EntreContos

Literatura que desafia.

Terapia do Supermercado (Jurema Vigor)

“Não aguento mais isso”, pensou Gilda, espremida entre umas três, quatro ou dez pessoas num ônibus na volta pra casa após o serviço. Lavou, passou, limpou, e ganhou cem reais no dia, tudo isso na casa de Dona Alzemira, que ficava em outra cidade. Eram três ônibus, quinhentos metros de caminhada e um total de duas horas e quarenta minutos de viagem sofrida.

     Chegando em casa, Gilda notou que sua maratona ainda não tinha acabado. O maridão, Bernardo, estava no sofá da sala, assistindo um programa policial sensacionalista com sua cerveja em mãos, concordando prontamente com tudo que o apresentador o falava.

– É mermo… – dizia ele para a TV, após o apresentador descascar os políticos que não fazem nada em relação a segurança pública, tornando o ato de ir e vir um caso de vida ou morte. – Né não, Gildinha?

     “Me deixa!”, pensou Gilda, ao ouvir a voz de seu marido e constatar a bagunçada casa que por acaso era a dela.

– A Mariana largou esse refrigerante fora da geladeira, de novo! – falou pra si mesma. – E esse pão esfarelado na mesa? O que vai ser dessa menina?

     Mariana estava no momento trancada em seu quarto como sempre.

– Tá acabando a cerveja, Gildinha. Tem que comprar. – gritou Bernardo lá da sala.

– É, se tem dinheiro? – gritou de volta pra Bernardo.

– Só no fim do mês, mulher. Você usa o seu depois. – respondeu ele.

   Apesar da profissão não ser muito valorizada socialmente, até que Gilda tirava uns dois mil reais por mês.

    Pôs-se a guardar o refrigerante na geladeira e a limpar a mesa do café. “Tudo eu.”, pensava consigo mesma, “se eu soubesse que era tão imprestável jamais tinha me casado.”.

   Na pia, suas mãos deslizavam automaticamente pela louça. Era como aquele filme de Charles Chaplin, onde o personagem ficava com tic e repetia o mesmo movimento sem parar mesmo quando não estava trabalhando, assim as mãos de Gilda deslizavam para o detergente, o espremia na esponja, e a esponja deslizava facilmente pelos pratos e talheres. Nem precisava controlar mais, poderia sapatear, poderia recitar um poema de Manoel Bandeira, poderia descobrir o valor de X de uma equação, poderia se focar em qualquer coisa, como fazia com seus pensamentos, que suas mãos trabalhariam sozinhas. Ela lavaria pratos e talheres até de olhos fechados.

– Traz um biscoitinho pra mim. – gritou Bernardo.

   Gilda nem respondeu. Depois que terminou de lavar a louça, foi ao armário e constatou:

– Não tem mais.

– Que diacho! – exclamou Bernardo. – Ah, Gildinha, tenho uma notícia ruim pra te dar, tava quase me esquecendo…

    Gilda apareceu na sala.

– O que é?

– Eu recebi aviso prévio… – falou o marido. – Vou ser demitido semana que vem… patrão diz que é a crise…

    A preocupação se abateu sobre Gilda, que levou as mãos a cabeça.

– Não é possível. – disse ela. – E agora? Vai ter que arrumar outro serviço!

– É, meus colegas que foram demitidos mês passado falaram que tá difícil, não tá tendo muito.  Por enquanto vou recebendo o seguro-desemprego.

– Que diacho, homem! – exclamou.

– Mãe, mãe! – a adolescente, sua filha, apareceu na sala vinda do quarto.

– Que que é, Mariana?  – e logo foi aumentando o tom de voz: – E ah, eu já não te falei pra guardar as coisa que tu usa de volta no armário e na geladeira? Se quer um pé de orelha?

– Eu sei, eu sei. – respondeu Mariana, amedrontada.

– Fala logo que cê quer, menina! – ela sabia que em noventa por cento das vezes em que Mariana se dirigia a ela, era pra pedir algo.

– É que vai ter show do meu cantor preferido na cidade, mãe! Eu quero ir! Preciso de trezentos reais pra pagar o ingresso e mais quatrocentos pra entrar no camarim tirar foto…

– Que? – Gilda ficou boquiaberta.  – Eu num tenho tudo isso não, filha.

