EntreContos

Literatura que desafia.

O automóvel vermelho e preto (Georgiana Rolls)

E eis que, ironia das ironias, herdamos a coleção de automóveis antigos. Aqueles mesmos que disputavam conosco a atenção do velho e nos venciam sempre. Ao passar pelo portal do Cemitério os pensamentos ensandecidos se misturavam na mente. Lá dentro ficou papai e aqui fora me sinto aprisionada por tantos medos. Fundamental a necessidade de impedir que o carro vermelho e preto viesse até mim. Pânico com a possibilidade tão concreta de ter, daí a uns dias, que retornar para guardar Anselmo junto a papai. Horror de me deparar sozinha diante do futuro. O boletim médico da manhã não era nada animador. Reparo na frase escrita, parece que em latim, no alto do pórtico: “Morituri Mortuis”. Um guarda me vê a mirar o alto e, sem que lhe fosse solicitado, me faz a tradução: “Daqueles que vão morrer para os mortos”.   

Quando papai me convidou para ir com ele ao Chile, cheia das melhores expectativas, imaginei tratar-se de uma viagem de resgate do relacionamento familiar. Envolta na maior inocência pensei que, enfim, ele se dera conta do descuidado para conosco. Tratava-se ali de saudável ação com vistas a uma aproximação. Ai, meu Deus, como fui ingênua. Não era nada disso. O velho não mudara nada.

Ainda no Galeão levei no rosto o balde de água fria: “É que o cardiologista me alertou que o coração anda meio esquisito. Até queria me internar, o malvado.  Contei-lhe que tinha um negócio importantíssimo para fazer, coisa rápida e perto, viagenzinha de nada na América do Sul mesmo. Ele, mais que desaconselhar, me proibiu de sair do Rio. O melhor é que ficasse de repouso, até que avaliassem se seria o caso de outros stents, ou se haveria necessidade de nova cirurgia. Vai que quererão me passar na faca?  Daí que não poderia deixar de ir a Santiago por nada. Seu irmão, alienado como está, tentaria me converter a todo tempo. E, pior ainda, imagina se ele cisma de largar esse barato de Deus e se chafurdar na coca novamente? Aí o que Anselmo me iria arrumar era confusão.”

Disse de banho gelado, mas aquele discurso me atingiu como se fora uma porrada potente na barriga. O que papai necessitava era de uma cuidadora para o caso de sentir algum piripaque. Desligado como sempre foi, óbvio que nem reparou no tamanho da frustração estampada no meu rosto. Não há nada que esteja ruim que não possa piorar e o velho emendou o segundo golpe: íamos a Santiago para conhecer um – e aí ele preparou a boca para dizer, numa tentativa de reprodução do mais autêntico sotaque britânico que, definitivamente, foi incapaz de convencer até a ele mesmo – “We will know the fantastic Rolls Royce Phantom II Continental 1934, red and black”.  

Já que se está seguindo para o inferno, melhor que se dê as mãos ao capeta, diz a sabedoria das gentes. Aqueles tempos nos quais o amor e cuidado do pai eram disputados com a coleção de automóveis, iam bem longe no passado. Uma mulher se aproximando dos quarenta a agir como se tivesse, no máximo, uns doze era ridículo. Na comprida fila do finger, decidi que aproveitaria ao máximo aquilo tudo. Estaria com ele todo tempo, não me furtaria a ir ver o tal calhambeque, mas seria eu a escolher, para as noites, os restaurantes, os pratos e os vinhos.

O verbo usado pelo velho não era o mais apropriado. Ele dizia conhecer o automóvel, mas o seu desejo era o de adquiri-lo a qualquer custo. Sim, se tem algo que eu nunca vi acontecer, foi papai desistir de um desejo. O brilho nos olhos ao me falar em inglês do carro, era mais do que prova disto.

Ao invés de hotel, o motorista nos levou direto à mansão do colecionador. Um alemão velho e ridiculamente magro. O senhor Andreas portava umas sobrancelhas imensas a protegerem olhos azuis demais. Vestia calças folgadíssimas e amarrotadas, uma camisa social que desde há muito merecia ter sido lavada e uma barba para lá de mal feita, apresentando uns pequenos tufos no chupado rosto e pescoço afora. Diante de nós se apresentava o típico homem que não possuía uma companheira ao lado. Um pobre diabo solitário que não sabia se cuidar, usar melhor o dinheiro, com toda certeza, existente em excesso.   

Não nos convidou a entrar. Levou-nos rumo aos fundos, através de uma trilha em meio ao jardim. Tudo florido e bem cuidado. De repente, nos deparamos com o grande galpão. Outro senhor, talvez uns dez anos mais novo, nos esperava. Abriu os dois cadeados e, usando o controle remoto, fez subir a porta. Uma coleção bem menor do que a nossa, bestamente, constatei. Papai era menino no parque de diversões. Queria admirar carro a carro e o gringo a se adiantar, em passos curtos e ligeiros, no anseio de nos encaminhar para o lugar onde o tal Rolls Royce do encantamento estava exposto.  

Não se é preciso apreciar automóveis antigos, muito menos entender deles, para se constatar ser aquela uma obra de arte. A máquina era bela e imponente. Papai, como bom negociador, fingiu que não notara nada de especial no seu objeto de desejo. Ao contrário, foi logo perguntando pelo preço do Bentley verde, ao lado. “Este, como os demais, não estão à venda. Aqui, para negócio, só ele”. Andreas pontuou tocando o lindo carro vermelho com teto e capô pretos.  

Coisa mais chata aquela conversa de cerca Lourenço. Dei meia volta e fui saindo. Bem mais interessante do que observar o jogo da negociação de caras velharias, seria admirar os jardins da residência. O empregado se mantinha fiel à porta. Parecia vigia para não deixar que ninguém escapasse lá de dentro. Foi notório o seu desconforto com a minha saída. Esforcei-me para demonstrar gentileza, quebrando o gelo e tentando deixá-lo à vontade. Elogiei no meu castelhano macarrônico: “Que belos jardins temos aqui, os senhores estão de parabéns.”  Ele sorriu sem graça me explicando que suas obrigações eram cuidar da segurança e, com o ajudante Alonzo, também dos carros.

“Os jardineiros são outros, uma família composta de marido mulher e dois filhos. Gente animada, das mais brutas para trabalhar. Moram em Alberto Hurtado, periferia da capital. Chegam quando ainda está escuro para retornar no meio da tarde. Por isto não os vemos. Lamentavelmente o filho mais novo apareceu com uma tristeza de causar desespero, vive sem ânimo nenhum para sair da cama. Dona Alícia também não tem aparecido pois que, de uma hora para a outra, lhe surgiram umas dores fortes e inchaço nas juntas. Na verdade, caso a senhora tivesse estado aqui há uns meses atrás, aí é que teria ficado deslumbrada com as plantas. A dona é gentil, mas as coisas, por falta de mãos para cuidar, não estão bonitas. Mas mesmo assim, pode deixar que transmitirei ao amigo Lorenzo os elogios.”

Causava-me certa aflição a fala daquele homem – qual era mesmo o nome dele? Ao abrir a boca, sua dentadura frouxa, parecendo viva, me passava a impressão de fazer uns malabarismos para não cair. Um lugar de gente estranha aquele. Os seus braços e mãos, pequeninos, eram totalmente desproporcionais ao corpo grandalhão. Fiz menção de caminhar e ele me pediu, com um gesto de espere, que aguardasse. Iria indagar do patrão se eu poderia passear pela propriedade. Respondi-lhe que deixasse de lado, melhor que não fizesse isto. Sentei-me ao seu lado no banco de pedra e, parece que arrependido por ter falado tanto dos jardineiros, o empregado havia se fechado em silêncio. Após algumas tentativas para lhe quebrar o mutismo, ele, sempre olhando a porta, começou a me responder às perguntas. Que trabalhava ali desde a construção da casa, logo depois da chegada do senhor Andreas ao Chile. Um homem reservado e que praticamente nada se sabia dele. Nunca, que tivera esposa. Circulavam mesmo umas histórias de que ele era fugitivo da guerra. O que podia afiançar era que a coleção começara só com carros alemães. Bem após foi que começaram as aquisições de automóveis oriundos de outras nacionalidades.    

“Mas acho que não é nada disso. O problema é esse carro mal assombrado”. Esforcei-me para não demonstrar cara de riso e inibi-lo. “Até o final do ano passado isto aqui era às mil maravilhas. Foi só chegar esse vermelho e preto de Satanás para as coisas desandarem. Ele, senhora, possui poderes que só podem ser dos infernos. Não reparou na magreza do patrão? Meus receios são de que morra de uma hora para a outra e eu fique abandonado, sem ter para onde ir, pois que algum parente logo virá para arrematar as heranças.” Abri mais os olhos e avancei o rosto animando-o a que fosse em frente. Até que enfim uma conversa interessante, mesmo com aquela boca me deixando agoniada.  “A senhora imagina que ele liga sozinho e que o senhor Andreas brigou comigo por ter enchido o tanque de combustível dele, mas eu nada havia colocado lá? Alo, no princípio achando graça, me dizia dos pequeninos choques nas mãos ao lustrar o danado. Desses, que a cada dia foram se tornando mais fortes, nunca tomei, mas que sinto uns tremores esquisitos ao passar perto do desgraçado, eu sinto.”

Sem dúvidas que aquela histórias eram umas dez vezes mais atraentes, do que o papo de apaixonados por automóveis lá de dentro do galpão. Incrível verificar até aonde caminhava a criatividade e, por que não, as crendices e os medos na mente humana. Com as minhas caras e bocas de surpresa e espanto, ele, sempre preocupado com a chegada do patrão, abria ainda mais o bico, aumentando a ameaça à dentadura.

“E a senhora conseguiria me explicar essa coisa de ele ter vontade própria? Pois, por pelo menos três vezes aconteceu a partida no motor e sou capaz de jurar, pelo que há de mais sagrado, que ele tem dado umas voltas pelo salão. Eu e Alonzo até reparamos nas marcas dos pneus no chão. E isto sem nem lhe falar dos faróis. Não é que eles cismam de, do nada, piscarem? Tudo escuro no galpão e lá de fora, pelas frestas de portas e janelas, se repara no brilho de luzes que se acendem e se apagam.  Intrigado, uma noite dessas venci os medos e fui ver de perto aquela coisa estranha e era ele, o maldito, que parecia brincar de acender e apagar suas luzes. Passei a sofrer sonhos terríveis e neles o carro sempre a correr atrás de mim, sem motorista e buzinando uma espécie de gargalhada na volúpia de me atropelar. Contei para Alo desses pesadelos e me apavorei. Não é que ele também os tem? E agora mais essa: a falta de apetite do patrão. As empregadas a nos dizer que nem toca na comida. Estômago vazio ataca os nervos e ele, que já era tão arredio e irritado, agora está impossível. Alonzo diz que vai embora, como também estão garantindo partir os jardineiros. Dona Clara, a cozinheira, ganhou uma tosse dessas parecidas com insistentes latidos de cachorro. As arrumadeiras, a se queixarem de problemas. Sem que nada houvesse modificado suas dietas, Vero reclamava de diarreias constantes e Dores de séria constipação do intestino. Vira e mexe estão a dizer que não aguentam mais essas histórias de carro amaldiçoado adoecendo a todos e que antes que caiam de cama, melhor buscarem outro trabalho. Isto aqui vai virar um deserto. Só eu, que não tenho para onde ir e o senhor Andreas que é o dono, permaneceremos. Mas dois idosos, como irão cuidar da propriedade, da casa tão grande e dos automóveis? Toda noite rezo para que esse emagrecimento não seja alguma doença ruim, um câncer que esteja comendo por dentro o patrão. A senhora é capaz de imaginar isto aqui sem ele? Nem consigo pensar em algo assim, Deus me livre.”    

Não queria constranger e muito menos inibir o pobre coitado. Assim, continuava a fazer umas expressões de que me encontrava pasma, como se aquelas histórias feitas para supersticiosos e crianças medrosas, me deixassem aterrorizada. E nada dos dois homens saírem. Resolvi entrar, o papo de assombração começava a se tornar repetitivo. Aí imaginei – sorrindo para mim mesma – o que aconteceria se ele soubesse que tencionávamos adquirir o tal coche sinistro?

Cheguei a tempo de reparar que a venda estava fechada. No dia seguinte papai orientaria seu contador, para que desse um jeito de transferir os dólares. O velho parecia um menino abraçado ao seu tão sonhado presente de Natal. O alemão também demonstrava satisfação, quem sabe alívio, com o negócio. Conversavam então sobre a saída do carro do país e a consecutiva entrada dele no Brasil. A verdade é que não viam nenhum problema, desde que se disponibilizassem um agrado aqui, outro acolá, para que o Rolls Royce, totalmente legalizado, mudasse de nacionalidade.

