EntreContos

Literatura que desafia.

Hotel Korzha (Cão de Palha)

Após muitas e frustradas tentativas de voltar a me erguer, refugiei-me aqui neste lugar. Na porta, uma placa com pouca simetria diz “Hotel Korzha”, mas isso é uma grande bobagem. O lugar é apenas uma horrível pensão de muitos cômodos tomada por anos de abuso e desleixo. Pelo estado do edifício e dos quartos, julgo que o local foi digno desse nome há muitos anos, quando o sistema de refrigeração, as pias e os encanamentos possuíam a dignidade do funcionamento. Nesse local acabamos por regredir ao início do século: temos aquecedores a gás — quando há gás — e jarros de água para pequenas abluções. O banho é coletivo, com pisos que perderam o verniz e mostram o barro de que foram feitos; as divisórias dos reservados são de aglomerado barato e se deterioram com a água que os faz apodrecer com facilidade. O pouco que protegem, quase não permitem a presença de mulheres e homens no mesmo ambiente. Vejam que por aqui o recato não vale de coisa alguma, tornando o lugar um refúgio aos decadentes, abrigo aos que perderam o brilho das oportunidades. Tudo aqui desmaia e se apaga pelo cansaço da inútil espera. Esperanças são para poucos.

Agora mesmo estou em meu quarto deitado e olho paralisado para o teto. Se muito penso pouco ajo e isso é o fim para um sujeito discreto como sou; fui presa fácil. Na verdade, estou mesmo paralisado, pois não ouso caminhar sequer pelo entorno de minha própria cama.

As inúmeras goteiras encharcam o forro do quarto e tiram o sossego de qualquer um, arruínam o humor; o papel de parede exala um cheiro azedo que a cola de amido, podre e umedecida, deixa no ambiente. O piso, feito de velhas tábuas corridas, range onde permanece seco e faz emergir um bolor verde onde a umidade teima em se acumular. Ratos atacam os nervos e são tão abundantes quanto as baratas, as aranhas e os escorpiões, que insistem em fazer do lugar morada e descanso. Tudo isto é um teto que apenas abriga do relento.

Houve um dia em que fui tomado pelo desconforto de observar que meu espelho, não obstante refletir minha pobre imagem, o fazia com uma certa vagueza, algo como se a minha imagem chegasse sempre um pouco atrasada após eu me haver posto à sua frente. Em outro momento percebi que não só minha imagem sofria um certo retardo como também não guardava o foco natural dos espelhos. Estava difusa, como se entre meu rosto e meu reflexo houvesse uma nuvem que opacitava tudo. Imaginei que me falhassem os olhos, ao que logo vi ser impossível, pois tudo o mais se apresentava como sempre fora. Temi um pouco, em princípio, porque, pensei, o que seria de mim com olhos ruins? Um nada, um zero à esquerda, acabado. Meus olhos são a riqueza que me ficou.

Algum tempo depois quase me dei por tranquilizado, pois retornou o foco, embora permanecesse o retardo no aparecimento da minha imagem. Creio, entretanto, que ao retornar o foco, deu-se que o ambiente no qual o espelho me refletia não era o mesmo em que eu me encontrava. Foi então que passei a estudar os ambientes em que eu me via nos espelhos. Percebi que todos eles eram lugares nos quais eu me pusera a observar as pessoas. Notei que, mesmo em meu quarto, eu conseguia estar em outros ambientes. Camas, becos, salões, escritórios, quartos deste hotel, banheiros, ruas. Todos os lugares, sem qualquer exceção, estavam lá, a circundar minha pobre figura mostrada no espelho.

Não tinha qualquer controle sobre o que observava em torno da minha imagem, que mudavam com frequência irregular, saltando de um banheiro para um quarto e de um quarto para um beco, de um beco para uma praça, num sistema de mudanças sobre o qual eu não tinha domínio algum. Que terrível!

No início fui tomado por um estado de contemplação que se transformou em assombramento, que findou por me fazer experimentar a náusea profunda seguida da intensa agonia que me levou à prostração. Estava exausto e sem ânimo. Sentia, por fim, que as imagens tinham a capacidade de abandonar os espelhos e me rondavam, giravam ao meu redor, me dominavam, fazendo-me tonto, tonto, tonto.

 

Paredes finas ― que não chegavam a meio palmo ― me obrigavam a compartilhar intimidades de gente que nunca conheci. Meu quarto era invadido permanentemente por uma espessa bruma formada pela fumaça de mil cigarros, cachimbos e charutos que se acendiam e se apagavam numa sórdida mesa de carteado que rolava no quarto ao lado.

No comando do jogo estavam Nogueira e Nanete. Nogueira era um sujeito forte ― mais pesado que forte ― com uma barriga obscena e monstruosa que muito bem disfarçava o revólver que sempre trás à cintura. Nanete era uma velha prostituta conhecida na região que ainda sustentava as aparências de uma época de glória que não viveu. À noite, nos momentos que antecediam a chegada dos jogadores, vestia-se como uma dama antiga, e, a despeito do calor insuportável que sempre faz em Diamante, punha sobre os ombros uma pele puída de algum animal, calçava sapatos com pedriscos coloridos e desfilava pelo hotel com sua piteira feita do osso da tíbia de um sagui. Seu cabelo ralo era penteado em direção ao alto sustentado por um banho generoso de laquê. Nanete era definitivamente uma mulher que se podia odiar sem qualquer receio ou restrição. Depois que seu corpo e a sua alma foram consumidos pelo álcool e pelas drogas, juntou-se a Nogueira para explorarem juntos outros humanos decadentes e viciados nos intermináveis jogos de pôquer que patrocinavam.

Em torno de ambos orbitava Stric, um sujeito vil, insuportável, magérrimo. Se algo mais poderia atribuir a ele, era sua boca fina, úmida e larga que o remetia diretamente ao mundo das salamandras, ou a algum mundo estranho de homens, onde em um corpo não poderia caber uma alma.