– Por favor, mãe!  É meu sonho! O pai que mandô eu pedi pra você…

     “Mais essa.”, pensou, sabia que Mariana não desistiria até ter o que queria, e iria a importunar eternamente por isso. Pra tentar atrasar a insistência da garota, Gilda lançou uma esperança no ar, para que a menina não a importunasse durante um certo tempo, dizendo:

– Hum, vamos ver, não prometo nada.

– Eba! – gritou a menina, que deu um abraço na mãe e agradeceu, indo em seguida de volta para seu quarto, toda alegre.

     Quando Gilda entrou no banheiro pra tomar banho e se olhou no espelho, quase teve um piripaque. Seu cabelo estava horroroso, sinais da idade apareciam aqui e ali, sua pele estava hor-ro-ro-sa, principalmente as das mãos conforme reparou, provavelmente por causa dos elementos químicos que utilizava no serviço.

     De mal com a vida, Gilda tomou seu banho, botou um vestido, olhou no relógio e verificou que ainda dava tempo de ir. Verificou o que estava faltando nos armários e na geladeira.

– To indo no supermercado. – anunciou. – Volto já.

– Não esquece a cerveja! – disse Bernardo. – Me liga quando terminar a compra que vou te buscar de carro.

– Tá, tá. – e se apressou em sair, antes que Mariana aparecesse pedindo coisas.

      Eram cinco quadras até o supermercado. Chuviscava naquele momento e o Sol havia se escondido atrás de nuvens cinzas em formato de goblins. Um vento gélido vinha a seu encontro gelando suas orelhas e sem sucesso tentava se desviar dos chuviscos. Até uma pequena tosse já havia surgido. O tempo estava feio.

    Em meio ao sofrimento durante o percurso, ficou pensando em todos os problemas de sua vida. A bagunça da casa, o sonho fútil da filha, o desemprego do marido. Isso fora seu próprio emprego braçal e de jornada sofrida e ela mesma, que estava um verdadeiro caco.

     Finalmente chegou ao supermercado, que era de uma rede famosa.

     No portão de entrada vários cartazes disputavam sua atenção.

    Um cheirinho de crepes entrou pelas suas narinas enquanto se dirigia a entrada do estabelecimento. Diversas barraquinhas vendiam uma pequena diversidade de coisas do lado de fora. Quem sabe compraria um churros de doce-de-leite na saída se sobrasse um dinheirinho?

      Poucos passos dentro do supermercado e o chuvisco chato foi trocado pelo ar-condicionado ajustado em temperatura ambiente.

  Era uma pena que os produtos da cesta básica ficavam localizados só no final do supermercado, o que obrigaria Gilda a percorrer todos os corredores de guloseimas e outros produtos antes de chegar no arroz e feijão.

    Falando em outros produtos, as roupas dispostas logo no início do mercado a lembraram de que o marido precisava de uma cueca nova. Foi dar uma olhadinha e já acabou levando uma meia pra filha.

     Em seguida caminhou pelo setor dos animais domésticos. Buscou um shampoo anti pulgas pro vira-latinha da casa, de nome Aifone. A marca do supermercado era a mais barata e por esse motivo foi escolhida.

    Depois passou pelo corredor de produtos de limpeza. Buscou pela marca mais barata e depois abriu algumas embalagens para sentir o cheiro e decidir qual levar. Lavanda, cheiro de rosas ou flores do campo? Na dúvida optou pela embalagem roxa, sua cor preferida.

     Havia alguma coisa mágica sobre o supermercado. A sensação de poder. Todos aqueles produtos a poucos centímetros de distância das mãos que poderiam ser a qualquer momento pegos e jogados dentro do carrinho, tudo dependia da sua vontade. Ela poderia ter qualquer coisa, bastava esticar a mão e pegar.

     Passando pelo setor de congelados Gilda já se sentia muito melhor do que quando chegou. Parecia até que seu marido, filha, emprego e tudo mais haviam desaparecido misteriosamente. Eram só ela e aquelas imensas fileiras de iogurte light agora. Nada poderia dar errado. Se distraiu escolhendo os sabores que ia levar.

