EntreContos

Literatura que desafia.

Felidae (Unheimlich)

Dei uma tragada profunda no cigarro, observando a lua pela janela de meu escritório e relembrando os acontecimentos da noite. Tenho passado muitas horas aqui ultimamente, debruçado por períodos intermináveis sobre esse projeto de arquitetura que estou desenvolvendo para a nova sede de uma empresa canadense de brocas. Mesmo com a tensão e cobrança implícitas ao trabalho, não fumava há nove anos. Cara, como eu odeio gatos.

Lembro vividamente do dia em que Eduardo se mudou para casa. Meu pai falecera dois meses após meu nascimento, deixando mamãe numa tristeza profunda. Deveria ter me sentido feliz quando, aos 4 anos, vi meu padrasto chegar com suas malas: mamãe não mais sofreria sozinha. Porém, ainda recordo o medo e a ansiedade sentidos enquanto abraçava as pernas de minha mãe pelas costas, procurando me esconder daquele desconhecido.

E, com o tempo, o pavor se mostraria justificado. Edu era um cara calado e agressivo. Pelo visto, mamãe esperara que ele representasse o papel de pai para mim, mas suas esperanças falharam miseravelmente. Porém, o pior não era o homem, e sim seu animal de estimação: um gato. Lembro-me perfeitamente da pelagem dourada, dos olhos esbugalhados e maliciosos, e da aparência maligna.

O maldito desenvolveu uma espécie de obsessão por mim, me atacando constantemente. Seu horário preferido era a madrugada, quando adentrava sorrateiramente meu quarto. Desenvolvi um pavor de dormir sozinho. Porém, nunca reclamei. Mamãe já sofrera demais.

Essa tortura quase diária perdurou por três anos. Próximo de meu aniversário de 7 anos, Eduardo faleceu subitamente, e o maldito gato desapareceu junto dele. Mamãe jamais pôde superar outra perda. Envelhecendo 10 anos a cada ano, faleceu precocemente quando eu completaria 14.

Dessa forma, passei a morar com meus tios e tive uma adolescência conturbada. Apesar de quieto e comportado, alimentei secretamente meu rancor durante anos. Extravasava nos gatos da vizinhança. Costumava colocar chumbinho ou veneno em latas de ração, posicionadas estrategicamente para atrai-los, e saborear a angústia dos animais morrendo dolorosamente durante a noite. Algumas vezes me masturbava ao som daquela sinistra melodia. Quando, por vezes, conseguia mesmo capturar algum, minha ira se tornava um banquete.

A princípio, apenas arremessava o bicho por cima do muro, usando o máximo de minhas forças e esperando, sedento, pelo baque surdo e o gemido agoniante. Porém, com o tempo, fui aperfeiçoando minhas técnicas e me tornando mais criativo. Um simples voo e queda não eram suficientes. Utilizava um galpão abandonado da antiga fábrica de estampas para realizar alguns experimentos. Decepava seus membros, furava os olhos, estrangulava, abria sua barriga a machadadas, esvaziando as tripas e retorcendo-as entre meus dedos.

Não gostava das vísceras e nem do sangue em si. Eram os gemidos. E, por fim, quando aquela luz maligna se extinguia dolorosamente de seus olhos, levando consigo toda sua maldade e malícia, eu chorava, às vezes por várias horas.

O tempo passou e conheci Carla. Em 2 anos chegou nossa filha, Júlia, e meu coração se acalmou. Determinado a deixar para trás todo aquele rancor, me dediquei a tornar um pai dedicado e atencioso, e construir uma carreira de sucesso. Evitava locais com gatos e respirava fundo quando os avistava distraidamente pela rua. Construí uma vida feliz e tranquila, parei de fumar e sentia cada vez menos impulsos destrutivos. Até esta noite. Não fumava mais desde o nascimento de Júlia. Exatos 9 anos.

Como disse Jean de La Fontaine, “não poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele”. É, o destino é uma puta. Júlia sempre amou animais, e sonhava se tornar veterinária. Desenvolveu, durante suas muitas visitas às primas, um amor especial pelos felinos. Sabia que um dia a merda me atingiria, mas consegui evita-la por algum tempo. Preciso cuidar do palavreado; sempre fico meio rancoroso quando as lembranças emergem.

Apesar das várias tentativas da garota e de sua mãe, consegui escapar desse pesadelo por muitos anos. “Você é muito nova, não tem responsabilidade para cuidar de outro ser vivo. ” Ataques de raiva e choro sempre sucediam essas discussões, mas me aliviava escapar do assunto. Criança é foda.

Hoje, passei o dia reunido com os canadenses. Infindáveis horas de discussão e planejamento, e muito trabalho para ser refeito. Cheguei após as 22h, exausto. Júlia me esperava, feliz, à entrada da casa – um gato dourado aninhado em seu colo. “Papai, olha o que o tio Lu me deu! ” Lucas desgraçado, sempre odiei esse canalha.

“Sabe o nome que dei pra ele, papai? Felipe, em sua homenagem! ” A menina era pura alegria. Carla me encarava com ar de atrevido, como se me desafiasse a contestar a felicidade da garota. Fui vítima de um complô, e agora estava dentro da armadilha.

Viajando nesses pensamentos, com uma última e lenta tragada, apaguei o cigarro na palma da minha mão, deleitando-me com o efeito tranquilizador que a dor causava, e fechei a persiana. A queimadura latejante aliviou a tensão. Se Carla notasse que andei fumando – ainda mais dentro de casa –, me mataria. Foda-se.

*

Na manhã seguinte, como de costume, acordei antes do despertador. Permaneci alguns minutos com os olhos fechados, relembrando os acontecimentos da noite anterior. Sonhos inquietos marcados por enormes gatos fluorescentes e vultos difusos. Uma dor intensa latejava em minhas têmporas. Porém, tinha muito trabalho a fazer. Quando comecei com Home office, achava que teria mais liberdade. Me ferrei. A contragosto, abri os olhos.

Soltando um berro, bati a cabeça no batente da cama. O maldito gato estava parado a meus pés, me encarando fixamente. Os olhos dourados, sagazes, observavam calmamente meu desespero.

“Está tudo, bem, querido? ” – Carla entrou assustada, me olhando ansiosa. “Ah, vejo que o Fê veio te dar bom dia. Não é uma graça? ” Abandonou o quarto rindo a plenos pulmões. Obviamente nunca havia lhe contado minhas desventuras de infância, portanto, desavisada, deve ter interpretado meu susto como algo divertido. Levantei-me rapidamente e fui tomar banho.

Passei o dia inquieto. O animal parecia me seguir por onde eu andasse, sempre à espreita. Algumas vezes, subitamente, tinha aquela sensação de estar sendo observado, e o surpreendia nos lugares mais inusitados, olhar atento, calculista.

Fui dormir com uma enxaqueca infernal.

*

Uma semana com essa peste na casa e já pareço ter contraído algum tipo de alergia. Sinto uma coceira incessante pelo corpo todo. Apesar de coçar, às vezes esfolando a pele, não consigo me livrar da sensação. É como se a coceira viesse de dentro da pele.

