com um encontro do protagonista com o tal fantasma, mas infelizmente fica só na especulação, num final aberto pouco empolgante.

    Desculpe o comentário amargurado, mas realmente não curti o conto.

    Abração!

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Informação

Publicado em 10 de outubro de 2017 por em Terror.