Stric atribuiu a si mesmo esse nome, pois se dizia estricnina pura. Era pau pra toda obra nas mãos de Nogueira e Nanete. O que não tinha de porte físico tinha de disposição para toda e qualquer crueldade. Alardeava pelo hotel que que era um sujeito que não tinha sossego com as mulheres. A verdade é que nunca o vi com uma mulher que não fosse uma prostituta viciada em álcool ou drogas. Em torno desses três desqualificados orbitava uma turma de jovens licenciosos que pareciam viver de colher suas migalhas.

E isso tudo estava bem aqui, ao meu lado, todos os dias, todas as noites. As paredes finas me deixavam ouvir suas tramas entre as partidas, onde, por meio de truques e armadilhas combinadas, arranjavam a ruína dos jogadores. Não eram barões, empresários ou herdeiros endinheirados que saíam daqui esfolados, eram velhos punguistas, enganadores, ladrões, viciados, cafetões e velhas prostitutas. Todos exatinho como eles. Todos buscavam no quarto ao lado do meu o ganho fácil e acabavam perdendo o que tinham subtraído pela força ou pela malícia, de alguém. Aqui se ficava sabendo que até aqueles que se consideravam os mais espertos e cruéis, podiam se transformar em tolos monumentais.

Já ouvi disparos acalmarem acaloradas discussões. Havia mortes, talvez algumas, que fizeram cessar discussões causadas pelo vício do jogo. Imagino que jogassem os corpos no Rio das Moças, que corre manso sob as janelas dos quartos que ficam no fundo deste prédio. Ouvia com atenção os passos deles quando procuravam se livrar dos corpos. Após o tiro, o silêncio, depois as providências, quando arrastavam o coitado pelos calcanhares e, num impulso de alguns, despejavam o estorvo morto pelas janelas. Depois o silêncio retornava, que se ia acalorando até voltar à normalidade das vozes entusiasmadas com vitórias ou derrotas no carteado. A fumaça que invadia o meu quarto nunca cessava.

Às vezes alguns policiais batiam aqui no hotel. Ao lado, Nogueira e Nanete os recebiam acautelados, pois sabiam do roteiro das autoridades: ameaças, acordos de leniência e um pouco de dinheiro. Isso era tudo. Acabavam fazendo muito barulho por nada, porque Nogueira sempre comprava a cumplicidade dos policiais com algum dinheiro. Era quando se intensificam as tramas entre Nogueira e Nanete buscando compensar o prejuízo causado pelos homens da lei e da ordem.

Certa vez invadiram meu quarto e me pegaram lendo, disperso. Vasculharam meus pertences, me ameaçaram com palavras dizendo coisas que não conseguia entender. Notei que procuravam por algo de valor que pudessem me roubar me atribuindo a pecha de ladrão e nada encontraram. Nada de dinheiro, de armas ou pequenos bens que pudessem levar com eles. Deixaram-me em paz.

Detestava aquelas pessoas, todas. Mas admito que não gosto mesmo é de pessoas, quaisquer pessoas. Nunca as suportei. Neste lugar, esse meu jeito se intensificou. Se me fosse possível, evitaria as pessoas como se quer evitar os mais terríveis demônios. E como não tinha mais o luxo das escolhas ia suportando tudo sem reclamar. De que adiantaria?

Não me imaginem um misantropo. Claro que odeio mulheres ― sempre que penso em Nanete,  e homens também, quando penso em Nogueira ― simplesmente pela inconveniência constante que todos me causavam quando eu circulava pelos corretores deste hotel. Creio que detestaria ursos, cachorros, vacas, bodes, formigas, se fossem eles capazes de falar, falar comigo, me dirigir alguma palavra. Odeio um assuntinho, uma conversinha, um sorriso, uma tapinha sutil nas costas, um aperto de mão. Odeio, odeio! Gosto de odiar tudo isso. E lá se ia minha paz quando alguém me procurava para dizer uma bobagem qualquer. Evitava pessoas, não tinha qualquer paciência para intimidades. Esquivava-me pelos corredores querendo não encontrar ninguém. Imagino que o destino me era eternamente cruel, pois, por mais que planejasse andar incólume, transparente, invisível, sempre terminava nas mãos de alguém. Nogueira e Nanete se faziam doces comigo, sempre dispostos a uma conversinha — odeio também estar disponível a alguém, particularmente a eles.

Stric, seco por natureza, pouco falava e ao fazê-lo comigo tinha sempre a capacidade de torcer as coisas em direção a uma observação ladina e sexual. Uma piadinha, uma insinuação, sempre algo assim. Stric sempre fazia o tipo que falava e ria ao tempo em que apalpava e apertava o próprio sexo, num odioso hábito sobre o qual já não tinha qualquer controle, como se quisesse se manter perpetuamente no auge de alguma excitação sexual. Pois saibam que eu tratava a todos com a máxima submissão e a plácida reverência que se deve ter diante de criminosos e autoridades públicas, todos iguais em suas desigualdades.

 

Os proprietários deste hotel se chamam Lucian e Anca Korzha, dois romenos, um casal de velhos feios, magros e ossudos. Nesse restrito e decadente mundo onde o dono de um hotel poderia se imaginar uma autoridade local, Lucian conseguia ser apenas um sujeito infame e desqualificado. Tinha as feições de um mordomo sujo e displicente, e os modos de um serviçal negligente. Seu rosto fino e encovado fazia parecer que os ossos lhe sugavam a pele em busca de proteção, seus olhos caídos deixavam ver o vermelho pálido sob as pálpebras remelentas e os dentes, bem os dentes me causam engulhos. Arrastando chinelos por toda parte, não movia uma palha para melhorar as condições insalubres deste lugar. Vivia zanzando pelos corredores como se procurasse a saída de um infinito labirinto ― e já se disse que o pior labirinto é uma linha reta. Anca era diferente, era apenas indolente, sem feição de coisa alguma, senão a da indiferença frente a tudo que não fosse seu jogo de paciência, sempre em andamento sob o balcão da portaria. Quando ela não estava por perto e eu passava por lá, dava uma olhada e podia ver aquelas fileiras de cartas ensebadas a espera de um movimento. Por hábito, Anca sempre ouvia as músicas folclóricas da Romênia que saíam de um velho toca-fitas encrustado na parede, músicas intermináveis e insuportáveis. Por hábito e desgosto, passei também a odiar as músicas folclóricas da Romênia.