O vendedor sugeriu que o transporte fosse feito pelo mar, dentro de um container, até o Porto de Santos e de lá, por caminhão, para o Rio de Janeiro. Só que papai, aflito como criança que não pode perder um minuto de brincadeira, exigia – “às favas que fosse ficar caro!” –  mais pressa. Que arrumassem um caminhão que o levasse, atravessando a Argentina. O alemão terminou a conversa dizendo que era assunto resolvido. Havia um motorista de confiança, acostumado a fazer esses traslados para colecionadores em seu baú. Caminharam até o pequeno escritório. Andreas pegou a caderneta, conferiu o número e dali mesmo ligou para o tal homem. Combinaram que ele nos procuraria dali a duas horas no hotel.  

Nunca que pudera ver meu velho tão leve e solto e aquela alegria, de alguma forma, estava, ridiculamente, me contagiando. Após o banho ele se pôs, aflitíssimo, a aguardar a chamada da recepção. O telefone tocou e eu o alertei que daí a uma hora passaria pelo hall, para que fôssemos comemorar a aquisição do mimo de luxo com um jantar. Papai sorriu concordando e partiu célere, agilidade de garoto, para o encontro.

Conforme planejara, seria minha a escolha do restaurante, cardápio e bebida. Papai estava plugado em duzentos e vinte volts. Falava, contava e repetia da excelência do negócio, de que no Brasil nenhum colecionador era possuidor de uma preciosidade daquele quilate. Que calaria a boca de uns milionários paulistas, gente metida a besta e que sempre sonhara com uma peça daquelas em suas coleções. E mais, ainda, que tinha sido uma pechincha, o tal Andreas devia estar caducando, pois que lhe passou o carro por um preço menor do que a metade do seu real valor. No começo ainda tentei entrar na pilha do velho, mas eu não tinha, definitivamente, aquele pique para o assunto e aí, para que a noite ficasse mais leve, saboreei, mais do que ensina o bom senso, o vinho. Quando voltamos para o hotel papai solfejava uma marchinha de carnaval e eu estava, literalmente, bêbada.   

Apaguei de imediato, sendo acordada pelo toque irritante do celular. Era noite ainda e a areia dos olhos me confirmava o quão pouco dormira. Ligação do Brasil e a notícia terrível fez passar o efeito da bebida. Tia Inês avisando que meu irmão sofrera um acidente e se encontrava mal. Abandonou Jesus, tomara e cheirara todas, refleti. Papai devia sonhar com o Rolls Royce e decidi poupá-lo até o amanhecer. Pesquisei o primeiro voo para o Brasil e fiz a reserva das passagens. Tentei ler um livro, o velho roncava que parecia mais uma locomotiva. Tive a intuição de que o mano morrera e que aquela era uma maneira de nos preparar para o desfecho. Mas me enganara. Fiz algumas ligações e vi que era aquilo mesmo, ele estava péssimo e o risco de óbito era bastante alto. Acordei-o, enfim, e lhe dei a notícia.

Papai me escutou, balançou a cabeça, baixou os olhos uns segundos, olhou-me novamente e foi implacável: “que não se podia fazer nada e que a presença dele, fosse em Santiago, ou no Rio era indiferente. Incrível, aquele automóvel importava mais do que Anselmo. Aquilo sim, ao contrário da conversa mole de assombração da tarde anterior, me era chocante. Desandei a chorar e ele a me perguntar por que as lágrimas? “Está bem, lá de casa termino de resolver as questões.” Consentiu por fim em viajar. Esforçava-me, cabeça pesada da notícia e da noite anterior, para engolir uma torrada e papai, coração frágil, viciado, só conseguia pensar no carango vermelho e preto que adquirira do alemão. Mamãe com Alzheimer sem se dar conta de nada que acontecia à volta, mais morta do que viva. Meu irmão, antes drogado, ultimamente só pensava em religião. Eu e meu dedo podre para escolher os namorados. Família de malucos, concluí.  

Fomos, óbvio, direto ao hospital. O médico nos disse que não se percebiam evoluções, mas que o fato de Anselmo ser jovem melhorava um pouco os prognósticos.  A única notícia boa estava afixada na placa em frente: visita das 14 às 15h, mais uns minutos apenas. Uma por paciente e foi com evidente alívio que papai soube daquilo. “Vá e dê um beijo nele por mim. Diga-lhe que o adoro e que ele vai sarar logo. Enquanto isto darei uns telefonemas.”

O mano ligado a uma parafernália de tubos e fios. Beijei seu rosto desfigurado, ele abriu as pálpebras inchadas e disse oi, numa mistura de careta e sorriso.  Fechou novamente os olhos e começou a falar baixinho, obrigando-me a quase encostar o ouvido em sua boca. Ponderei que permanecesse calado, importava que eu estava ali com ele.  Mas insistiu, dizendo-me que por mais que achássemos que ele se encontrava drogado e bêbado, sentia a consciência tranquila. Estava limpíssimo quando da tragédia. Disse que temia morrer e que necessitava demais me contar do seu desespero na hora do acidente. Estrada tranquila e ele descia a Serra de Petrópolis vindo de um culto por lá. Foi então que papai e eu lhe aparecemos. Estávamos apavorados e gritando por socorro num carro vermelho e preto, antigo e luxuoso. O motorista, volante do lado direito, era um homem velho e magro. Um cara sisudo que parecia viver nas sombras, de tão branca que era a sua face.  Demonstrou, com um esgar, o absurdo que sentira e definiu que, por desencargo de consciência, terminada a descida daria uma paradinha na praça do pedágio e me ligaria. “Vai que a gente estivesse necessitando de apoio na viagem?” E foi aí, ele continuou, que a alucinação explodiu. Tudo se tornara a mais louca realidade. Pela segunda vez Anselmo me implorou para que não o julgasse bêbado, ou drogado.

“No meio do túnel um carro piscou faróis. Estranhei, pois que a pista é dupla e não havia nenhum problema para que me ultrapassasse. Após a saída ele se mantinha colado à traseira. Dei seta para a direita e fui reduzindo a velocidade e o auto, ao invés de me deixar para trás, também freou. Acelerei novamente e ele bem próximo a me seguir. Chamou-me a atenção o fato de haver três luzes bem fortes no estranho automóvel. Lembrei-me dos papos intermináveis de papai a me ensinar que um terceiro farol, centralizado, era característico de modelos dos tempos clássicos do seu maior sonho: Rolls Royce. Já que ele não partia, resolvi acelerar ao máximo, mas foi em vão. De repente me vi diante de uma curva acentuada e reduzi a marcha para fazê-la. Ele me ultrapassava. O idoso claro e do rosto fino dirigia o carro e me mirou com ódio. Através do vidro via você e papai chorando. De repente ele pisou fundo, entrando na curva com tamanha velocidade que seria impossível que permanecesse na estrada. Desesperado por tê-los visto daquela maneira, acelerei também esquecido de que vocês estavam no Chile. Entrei na reta e já não havia nada adiante. Pisei mais forte e ingressei na segunda curva a toda. Voei ribanceira abaixo. Antes de apagar a última coisa que senti foi o cheiro das bananas. Conforme o agente da Polícia Federal, foram Deus em primeiro lugar e o bananal em segundo, que me seguraram no mundo. Não fosse a plantação, eu teria despencado em um precipício de cento e vinte metros.”