Tenho dormido muito mal. Alguns gatos devem ter sentido a presença do nosso novo mascote, e decidiram povoar o telhado. Acordei a noite toda com o escândalo de suas aventuras sexuais. Não tenho transado muito com a Carla: o gato está sempre observando, com aquele olhar de desejo.

*

Essa manhã me tranquei no escritório, ainda com a sensação de que o bicho rondava a porta, espreitando. Os gatos possuem essa habilidade natural de esgueirar-se, aguardando o melhor momento para o ataque. Da janela do escritório, era possível observar a macieira do vizinho. Um gato cinza me encarava por entre as folhagens. Achava que eu não podia vê-lo, mas suas artimanhas não me enganam.

Sacudindo a cabeça, procurei me concentrar. Precisava desenvolver o hall de entrada do edifício, trabalho que demanda atenção e cuidado. Comecei pela fonte ornamentada: o hall de acesso é o cartão de visitas de qualquer empreendimento. Sempre dou uma atenção especial aos detalhes. Quando recebo uma planta, logo imagino todos eles, deliciando-me com minha avantajada inteligência espacial. O trabalho de um arquiteto é minucioso e perspicaz. Assim como os gatos, espertos e ágeis por natureza.

Por falar neles, o Felipe está cada dia maior. Parece que cresce de forma desordenada. Às vezes, não passa de alguns centímetros, e fica mesmo difícil enxerga-lo. Outras, supera um metro de altura. Sua sombra também não parece obedecer qualquer lei natural. Às vezes, segue o tamanho do corpo. Outras, alarga-se, ocupando todo o espaço do cômodo. Cheguei mesmo a notar que às vezes ela some completamente. Além disso, parece se comportar de maneira independente do dono. Tenho a impressão de que ela pode unir-se a qualquer sombra do ambiente, movimentando-se livremente pela casa. Deve ser por isso que os gatos sempre estão por perto, observando na penumbra. Não é possível vê-los, mas olhando atentamente pelo canto dos olhos, noto seus olhos brilhantes – um brilho incandescente – em meio à escuridão.

Hoje, notei algo estranho. A sombra movia-se de forma epiléptica, tremendo e repuxando. Observei, boquiaberto, a situação. O gato parecia não notar a anormalidade, bem como minha família. Acredito ser necessária muita percepção para desvendar as astúcias dos felinos.

Após alguns movimentos irregulares, a sombra iniciou uma espécie de dança, me provocando. Sabia que a observava. E devo admitir que existia uma certa sensualidade provocante naqueles movimentos. Preciso descansar mais.

*

Essa noite dormi muito mal. Levantei diversas vezes para vomitar. Sempre que o fazia, ouvia passos de pequenas patas me acompanhando no telhado. Acordei quase meio dia, não havia ninguém em casa. Um miado baixo e constante ecoava pelo local. Coloquei um fone de ouvido e liguei a música no último volume.

Ao sentar em minha mesa, olhei pela janela. Uns 40 gatos agora perambulavam pelas redondezas. Nauseado, fechei a persiana. Essas criaturas infernais tem uma capacidade de se multiplicar. Era um, agora são milhares. Certa vez, infestaram Roma de tal forma que passaram a ser tratadas como praga urbana. O papa mandou extermina-las aos montes. Homem sensato.

Sem almoçar, passei a tarde trabalhando. Os gatos pareciam ter encontrado uma entrada para dentro da casa. Sentia-os cada vez mais próximos, me seguindo com seus passinhos ritmados por onde eu fosse.

Preciso fechar as entradas da casa.

*

Essa noite foi terrível. Cheia de pesadelos arrepiantes, minha mente procurava me distrair, mas eu conseguia perceber o que acontecia ao meu redor. Vários deles, imundos, nojentos, invadiram meu quarto. Transaram barulhento sobre minha esposa, adormecida. Me atacaram enquanto dormia, como nos velhos tempos. Acordei todo arranhado, meu lençol com manchas escuras de sangue. Preciso me livrar dele, para não assustar a Carla. Isso é assunto meu e dessas criaturas repugnantes.

Hoje foi dia de passeio da Júlia na escola. Ela e a Carla passaram o dia todo fora, para meu alívio. A coceira está cada vez mais intensa, quase insuportável. Animais imundos, me passaram algum tipo de doença. Coço a pele até sangrar. Fora os arranhões, que não param de aparecer.

Os sons da casa também estão estranhos. Os miados agora são quase incessantes, sem falar no arranhar das unhas. Os malditos arranham as paredes e móveis numa sinfonia angustiante. Meus pelos se arrepiam e os calafrios já são constantes. Aliás, parece que meus pelos também tem crescido de forma anormal. Me sinto doente.

Vou dormir no armário de vassouras, essa noite. É apertado e escuro, mas pelo menos eles não podem me encontrar aqui. A Carla vai achar que estou no escritório. Não tenho saído muito de lá, de qualquer forma.

Mal consigo respirar aqui dentro, me sinto enclausurado. O ar é poeirento e raro. Mas pelo menos aqui o miado não me segue. Eles entram, mas ficam em silêncio. Desde que eu mantenha os olhos fechados, devo ficar seguro. Porém, parece que os olhos brilhantes e demoníacos atravessam mesmo minhas pálpebras, marcando insistentemente minha retina. Vai ser mais uma noite difícil.  

*

Não dormi nada. Noite agoniante. Saí correndo do armário assim que amanheceu. Percebi algo, durante minhas divagações noturnas: há algo dentro da minha pele causando essa coceira insuportável. Percebi minha pele se mexendo e algo se movendo. De alguma forma, eles entraram pelos poros de minha pele. Sentia constantemente seu movimento pelo meu corpo.

Não deixei ninguém sair de casa hoje. Júlia perdeu uma prova e a Carla teme ser demitida, mas a segurança da família é o mais importante. Também tomei os celulares e notebooks, e desconectei o modem, prefiro resolver isso somente no nível familiar, sem contar com as costumeiras e indesejadas intervenções da família dela. Lacrei a casa toda por dentro, aproveitando umas ripas que sobraram da última reforma do quartinho do fundo. Hoje teríamos paz, nada de gatos malditos infernizando.

As duas pareciam totalmente aterrorizadas. Tentei me explicar: “Questão de segurança, sabe?” Elas pareceram não entender, mas não abriram a boca. Me sentia animado diante da perspectiva de um dia de paz, mas a situação não melhorou. O Felipe nos cercava e ronronava, um som maldito que parece emanar de suas entranhas, e os olhos de Júlia viajavam constantemente entre mim e seu mascote, pressentindo o pior.

O dia transcorreu de forma lenta, alternando entre momentos de silêncio aterrador e súplicas desesperadas pelo retorno de minha sanidade. Ao escurecer, porém, a situação se agravou. Não estávamos seguros. O miado retornou, e dessa vez parecia emanar de minha própria cabeça, me atordoando e ameaçando rachar meu crânio. Unhas arranhavam as paredes, causando uma sensação constante de náusea. Conseguia vê-los por todos os lados. Olhos dourados e vermelhos brilhando pelos cantos escuros. Percebi que emergiam da própria parede, que se deformava, denunciando o movimento em seu interior.

A casa estava completamente infestada. Centenas deles, rastejando, gemendo, miando, esgueirando-se, cobiçando. Fora e dentro de mim. Minha pele, ainda coçando, começou a se retorcer, ameaçando rachar. Minha cabeça, prestes a explodir, confundia a realidade e me fazia berrar de dor.

E então o avistei. Felipe, me olhando, demoníaco, ria-se de minha angústia, à distância. “Olá, Felipinho, tava com saudades de mim? ” – o som, um misto de lamento profundo e miado, reverberou pelo recinto, violando a tranquilidade do ar. A boca do felino não se movia, porém, e percebi que o som advinha de minha própria boca.

Prendi minha família no escritório, por segurança, sob pretexto de preparar o jantar.

*

Voltei, três horas depois, cantarolando animado. Ao abrir a porta, avistei as duas abraçadas a um canto, choramingando baixinho. Olharam assustadas para a enorme panela que eu trazia nas mãos. Aliás, trazia com muita dificuldade. Minhas unhas haviam caído dolorosamente, dando lugar a garras afiadas, o que dificultava um pouco o manuseio da alça da panela.

Com cuidado, depositei o peso sobre a mesa do escritório, derramando o caldo avermelhado sobre as plantas e anotações. “O jantar está servido, meninas. Sopa, como vocês adora. Não se acanhem, venham”.

Júlia lançou um olhar enojado ao conteúdo e pôs-se a chorar copiosamente. “Não tenho fome, papai. Por favor, não me faça comer isso. ”

Flashes pipocavam em minha cabeça. Chacoalhei-a violentamente para afastar os fantasmas. Pela visão periférica, vigiava as centenas de olhos malignos que me observavam das sombras. O ruído insistente das vozes miadas zumbia em meus ouvidos. Segurava a vontade de vomitar, não queria estragar a refeição.

“Você tem que comer, querida. Sente-se com o papai. ” Agarrei violentamente o braço da garota, deixando marcas vermelhas. Carla levantou-se de chofre, empurrando-me. Puro instinto materno. Urrei, numa espécie de espasmo de ódio, atacando seu rosto com minhas recém-adquiridas unhas. Furioso, golpeei repetidamente seu rosto e pescoço e mordi seu braço, e perna, arrancando um naco de pele e carne.

Envergonhado pela perda de controle, me recompus. Sangue de vermelho vivo escorria de meus lábios. “Desculpem, meninas. Vamos jantar”. A expressão de terror no olhar de Júlia me causou um mal-estar. Era estranhamente familiar. “Por favor, papai, não me toque. ” – tais palavras ecoavam em minha mente como uma súplica conhecida.

Abanei a cabeça vigorosamente para espantar as lembranças. Não podia me distrair agora. Agressivamente, usei as cordas que trouxera comigo para amarrá-las à cadeira. Carla chorava copiosamente, encarando a ferida aberta em seu braço. Seus gritos e insultos não me incomodavam.

Porém, uma opressora sensação me envolvia. À toda volta, os desgraçados fechavam o cerco, miando alucinados. Os olhos brancos, sem íris; os pelos, eriçados, movendo-se como que tomados por uma rajada violenta de vento. As criaturas contorciam-se, fundindo-se, com ruídos de sucção, num único corpo gelatinoso.

Minha cabeça explodia. Lembranças difusas iam e vinham.

O ensopado me encarava com seus olhos felinos, acusando-me pela barbárie cometida. O ódio era palpável. Seu conteúdo girava em redemoinhos, ameaçando transbordar e me afogar. Sem esmorecer, servi os pratos.

“Por favor, papai! ” O berro da garota me tirou dos devaneios. Apertando suas bochechas para abrir sua boca, enfiei uma colherada cheia de caldo, pelos e um pedaço de uma carne avermelhada e crua.

Num acesso de tosse, Júlia gritou, desesperada. Outro flash: um quarto escuro, uma garota deitada numa cama. “Hoje não, papai. Por favor”. Em meu peito, brilhando, aquela tatuagem horrorosa de um gato dourado maligno. A lembrança se retorceu e alterou. Dessa vez, era eu deitado, e o gato flutuava em minha direção no escuro. “Não grite, ou eu mato sua mãe”. Duas tatuagens, dois gatos, dois homens. 26 anos de distância.

Aproveitando-se de meu momento delirante, Carla soltou-se das amarras e me atingiu no rosto com um pesado vaso.

Acordei, segundos depois, atordoado. Não conseguia mais me manter em duas patas. Milhões de gatos me encaravam por toda a parte, entoando em uníssono algo como “Felidae”, numa espécie de ritual sinistro. Acostumando-me a minha nova postura, avançava sobre o que se movesse, mas não conseguia capturar nada. Todos eles me conduziam numa direção, me atraindo. Felidae. Avistei dois alvos à frente. Um, muito ferido, arrastando-se e mancando devido a um ferimento sangrento na perna. Ao olharem em minha direção, reconheci seus rostos: Eduardo e seu odioso gato dourado. Já os matara uma vez, não seria um problema repetir o trabalho. Nada de veneno dessa vez. Felidae. Olho para os pedaços de corda e avanço em sua direção.

Dentro de minha pele, centenas de gatos tentam me devorar. Felidae. Sinto seus corpos quentes se contorcendo. Felidae. Preciso me livrar deles. Com meus dentes afiados, arranco-os de minha pele, cuspindo a carne e o sangue. Felidae. Várias mordidas. Começo a ficar tonto, perco muito sangue e a dor lancinante se espalha em ondas pelo corpo.

Felidae.

Meio cego, prossigo perseguindo minhas presas. Nada mais faz sentido, minhas quatro pernas pesam toneladas e a única coisa que continua me movendo em direção ao alvo é o ódio.

*

Sou despertado por uma rajada de sol que adentra pela janela da cozinha. Silêncio total. Demoro a entender o que aconteceu. Memórias difusas da noite passada pipocam em minha mente, todas girando em torno de duas figuras enforcadas: Eduardo e seu gato. Sinto todas minhas forças se esvaírem. Me restam poucos instantes de vida. Sinto todo meu corpo empapado. Olhando para o chão, percebo estar deitado numa enorme poça de sangue, provavelmente proveniente dos inúmeros ferimentos de meus braços e peito dilacerados. A tatuagem em meu peito parecia ter sido o principal alvo, e agora estava irreconhecível sob as mordidas e arranhados.

Num último assomo de força, giro a cabeça. Algo refletindo na poça de sangue chama minha atenção. Dois objetos pendurados no teto. Reúno todas minhas forças e levanto o pescoço, enquanto um último suspiro suga minha vida.

Dois corpos inocentes balançam tolamente.

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33 comentários em “Felidae (Unheimlich)

  1. Luiz Henrique
    21 de outubro de 2017

    É um conto muito bom. Um pouco exagerado, no que diz respeito ao despeito com os pobres dos gatos, mas ajustado pelo enredo bem contado. Em compensação é comedido com os diálogos, pois estes são bem equilibrados. E condiz perfeitamente com o tema proposto.

  2. mariasantino1
    21 de outubro de 2017

    Quanto requinte de sadismo, hã? Meus sinceros parabéns pelo trabalho.

    Pois bem, o seu texto é muito bom tanto por você oferecer imagens tenebrosas, quanto pela competência de mostrar a loucu8ra gradual do personagem principal. Imaginar um cara pensando que é um felino e se tornando um é algo que chegou até a mexer com a minha cabecinha aqui. A sopa, o peso das pernas, a coceira, os olhos, os sons… E você consegue nos fazer sentir e quase ouvi isso sem utilizar sentenças mais rebuscadas (que eu tanto gosto). A linguagem é de fácil assimilação, mas a forma de contar é que se difere. O gato é projeção, é a mente infantil buscando recursos para suportar os abusos, e depois de adulto ele desperta os demônios adormecidos.
    O texto receberá nota máxima, mas achei estranho que em alguns momentos o texto pareceu confissões em um diário. A última sentença poderia ser diferente só para retirar a sonoridade de duas palavras com a mesma terminação em curto espaço (Dois corpos inocENTES balançam tolamENTE.)

    É isso! Contaço!
    Parabéns mesmo.

  3. angst447
    20 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está definitivamente dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Linguagem limpa, o narrador descreve muito bem a situação e as ações horripilantes. Não é um estilo leve, nem poupa o leitor doa densidade macabra.

    R (revisão) – Alguns erros passaram, como já apontados pelos colegas. Que felicidade não ter que repetir a mesma ladainha para você, autor.

    R (ritmo) – O começo do conto não apresenta um ritmo não é propriamente ágil, mas a narrativa vai nos levando ao ápice do terror ganhando cada vez mais velocidade.

    O (óbvio ou não) – O terror não chega a ser óbvio. Claro que percebemos que algo vai “dar ruim” com essa estória de ódio pelos felinos. Acredito que o gato representava o lado selvagem, animalesco, do padrasto. Assim, o menino incapaz de voltar todo o seu ódio para o homem, transferiu para o gato, que seria mais fácil de dominar e eliminar em sua vida.

    R (restou) – Uma repugnância respeitosa. Nossa, que conto mais denso, pesado e bem trabalhado no terror. Parabéns!

    Boa sorte!

  4. Rose Hahn
    19 de outubro de 2017

    caro autor, um conto muito bem contado, escrita madura, fluída, sem entraves, conduz com maestria o leitor à loucura do protagonista. Lembrei do conto dos gatos do Poe. Também não sou chegado em gatos. Bem, talvez se tiver mais de um metro e oitenta, olhos verdes…rsrs. Pequenos deslizes: “Carla me encarava com ar de atrevido” – ar de atrevida ou ar atrevido e “Sopa, como vocês adora” – adoram. Fiquei com uma dúvida atroz na passagem “Outro flash: um quarto escuro, uma garota deitada numa cama. “Hoje não, papai. Por favor”. A pedofilia do padastro é revelada ao final, mas nesse trecho fiquei na dúvida se ele também abusava da própria filha, a Júlia. No mais, parabéns pela composição. Abçs.

  5. Evelyn Postali
    17 de outubro de 2017

    Caro(a) Autor(a),
    Criatura cruel! 100-or! Não consegui ultrapassar os parágrafos sem sentir desconforto. Esse foi o melhor até agora. E narrado em primeira pessoa ficou perturbador. Bom roteiro. Leitura corrida, sem entraves, apesar das paradas para tentar seguir adiante pela trama. Não vi erros de escrita porque me envolvi na leitura. Boa sorte no desafio.

  6. werneck2017
    16 de outubro de 2017

    Olá,

    Um conto narrado com maestria nesse desafio de batutas. É extraordinária a eficiência da sequência de eventos em que a realidade e a loucura coexistem, loucura desencadeada pelo gato e pelo abuso sexual sofrido na infância, levando o leitor a um ápice de suspense e o desenlace fatídico, mas que não poderia ser de outra forma. O próprio título do conto, Felidae, servindo de referência ao filme de terror alemão.
    Chamo a atenção para alguns erros gramaticais (nada que tire o brilho do conto):
    Acostumando-me a minha nova postura > acostumando-me à minha nova postura
    Sopa, como vocês adora > Sopa, como vocês adoram
    um som maldito que parece emanar de suas entranhas > um som maldito que parecia emanar de suas entranhas (todos os demais verbos se encontram no passado)
    parece que meus pelos também tem > parece que meus pelos também têm
    Transaram barulhento sobre > Transaram barulhentos sobre

    No mais, perfeito. Parabéns!

  7. Evandro Furtado
    15 de outubro de 2017

    Hmmmmmmmm, gatos, não tem como errar, não é? Eu senti uma certa amálgama de Rats on the Walls com Black Cat e isso funcionou bem conforme o conto foi avançado. Os clichês do gênero aparecem e dão consistência à trama, funcionando mais como elementos de estilo do que clichês propriamente ditos. A loucura, particularmente, foi um elemento que funcionou muito bem aqui. A única coisa que poderia ser melhorada é essa ligação com o passado. Acho que a história de abuso surge meio que de repente. Acho que, se ao longo da narrativa, fossem inseridos pequenos elementos indicando Eduardo como a razão por todo esse trauma com gatos, a história ficaria mais amarrada. Isso é apontado apenas no começo, o texto parece se esquecer da história e no final ela volta, mas transfigurada. Sim, há a ideia de que ele era violento no início, mas não há dicas de abuso sexual até a revelação final e isso, de certa forma, cria lacunas que prejudicam a apreciação do conto.

  8. Lucas Maziero
    13 de outubro de 2017

    A narrativa segue vertiginosa durante todo o conto, sustentando um clima misterioso, o que me deixou intrigado, pensando sobre o que um pobre felino teria a ver com o Felipe, cujo nome lembra Felidae.

    Então tudo começou na infância, onde os traumas costumam se originar. Pela frase:

    “Próximo de meu aniversário de 7 anos, Eduardo faleceu subitamente, e o maldito gato desapareceu junto dele.”

    De duas uma: ou Eduardo suicidou-se, devido a algum arrependimento, e levou seu gato consigo, ou, o que fica um pouco difícil de engolir, uma criança de 7 anos conseguir enforcar o padrasto e seu gato. Ficaria mais convincente se ele os houvesse assassinado com veneno, pois é com veneno que geralmente pessoas idiotas dão cabo dos felinos. Pois bem, ficou-se essa dúvida.

    Uma bela noite Felipe chega a sua casa e encontra a filha com um gato dourado, tipo um clone do que o seu padrasto possuía. Agora, o gato era fruto da imaginação de Felipe? Se sim, não gostei muito dessa mistura de realidade com projeção mental, pois o que fica depois da leitura é um gosto amargo, sem se saber o que foi e o que não foi.

    “Está tudo, bem, querido? ” – Carla entrou assustada, me olhando ansiosa. “Ah, vejo que o Fê veio te dar bom dia. Não é uma graça? ”

    Ora bolas, o gato existia ou não? Assim durante todo o conto fica difícil sentir prazer com a leitura. E a esposa nunca desconfiou que o marido tinha sérios problemas com gatos, nunca lhe viu a tatuagem, nunca lhe questionou sobre isso?