Constantemente ouvia a voz de Lucian no quarto ao lado do meu, aquele da jogatina de Nogueira e Nanete. Descobri que ele tinha também um vício focado dos baralhos. Ficava-me claro que era a voz de Lucian quando não conseguia compreender uma só palavra do que sai de sua boca. Sua voz rouca, gutural e em solavancos, dizia frases a Nogueira e a Nanete que não conseguia compreender. Imaginava que Lucian deixasse naquela mesa os ganhos miseráveis que tinha com os alugueis do hotel.

 

Quando aqui cheguei, há muitos anos, sempre era abordado por Anca e Lucian afim de terem comigo uma conversinha boba, estranha, feita de meias palavras, gestos que me pareciam lascivos, sonoridades confusas, sussurros guturais, coisas assim, que eu não fazia caso, mas percebia que ambos tinham alguma atração licenciosa por mim. Era já uma época em que eu não tinha mais o dom das escolhas, e esse era o meu problema e maldição, então os ouvia, ouvia e ouvia. O que havia naquele lugar era o meu melhor, e este hotel decadente era o melhor que eu poderia ter. Refugiava-me em minhas leituras e pouco deixava meu quarto; minha reclusão tempestiva amenizava todos aqueles inconvenientes. Mas as coisas, aos poucos, estavam mudando, eu podia perceber.

Gostava de ficar sob as cobertas, deitado sobre a cama lendo um livro à espera da sonolência que se avolumava aos poucos até tomar conta de mim. Era quando imaginava caminhar por um longo corredor estreito onde podia vislumbrar uma luz diáfana amarelada ao final, que se apagava aos poucos enquanto as paredes me abraçavam. Nesse ponto eu dormia, ou entrava num mundo onírico, onde podia viver outras vidas. Sabia que era uma forma de escape, claro, mas como não querer escapar de tudo aquilo que acontecia comigo?

Por algum tempo pensei que a leitura que antecedia esse devaneio era determinante e por isso dava-me a mergulhar em livros que me levassem a viagens fantásticas, a mundos desconhecidos, tomados de felicidade. Tudo vinha funcionado bem. Cada vez que penetrava nesse mundo de maravilhas sentia que minha alma voltava a viver, deixava de ser um sujeito sem escolhas, me transformava novamente no homem que um dia fui. Vivia num universo sem repetições, excitante, onde as possibilidades eram infinitas. Por muitos meses dediquei-me a ler Júlio Verne em suas viagens. Quando terminei com Verne, passei a T.H. White com seus cavaleiros, depois a Selma Lagerlöf com suas lendas, a Lewis Carroll com suas aventuras maravilhosas. Depois, para minha desgraça, experimentei Hoffmann, Lovecraft, Poe, Hawthorne e Le Fanu, que me foram decepcionantes pelas fantasmagorias que me atormentavam loucamente à noite, em pensamentos e sonhos. Mas tudo isso acabou. Três dias atrás tive um sonho, ou uma viagem límbica, não sei, e tudo mudou.

 

Sonhei que caminhava à noite pelo labirinto de corredores do hotel, e me vi entrando num quarto que não era o meu. Forcei uma tramela em forma de borboleta e ela cedeu após flexionar as asas por três vezes, permitindo que eu entrasse. Ao avançar pelo quarto notei que havia pouca luz: um abajur na forma de uma lanterna chinesa emitia um laranja pálido, fraco e indolente, tornando o ambiente suficientemente iluminado para ter um Norte, mas ainda insuficiente para tornar os objetos reconhecíveis. Tudo ali parecia um céu noturno, subtraídas a lua e as estrelas, com apenas Marte cumprindo a tarefa de iluminar a Terra.

Depois de algum tempo acostumando os olhos, percebi que por sobre uma enorme e magnífica cama de dossel, circundada por uma fina gaze branca, diáfana e rota ao extremo, havia um casal deitado. Eram extremamente ossudos, com corpos carentes de carnes que os cobrissem. Copulavam intensa e loucamente e suas vozes roucas proferiam coisas, sussurros, palavras que eu não compreendia. Não sei se palavras de prazer ou uma oração diabólica que amparasse algum culto próprio àquelas duas caveiras infernais.

Fiquei a olhá-los por algum tempo com os olhos semicerrados. Não sei que motivo louco me levou a ser revelado àquelas duas figuras diabólicas. A dupla esquálida parou imediatamente o que fazia e, antes que pudessem se recompor, instantâneas luzes fortíssimas se acenderam, fazendo com que fossem ambas tomadas por uma fúria absoluta, que imediatamente fez brotar do chão um visgo pegajoso que exalava um cheiro azedo e insuportável. Das paredes daquele quarto desconhecido escorreu um líquido grosso como a lama que, igualmente fétida, tornava insuportável a respiração. Do teto pingavam gotas pútridas que me pareciam feitas de fel e ácido. Caíam do teto os corpos mortos, assassinados por Nogueira e Nanete em sua mesa de pôquer. As cartas de baralho enlameadas desciam junto com esses cadáveres que caiam e voavam pelo quarto como se ali houvesse uma ventania incessante e furiosa. Em alguns segundos, essa lama pegajosa tomou conta do ambiente e formou-se à minha volta uma pocilga monstruosa. Dei as costas àquela cena horripilante, macabra, e corri em total desespero. Saí patinhando apressado e deixei para trás um rasto nodoso que me grudava ao piso e dificultava minha locomoção. Andei muitos metros pelos corredores que se afunilavam à minha frente como se pudessem me prender ao chão. Meu desejo de acolhimento me traía: as paredes, ao invés de me abraçarem em aconchego, buscavam o meu fim com o desejo de me esmagar. Fugia sem esperança de poder escapar daquilo. Meus movimentos eram lentos e pesados, me obrigando a exercer uma enorme força para vencer as passadas que dava. Ao olhar para trás enquanto fugia, pude ver que os esqueletos me perseguiam e tinham na face a expressão do ódio que serpenteia em giros loucos o Inferno sem fim. Faziam-lhes coro na perseguição o imenso Nogueira com sua pistola fumegante e o esquálido Stric que trazia nas mãos um par de navalhas que cortavam o ar freneticamente.

