EntreContos

Literatura que desafia.

TPM (Mr. Bean)

Era começo de namoro. Eu, à parte de tudo o que era compromisso, nunca havia estado em um relacionamento sério, a ponto de ver todos os lados de uma relação. Lados nem tão agradáveis assim, diga-se de passagem.

Dizem que conhecemos de fato uma pessoa, a partir do momento que começamos a conviver juntos. Somente então revelamos nosso pior lado, não relevamos mais as coisas que nos incomodam – antes ignoradas – e deixamos de ser tão carinhosos. Até então, normal, já estava preparado para tudo isso. Entretanto, esqueceram-se de me avisar que existem coisas com as quais, nós – homens – não estamos preparados para lidar.  Foi assim que embarquei numa pequena aventura.

Saímos do shopping e ela estava eufórica, tão radiante que até me assustava, contudo eu aproveitava o momento, tudo era motivo para risos, estávamos conectados e compartilhávamos de um momento único. Chegava a pensar o porquê de relutar tanto para assumir um compromisso, sendo que agora percebia ser uma coisa boa, muito boa. Eu mal imaginava o que me aguardava.

Paramos em um semáforo ou farol, tanto faz, não entendo essas discussões bobas – bolacha ou biscoito, blusa ou casaco – enfim, o sinal estava vermelho, notei que havia algo de diferente naquele cruzamento, mas não sabia exatamente o que era, quando tive uma ideia estúpida, comentei com minha ex-namorada ao lado:

— Nossa, tem algo estranho aqui. Parece que está diferente o lugar — ela olhou por um instante, pensou e disse:

— Tinha uma árvore na outra esquina. Acho que cortaram.

— Ahhhhh…— na verdade, se ela falasse que tinha um disco-voador também acreditaria. O fato era que ainda não me lembrava. Passado a conversa trivial, o sinal ficou verde e sai com o carro, nem engatei a segunda marcha e ouvi um “tsc”, abaixei o volume da música e perguntei se tinha acontecido algo, ela respondeu que não. Voltei o olhar para o trânsito e aumentei o volume do meu rock quando ouvi um “tsc” novamente, desta vez com mais ênfase. Foi quando cai na armadilha de perguntar de novo, fui obrigado a ouvir que: eu reparava na rua, entretanto nunca notava quando ela cortava o cabelo – claro que não notava, não soube que estava faltando uma árvore de 10 metros na rua, como iria perceber dois dedos de cabelos – pensei. Afinal não iria responder desse jeito para ela. Respirei e falei com todo carinho do mundo:

— Desculpa amor? Você viu que nem notei que era uma árvore. — Mas não foi o bastante, sua testa franziu e um “bico” surgiu em seus lábios. Comecei a ficar nervoso, certo de que estava fazendo tempestade em copo d’água, fiz o que todo homem faz nesses momentos, fiquei bicudo também. Mudei a estação do rádio, coloquei numa MPB para apaziguar um pouco a situação. Será que a garota de Ipanema de tom Jobim era tão cheio de graça assim ou ficava com esse bico de pato também? Tenho minhas duvidas. Seguimos em um silêncio atormentador.

Chegando a sua casa. Da cozinha, ouvi sua irmã lhe perguntando se eu havia notado e elogiado. Foi então que caiu minha ficha, ela havia feito algo para ficar mais bonita aquele dia, e eu nem percebi. Com um pouco de remorso, pensei em reverter a situação. Só havia um problema – grande problema – não tinha ideia do que ela havia feito. Enquanto ela conversava com sua irmã, comecei a repará-la. Olhei para as roupas, unhas, rosto e cabelo, nada. Apenas o cabelo parecia um pouco diferente. Lembrei-me que ela comentou algo sobre o cabelo no episódio da árvore. Pronto, descobri, tive uma sensação orgulhosa pela dedução e estava pronto para me redimir. Cheguei como quem não quer nada e falei:

— Ficou lindo o corte de cabelo — para a minha surpresa, ouvi um sonoro:

— Affff – misturado com a voz da irmã, que de lá da sala gritava:

— Ela pintou, cunhado. Ela pintou!

Visto isso, percebi que seja árvore ou cor, não sou muito detalhista. Contudo, fomos para a minha casa, certo de que, a noite romântica que havia planejado desde que a levei ao shopping, estava arruinada. Com certeza ela dormiria de calça jeans aquela noite. Tentei argumentar algo para contornar o desfecho, quase apanhei. Ela estava possessa, de alguma forma tinha despertado um monstro por dentro daquela meiga pessoa, fiquei quieto para não enfurecer ainda mais a fera, seja lá o que ela tinha incorporado. De repente, para minha surpresa, ouvi uma crítica: que eu não falava nada. Então percebi que tudo que eu fazia era errado, não sabia como agir, parecia estar naquele jogo de azar com três copos onde você nunca acerta onde está a pedra por de baixo. Já estava quase me arrependendo de abandonar minha vida de solteiro, quando ela revelou:

— Vamos passar no supermercado, acho que vai descer para mim. — tudo fez sentido, ela estava de TPM, pensei “uau, o que será que Joana D´arc e Anita Garibaldi eram capazes de fazer nesses dias?”. Já ouvira falar muitas vezes sobre a tensão pré-menstrual, porém nunca presenciara uma. Pedi desculpas novamente, disse que ela estava linda, que eu era um bobo e para não deixarmos isso atrapalhar nossa tão boa relação. Então, ela também se desculpou, demos um selinho e achei que estava tudo bem, achei. Quando do nada, ela começou a chorar. Por favor, alguém explica isso? Em menos de 4 horas o humor transmutou entre risos, carinho, ira e lágrimas.

Nada poderia me preparar para a oscilação de emoções que compunham os hormônios femininos. Era como andar em um campo minado. Como brincar de roleta russa. Estava à mercê da sorte e qualquer palavra ou atitude poderia gerar uma guerra. De qualquer forma não queria saber, porque ela ficou muito carinhosa depois disso. Ainda mais quando compramos o que precisava e alguns chocolates.

No caminho, em outro semáforo, percebi que faltava algo lá também, só que era muito maior, porque estava chamando muita atenção, talvez tivesse sumido um prédio daquele local, olhei para ela, sorri. Ela me sorriu de volta, olhei novamente para o local, incomodado com a curiosidade, a questão é; até hoje eu não sei.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3.