EntreContos

Literatura que desafia.

Violeta Sem Flor (Storyteller)

A planta era híbrida, de um jeito que só dava flor uma vez na vida. Mas, Maria não sabia. Duvido que alguém soubesse além do jardineiro que a criou. E a vendeu. Florida, linda, extasiante! Ela sempre tivera vontade de manter a janela da cozinha sempre em flor. Como no livro Violetas na janela, você não leu? Recomendo.

Quando chegu em casa com a planta tão exuberante na cor preferida: violeta! Uma violeta violeta, que mais ela poderia querer? Estava perfeito. Sua casa teve mais alegria e vivacidade por muitas semanas. Ela só olhar para o seu vaso adorado na janela acima da pia da cozinha e sentir-se feliz!

Mas, aquela floração findou, murchou, caiu. Ela não se abateu, viveria da expectativa da próxima flor, da próxima cor e nessa ânsia persistiu feliz e cantante com o astral ainda em primavera. Acontece que passaram-se meses e a energia da moça foi decaindo, a planta, linda, verde,brilhosa, parecia contente. Mas e a flor? Nem sinal delas.

 

– O que é isso, Maria?

– Farinha de osso.

– Ave Maria! Que coisa sinistra. É mandinga, é?

– Não. É alimento pra planta.

– Onde vendem isso? No cemitério?

Maria fez um gesto de impaciência.

– Será que não tá infectado isso aí?

– Ahh… por favor. Não me atrapalhe.

– E se o defunto não gostou de ter seus ossos esmigalhados num pilão?

– Que pilão! As coisas são tecnológicas hoje em dia, sabia?

– Pior! O espírito pode nem ter percebido que virou farinha. Valha-me, Deus!

E D. Lurdes fazia o sinal da cruz em conjuração.

 

D. Lurdes era uma senhorinha simples, nasceu e viveu na cidade cuidando dos filhos dos outros, aliás ela havia criado todos ali daquela casa. Era cheia de medos e superstições, aos quais ninguém dava importâcia e a pobrezinha se agarrava nos seus santos e pedia auxílio até pro seu ídolo máximo Cauby Peixoto, que Deus o tenha, amém!

– Eu que nunca tinha visto uma violeta que não dá flor e agora isto!

– Então, se a planta já era enfeitiçada, que mal tem mais umas energias no solo dela, não é? Me ajude aqui com essa mistura, D. Lurdes…

– Não fale assim, minha menina. Vai que o coisa-ruim ouve? Eu vou é fazer uma reza pro Cauby ajudar com isso.

– O que que o Cauby entendia de flor, D. Lurdes?

– De flor, não.. de cor! Eu sei que ele sabia tudo de cor! Tão colorido ele era.. ai ai… – E já se pôs a chorar a pobre senhorinha. Correndo para suas velas e orações.

 

Mais e mais semanas se passaram e nada de flor. A planta parecia até que estava fazendo birra, tirando um sarro de Maria que já a observava com lágrimas nos olhos. Será que ela não sabia cuidar? Será que aquela violeta era enfeitiçada mesmo? Será que a plantinha não gostava dela? Começou a conversar com a folhagem, sim , era isto que ela era agora, uma folhagem.  Até que a moça descobriu outra dica…

– Maria, o que você está colocando aí, nessa lesêra?

– Não fala assim, D. Lurdes que ela pode ficar triste. – E para a violeta: – Não se importe com ela não, viu? Ela não disse por mal.

– Ô, menina! Tome tento e larga mão dessa flor que nem dá flor!

– Descobri este outro tratamento. Água de arroz pra plantinha se alimentar melhor!

– Minha nossa senhorinha do bom jesus, mas isso é alimento de criança! Pro bebê ganhar força.

– Isso, D. Lurdes. Agora a plantinha se anima a fazer flor, você vai ver!

– Você já tá desmiolando, minha menina…

 

Não preciso dizer, não é? A nova dica não deu certo e a plantinha seguia verde, verdinha sem nenhuma cor a mais. Borra de café, fertilizante, menos água, mais sombra, música clássica, beijinho e cafuné… Nada! Maria não queria desistir, já havia percorrido todas as lojas especializadas e não havia mais o que tentar. Nas floriculturas foi diferente. A moça sentiu um certo retraimento dos funcionários ao falar no assunto. Acabavam dando as mesmas dicas que todos os outros, mas havia algo nas entrelinhas, ela sentia.

Foi na Floricultura Campo Florido que Maria conheceu Sandro. O rapaz era especializado em flores, jardineiro de mão cheia que lhe deu atenção e a moça estava carente, sem cor, sem flor, sem amor… Elegeu-o como crush! E voltava à floricultura várias vezes por semana para dar notícias da violeta, da plantinha, da lesêra da porquêra que não dava flor! Sandro queria ser vago, reticente, mas não resistiu e sucumbiu à insistência.

– Moça, olha só… Ninguém quer falar nisso mas recebemos dezenas de reclamações como as suas, de violetas sem flor. Posso garantir que nenhuma foi adquirida aqui na Campo Florido. Isto é certo.

– Reclamações? Então, minha plantinha não é a única que não floresce?

– Não, não é a única.

– E por que ninguém me disse isso antes?

O rapaz olhou para os lados e disse em voz baixa:

– Parece que mexe com gente grande, esse assunto aí…

 

Maria nem ficou assustada, o que uma florzinha iria apresentar de perigo, afinal? Percebendo que Sandro não sabia mesmo de mais nada, ela voltou para casa e acessou a internet.  O que colocar na busca? ‘Planta que não floresce’? ‘Por que minha violeta não floresce’?