 

Após sonhar três vezes esse mesmo sonho, noites seguidas, uma vida de agonia me tomou: ainda à noite, acordo exausto e suado sobre uma cama de dossel que não é a minha e tenho sobre meu peito duas caveiras ossudas a me acariciar o rosto e a me dizer coisas que não entendo. Lembram-me Anca e Nanete, como se múmias fossem, enroladas em trapos imundos e envoltas em fúrias intermináveis em seus loucos desejos por algum sexo bestial. Sou a passiva presa de ambas. Ouço a voz de Nogueira e os grunhidos estranhos de Lucian, também a me dizerem coisas que não compreendo. Stric, que lhes faz companhia, grita para mim com sua voz estridente e fina, a me dizer que o problema do homem bom de cama é não ter sossego com as mulheres; e todos rondam minha cama como em um carrossel de agonias embalado por um coro de vozes puxado pelos jovens licenciosos que sempre os acompanham em busca de migalhas. E as vozes sempre repetem prazer, prazer, prazer, interminavelmente. É o que ouço.

Desespera-me saber que nesse quarto úmido e lúgubre, sobre uma cama de dossel, meu sonho se lança para dentro de si mesmo em circularidades eternas, pois já não desperto, nunca desperto. Rondo dias e noites pelos corredores esbarrando em fracassados, miseráveis jogadores infames e prostitutas, fantasmas que querem esfriar meu corpo para sempre. Anca e Nanete sempre se recolhem ao meu peito, me dizem coisas que nunca entendo o que seja.

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23 comentários em “Hotel Korzha (Cão de Palha)

  1. Pedro Teixeira
    21 de outubro de 2017

    Olá, Cão!
    A narrativa é muito boa, só acho que se excedeu um pouco nos adjetivos. Senti falta de um enredo que se impusesse com mais força, mas pode ser falha minha. Achei os dois primeiros parágrafos desconectados do resto, com os devaneios sobre o espelho. As descrições do sonho são excelentes, criando imagens fortes. Dentro do que se propõe é um conto muito bem executado, mas confesso que queria ter gostado mais dele. Senti falta de uma trama mais bem definida, de diálogos e aprofundamento dos personagens, mas acredito que a opção por não trazer esses elementos tem o objetivo de criar uma atmosfera onírica.

  2. angst447
    19 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Há preferência pela narrativa descritiva. Ótima ambientação da trama, revelando uma densidade bem próxima à areia movediça. Não é um estilo raso, mas que requer do leitor mais do que uma simples leitura.

    R (revisão) – Alguns erros passaram, já apontados pelos colegas. O “trás” seria do verbo “trazer”? Se for, teria de ser grafado como TRAZ. E para concordar com o tempo verbal empregado, teria de ser TRAZIA.

    R (ritmo) – O ritmo é o complicador do conto. Por se basear em descrições muito bem trabalhadas, a narrativa arrasta-se um pouco. A ausência de diálogos também contribui para o ralentar da leitura.

    O (óbvio ou não) – Não considerei o terror óbvio, pois se revela aos poucos, atravessando as camadas da trama. É mais um pesadelo do que uma lembrança. Gostei bastante da parte do espelho e do sonho com as caveiras.

    R (restou) – Uma vontade de ouvir de novo a música Hotel Califórnia e me perder nesse labirinto em linha reta.

    Boa sorte!

  3. Evandro Furtado
    19 de outubro de 2017

    A maior qualidade do texto, por incrível que pareça, é ser simples. É nos pequenos detalhes que estão as suas grandes qualidades. As construções frasáticas são invejáveis. As combinações de palavras, não só são perfeitamente dispostas semanticamente, mas possuem, em si, uma sonoridade que embala a leitura e combina-se com o conto em si. A trama é nebulosa, perpassa pelos incômodos do personagem-narrador. O conto é sujo, nebuloso, escuro, e isso é passado, não só pelas descrições absolutamente impecáveis, mas, também, pela já mencionada sonoridade que concede ao texto um caráter etéreo. Faltou uma coisa pra ser perfeito: um fechamento de trama que trouxesse algo mais ao leitor. O conto embala, feito uma mão a balançar o berço, mas faltou acordar essa criança, levá-la ao seio e alimentá-la. Ou seja, faltou matar a fome por uma conclusão que, de certa forma, trouxesse uma reflexão a quem lê.

  4. Evelyn Postali
    18 de outubro de 2017

    Caro(a) Autor(a),
    Gostei muito do conto, mesmo sendo ele todo narrado. Tenho dificuldades com contos assim. Eles me cansam um pouco e a leitura fica lenta. Gosto de diálogos. A escrita é muito boa e não notei erros muito gritantes, nem os menos gritantes kkk Então, gostei da ambientação e está dentro do tema. Ele é um conto denso. Tem uma pegada de muita tensão. Boa sorte no desafio.

  5. werneck2017
    17 de outubro de 2017

    Olá,

    Trata-se certamente de um conto intimista, contado de forma a suscitar diversas reflexões. O texto traz também uma imagética potente que reconstitui com primor a ambientação decadente do protagonista e do hotel, não há diferença entre eles.
    O protagonista está preso ao hotel tanto quanto a ele mesmo, não há escapatória, só condenação. Os erros gramaticais que apareceram vez por outra não tiraram o brilho da narrativa e, portanto, não vou comentá-los, uma vez que já foram bem relatados pelos colegas. A falta de ação e a morosidade das cenas só agregam o tom intimista e confessional.
    Parabéns e bos sorte.

  6. Lolita
    15 de outubro de 2017

    A história – Um homem preso, por vontade própria, em um hotel decadente sofre alucinações. Lembrou Memórias do Subsolo, o que é um elogio.

    A escrita – Forte, apesar de ser um texto para ser entendido em duas leituras. As descrições são fortes, eu cheguei a sentir o fedor das paredes do hotel. A escolha da Romênia é interessante, terra do Drácula.

    A impressão – O texto trabalha com o psicológico, é uma espiral bastante assustadora a do personagem. Mas confesso que eu me identifiquei com o mesmo, também não curto muito gente não haha. Fiquei curiosa sobre o Korzha (encontrei alguns significados no deus Google, mas não sei qual se encaixaria aqui). Parabéns, excelente conto e boa sorte no desafio.