    É então que o descontrole de Felipe fica escancarado quando descobrimos que ele maltrata a esposa e a filha e as obrigam a comer, comer gatos? Sim, foi o que pareceu. E aí começa o terror das duas, e em nós o horror por tal cena.

    Como fechamento, Felipe acredita se transformar em um felino, e como um caçador persegue as suas presas. E mais uma vez, há o enforcamento, essa forma de assassinar que, me desculpe, não combinou com a trama.

    Finalizando, o conto não é ruim, é uma boa ideia até, no entanto muitas cenas ficaram desconexas com o todo, fica difícil aceitar o absurdo uma vez que a estrutura da história se mostra instável. É como contar uma história séria mas ao mesmo tempo perguntando ao leitor: e aí, aconteceu ou não? Enfim, gostei do modo como foi narrado, estilo leve, mas há toda essa confusão e que só no fim houve uma coisa concreta: a morte dos três.

    Parabéns!

    • mariasantino1
      21 de outubro de 2017

      Fala aí!
      Então… Li o seu comentário e vim aqui para dizer que em minha leitura vi os gatos como verdadeiros. Tanto o que estava com o padrasto quanto o que a menina possuía. O que aconteceu é que o personagem, enquanto criança utilizou-se da imagem do gato porque ficou traumatizado pelos abusos sofridos. O autor utilizou a palavra tatuagem, mas isso não significa que havia gravura de felino nele e sim que ele estava marcado.
      Sobre o assassinato do padrasto, o autor também menciona que utilizou veneno.

      É isso! 🙂

  9. Fheluany Nogueira
    12 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – O abuso e da pedofilia estão constantes no Desafio. Aqui com uma fantasia de luxo. O título do latim científico que se refere a família de mamíferos digitígrados (movem-se mais rápido, mais silenciosamente e com maior destreza) é muito sugestivo. O pseudônimo é termo da psicanálise: “o mal-estar que nasce de uma ruptura na racionalidade tranquilizadora da vida cotidiana”. Ele e algumas dicas da narração em primeira pessoa deram previsibilidade para o tema e desfecho, mas o impacto não diminuiu, sobretudo ao se descobrir que não houve, no passado, um gato de carne e osso.

    Escrita e revisão – A leitura flui bem, texto bem elaborado e com um ótimo ritmo. A escrita é segura, a linguagem de nível popular é condizente com a trama e com o foco narrativo; ocorrem alguns deslizes de digitação, posição do pronome, concordância verbal, de pontuação, algumas repetições e numerais não escritos por extenso, nada relevante no conjunto.

    Terror e emoção – Envolvente, instigante. Personagem muito bem desenvolvido, carrega consigo uma carga enorme de negatividade, de preconceito. A trama é inteligente e traz uma reviravolta interessante, na sugestão de que o narrador pode ser homossexual, mas não aceita: “a sombra iniciou uma espécie de dança, me provocando. Sabia que a observava. E devo admitir que existia uma certa sensualidade provocante naqueles movimentos”, “Vou dormir no armário de vassouras, essa noite. É apertado e escuro, mas pelo menos eles não podem me encontrar aqui”, por exemplo e ainda o protagonista se tornando um gato também. Porém, da forma como a narrativa é conduzida, temos um drama, um homem consciente de sua loucura, não consegue controlar-se, mata mulher, filha e comete suicídio. Não provoca medo.

    Muito bom trabalho. Parabéns. Abraço.

  10. Paula Giannini
    8 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Comentar depois de Eduardo Selga, é um problemão, visto que ele já disse tudo o que havia para ser dito. Ou quase. Pois, se ele não nos disse tudo, é porque a experiência remete cada um dos leitores para diferentes “viagens”.

    Por incrível que pareça, seu texto nos traz, oculto no véu da realidade fantástica, um personagem bem mais real do que gostaríamos que fosse. Conheci um vendedor de brinquedos artesanais que me confessou, em plena venda para meus filhos pequenos, que torturava gatos quando criança. E o pior, fazia-o muito à semelhança de seu protagonista.

    Experiências pessoais à parte, o modo como o autor evolui na loucura de seu personagem, introduzindo pinceladas de realidade fantástica, é o ponto alto dessa narrativa. Um conto muito bem amarrado e escrito, cheio de referências psicológicas e que nos oferece uma espécie de “empatia” com o “vilão”, ao abrir frente aos olhos do leitor não só o mal que este causa aos membros da própria família, quanto a si mesmo, oferecendo-nos um olhar sobre o ponto de vista do assassino. Introduzindo-nos aos conflitos e dúvidas mais profundas deste homem atormentado. Assim, o(a) autor(a), claramente experiente, nos revela, nada mais nada menos que ele só o faz, por ter, ele próprio, experimentado o terror em sua carne durante a infância.

    Parabéns pelo trabalho.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  11. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    Que grande conto você me traz, caro autor. Assustador. Apresenta-me um domínio perfeito da linguagem, mostra-me um cuidado tremendo com as palavras, cada qual posta em seu lugar mais correto. O suspense que segue em um crescendo calculado (sob controle do autor). Os gatos atacando por dentro do personagem, com suas coceiras e seu modo de proceder sendo modificado e também por fora, com a invasão cada dia mais terrível dos bichos, até que acontece a explosão final na doença mortal do personagem. Contos de terror não são visitas que costumam invadir a minha a minha praia, mas o seu foi muito bem-vindo, está excelente. Parabéns.

  12. Rafael Soler
    8 de outubro de 2017

    Inicialmente, achei que seria um conto batido envolvendo o medo de gatos. Mas embora o tema tenha sido esse mesmo, a forma de sua abordagem me surpreendeu demais, principalmente nas revelações feitas no final que explicam a loucura do protagonista.
    O estilo cru de escrita se encaixou muito bem com a proposta da história e tornou tudo muito dinâmico, num crescente de loucura que me fez ficar vidrado.

    Com exceção de alguns erros gramaticas, o conto é perfeito.