– Violeta sem flor!

– O que foi, minha menina?

– Nada não, D. Lurdes. Tô digitando aqui…

– Ah… pensei que tava falando com a flor que não dá flor, de novo.

– Já conversei com ela pela manhã. Ela ficou feliz!

– Diacho de menina esquisita, você não vai visitar aquele menino bonzinho pra espairecer a cabeça, minha filha?

– Já fui lá hoje. Ele me deu uma pista de que algo estranho está acontecendo com as violetas!

– Oh, não! Ele coloca mais lenha na fogueira, ainda?

Maria estava vidrada na tela do computador. Ela encontrou um blog chamado Violeta sem flor! Parece que tinha uma galera intrigada com o fato de suas plantas não florescerem.  Muitas pessoas tinham em casa violetas-folhagens e estavam cruzando dados para ver se elas foram adquiridas no mesmo lugar ou de lugares que possuíssem o mesmo fornecedor.

Maria cadastrou-se no site que faria a pesquisa e também procurou conversar com algumas daquelas pessoas. Sentiu-se participando de uma investigação, estilo série norte-americana. Aquilo estava ficando excitante!

Os administradores ficaram com os dados e seus resultados, prometendo investigar a causa daquele problema. As coisas não poderiam ser totalmente transparentes pois podia ser perigoso. D. Lurdes fez uma novena para que Maria desembestasse daquele assunto, arrumasse um namorado e fosse ela própria florescer!

– Cauby, meu santinho… Ajuda minha criança, ela está com ideia fixa na planta! Cauby, meu amado, você que viveu entre tanta cor, ajude minha menina a encontrar um amor!

 

Certo dia, Maria acordou agitada, conversou ligeiramente com sua plantinha, lhe fez um cafuné e tomou o café em goles rápidos, com os olhos postos no relógio da cozinha.

– Que consumação é esta, Maria?

– Tô esperando uma pessoa!

– O que você tá aprontando, menina?

A campainha tocou. Maria atendeu.

– D. Lurdes, este é o Sandro, aquele rapaz da floricultura, lembra que te falei?

– O crush!

– Shh… D. Lurdes! – Maria fazia um gesto de negativa com as duas mãos, aflita mas rindo muito.

O rapaz viera buscá-la para irem a uma manifestação em frente à Fundação Zoo-botânica.  Não foram dadas muitas informações mas parece que o fulano que distribuiu as plantas híbridas era o diretor lá. A galera do blog mobilizou todas as pessoas que sentiam-se lesadas por esta prática de vender planta que floresce uma vez na vida, iludindo o comprador.

– Meus amores, não vão nessa passeata, não!

– Por que isso agora, D. Lurdes?

– Eu sonhei uma coisa muito ruim.

– E o que foi? – Sandro quis saber, cheio de simpatia por aquela senhorinha.

– Eu vi o Cauby, todo em preto e branco, como um filme antigo. Ele estava triste e segurava na mão o vasinho da flor que não dá flor. Eu acho que ele não pode ajudar nesse caso.

– D. Lurdes, vai ficar tudo bem…

Eles saíram com promessas de que tudo ficaria bem e D. Lurdes acompanhou o movimento pela televisão, apreensiva, com o rosário na mão, balbuciando uma Salve Rainha. As câmeras focavam nos cartazes: ‘Minha violeta só tem folha!”, ‘Cadê a flor?’. ‘Exigimos a volta das violetas!’.

Quando Maria voltou para casa, cansada e rouca, encontrou D. Lurdes de saída.

– Pra onde vai, a esta hora? Já tá no fim do dia.

– Preciso ajudar ao meu amado Cauby…

– Como é que é?

– Ele ainda tá descoloridinho, eu vi, minha menina, quando cochilei na frente da televisão.

– E, então, a senhora vai fazer o quê?

– Acender uma vela de sete dias, colorida com as sete cores do arco-íris. E você pare de seguir essa gente que está se metendo onde não deve…

– Tá bom, D. Lurdes. Agora eu só quero mesmo é a minha cama, tô pregada!

 

Acabou que os dias foram passando, as semanas também, Maria engatou um namoro com Sandro que se tornou carne e unha com D. Lurdes. Até ponto de tricô eles estavam trocando. E assistiam juntos os DVDs do Cauby .

Saiu notícia nos jornais, umas notas bem pequenininhas de pé de página que o tal administrador-jardineiro que ludibriou os compradores de violeta tinha sido preso, mas não por motivos florais, mas sim uns motivos bem verdinhos, verde-dólar, se é que me entende! Parece que o negócio de planta híbrida era fachada de uma máfia internacional, não se sabe detalhes porque a mídia não se interessou pelo assunto. Diz-se que muita gente importante também caiu no logro e não quer admitir, de vergonha mesmo, da tolice.

Mas a plantinha de Maria não se importava com nada, tinha todas as regalias de qualquer flor importante, daquelas vistosas que saem em foto de revista, até nome ela ganhou: Verdoleta, a violeta sem flor.

 

– E o Cauby, D. Lurdes, como ele está?

– Está ótimo, minha filha.

– Não está mais em preto e branco?

– Não! Tá colorido como Deus gosta! Mas, você tinha razão, minha menina, ele não entende nada de flor… Mas de amor… ahhh disso ele entende!

E D. Lurdes olhando para o casalzinho abraçado no sofá a sua frente, deu uma piscadinha marota.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1.