A enfermeira pedia para que me retirasse, pois que as visitas tinham terminado. Assustadíssima, tremia demais a ponto de ela me perguntar se me sentia bem, ou se precisava de algo. Agradeci ao Deus do meu irmão, por ele ter permanecido de olhos fechados por todo aquele tempo. Tudo que eu não desejava era que visse estampado em meu rosto o pavor.

Zonza e perplexa, apanhei as duas malas com o responsável pela recepção do CTI e fui procurar papai. Esforçava-me para acalmar a mente, elaborar um roteiro básico para lhe relatar as conversas, a do Chile – que então não havia levado a sério – e essa de Anselmo. Indaguei pelo velho e o rapaz que guardou as bagagens me contou que, ao mesmo tempo em que eu entrava no Centro de Tratamento Intensivo, ele se virou para a outra banda e pegou o elevador. Papai corria perigo, uma voz interior me avisava. Aliviada, vi que ele estava sentado numa das cadeiras laranja da portaria. Ao me aproximar reparei em sua expressão de dor. Corri largando as malas e, a três passos de mim, ele caiu. Gritei por socorro e quase imediatamente surgiu a maca, dessas com rodas. Era manejada por dois homens a empurrarem papai hospital adentro. Passou-se uma eternidade, até que da emergência saiu um médico jovem que, sem rodeios, se lamentou dizendo que “apesar de terem feito o possível e o impossível, o infarto havia sido fulminante.”

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26 comentários em “O automóvel vermelho e preto (Georgiana Rolls)

  1. Luiz Henrique
    21 de outubro de 2017

    Um conto muito bom, embora o enredo não seja lá muito original, mas muito bem desenvolvido. Mantém certo mistério. Uma escrita sem percalços. Bem condensado. O foco da história é mantido do começo ao fim com firmeza. Enfim, um trabalho enxuto que convence.

  2. angst447
    18 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Linguagem clara e precisa, sem grandes rebuscamentos. O autor dá o recado e pronto.

    R (revisão) – Alguns erros passaram, como já apontaram os colegas, mas nada de tão grave.

    R (ritmo) – O ritmo do começo pareceu mais confortável, mais ágil, talvez porque eu estivesse motivada pela curiosidade. Depois, a leitura ralentou devido às explicações sobre a maldição do carro.

    O (óbvio ou não) – Quem viu ou apenas ouviu falar de Christine de S. King, logo relacionou o conto ao livro/filme. A imagem já nos informou que o foco seria o carro. Por ele ser vermelho e preto me fez pensar na entidade Exu, muitas vezes associada ao demônio. Aí tudo se encaixa, carro do demônio!

    R (restou) – O mesmo desinteresse de sempre por carros. Curiosidade para saber se o irmão vai sobreviver. O pai já estava doente e iria morrer mais cedo ou mais tarde. Restou uma sensação de estar faltando um pedaço do conto.

    Boa sorte!

  3. Rose Hahn
    18 de outubro de 2017

    Georgina, vou confessar, o seu conto causou-me estranhamento, já a partir do 1o. parágrafo. A ideia do carro amaldiçoado é interessante, porém, na minha concepção, não vislumbrei essa maldição ou o terror pretendido. Creio que por questões estruturais do enredo, de demorar-se muito em narrativas que fugiram do suspense/terror pretendido com o automóvel. Algumas frases truncadas dificultaram o entendimento, como em: “Um pobre diabo solitário que não sabia se cuidar, usar melhor o dinheiro, com toda certeza, existente em excesso” ou
    “Coisa mais chata aquela conversa de cerca Lourenço”. Cerca Lourenço? Não entendi o significado e o personagem Lourenço não havia sido introduzido no conto, quando dessa citação. Mais adiante lemos o nome Lourenço, mas ficou a dúvida se ele é o jardineiro ou o dono dos carros.
    “Ele, senhora, possui poderes que só podem ser dos infernos”- Ficaria mais claro se fosse: Senhora, ele possui poderes…
    “Os jardineiros são outros, uma família composta de marido mulher e dois filhos” informação irrelevante ao contexto, poderia ser suprimida.
    – Nunca, que tivera esposa – Nunca tivera esposa.
    – Alo, no princípio achando graça, me dizia dos pequeninos choques nas mãos ao lustrar o danado- Esse “Alo” pensei ser de telefone, mais adiante que entendi que era abreviatura de Alonzo.
    Achei muito extenso os diálogos do segurança de dentadura frouxa, pois na vida real não são assim, há pausas, interrupções.
    Depois da cassetada vem a bonança: Se por um lado a narrativa se estendeu demais em questões da negociação do carro, por outro, demonstra a habilidade do autor em descrições, em pormenores, em envolver o leitor em rodeios, e isso não deve ser descartado, não vejo como um defeito e sim como uma habilidade que pode ser explorado em outros contextos. A sua escrita lembrou-me, guardadas as devidas proporções de gênero e estilo da escrita, de Jane Austen. Bom, depois dessa acho que posso dormir em paz com vc., caro autor. Abçs, sorte no desafio,

  4. Evelyn Postali
    17 de outubro de 2017

    Caro(a) Autor(a),
    Carro amaldiçoado deveria provocar sempre um terror antes mesmo de ler. E eu acho que a história meio que não me apavorou tanto. Mas está dentro do tema, está adequada. Contos sem diálogos são cansativos, em minha opinião, mas a leitura foi numa boa até o fim. Sem muitos erros de construção, de gramática. Isso ajuda sempre. É um bom conto. Boa sorte no desafio.

  5. Marco Aurélio Saraiva
    16 de outubro de 2017

    ====ENREDO====

    Bem original. Digo, a velha lenda do carro amaldiçoado é um tanto conhecida, mas você a aplicou em uma história interessante e inteligente, munindo-a de personagens originais e muito bem trabalhados.

    Gostei muito de como você desenvolveu todos os personagens. Desde os principais – a narradora e o seu pai – até Anselmo e o servente do senhor Andreas.

    Gostei também do ritmo da trama. A narrativa é muito sólida, sem devaneios desnecessários. A história prende o leitor, fazendo-o querer mais.