  7. Lucas Maziero
    15 de outubro de 2017

    Conto perturbador! A narrativa está muito boa, não perdi o interesse uma vez sequer, muito embora eu não tenha entendido partes da história. Por exemplo, depois de terminada a leitura, busquei compreender certas passagens, como essa:

    “Após muitas e frustradas tentativas de voltar a me erguer, refugiei-me aqui neste lugar.”

    Deu-me a entender que ele acabava de chegar àquele lugar de perdição, porém muito mais para a frente, há essa frase:

    “Quando aqui cheguei, há muitos anos, sempre era abordado por Anca e Lucian…”

    Que me fez pensar então que ele já morava ali há muito tempo, e não que acabava de chegar.

    O começo, mais exatamente a cena em que ele se mira no espelho, não tem muito a ver com restante do conto, é uma informação vazia.

    A ação demora a acontecer.

    Não peguei o sentido quando ele diz: “Era já uma época em que eu não tinha mais o dom das escolhas, e esse era o meu problema e maldição, então os ouvia, ouvia e ouvia…”

    Por que essa repetição em dizer que não tinha escolhas?

    Seria ele um espírito, preso naquele lugar onde foi morto e, após a morte, ele pensa ter chegado ali há pouco tempo, como indica a frase inicial do conto? E como penitência talvez pela sua vida devassa, estava ali preso e sem escolhas? Seria isso? E também, como mostra o trecho:

    “Era quando imaginava caminhar por um longo corredor estreito onde podia vislumbrar uma luz diáfana amarelada ao final, que se apagava aos poucos enquanto as paredes me abraçavam. Nesse ponto eu dormia, ou entrava num mundo onírico, onde podia viver outras vidas. Sabia que era uma forma de escape, claro, mas como não querer escapar de tudo aquilo que acontecia comigo?”

    Essa luz diáfana seria o lugar que lhe aguardava pós morte? O corredor estreito simbolizando seu caminho? São muitas interpretações.

    Então, caso eu esteja redondamente enganado, assim interpretei este conto singular: que o personagem, após morrer, era retido naquele lugar degradante pelos espíritos de Lucian e Ancan, os quais tentavam corromper a alma do personagem sem nome, para que ele não atravessasse o caminho da luz e servisse como um escravo da luxúria para os moradores fantasmas do hotel Korzha.

    Gostei da parte do sonho.

    Ademais, o conto revela que o autor(a) tem um bom conhecimento na arte de descrever, de adornar as sentenças.

    Gostei da história, apesar de não ter compreendido, ou penso não ter compreendido, se eu estiver correto em minha análise.

    Parabéns!

  8. Luis Guilherme
    15 de outubro de 2017

    Bom diaaa amigo, td bem?

    Esse desafio, como tenho dito, me agrada particularmente, pois amo o genero. Por isso, estoy lendo os contos com bastante expectativa. Dito isto, vamod ao seu:

    O ponto forte do seu conto eh a excelente ambientação. As cenas descritivas sao muito boas, e a escolha das palavras foi bastante cuidadosa, por isso consegui mergulhar com bastante repulsa nessa pocilga hahaha.

    Nao entendi bem, porem, pq vc começou a falar das alucinações no espelho e depois abandonou bruscamente. Aquela cena tava me agradando bastante, e achei que fosse ser importante depois. No fim, fiquei com a impressao de que era apenas uma preparaçao pra construção do desfecho q nos traz um homem louco em plena alucinaçao. Eh isso? Se sim, ficou legal!

    Algumas ressalvas: achei que o texto demorou muito pra ter alguma emoçao, que so começa no finzinho com os sonhos. Ali, pra mim, eh o ponto alto do conto e o unico momento de terror, gostei bastante. Mas acho que valeria a pena trabalhar mais esse trecho, pois o restante acabou me parecendo apenas uma preparaçao pra ele, mas que achei meio extensa demais.

    Entende? Acho q focar mais nad alucinaçoes dos sonhos e reduzir as descriçoes do hotel poderiam abrilhantar ainda mais.

    Enfim, gostei. Entretem e chega a causar repulsa eterror, especialmente no desfecho.

    Quanto a gramática, eh boa, assim como a escolha de palavras. Tem alguns erros de revisao, mas acredito q ja foram citados.

    parabens e boa sorte!

  9. Fheluany Nogueira
    13 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – Monólogo, fluxo de consciência, desabafo ou pesadelos de uma mente deprimida, solitária. Se eu morasse ali também me sentiria assim. O ambiente e outros moradores do local seriam tão horríveis ou era a visão do protagonista?

    Terror e emoção – o protagonista vive sob uma tortura psicológica — o texto é mais deprimente que amedrontador. Faltou ação, suspense.

    Escrita e revisão – Texto bem construído, linguagem poética, descrições perfeitas.
    Necessita uma revisão linguística.

    “Cão de palha” seria um espantalho ou uma múmia?

    Parabéns. Abraços.

  10. Antonio Stegues Batista
    10 de outubro de 2017

    ENREDO: Homem fica preso a sonhos horríveis, num hotel decadente. Fraco.

    PERSONAGENS: Excelente criação, boas descrições físicas de todos os personagens.

    ESCRITA: Muito boa, mas achei que tem adjetivos demais. As ações no hotel são poucas, o texto tem pouca ação, o que torna o enredo fraco. É praticamente a narrativa de sonhos, pesadelos de um homem, que fica o tempo todo no quarto, ou no hotel. As reflexões do personagem tomam todo o texto.

    TERROR: O terror é o do personagem, que pouco desperta no leitor. Acho que ficaria melhor se houvesse mais ação, o homem saindo para trabalhar, experimentando outras emoções, interagindo com os outros jogadores e suas atividades, que não couberam no conto. Talvez até, se houvesse suprimido tanta divagações, poderia ter acrescentado ao conto, abrangendo mais o terror. Boa sorte.