    😀

  13. Ana Maria Monteiro
    7 de outubro de 2017

    Olá, Unheimlich. Um conto que nos é dado em primeira pessoa (e não vejo como seria possível doutra forma), pela voz de um homem ensandecido. Você encarnou muito bem e papel para escrevê-lo e “obriga-nos” a fazer o mesmo para decifrá-lo, nem que apenas no âmbito da loucura pessoal, diversamente atingível por cada um de nós. Assim sendo, para mim, o gato é quase uma figura de retórica em torno da qual o narrador justifica a sua imersão na loucura.
    Tentando transpor para linguagem corrente a história que eu li, diria assim: A história de um homem que em criança foi repetidamente abusado por um adulto, que era seu padrasto. O padrasto tinha um gato e a criança, incapaz de lidar com o horror que vivia, transferiu para o gato (e posteriormente para os gatos em geral) a raiva e ódio nascidos do abuso a que era sujeita. Apesar de ter morto o padrasto (“reconheci seus rostos: Eduardo e seu odioso gato dourado. Já os matara uma vez, não seria um problema repetir o trabalho.”), não conseguiu libertar-se completamente do que sofreu e assim, a simples imagem dum gato trazia à superfície uma loucura que conseguia calar no seu quotidiano normal. A vida adulta correu-lhe bem (até deixou de fumar) até ao momento em que um gato foi de novo habitar debaixo do mesmo teto e repartir o seu espaço e até as atenções das mulheres que amava. Os seus demónios despertaram de forma relativamente rápida e sucedeu o que é comum nestes casos: replicou o que sofrera na infância abusando da própria filha (“Outro flash: um quarto escuro, uma garota deitada numa cama. “Hoje não, papai. Por favor”. Em meu peito, brilhando, aquela tatuagem horrorosa de um gato dourado maligno.” e mais à frente, de novo: ““Por favor, papai, não me toque. ” – tais palavras ecoavam em minha mente como uma súplica conhecida.”). O narrador confirma esta tese ao afirmar: “Não grite, ou eu mato sua mãe”. Duas tatuagens, dois gatos, dois homens. 26 anos de distância.” Impossibilitado de viver desta forma, ele permite que a loucura total o domine. Mesmo tendo morto o gato (com que tentou fazer um ensopado e obrigar a que mãe e filha comessem), já era tarde para ele, ele já fora tomado pelo gato, ele já era uma réplica do odiado padrasto, Eduardo. O conto termina da forma exata: ele mata as duas e provoca a sua própria morte. Não havia redenção possível.
    Esta foi a história que eu li. É a mesma que você escreveu? Muito bem contada.
    Um errinho aqui outro ali, já apontados. Particularmente, só me incomodou um pouco a palavra “algo” repetida três vezes neste único espaço: “Percebi algo, durante minhas divagações noturnas: há algo dentro da minha pele causando essa coceira insuportável. Percebi minha pele se mexendo e algo se movendo”
    Sinceramente, o seu conto, perfeitamente adequado ao tema, elaboradíssimo e tão bem escrito não tem como não ficar entre os primeiros.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  14. Pedro Teixeira
    7 de outubro de 2017

    Olá, Unheimlich.
    A narrativa é ágil e é conduzida de forma competente. A trama, apesar de trazer um elemento de certa forma já batido – o medo de gatos – o faz com muita criatividade. As alucinações estão muito bem descritas.
    No entanto, o caminho que a trama segue é esperado, pelo modo como o personagem descreve seu padrasto. Assim, o impacto da sequencia final acaba um pouco diluído.
    Algumas construções pareceram não se encaixar muito bem no tom da narrativa, como “quando adentrava sorrateiramente meu quarto” e “preciso cuidar do palavreado”.
    No mais, é um conto do qual eu queria ter gostado mais – alguma coisa no estilo não me agradou tanto, talvez as frases curtas e algumas comparações que soaram exageradas, especialmente na primeira metade, como a entre um arquiteto e um gato- mas que é muito bem executado dentro de sua proposta, com ótimo desenvolvimento de personagens e cenas realmente horripilantes, conduzidas com maestria.

  15. Angelo Rodrigues
    7 de outubro de 2017

    Olá, Unheimlich.

    Creio que o nome venha do inverso do significado da manobra heimlich, quando, ao invés de devolver o ar, rouba o ar.
    Um nome bem escolhido. Rouba o ar. Um conto onde O MAL é O MAL, gratuito e sem objetivo. GATOS. Fiquei torcendo para que, ao final, o coitado não acordasse e nos dissesse que tudo aquilo não havia passado de um pensamento ruim, um sonho, algo assim. Mas não, tudo aconteceu de verdade, O MAL atuou ali naquela casa.
    Ótimo conto, fluido, mantém a atenção permanente.
    Alguns exageros e tal, mas nada que macule o texto como um todo.
    Gatos são “malígnos”, ok, eu aceito, mas não megalômanos: “…deliciando-me com minha avantajada inteligência espacial…” Epa! isso daria ao cara um outro rumo na construção da história, a sua megalomania, mas não a sua doideira com gatos.

    Boa sorte, Unheimlich, e obrigado por compartilhar conosco seu conto.

  16. Nelson Freiria
    7 de outubro de 2017

    O estilo cru da narrativa é bem atraente, sem exageros e com frases sob medida.

    O problema do personagem com gatos até me enganou a princípio. Acho que o fechamento do conto foi mto bem pensado, fazendo com que o impacto de um assunto que já foi visto em outros contos do desafio, se mantivesse alto.

    Gatos são incríveis, a prova disso é que esse conto nunca daria certo com cães.

  17. paulolus
    6 de outubro de 2017

    Um texto intenso. Muito bem desenvolvido, muito embora de um exage-ro sem precedente.
    Eu também tive minhas arengas com gatos, quando criança, porém, tirei minhas desavenças com eles, me divertindo. Fazia uma bola de papel que, amarrado por um barbante em seu rabo eu tacava fogo só para as-sisti-los, desesperados, correndo das labaredas que eles mesmos vazi-am nos matos por onde passavam.
    Hoje estamos de bem. Eu jogo uma bola de papel pra ele, e com sua habilidade e destreza dribla, ludibriando a si mesmo, e assim, passamos horas nos divertindo. Eu acho que estou curado.
    “Júlia lançou um olhar enojado ao conteúdo e pôs-se a chorar copiosa-mente. Não tenho fome, papai. Por favor, não me faça comer isso.” O que era isso, era uma sopa de gato? Não entendi direito.
    “Porém, o pior não era o homem, e sim seu animal de estimação: um ga-to. Lembro-me perfeitamente da pelagem dourada, dos olhos esbuga-lhados e maliciosos, e da aparência maligna. Foi aludido em alguns dos comentários a possibilidade de pedofilia. Mas esse trecho do conto fica claro que não houve nada disso. Ou eu entendi errado outra vez? Mas o conto é bom. Digno do tema proposto.

  18. Antonio Stegues Batista
    6 de outubro de 2017

    ENREDO: Homem que detesta gato, fica alucinado e perde a razão. Muito bom.

    PERSONAGENS: Fortes, marcantes, bem desenvolvidos. O texto é perfeito, mas há uma parte inverossímil em minha opinião: ” Desenvolvi um pavor de dormir sozinho.Porém, nunca reclamei. Mamãe sofrera demais”. O menino devia ter uns 4 anos, pois mais adiante, o narrador diz que a tortura durou três anos e continua; ” Próximo do aniversário de 7 anos, Eduardo morreu”. 4+3=7. Achei inverossímil um menino de 4 anos com medo, tomar a decisão de não procurar a mãe, porque ela sofreu demais.(?) Uma criança dessa idade, não raciocina como adulto. Seu instinto é procurar proteção, a mãe no caso.

    ESCRITA: Muito boa, boa descrições e construção de frases.

    TERROR: O terror aumenta na medida em que a história ocorre. Essa parte foi bem elaborada e conduzida. Muito bom.

  19. Miquéias Dell'Orti
    6 de outubro de 2017

    Olá.

    Gostei do conto, leitura fluida e com um toque trash (pelo pra mim). Senti até uma certa influência de Poe aí (pobres gatos, sempre figuras marcantes no terror).

    O seu estilo é fluido é muito interessante, prende o leitor e tem cenas bem elaboradas.