    Para mim, o desfecho foi o ponto fraco: esperado, sem reviravoltas, apenas a confirmação do primeiro parágrafo do conto. Este, aliás, que poderia muito bem estar no final do conto; como se ele tivesse sido cortado de lá e colocado no topo para adicionar certa ansiedade. Isso não é uma crítica negativa: gosto de textos que me fazem voltar ao início uma vez que cheguei no final, para entender melhor o que já tinha lido.

    A maldição foi muito bem narrada, adiciona consistência ao conto e dá o esperado calafrio que o leitor espera sentir durante a leitura de um conto de terror (especialmente quando a “vida própria” do carro é narrada pelo servente de Andreas).

    Só encontrei um trecho que considerei desnecessário: quando você narra os problemas de cada membro da família da narradora. Me pareceu uma frase fora de lugar, gratuita. Ela tinha o objetivo de situar o leitor nos problemas que a narradora passava, mas veio de forma muto súbita e se foi tão rapidamente quanto veio:

    “Mamãe com Alzheimer sem se dar conta de nada que acontecia à volta, mais morta do que viva. Meu irmão, antes drogado, ultimamente só pensava em religião.Eu e meu dedo podre para escolher os namorados. Família de malucos, concluí.”

    ====TÉCNICA====

    Muito boa. Você escreve bem demais! Seu estilo é muito autoral, cheio de construções bem-boladas e usos diferentes dos verbos e adjetivos. Segue alguns trechos que destaquei como muito bons:

    “Causava-me certa aflição a fala daquele homem – qual era mesmo o nome dele? Ao abrir a boca, sua dentadura frouxa, parecendo viva, me passava a impressão de fazer uns malabarismos para não cair.”

    “…e buzinando uma espécie de gargalhada na volúpia de me atropelar”

    “Era noite ainda e a areia dos olhos me confirmava o quão pouco dormira.”

    Suas descrições são muito boas. Senti-me lendo um filme – as imagens eram nítidas na minha mente.

    A ausência de diálogos não foi estranha – você conseguiu escrever um texto sem eles de forma genial, o que só demonstra a sua habilidade.

    Parabéns!

  6. werneck2017
    16 de outubro de 2017

    Olá,

    O autor escreve um texto de suspense que funciona bem até certo ponto. Concordo com o colega que disse: A trama vem num crescendo de suspense que pra mim tem seu ápice na cena em que o irmão narra o acidente. A partir da introdução do surreal pelo irmão, o leitor espera que coisas extraordinárias estejam para acontecer que corroborem a informação passada, no entanto, o que se vê é justamente o contrário, culminando na morte do pai, que poderia ser um fato natural ou não. Portanto, faltou ter explorado mais esse viés a partir da premissa lançada, tornando abrupto e sem graça o final.

    Vale ressaltar alguns erros gramaticais:
    Antes de apagar a última coisa que senti foi o > Antes de apagar, a última coisa que senti foi o
    anterior, me era chocante > anterior, era-me chocante
    No dia seguinte papai orientaria seu contador, para que desse > No dia seguinte, papai orientaria seu contador para que desse
    . Incrível verificar até aonde > . Incrível verificar até onde
    Sem dúvidas que aquela histórias eram umas dez vezes mais atraentes, do que o > Sem dúvidas aquelas histórias eram dez vezes mais atraentes do que o
    Nunca, que tivera esposa. > Nunca tivera esposa.
    muito menos entender deles, para se constatar ser aquela uma obra de arte. > muito menos entender deles para se constatar ser aquela uma obra de arte.

    Boa sorte no desafio!

  7. Lolita
    14 de outubro de 2017

    A história – Família rica, pai ausente e os diferentes vícios – drogas, carros, a bebida e o dinheiro… Como já foi dito, impossível não lembrar de Christine do Stephen King.

    A escrita – O autor demonstra domínio da escrita, mas a parte da viagem e da preparação para a compra do automóvel é demasiado longa em relação aos elementos de terror no conto. O final também me frustrou. Esperava maior ação sobrenatural do carro e o novo dono morrer de infarto me deixou uma sensação de “mas como assim?”. Gostaria de saber o que a família vai fazer com a coleção após o óbito do pai.

    A impressão – Parece um texto que faz parte de um romance, com pontas soltas a serem atadas. Parabéns e boa sorte no desafio.

  8. Evandro Furtado
    13 de outubro de 2017

    Enquanto o conto se detém na história do carro, é muito bom. Essa sidestory, a relação pai e filha e o resto, não é nada mal, mas quando ela se torna foco, o conto perde força. Isso se torna evidente, sobretudo, no final. É de se esperar que o carro tenha papel maior na história. O fato do velho simplesmente morrer do coração no hospital é meio desapontante.

  9. Lucas Maziero
    12 de outubro de 2017

    O conto não é ruim, porém a narrativa, em grande parte, me ficou confusa, como se estivéssemos dirigindo por uma estrada não lisinha, mas com obstáculos, buracos. É questão de estilo, e questão de gosto à esse ou àquele estilo.

    Precisei ler o começo de novo para me situar, mas já deve ser porque li bastante hoje, as ideias estão fracas e a vista mais ainda. No entanto não me deixarei levar por isso, serei justo na avaliação.

    Apesar de achar que tem muitas cenas desnecessárias, como a conversa da filha com o secretário, ou caseiro, entendi que elas introduziram a história do carro. Só que o carro em si não teve nenhuma participação a não ser ser comprado. Seria o acidente do irmão ocasionado pelo carro? Mas o carro ainda nem tinha saído de Santiago! Só se o carro também exerce uma força magnética e telecinética. Mas enfim por que atingir o irmão? O velho pai não pareceu tão chocado com o acidente do filho.

    Voltando, como eu disse, a narrativa me soou estranha, apesar de não conter erros gramaticais. Aliás, o prosear é rico, o conteúdo em si é interessante. Apenas acho que se o conto fosse reescrito, focando mais no carro, talvez a volta ao Brasil com a filha e o velho dirigindo o carrão e acontecendo mil e uma coisas terríveis, ficaria mais de acordo com a ideia. Em todo caso, notei que o domínio da língua aqui é bom, as ideias mesmo que não foram muito bem concretizadas e organizadas.

    Parabéns!

  10. Fheluany Nogueira
    12 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – A história de um carro assombrado e o mau relacionamento em uma família rica — assuntos bastante instigantes, definidos já na introdução (muito longa). Pena que o desenvolvimento deixou pontas soltas.

    Escrita e revisão – Boa escrita, bem realizada, estilo mais coloquial, simples, direto. Deslizes insignificantes de digitação ou uso das vírgulas.