  11. Ana Maria Pires Monteiro
    10 de outubro de 2017

    Olá, Cão. Vou ser franca: o seu protagonista porque percebe do que dizem os seus personagens, não é? pois, o efeito propaga-se também em círculos divergentes, ou seja: eu não entendi. Gostava de, mais tarde, saber que história você decidiu traduzir sob esta forma.
    Dito isto, penso que você possui excelentes qualidades descritivas e fiquei até surpresa pelos elogios dos outros comentaristas até ao momento, uma vez que normalmente reclamam da falta de diálogos.
    Bem, eu não reclamo disso, nem da sua existência. Penso que há contos que pedem diálogo o outros que não. E o seu não pedia. O diálogo não era pedido nem pelo texto nem pelo narrador, aliás, que fez questão de se mostrar avesso a qualquer espécie de intimidade.
    Notei alguns erros de concordância, digitação e acentuação, e penso que nem todos estes tenham sido apontados. Ei-los: “O pouco que protegem, quase não permitem”, seria permite; “sobre o que observava em torno da minha imagem, que mudavam”, penso que seria mudava; aqui: “Alardeava pelo hotel que que era um sujeito” tem um “que” a mais; aqui: ” Era quando se intensificam “, creio que seria “intensificavam”; aqui: “cartas ensebadas a espera de um movimento”,o correto seria à espera; e aqui: “Tudo vinha funcionado bem.”, seria funcionando; esta, penso que já foi apontada: “não conseguia compreender uma só palavra do que sai de sua boca”,o correto seria “saía”; enfim, nada que atrapalhasse a leitura caso estivesse a compreendê-la, mas que vale a pena alterar.
    HoUve uma frase que me soou estranha: “Já ouvi disparos acalmarem acaloradas discussões. Havia mortes, talvez algumas, que fizeram cessar discussões”, o “ouvi”, havia” e “fizeram”, resulta estranho. Talvez um simples “houve” em lugar do havia resolvesse esta dissonância.
    No entanto, alguém lhe fez uma ressalva com que discordo, nesta frase:” disfarçava o revólver que sempre trás à cintura”,penso que é para ficar mesmo assim porque a ação que relata é no passado e daí o “disfarçava” e o revólver que sempre “trás” orienta-nos claramente para o facto de que continua vivo e a usá-lo no presente. Aí não vi discordância, antes informação.
    Outra frase informativa: “Meus olhos são a riqueza que me ficou.”, embora pense que o sentido exato não seja olhos, mas sim olhar.
    Ainda assim,não consegui compreender.
    Tem uma boa técnica de escrita e está dentro do tema do desafio, devido à ambientação. Mas conta de forma, em meu entender, desconexa, o que para o protagonista não faz sentido, mas talvez fizesse se olhado pelos olhos de alguém que ainda saiba quem é, o que faz e onde está. Isso sim, coisas que o protagonistas parece desconhecer.
    Até eu estou confusa. Parabéns e boa sorte no desafio.

  12. Nelson Freiria
    9 de outubro de 2017

    Achei o começo um pouquinho exagerado para o meu gosto. Talvez, se as frases fossem um pouco mais curtas, eu teria outra impressão. Não estou dizendo que está ruim, por favor, não me entenda mal.

    Essa passagem “era sua boca fina, úmida e larga” ficou contraditória, não? Tbm vi uns deslizes na digitação, mas nada grave.

    De início, achei um pouco sem sentido o protagonista não gostar de pessoas, mas viver em um hotel… (Se fosse por questões monetárias, valeria mais alugar uma casa minúscula, conheço algumas bem baratas para indicar, só chamar in box.) Mas com o desenrolar da história, comecei captar o que significava tudo aquilo. Se, digo com ênfase, SE eu entendi, nosso protagonista vive uma espécie de condenação. Dá para extrair mais de uma interpretação do conto. Aí eu me pergunto, quem são esses personagens em volta dele? Talvez sejam fantasma de seu passado: Stric poderia ter sido um abusador, pois nota-se que sua personalidade está ligado a questões sexuais. O casal de criminosos, poderiam mto bem ser seus assassinos e/ou cúmplices. Já os velhos, pelo ódio que nutre por eles, podiam ser suas vítimas. Mas essa foi só um pensamento de tantas coisas que ficam subentendidas com a leitura.

    A questão é que a partir disso, desse contraste entre o real e o surreal, do ambiente de seres desagradáveis e da repulsa do protagonista à convivência, surge o terror na história, um tormento psicológico que leva a terríveis pesadelos que são bastante grotescos. Achei uma escolha bastante arriscada, mas que deu certo, principalmente por inserir algo de poético em meio a tudo isso. Posso não ter achado perfeito, mas o texto está num nível mto agradável.

  13. Paula Giannini
    9 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Seu conto me parece um autêntico trabalho de imersão e o ponto alto do texto é, justamente, a fluência das palavras e o prazer que elas causam no leitor, ou ao menos comigo foi assim.

    Literatura, para mim, é música e a sua soa com muita intensidade. Gosto do modo como uma palavra se une a outra e esta, por sua vez, a outra mais, formando um conjunto harmônico e muito belo.

    Li seu conto como quem lê uma espécie de fotografia. Aqui, você nos trouxe um universo ricamente imagético, criado em pormenores capazes de fazer com que o leitor sinta-se não só inserido no local descrito, como viva experiências sensoriais, com odores e sentimentos desagradáveis de claustrofobia, e, por aí vai.

    Se procurarmos em sua criação uma estrutura com um conflito claramente definido, funcionando como mola propulsora para o desenrolar da história em si, de fato não encontraremos. No entanto, ao me deparar com a obra apresentada, vejo que a leitura, assim como o teatro, as artes plásticas e até a música, pode, sim, apresentar ao leitor (ouvinte, expectador, enfim), uma espécie de deleite através de um recorte em um momento único, inserido ou não dentro de uma trama propriamente dita.

    Por outro lado, lendo os comentários por aqui, confesso que senti o mesmo que o Eduardo Selga ao ler o último parágrafo. Nele, para mim, tudo se revela. É ali que se encontra a chave, a solução para o fluxo narrado. Se imaginarmos que tudo se trata de um sonho ou delírio de alguém embotado pelos entediantes dias naquele local fétido e sem cor, talvez todo o resto faça sentido. A narrativa nos leva, talvez, à mente de um deprimido, um prisioneiro de si mesmo, dentro dessa estrutura de aprisionamento nesse hotel hediondo.