    No entanto, achei que o primeiro parágrafo me soou extremamente massante. Acho que a frase que me fez sentir assim foi “Tenho passado muitas horas aqui ultimamente, debruçado por períodos intermináveis sobre esse projeto de arquitetura que estou desenvolvendo para a nova sede de uma empresa canadense de brocas.” . Achei extenso demais, você cansa de ler na metade.

    Acontecer isso no comecinho da história dá uma má impressão que não pode ser colocada em julgamento, porque você acaba esperando todo um texto com uns períodos intermináveis como esse, coisa que não acontece de jeito nenhum.

    Felizmente, no decorrer da narrativa a fluidez melhora 100% e no fim das contas a história nos prende até o finalzinho.

    Parabéns!!

  20. Andre Brizola
    5 de outubro de 2017

    Salve, Unheimlich!

    Eu não sei se a minha sensibilidade está danificada, mas acho que seu conto ficou prejudicado pelo momento em que apareceu no portal. Embora esteja absurdamente bem escrito, o que é digno de nota, conforme a leitura crescia, eu ficava esperando pelo momento em que o narrador nos traria a revelação do abuso sofrido em algum momento de sua história. Não é um problema do conto, mas eu não pude deixar de pensar que esse era “mais um” a tratar de violência sexual e/ou pedofilia. Sei que não é um problema de seu conto, e sim da minha percepção. Mas esse me parece ser o grande clichê do desafio.
    Crítica feita, devo fazer agora os elogios, visto que o texto merece todo tipo de elogios. Todas as escolhas estilísticas casaram perfeitamente com a construção do personagem e em nenhum momento fiquei com a sensação de que algo estivesse for do lugar. O ritmo parece um pouco apressado a princípio, mas depois percebi que o gato era apenas o gatilho de uma detonação que estava adiada a muito tempo, e tudo passa a parecer dentro do ritmo necessário.
    Fiquei particularmente impressionado com esse parágrafo: “Num acesso de tosse, Júlia gritou, desesperada. Outro flash: um quarto escuro, uma garota deitada numa cama. “Hoje não, papai. Por favor”. Em meu peito, brilhando, aquela tatuagem horrorosa de um gato dourado maligno. A lembrança se retorceu e alterou. Dessa vez, era eu deitado, e o gato flutuava em minha direção no escuro. “Não grite, ou eu mato sua mãe”. Duas tatuagens, dois gatos, dois homens. 26 anos de distância”. Achei genial a forma como esse parágrafo une todos os acontecimentos do conto.
    De forma geral, achei um conto muito bom, mas que sofreu com o timing da publicação. Se fosse o primeiro a aparecer…

    É isso! Boa sorte no desafio!

  21. Regina Ruth Rincon Caires
    5 de outubro de 2017

    A narrativa discorre de maneira primorosa, o adensamento gradativo do suspense incomoda, tira o sossego. A trama é magistral.
    A estrutura do conto é impecável, o autor é craque da escrita. O desfecho é surpreendente, paralisante. A leitura me fisgou, apesar de me fazer sofrer (não gosto de ler terror).Queria chegar ao final, queria saber se o personagem morreria ou se seria declarado louco.
    Um conto perfeito. Cumpre o tema exigido pelo desafio.
    Parabéns, Unheimlich!

  22. Edinaldo Garcia
    4 de outubro de 2017

    Escrita: É boa, tem um linguajar cotidiano, coloquial, como se realmente estivéssemos ouvindo o relato da boca do protagonista.

    Terror: Pode ser doença minha, mas no começo eu lembrei do Julios de Todo Mundo Odeia o Cris que tinha medo de coelhos. hehehe. Medo de gato poxa! E então a narrativa seguiu e as cenas de tortura nos bichanos foram angustiantes (terror); e a loucura do personagem crescendo aos poucos foi muito bom, lembrou-me O Iluminado de King, e o argumento para o trauma foi uma sacada de mestre. Mais um caso de pedofilia neste desafio. A revelação que foi o protagonista a a matar o padrasto deu novo fôlego ao fim do conto, final esse que ficou primoroso, num ritmo intenso e bem feito.

    Nível de interesse durante a leitura: Me absorveu completamente. Tive medo que no final não houvesse mais nada de atrativo visto que na metade as coisas foram ficando meio previsíveis, mas as revelações do abuso, do assassinato, a loucura intensificando, ficaram sensacionais.

    Língua Portuguesa: É boa. Simples e extremante bem feita. O autor soube guiar o enredo pela ótica do vilão como muitos estão fazendo neste desafio. Gostei bastante. Só algumas observaçõeszinhas:

    Ao sentar em minha mesa – sentar à e sentar em são diferentes – está escrito que ele sentou em cima da mesa, não sei se foi essa a sua intenção.

    Transaram barulhento sobre minha esposa, adormecida – Esse período ficou estranho; a concordância do adjetivo “barulhento”, e essa vírgula não ficou boa.

    como vocês adora. – errinho de concordância

    Veredito: Um excelente conto. Profissional.

  23. Lolita
    3 de outubro de 2017

    A história – Claustrofóbica visão de um homem que, ao se deparar com um gatilho que evitava, não consegue mais suportar os traumas que carregava consigo. O sonho da família dá lugar ao pesadelo felino. Eu prefiro cachorros, mas fiquei com um dó gigantesco dos bichanos (a descrição dos massacres são agoniantes).

    A escrita – A narrativa falada, com gírias e palavrões (é foda etc.) funcionou aqui, acreditamos escutar um homem cansado. O autor dá velocidade ao conto na medida que a loucura vai aumentando, o que é um recurso interessante por dar agilidade. Algumas redundâncias que já foram comentadas, mas que não tiram o brilho do conto.

    A impressão – Espero esquecer logo a terrível passagem do jantar. Parabéns ao autor.

  24. Eduardo Selga
    3 de outubro de 2017

    O conto é esteticamente “adulto”, ou seja, dá para perceber que quem o escreveu, assim como vários dos que até o presente momento analisei nesse desafio, não começou ontem a militar na ficção.

    A narrativa tem juma característica muito especial: o fantástico e o realístico coexistem, de modo que o enredo principia fortemente ancorado na segunda estética e paulatinamente vai adentrando o fantástico. Como o comportamento do protagonista é resultado de seu desequilíbrio mental e/ou emocional, situações como afirmar que suas unhas caíram e nasceram em seu lugar garras felinas podem ser creditadas a isso, realisticamente falando. No entanto, sem desconsiderar adequada a interpretação anterior, a ambientação criada mergulha no fantástico. O domínio das duas epistemologias (modos de percepção do mundo), aparentemente irreconciliáveis, se dá de maneira harmônica, resultando num belo conto, em trechos como este: “Dentro de minha pele, centenas de gatos tentam me devorar”. Do ponto de vista realístico, “gatos” resultam do delírio; do ponto de vista do fantástico, há “de fato” felinos dentro do personagem, e de certa maneira ele se transforma em um (“meio cego, prossigo perseguindo minhas PRESAS. Nada mais faz sentido, minhas QUATRO PERNAS pesam toneladas […]”). ,

    Ao fazer-se essa mistura, o(a) autor(a) fala do animalesco (no sentido de incivilidade e violência) da espécie humana, mas não o faz de modo fácil, não é a violência pela violência: nela há algo a mais.