    Terror e emoção –
    É o típico terror que assusta pelo mal que está por acontecer. O medo do desconhecido. O suspense vem num crescendo, é alimentado pelas falas do empregado do vendedor, alcança o clímax com o acidente do irmão. O desfecho pareceu-me apressado.

    Pesquisei o pseudônimo: interessante homenagem.

    Parabéns pelo bom trabalho. Abraços.

  11. Luis Guilherme
    9 de outubro de 2017

    Olá, amiga, tudo bem?

    Esse desafio me gerou bastante expectativa, uma vez que amo o gênero, então tô bem ansioso pra ver oq vem pela frente.

    Dito isto, vamos ao seu conto:

    Olha, sendo bem sincero, achei um pouco morno o conto. Primeiro, achei que a história falhou em gerar terror ou suspense. O enredo meio que demora pra se desenvolver, explorando pouco o foco de suspense em si, que era o carro.

    Além disso, achei meio confuso o “modus operandi” do carro. Com algumas pessoas, ele apenas causa doenças leves, em outras, doenças pesadas, em outras, apenas um mal-estar, e, no caso da família do protagonista, o carro teve pressa em matá-los. Por exemplo: não entendi pq o carro precisaria tirar o irmão da estrada, se ele é capaz de causar um infarto fulminante.

    Essa capacidade ilimitada e onipresente do vilão acabou me tirando um pouco a graça, já que ele pode fazer oq quiser e quando quiser.

    Claro que o conto tem vários pontos positivos, e tem muito potencial. Acho que se fosse melhor trabalhado o vilão (o carro), principalmente dentro de sua capacidade de assustar e causar mal às vítimas, poderíamos ter um grande conto de carro assassino (que sempre dá boas historias).

    Parabéns pela criatividade e boa sorte!

  12. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    Olá, Georgiana Rolls, que nome você é este que você escolheu! A curiosidade fez com que fosse até o Google. Por lá eu descobri que se trata, nada mais nada menos, do que da mãe de um dos fundadores da fábrica de carros luxuosos Rolls Royce, legal isto. Gostei da sua história. Ela está muito bem contada. Talvez pudesse estender mais alguns pontos, detalhar mais questões tais como as relativas às desventuras amorosas da narradora. Não sou especialista em terror, bem pouco já li e assisti relativo ao tema, mas achei a cena da perseguição do carro muito legal. Você conseguiu gerar um suspense bem bacana em mim. Notei um cuidado com a língua e isto é importante para quem quer relatar para os outros uma história. Parabéns. Um belo de um conto você me trouxe. Abraços.

  13. Ana Maria Monteiro
    7 de outubro de 2017

    Olá, Georgiana. Sabe a ideia com que fiquei? de que o carro não teve nada a ver com a morte do velho. Acho que o carro seria maligno, sim, mas não chegou a ter oportunidade de exercer a sua malignidade porque o pai terá morrido de morte natural, prevista pelo médico. Terá sido o irmão quem introduziu o surreal no conto. Provavelmente, ao converter-se entusiasticamente a uma religião, tal como um náufrago e agarra a uma tábua no meio do mar (ele andava perdido anteriormente, correto?), quem desenvolveu capacidades mediúnicas ou algo desse género (não sei bem que nome se dá a pessoas que têm visões premonitórias). Acho que foi a história que nos contou, pelo menos foi a que li.O carro seria “amaldiçoado” ou algo assim, como ficou bem patente pelas histórias do porteiro e particularmente por ter sido adquirido por metade do que seria o seu valor real, mas não teve qualquer papel na morte do pai. Vejo isso como uma forma bastante inusitada e original de abordar o tema proposto. Parabéns!
    Quanto à leitura, também notei alguns pormenores estranhos que outros já referiram, mas isso acontece-me com todos os contos escritos por brasileiros. Daí que, nada demais em relação aos outros contos do desafio e o que haveria a referir já o foi feito por outros, não tendo eu, nesse domínio, nada a acrescentar.
    Não sei porquê, uma vez que a narradora é mulher e o pseudónimo também, mas pareceu-me que o conto foi escrito por um homem? Será? Depois descobrirei.
    Gostei bastante do que li, mesmo que não tenha sido o que você escreveu. Mas isso sempre acontece: escrevemos. A história terá tantas versões quantos leitores.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  14. Angelo Rodrigues
    7 de outubro de 2017

    Olá, Georgiana,

    Gostei do seu conto. Tem ritmo. Por alguns momentos, observando a linguagem tive a impressão de que você é alguém que “aprendeu” o português e não o tem como língua nativa. Foi o que me ficou.
    Alguns elementos me chamaram a atenção nesse sentido, como nas frases iniciais, onde você diz que vai “…GUARDAR Anselmo (o irmão que talvez estivesse morrendo) junto a papai (que realmente morreu)”. Confesso que isso me confundiu.
    Em diversos pontos as personagens se referem a outras no modo simplificado do nome, assim, Alo – talvez – signifique Alonzo e Vero signifique Verônica, embora Verônica nunca apareça.
    Em um determinado ponto você se refere a “…conversa de cerca Lourenço…” e em outro existe mesmo um tal Lorenzo. Acho que esses modos de se referir às personagens cria um pouco de diversionismo na fluência textual.
    No resto, creio que o texto esteja muito bom. Gostei bastante.
    A despeito de haver um casso de possessão demoníaca relativamente ao carro, há uma boa trama envolvendo as personagens, sem exageros, o que é bom.

    Boa sorte Georgiana, e obrigado por haver compartilhado conosco o seu conto.

  15. Pedro Teixeira
    7 de outubro de 2017

    Olá, Georgiana!
    O conto tem um boa escrita, um estilo mais coloquial que funciona bem. Mas algumas construções destoam do restante da narrativa, como:
    como se fora uma porrada potente na barriga- aqui tenho a impressão de que “um soco no estômago” seria melhor;
    ao me falar em inglês – ao meu ver, poderia ser só “ao me falar”;
    chupado rosto – rosto chupado
    que deixasse de lado – deixasse pra lá.
    A trama vem num crescendo de suspense que pra mim tem seu ápice na cena em que o irmão narra o acidente. A partir daí esperava um desenvolvimento maior, em que o elemento sobrenatural fosse se tornando cada vez mais intenso. Infelizmente, não foi o que ocorreu. O final pareceu muito abrupto, pois o próprio avanço da trama até aquele ponto parecia prometer algo a mais, entende?
    Por outro lado, a sua habilidade para manter o interesse na estória é notável. O resultado é um trabalho interessante, mas que talvez só possa ser plenamente desenvolvido numa narrativa maior, com um limite mais extenso de palavras, talvez até uma noveleta.

  16. Nelson Freiria
    7 de outubro de 2017

    O conto tem um estilo e pontuação que deram uma “embaralhada” em meus olhos, até que eu me acostumasse com o ritmo. Acho que estou há mto tempo lendo apenas coisas mais “simples”.

    Vi uma vírgula ou duas que ficaram estranhas, mas nenhum erro grave. O conto tem uma premissa interessante, mas o desenvolvimento não ficou redondinho. Parte disso por não passar simpatia com o personagem do pai, que simplesmente aparece fazendo besteira e morre. Se nem o dono anterior que esteve com o veículo por meses não morreu, como o novo dono morre tão fácil sem passar por nenhuma aflição ou dificuldade? Essa escolha de eliminar logo o pai, acabou finalizando a história mto cedo. Quem sabe um pouco mais de sofrimento para o velho, como a destruição de seus outros veículos de coleção, ou outras atrocidades, não faria o leitor ver o terror rondar a vida do personagem?

    A cena do veículo “fantasma” que causou o acidente com Anselmo, ficou legal, pena que foi apenas ela e a fala do segurança que ficaram responsáveis pela introdução do sobrenatural na história.

  17. Paula Giannini
    7 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Como elemento central de seu conto você nos traz um carro assombrado, apresentando a premissa já no primeiro parágrafo. No entanto, o verdadeiro conflito do texto se encontra, em minha opinião, a conturbada relação entre pai e filha.

    Assim, vemos uma “pobre menina rica” que, embora cercada de luxos e mimos, ainda se sente negligenciada, achando ruim a necessidade de acompanhar o pai doente a uma viagem onde poderá escolher restaurantes luxuosos a seu gosto e prazer.

    Certamente dinheiro não traz felicidade e, obviamente, todo o mimo do mudo jamais compensaria lacunas deixadas por uma família “ausente”. Entretanto, a menina nada tem de menina. Ela é, na verdade, uma mulher.

    Por este motivo, imaginei o carro amaldiçoado (ainda que em um contexto de terror), como uma espécie de ícone. Um símbolo do elo que a personagem deseja romper com a família. Ela está insatisfeita com sua relação com o pai e é justamente o objeto de desejo deste que aparece na trama como o vingador, a maldição, a morte. É o carro que vai arruinar a família que tanto “mal” fez à protagonista. É igualmente o carro, que vai perseguir seus entes queridos, embora em conturbados relacionamentos, assim como em toda família. Assim, ao passo que o terror realiza o desejo da personagem, de igual modo, lança-a no horror de perder a todos.

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desfio.

    Beijos
    Paula Giannini

  18. Rafael Soler
    6 de outubro de 2017

    Achei interessante como a abordagem do clássico “veículo amaldiçoado” foi feita, principalmente na forma como o elemento sobrenatural se desenvolveu, no final, de forma inesperada. Gostei do ritmo também, embora o tenha considerado um pouco apressado.

    Com relação à escrita, estranhei a estruturação das frases, inicialmente. Os períodos curtos me dificultaram a leitura, tendo de reler alguns pedaços para poder entender melhor.
    Também senti falta da maldição ser um pouco melhor explorada, para que os eventos em aberto no final do texto tivessem um impacto maior.

    🙂

  19. paulolus
    5 de outubro de 2017

    É o típico terror que assusta, não por que assustou, mas pelo que está por vir. A incógnita. Tornando-o propício a tudo. Pra mim o mais sintético dos trabalhos lido deste desafio. Encorpado. E o mais interessante: não assustou ninguém, mas deixou um gostinho de quero mais. Uma escrita firme e bem realizada, exceção feita pela tentativa de forçar um gracejo sem muita necessidade, o caso da dentadura, por exemplo, e só. Porém o todo é muito bom.

  20. Antonio Stegues Batista
    5 de outubro de 2017

    ENREDO: Carro possuído por entidade maléfica. E Quando chegou nesse ponto, achei que seria algo tipo Cristine, de Stephen King, mas não. Sem cenas do tipo. Enredo fraco

    PERSONAGENS; Achei os personagens engraçados, meio caricatos. Não foi legal a dentadura dançar na boca do homem. Essa descrição foi infeliz, poderia ser outra coisa, um tique, por exemplo.

    ESCRITA: Regular, mas algumas coisas foi inseridas apenas para dar tamanho ao conto, como é o caso do segurança falando do jardineiro, coisa que não trouxe nenhum valor à história. Algumas situações também não foram descritas com preocupação na estética, muito rápidas e simples, como é o caso da mãe e do irmão. Parece que a unica preocupação da autora foi terminar logo o conto e deixar como estava. O inicio ficou legal, mas o resto não combinou, muito menos o final.

    TERROR: Não achei nenhum, apenas indícios da coisa. Faltou elementos e técnicas, ideias, ações fortes. A compra do carro poderia ser no Brasil mesmo, ficou sem uma explicação razoável, ou um motivo, para ser no Chile. Se teve, não entendi.

  21. Regina Ruth Rincon Caires
    4 de outubro de 2017

    É um conto bem estruturado, narrativa fluente, caracterização perfeita dos personagens. Texto bem escrito. Pontuação um pouco confusa, mas não atrapalhou o entendimento, só exigiu mais atenção. O tema proposto pelo desafio está presente, o enredo prende o leitor, leitura prazerosa. O autor, habilidoso, consegue descrever as cenas com tamanha propriedade que o leitor parece estar lá, presente. Interessante que, ao final, eu, como leitora, fiquei com a sensação de que deveria haver mais texto. Caberia…
    Parabéns, Georgiana Rolls!

  22. Eduardo Selga
    4 de outubro de 2017

    Comédia tem de causar gargalhadas em quem lê? O terror tem de causar pânico no leitor? Levar esses ponto de partida a ferro e fogo é inadequado na avaliação do texto literário, porque existe um fenômeno chamado recepção textual, que é como o leitor recebe a obra. Isso não depende exclusivamente do texto: conta muito quais flores florescem na alma do leitor. Não é possível entender que o conto seja uma espécie de Sonrrisal que sempre efervesce em contato com o meio líquido: às vezes sim, às vezes não. Com alguns leitores, o mesto texto causa uma reação; com outros, outra. Pretender que a reação seja uníssona não tem cabimento.

    O importante é sabermos identificar a presença ou não de elementos do gênero terror, e de que modo eles foram trabalhados.

    Neste conto, o elemento de terror é o sobrenatural, como é bastante comum ao gênero em questão, na medida em que muitas vezes se agrega à narrativa do insólito, como é possível observar em vários dos contos já publicados no Desafio.