    Também já estive hospedada (por conta do teatro) em locais assim. E, creia, você me transportou para a exata sensação que tais locais me causaram. Uma vez, lembro de fechar os olhos em Pinhalão (interior do Paraná) e pensar: Não estou aqui… Não estou aqui… (rsrsrs) (Alguns produtores são cruéis, ainda bem que hoje, sou minha própria produtora).

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  14. Rafael Soler
    9 de outubro de 2017

    Que escrita primorosa. Adorei o estilo narrativo e como os personagens e ambientes são descritos de forma poética. A trama em camadas é muito bem desenvolvida, me deixando a pensar sobre o texto após terminar de lê-lo. E a sensação onírica do conto é muito bem feita, me deixando na dúvida sobre que era real e o que era sonho.

    A única coisa que senti falta foi de um final mais impactante, aquela última frase que dá uma porrada no leitor. Não que isso seja necessário, mas, na minha opinião, tornaria o texto mais forte.

    😀

  15. Paulo Luís
    8 de outubro de 2017

    Muitas descrições aos personagens que permeiam o enredo, por pequenos que sejam. Cansa um pouco. Em contrapartida, a escrita é de muita qualidade, e desenvolvimento muito bem ritmado, afora alguns exageros frasais como: “Tudo ali parecia um céu noturno, subtraídas a lua e as estrelas, com apenas Marte cumprindo a tarefa de iluminar a Terra”. “Eram extremamente ossudos, com corpos carentes de carnes que os cobrissem”. “Pude ver que os esqueletos me perseguiam e tinham na face a expressão do ódio que serpenteia em giros loucos o Inferno sem fim”. E o tema limitou-se quase que só a sonhos. Mais de qualquer forma muito consistente para esse tipo de narração. Muito bom mesmo:

  16. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    Curti muito o seu conto. Caramba, você escreve muito bem. Sabe descrever um ambiente de forma primorosa. Um domínio da linguagem, um uso excelente das palavras. As coisas se tornam bem reais ao serem mostradas pela sua ótica literária. Parabéns. Não se trata de uma narrativa simples. Tem um enredo forte e, por que não, claustrofóbico. Eu me vi, tal o nosso protagonista, preso naquele quarto fétido. Antes preocupado com a jogatina violenta do quarto ao lado. Depois, ansioso com o que pudesse surgir dos pesadelos absurdos. Sim, uma bela história. Parabéns.

  17. Eduardo Selga
    8 de outubro de 2017

    Pego do desfecho um recorte que pode dar ao texto uma grande dimensão: “meu sonho se lança para dentro de si mesmo em circularidades eternas, pois já não desperto, nunca desperto”. Isso pode sugerir que o onirismo é todo o conto, não que ele ocorra apenas a partir do sonho.

    Entretanto, a narrativa foi construída de modo a causar suspensão (ou suspeição): a primeira parte pode não ser onirismo, a depender da interpretação. Se entendida como não sendo, tanto melhor, pois abre espaço para outra hipótese: temos um espírito (primeira parte) que sonha (segunda parte). Digo isso porque, embora não se possa descartar que o protagonista seja a representação de uma pessoa, a ambientação me sugere tal abandono que entendo poder tratar-se na primeira parte de um espírito. Isso, é claro, se eu não estiver vendo fantasmas.

    Não apenas a ambientação: a narrativa em si me faz crer em sonho ou espírito na primeira parte. Há um trecho que põe essa questão : “Meu quarto era invadido permanentemente por uma espessa bruma formada pela fumaça de mil cigarros, cachimbos e charutos que se acendiam e se apagavam numa sórdida mesa de carteado que rolava no quarto ao lado”. A imagem sugerida pelas palavras (e a sugestão pode variar de um leitor a outro) é de uma nuvem, no interior da qual outros personagens são visualizados pelo protagonista.

    Nessa situação tais personagens são descritos com riqueza de detalhes, sugerindo que essa nuvem passa pelo quarto, mas não se fixa. Por inexistir afirmação categórica nesse sentido, pode ser que o protagonista enxergue os outros no nevoeiro de fumaça. Em ambos os casos, não me parece uma representação de caráter realístico, de modo que temos ou um sonho ou uma “cena espiritual”.

    No caso da fumaça ser passageira, temos um efeito similar a um recurso de vídeo chamado “fusão”, em que uma cena se sobrepõe à outra gradualmente.

    De tudo isso infere-se que um dos trunfos do conto é a ambientação. Outro são os personagens. Embora alguns se aproximem do personagem-tipo, normalmente plano, como Nanete e Stric, eles funcionam muito bem na estrutura do conto, indo além da marionete de autor. Eles estão bem integrados ao enredo.

    A cena do sonho, uma saborosa overdose de imagens.

    Em “Se muito penso pouco ajo e isso é o fim para um sujeito discreto como sou […]” acredito ter faltado uma vírgula entre PENSO e POUCO e após AJO.

    Em “Não tinha qualquer controle sobre o que observava em torno da minha imagem, que mudavam com frequência irregular […]” há um erro de concordância. Deveria ser MUDAVA.

  18. Angelo Rodrigues
    7 de outubro de 2017

    Caro Cão,

    Gostei do seu conto. Flui naturalmente, um relato tranquilo reportando a decadência de um homem que parece merecer o ambiente em que vive, embora não saiba disso.
    Tenho algumas recomendações. Todas com o objetivo de ajudar a melhorar a redação. Nada mais que isso.
    – “bem disfarçava o revólver que sempre TRAZIA à cintura.”
    – “…sempre que FAZIA em Diamante.”
    – “…a verdade é que nunca o VIRA com uma mulher…”
    – “Todos EXATINHOS como eles.”, embora ficasse melhor com “Todos como eles.”
    – No parágrafo em que você trata do termo misantropo, parece haver criado uma confusão com misógino. Lendo melhor, percebi que não, trata-se mesmo de misantropia, mas mesmo assim o parágrafo merece ser melhorado.
    – Embora o autor pareça ter predileção por termos no diminutivo, achei que o diminutivo empregado era parte da “voz” do protagonista e não do autor.
    – ajustar encrustado para incrustado.
    – “Um vício focado NOS baralhos.”
    – “Uma só palavra do que SAÍA de sua boca…”
    – afim / a fim de terem comigo…
    De resto acredito que o texto flui muito bem, boas colocações textuais. Gostei bastante do final, onde a paralisia do protagonista acontece quando seus sonhos se remetem aos próprios sonhos e ele não consegue despertar.