    O desfecho pode parecer apenas um banho de sangue, os corpo dependurados da filha e da esposa, o próprio corpo do protagonista. Porém, o duplo homicídio não é apenas trágico: é a catarse do narrador-personagem, que precisa libertar-se de uma obsessão. Esta não é exatamente a figura do gato, e sim a do padrasto. O felídeo se torna um depositário de certo sentimento em relação ao padrasto, na medida em que este era dono de um gato. O personagem aciona um mecanismo de defesa psíquica e transfere para o gato, por sublimação, esse sentimento.

    Que sentimento seria esse? Ódio? Vejamos o trecho abaixo, em que o narrador-personagem aparentemente fala do animal:

    “O maldito desenvolveu uma espécie de obsessão por mim, me atacando constantemente. Seu horário preferido era a madrugada, quando adentrava sorrateiramente meu quarto. Desenvolvi um pavor de dormir sozinho. Porém, nunca reclamei. Mamãe já sofrera demais”.

    Não parece que ele fala da invasão de uma pessoa em seu quarto? Essa é a narrativa oculta sob a camada narrativa mais evidente. Estamos diante de um trauma desenvolvido pela violação sexual.

    Trauma ou desejo? É possível que a narrativa oculta também esconda o fato de o protagonista trazer em si uma homossexualidade reprimida. Vejamos: “Não tenho transado muito com a Carla: o gato está sempre observando, com aquele olhar de desejo”. “Gato”, nesse sentido, é mais que um felino: é a gíria relativa usada para designar alguém sexualmente desejável.

    Se eu estiver correto na leitura da narrativa oculta, o assassinato da esposa e da filha é a tentativa de matar o feminino represado no protagonista, que começa a se manifestar a partir do contato sexual com o padrasto. Nesse sentido, é bem revelador o seguinte trecho, uma das duas vezes em que a sintomática palavra “armário” aparece: “Não dormi nada. Noite agoniante. Saí correndo do armário assim que amanheceu”.

    Sim, mas esse amanhecer não é o lindo e poético raiar de um novo dia, e sim o alvorecer de uma violência alimentada pelo recalque emocional por anos e anos. Certamente não é à toa que ao fim temos “Sou despertado por uma rajada de sol que adentra pela janela da cozinha”. Vejamos como são certeiras as palavras “despertado” e “rajada” nesse trecho. A primeira remete a acordar para algo; a segunda, à violência.

    O desfecho também apresenta uma imagem muito eficiente do ponto de vista da literariedade: a fusão da esposa e da filha com a do padastro e seu gato, reforçando muito a ideia de que o duplo homicídio é consequência do passado, e que a catarse em questão, se por um lado representa o renascimento de uma pessoa atormentada pela loucura, pela prisão, por outro também implica a morte do ser que existia antes.

    • Anorkinda Neide
      4 de outubro de 2017

      uia!! então nasceu uma Biba!! hiahauiha

      • Eduardo Selga
        6 de outubro de 2017

        Não chega a ser completamente isso, pois o protagonista também morre. Seria o nascimento de outro sujeito, porém natimorto. Aliás, por esse viés interpretativo, ele chega a ponto tão extremo para não ser obrigado a viver (ou a reconhecer) o outro lado.

  25. Fabio Baptista
    3 de outubro de 2017

    Gatos são sempre sinistros, talvez devido ao imaginário popular de terem pacto com o diabo, ou talvez por terem mesmo.

    Eu prefiro cachorro.

    Mas, sobre o texto: o uso da primeira pessoa foi bem empregado, a leitura é fluída, clara e agradável. Apenas alguns apontamentos:

    – Envelhecendo 10 anos a cada ano
    >>> usaria “10 anos em 1”

    – me dediquei a tornar um pai dedicado
    >>> evitaria essa repetição

    – passos de pequenas patas
    >>> dá pra entender que são as patas do gato, mas tentaria mudar essa frase

    – como vocês adora
    >>> adoram

    A trama: difícil não lembrar do conto O Gato Preto de Edgar Alan Poe. Mas no decorrer, percebemos que é só pelo climão de bicho maldito mesmo e, mais à frente, quando as pontas se fecham, notamos que nem tinha gato hauauhua.

    Assim como em outro conto do desafio, o narrador boca suja e maldoso acabou adiantando que viria dele o terror. Nesse ponto, ficou um pouco previsível. Mas a sacada do abuso, onde ele internalizou a imagem do gato para substituir a do padrasto, ficou muito boa. E depois ele próprio, tomado pela loucura, assumindo a condição do animal maldito.

    O desfecho também é muito bom.

    Ótimo conto!

    Abraço!

    • Unheimlich
      3 de outubro de 2017

      Fala Fábio, blz?

      Que bom que gostou! Gosto bastante da sua escrita, e, portanto, fico lisonjeado que tenha gostado.

      Cara, já reparou que os gatos são sempre os vilões na ficção, enquanto os cachorros são as vítimas/heróis/xodós/causadores de lágrimas? Coincidência? Não acho.

      #teamdog

      aahahaha

      Obrigado pelos apontamentos, também. Difícil conseguir uma revisão impecável em um conto tão longo.

      Valeu, abraço!

  26. Olisomar Pires
    2 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: alto.

    Narrativa/enredo: sujeito atormentado por trauma de infância enlouquece e mata esposa e filha.

    Escrita: muito, muito boa. Envolvente, fluida, conectiva, hipnotizante.

    Construção: o texto está totalmente bem elaborado: início, meio e fim. Vemos um louco em pleno ataque. O personagem foi bem construído e todo o conto está otimamente conduzido.

    Um senão: houve terror?

    Considero que a narrativa em 1ª pessoa não se adaptou ao desafio. Sentimos o ódio do protagonista, sua impotência diante dos delírios, sua angústia, mas não sentimos medo.

    Se o conto fosse narrado por uma terceira pessoa ou se o fosse na visão da esposa/filha teríamos a excelência, entretanto, tal não ocorreu.

    Pode-se dizer que é possível imaginar o terror vivido pelos personagens. Sim, é possível imaginar qualquer coisa que não esteja explícita, mas isso não é suficiente para mim. Escrever é subjugar a imaginação do leitor, domá-la para que “veja” o que o escritor imaginou.

    No caso em tela, eu “vejo” o drama de um homem doente e assassino porque foi assim que o escritor me fez “ver”, estando ele consciente disso ou não.

    Repito, é um conto excepcional, de qualidade superior (à qual almejo conquistar um dia). Parabéns !!!

    • Unheimlich
      3 de outubro de 2017

      Bom dia, Olisomar! Blz?

      Obrigado! Que bom que gostou!

      Gosto bastante da sua escrita, e portanto fico lisonjeado pelos elogios. Valeu!

      Abraço!

      • Olisomar Pires
        3 de outubro de 2017

        Obrigado pela gentileza da resposta. Seu conto é muito bom mesmo. Eu é que fico lisonjeado por alguém com esse talento dizer que aprecia meu estilo. Valeu.

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Publicado em 2 de outubro de 2017 por em Terror.