    A máquina amaldiçoada (carro, moto, eletrodoméstico etc.) é também comum, e o dado que foge a isso é a visualização de personagens no veículo, sendo que nem eles nem o carro estavam no lugar no momento indicado. Acredito que tal item devesse melhor trabalhado, aprofundado em detalhes, não para causar susto ou medo, e sim para que o enredo ganhasse robustez.

    Há alguns problemas de pontuação, como em “Uma mulher se aproximando dos quarenta a agir como se tivesse, no máximo, uns doze era ridículo”, em que a vírgula está mal empregada. Deveria ser “como se tivesse, no máximo, uns doze, era ridículo ou “como se tivesse no máximo uns doze, era ridículo”.

    Em “Chegam quando ainda está escuro para retornar no meio da tarde”, parece que no meio da tarde já está escuro demais para retornarem. a ideia me parece ter sido que a primeira atitude é motivação para a segunda ocorrer. Assim, o melhor seria “Chegam quando ainda está escuro, para retornar no meio da tarde”.

    Em “Mamãe com Alzheimer sem se dar conta de nada que acontecia à volta, mais morta do que viva. Meu irmão, antes drogado, ultimamente só pensava em religião. Eu e meu dedo podre para escolher os namorados. Família de malucos, concluí”, quando a narradora diz “dedo podre para escolher os namorados” pode dar a impressão de ser consequência do que dissera anteriormente, quando na verdade é mais um elemento que faz com que ela pertença “”família de malucos”. O trecho precisa de rearranjo..

  23. Andre Brizola
    3 de outubro de 2017

    Salve, Georgiana!

    Estamos acostumados a pensar logo em Christine, do Stephen King, quando pensamos em histórias com carros sobrenaturais e/ou amaldiçoados. Entretanto, King também fez alguns contos com veículos, e pelo menos dois deles conseguem ser mais legais que Christine: O Atalho da Sra. Todd e O Caminhão do Tio Otto.
    Digo isso só pra mostrar que, mesmo parecendo algo “engessado”, o enredo sobrenatural com um veículo permite vários tratamentos, e podem ser bem interessantes mesmo que já exista algo tão “definitivo” quanto Christine. E eu acho que seu conto é um desses casos.
    Achei a ideia muito boa. Sobretudo porque envolveu não só o carro, mas também seu dono alemão, caricato dentro do aceitável.
    Minha única crítica é que ele poderia ser um pouco maior. O tempo utilizado para situar o leitor das suspeitas sobre a “situação” do carro é muito maior do que o ápice, do que a grande revelação e, consequentemente, o maior elemento de terror e tensão do conto todo.
    Mas eu realmente gostei do conto!

    É isso! Boa sorte no desafio!

  24. Edinaldo Garcia
    3 de outubro de 2017

    Escrita: Eu particularmente não gostei do ritmo. Acheis os períodos muito truncados. Compreendo que há quem goste. Eu me perdi muitas vezes durante a leitura, com citações que não compreendi.

    Terror: Gostei muito da temática. Gosto de terror que vão além do óbvio e de variedades. Neste desafio tive medo que o pessoal se focasse apenas em fantasmas e criaturas mitológicas. O seu conto me agradou.

    Nível de interesse durante a leitura: Eu senti muita curiosidade de ver onde tudo iria parar, o fato do carro trazer maldição e não ser um assassino personificado me surpreendeu, foi além dos filmes Christine e Carro, A Máquina do Diabo.

    Língua Portuguesa: A gramática é ótima. Volto a repetir que não gostei da cadência.

    Veredito: Gostei; mas daria para ser melhor, devido ao tema e ambientação, eu esperei mais do que o enredo me deu. Como um bolo que por fora estivesse bastante apetitoso mas que por dentro falta uma pitadinha de doce.

  25. Fabio Baptista
    3 de outubro de 2017

    A técnica tem um estilo peculiar que reconheço os méritos (boa gramática, desenvolvimento cadenciado na medida certa), mas não aprecio de todo. As frases, principalmente no começo, são muito curtas e deixam a leitura travada, sobretudo porque ainda estamos nos adaptando ao enredo. Depois de chegarem à mansão do vendedor, começa a fluir melhor.

    A trama gira em torno de um objeto amaldiçoado, um carro no caso. Ainda não senti medo no desafio (e tenho impressão de que não vou sentir), mas esse foi um dos plots que mais passaram longe de assustar, apesar da ótima cena de perseguição descrita pelo Anselmo. Mas claro que o conto está dentro do tema, só a premissa de um carro maldito que não me cativa. Talvez se tivesse trabalhado um pouco a origem da maldição, não sei.

    Alguns apontamentos:

    – me atingiu como se fora uma porrada
    – Abandonou Jesus, tomara e cheirara todas, refleti
    >>> às vezes o pretérito-mais-que-perfeito é usado desnecessariamente e deixa as frases feias, com um ar pedante

    – conta do descuidado para conosco
    – Vai que quererão me passar na faca
    >>> não consegui precisar se é um texto lusitano, talvez essas palavras sejam mais usuais em Portugal, mas para mim soaram estranhas

    – Coisa mais chata aquela conversa de cerca Lourenço
    >>> Lourenço?

    – e eu estava, literalmente, bêbada
    >>> esse “literalmente” poderia ser limado

    Sei que fui bem azedo, desculpe. Mas a nota não será ruim, o texto tem qualidades, apesar de não ter me agradado.

    Abração!

  26. Olisomar Pires
    2 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: médio.

    Narrativa/enredo: impossível não se lembrar de “Christine” do mestre King em qualquer conto onde um automóvel seja o vilão personalizado. No caso presente temos pai apaixonado por carros antigos e que adquire o veículo amaldiçoado. Relato na voz da filha que se sente relevada.

    Escrita: boa, sem erros dignos de nota. Leitura fluida em função do estilo contemporâneo, direto e simples;

    Construção: Há momentos onde o conto se torna lento, embora isso não prejudique a leitura em si. Temos uma boa apresentação das personagens e seus traumas. Talvez o “segurança” tagarela seja um recurso não muito verossímil, mas vá lá, o sujeito estava apavorado (risos).

    A cena da perseguição do irmão e que levou ao acidente ficou muito boa, bem como aquelas que mostram a “vida” do automóvel endiabrado.

    Entretanto, o conto não se fecha, não temos um final. Ficou bastante introdutório.

    Mas é um bom texto que poderá ser aproveitado futuramente pelo autor.

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Publicado em 2 de outubro de 2017 por em Terror.