    Valeu, Cão, e obrigado por nos deixar conhecer seu conto.

  19. Andre Brizola
    6 de outubro de 2017

    Salve, Cão!

    Esse, pra mim, é de longe o conto com o maior nível de detalhamento até o momento. É incrível como todo o ambiente me causa repulsa. Chega em determinado momento e eu também já não gosto de pessoas. Principalmente dessas pessoas. Ponto positivo! A princípio eu localizava o hotel em algum recanto underground do leste europeu, mas aí somos apresentados a Nanete e Nogueira, o que faz o cenário mudar bruscamente para algum muquifo paulistano (e a minha experiência pessoal acha que isso fica em Diadema…).
    O texto é denso, sinuoso, dá voltas por caminhos mais bonitos, ao invés de pegar a via mais direta. O legal disso é que os dois caminhos nos levam ao destino, mas no primeiro modelo podemos admirar a paisagem. Esse trecho, pra mim, representa muito bem o que quero dizer aqui: “Houve um dia em que fui tomado pelo desconforto de observar que meu espelho, não obstante refletir minha pobre imagem, o fazia com uma certa vagueza, algo como se a minha imagem chegasse sempre um pouco atrasada após eu me haver posto à sua frente”. poderia ser dito de forma mais simples, mas não mais agradável.
    Entretanto, o conto não é perfeito. E, pra mim, o grande defeito é a opção de caracterização dos personagens secundários (assumindo que o narrador é o protagonista). Nanete, Nogueira e Stric são caricatos demais, cartunescos, até. Sei que a intenção era essa, mas pra mim é difícil não imaginar o Guilherme Karan dando as cartas no quarto ao lado. Peço perdão por isso, mas foi a imagem que me ocorreu durante a leitura. E isso me tirou toda e qualquer chance de alcançar o terror contido no texto. Exceção feita ao casal de romenos, bem interessantes dentro do cenário do hotel.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  20. Regina Ruth Rincon Caires
    6 de outubro de 2017

    Lindo texto! Bem construído, estrutura perfeita, narrativa fluente, lógica. O autor possui total domínio da linguagem. Perfeito! A escrita mostra um diálogo interno profundo, cheio de reflexão, de ponderação tardia. Denota uma velhice rançosa vivida num ambiente rançoso, com vizinhos rançosos. Triste, muito triste. A leitura é interessante, a narrativa detalhada coloca o leitor no ambiente, caminhando pelos corredores do velho hotel.
    Gostei muito!
    Parabéns, Cão de Palha!

  21. Olisomar Pires
    5 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: alto.

    Narrativa/enredo: sujeito vive em hotel e sofre com seus vizinhos vigaristas até que se perde em si mesmo.

    Escrita: muito boa, sem erros que travassem a leitura ou brilhassem mais que a idéia.

    Construção: criatividade enorme e excelente capacidade de transmissão são os pontos altos do texto. Imagens muito bem desenvolvidas que trazem um outro nível de prazer na leitura.

    Não é um texto fácil e possui camadas e camadas das mais diversas para todos os gostos.

  22. Edinaldo Garcia
    5 de outubro de 2017

    Escrita: Mais um texto neste desafio com técnica primorosa. O autor soube ambientar a narrativa, construir bons períodos, personagens bem trabalhados. O ponto negativo aqui foi o enredo, que para mim, ficou bastante confuso. Não consegui conectar muito bem os fatos (certamente o problema esteja em mim), não houve uma crescente que aumentasse a tensão. O conto começou e terminou na mesma pegada, mesmo nas cenas finais, não senti uma crescente significativa. O último parágrafo foi extremamente bem desenvolvido, talvez o texto estivesse o tempo todo nos preparando para isso, como se o protagonista estivesse numa espécie de purgatório ou inferno onde todos aqueles personagens, inclusive ele já estivessem mortos.

    Terror: Gosto de terror em hotéis. Acho um bom cenário para este tipo de estória. A ambientação foi boa, mas daria para ser melhor explorado os elementos do texto.

    Nível de interesse durante a leitura: Embora eu fiquei confuso a maior parte do tempo (talvez o tempo todo), eu não consegui parar de ler até o final. Ou seja, o texto também supriu isso muito bem.

    Língua Portuguesa: Primorosa. Ótimas descrições. O autor possui incrível habilidade com adjetivação.

    Veredito: Muito bom. Só faltou explorar melhor o enredo.

  23. Fabio Baptista
    5 de outubro de 2017

    Técnica muito boa, conseguiu criar uma excelente ambientação numa narrativa límpida, sem entraves. Apenas alguns apontamentos:

    – disfarçava o revólver que sempre trás à cintura
    >>> aqui ocorreu uma mistura de tempos verbais

    – todos exatinho como eles
    >>> até notei que o narrador gostava de diminutivos, mas aqui não ficou legal

    – encrustado
    >>> incrustado

    – afim de
    >>> a fim

    – o pior labirinto é uma linha reta
    >>> gostei disso! (esse é apontamento positivo rsrs)

    Na parte da trama, porém, o conto deixou a desejar. Quando a ambientação ficou bem estabelecida e todo o clima decadente impregnado, fiquei esperando por uma “ação” que não veio. Não sei se há simbologias escondidas (sou péssimo para encontrá-las), mas acabou me soando apenas comoum apanhado de situações e personagens bizarros. Minha maior curiosidade enquanto lia foi de saber quem, afinal, era o narrador. Pensei que o pulo do gato viria daí. Mas não veio.

    Ganha pontos pela parte técnica, mas infelizmente a combinação técnica/trama ficou descasada.

    Abraço!

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Informação

Publicado em 3 de outubro de 2017 por em Terror.