     Realmente não tinha ido com intenção de comprar guloseimas, mas aqueles pacotes de chocolate eram tão bonitos e desejáveis. Três reais e cinquenta centavos, porque não levar um? Também teria que levar uns agradinhos para Mariana. Pegou três pacotes de bolacha recheada.

    Um pequeno choque de realidade a atingiu quando passou pelo setor do café. Como estava caro! Mais de dez reais um pacote de café, que absurdo! Onde vamos parar? Daqui a pouco estará vinte reais e não demora estará cinquenta. Um completo roubo, mas o café de todo dia era indispensável.

      Em compensação outras coisas não pareciam estar caras. Foram dois reais nuns pãezinhos franceses, mais um e cinquenta no patê de presunto. Por quatro reais levou um bolo de laranja já feito e assado.

      Já quase ia esquecendo da cervejinha.

   É, não tinha jeito, ia ter que ligar pro Bernardo vir buscá-la. O carrinho já tava ficando pesado, não ia conseguir carregar tantas sacolas na mão.

     Era incrível como não percebia o tempo passar quando estava dentro daquele majestoso templo de consumo. O fato de não haverem relógios nas paredes poderia contribuir pra isso. Como um lugar podia ser tão confortável?

       Lembrou-se de seu sonho infantil de ficar uma noite inteira presa dentro do mercado, tendo todos aqueles produtos a sua disposição para passar o tempo comendo sem parar.

      Após sabe-se lá quanto tempo olhando, analisando e comprando, se encaminhou aos caixas. Engraçado como antigamente tinham filas enormes e demorava até meia hora pra ser atendida. Isso melhorou bastante com o tempo e agora não demorava mais de dez minutos até chegar a sua vez.

    Se assustou um pouco quando viu a quantidade de coisas na mesa rolante. Talvez pudesse economizar deixando alguma coisa. O chocolate? Ah mas… fazia tempo que ela não comia um. Ia esconder na gaveta de roupas íntimas pra ninguém mais pegar. Quem sabe deixar as bolachas da Mariana? Ora, não poderia fazer essa maldade. Se deixasse a cerveja do Bernardo ele ia cometer um feminicídio mais tarde. O resto era absolutamente indispensável: patê de presunto, bolo, leite condensado e creme de leite pra fazer um pavê domingo, cueca, batata, cenoura, meia, água sanitária. É, não podia deixar nada.

     De dois em dois reais a conta subiu pra trezentos e quarenta e seis reais e dezessete centavos. Confessou que não esperava um resultado tão aterrador. Não comprou quase nada e deu mais de trezentos reais? Era ruim até de pensar.

    Felizmente alguém teve a brilhante ideia de inventar um cartão mágico. Era só passar na máquina e tudo estava resolvido.

– Crédito ou débito? – perguntou a moça do caixa.

– Humm.. passa no débito.

– Não foi.

– Como assim não foi?

– Passa de novo.

– Ok.

– Não foi de novo.

– Ora essa. – Resmungou. – Então vai no crédito mesmo.

    Pequenas coisas chatas da vida. Depois pensaria nisso.

    Pagou e foi esperar Bernardo no estacionamento. Apesar do pequeno desconforto no final da compra, ao se deparar com aqueles números enormes e terríveis na tela do computador da atendente, Gilga se sentia renovada e, apesar do carrinho pesado, mais leve. Já estava imaginando o café da tarde que ia fazer. Se deliciaria duas vezes, uma imaginando comer bolos e pães, e outra os comendo de verdade.  Até o tempo estava um pouco melhor do que antes.

     Chegando em casa Mariana logo apareceu pra ver se tinha ganho alguma coisa.

– Comprou bolacha?

– Sim.

– Comprou refrigerante?

– Sim. Comprei meias também pra você, cê disse que tava precisando outro dia, lembra?

– Lembro, obrigado. – sorriu a adolescente.

– E a cerveja? – Bernardo aproveitou pra conferir.

– Também.

– Que bom. – ele pareceu aliviado e feliz, possivelmente imaginando tomar ela enquanto descansava no sofá.

     Gilda sorriu pensando no chocolate guardado dentro da bolsa que iria comer depois.

      E todos foram felizes até as coisas acabarem e ela voltar ao supermercado para trazer a alegria novamente para o lar.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3.