EntreContos

Literatura que desafia.

Cansaço – Conto (Ana Maria Monteiro)

Sinto-me velho. Não é de espantar, estou mesmo velho. Velho, usado, gasto, cansado. Sei que o meu fim se aproxima, literalmente, a passos largos. Dentro de dias não serei mais do que uma recordação saudosa – pelos momentos partilhados, pelos caminhos percorridos, pela dificuldade em substituir o conforto que proporcionei. Depois serei rápida e definitivamente esquecido. Talvez desperte algum lampejo de memória nostálgica perante outro que se me assemelhe, mas mesmos esses momentos serão cada vez mais raros e de curta duração.

Tive uma vida longa e bem preenchida. Poucas vezes apreciei o luxo de ficar calmamente em casa sem fazer absolutamente nada e apenas regalando-me no bem-bom do dolce far niente.

Percorri muitos caminhos, passei por muitos sítios diferentes, repeti muitos passos, muitos trajectos que levavam invariavelmente aos mesmos locais. Tropecei em muitas pedras, mas não tinha onde as guardar e, talvez por isso e porque nunca me ocorreu, não construí nenhum castelo. Também aprendi a evitar algumas dessas pedras.

A vida proporcionou-me de tudo: dias de sol e dias de chuva, momentos de lazer e de grande ocupação, glória e esquecimento.

Senti a dureza e a suavidade de tudo pelo que passei e cada percurso ajudou a vincar com maior ou menor profundidade, cada um dos meus sulcos, das minhas rugas, dos meus traços, agora incontornáveis, de velhice.

Já sinto o féretro que me aguarda e o meu sentimento é de resignação e aceitação, pois sempre soube que este dia chegaria.

Aliás, representa até um certo alívio, estar cansado é algo que acaba por cansar também a alma e, com esse cansaço, a vida vai perdendo a graça e o fim deixa de se afigurar como a uma sentença e antes começa lentamente a representar a libertação desse fardo tão pesado que é estar vivo e a uso.

Fui concebido na e para a classe média. Nunca poderia ter sido encontrado num local luxuoso. Nesta decrepitude a que a idade me condenou, custar-me-ia aceitar a ideia de passar a ser um sem-abrigo, ou até mesmo um pobre, prefiro sem dúvida morrer com o meu estatuto mediano de que nunca saí.

Escolher não fazia parte do meu destino, ser escolha sim. E fui escolhido e posso até dizer que bem tratado, apesar de alguns percursos mais difíceis, por serem agrestes, escorregadios, desconfortáveis ou sinuosos.

Nasci anónimo e anónimo deixarei esta vida – como tantos. Como quase todos.

Amanhã ou depois já cá não estarei para dar o meu testemunho que é tão parco. O momento está ao virar da esquina, diria figuradamente, mas já nem essa esquina dobrarei de novo.

Quase posso adivinhar como e qual será a embalagem em que esta carcaça velha e inútil será colocada para o seu destino final.

Resta-me despedir-me, pois pouco mais haveria para dizer e há coisas tão íntimas que, mesmo sabendo que morrem connosco, preferimos ainda assim levá-las sem chegar a partilhá-las, tal como calos nos pés.

O meu dono está a olhar para mim, no seu olhar consigo ler certa nostalgia, alguma dificuldade em tomar esta decisão, ao meu lado encontra-se um par de sapatos, por estrear, ainda desconhecedor das suas necessidades a que terá de adaptar-se com provável sofrimento para ambos; mas é novo, bastante mais moderno e apresentável do que eu. A caixa em que acaba de chegar é a mesma que servirá para me levar.

Para sempre.

Foi bom. Adeus.

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4 comentários em “Cansaço – Conto (Ana Maria Monteiro)

  1. Eduardo Selga
    10 de setembro de 2017

    A antropomorfização na Literatura é mais usual com seres vivos, pois já há neles algo que os aproxima do Homem: a própria vida. Com esse denominador comum em mãos é relativamente fácil emprestar ao animal ou à planta características do comportamento humano.

    Por esse motivo, eu, apesar de logo ter descartado ser o narrador-personagem um homem idoso, supus ser um cachorro ou um gato. E palavras-chave como “velho, usado, gasto” não me foram suficientes para indicar não se tratar de algo vivo, e sim inanimado. Só próximo ao desfecho consegui ouvir o que estava gritante: o narrador é um sapato velho.

    Minha surdez não é um defeito do conto, e sim efeito do condicionamento de leitor acostumado a fábulas com animais. E quebrar condicionamentos é sempre um exercício necessário ao leitor e ao autor.

    Um belo conto, eu diria. O sapato antropomorfiza a angústia de alguns que, sabendo-se próximos à morte, procuram estabelecer com a situação um vínculo de naturalidade (a morte é natural, mas muitos de nós não a aceitamos). Se a opção tivesse sido um cachorro ou um gato, o leitor tenderia a não absorver o impacto da morte, tenderia a romanceá-la, o que equivaleria a desconversar diante de assunto incômodo. Com um objeto, entretanto, a morte é um evento seco, duro, como ela é de fato. Apesar da humanização do narrador. Ou seja, algo não natural, manufaturado, consegue dar a dimensão de um evento natural. Poder-se-ia afirmar que o responsável por isso não foi exatamente o sapato, e sim o humano encarnado nele.

    Acho que não. O humano antropomorfizado tenta, na verdade, tratar
    eufemisticamente a morte, como muitos de nós fazemos. É, contudo, a visão de que se trata de um sapato o elemento que nos trás a dureza da morte.

  2. Regina Lopes Maciel
    10 de setembro de 2017

    Não, Ana, não consigo (tenho uma vaaaaga lembrança de Rubem Fonseca, mas sem certeza) porque leio muitas coletâneas de contos, e ponha anos nisto…. Mas se em algum momento me deparar com um deles novamente, me comunico com você aqui pelo site. Abraços.

  3. Regina Lopes Maciel
    9 de setembro de 2017

    Ana, o texto está bem escrito e há a revelação do final como surpresa. Mas como já li uns 2 ou 3 contos com esta mesma ideia, esta surpresa, para mim, não foi suficiente pra me causar algum impacto.

    • Ana Maria Monteiro
      9 de setembro de 2017

      Obrigada pela leitura e comentário, Regina.Como não conheço nenhum outro conto com esta mesma ideia, gostaria de lê-los. Consegue indicar-me os títulos e autores? Obrigada.

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Publicado às 8 de setembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .