EntreContos

Literatura que desafia.

Eu, Gabriela, vinte e tantos anos, solteira, encalhada e obsessiva por gramática (Mariposa Apaixonada de Guadalupe)

Uma hora eu teria que enfrentar aquela situação. Foi por isso que fiz tantos anos de terapia? Faz quase seis meses que as sessões terminaram. Saí do consultório do Fabiano, o quinto ou sexto na fila interminável de terapeutas que foram sendo trocados, um a um, de tempo em tempo, dizendo a mim mesma que precisava parar com aquelas frescuras. Não dava mais para ficar eliminando pretendentes que não se adequavam ao que eu exigia. Estava curada, sim, como não? Na casa dos vinte, digamos que com mais da metade da casa completa, nada de conhecer alguém interessante, nem sombra de amor do tipo carne e unha, alma gêmea, bate coração… Tudo, todas as vezes, sempre: um único encontro depressivo, palavras mal ditas ecoando na minha lembrança tacanha de Doutora em Filologia na mais tenra idade, quase um prodígio da língua vernácula, alguém que sempre tinha tratado as coisas ao pé da letra, literalmente, de uma forma excessiva. Obsessiva.

Levei meu amor incondicional pela última flor do Lácio a níveis estratosféricos, perigosíssimos. Relacionamento sério? Só se o pretendente fosse perfeito em todos os sentidos gramaticais. Morfologicamente, a mais perfeita fonética, a sintaxe, era por isso que eu ansiava, admito. Se não fosse, qualquer encanto caía por terra. Como quando nos meus quinze anos, enamorada de um rapaz que tinha começado a trabalhar no empório perto de casa, aceitei aceitei sua companhia na volta para casa, ao final do seu turno de trabalho. A conversa ia bem, até que resolvi perguntar sobre onde o mocinho morava. A resposta foi devastadora e ecoou em minha memória por semanas:

“Moro no final da Rua do ReZistro.

Na casa da esquina.

Uma casa de TAUBA.”

Não, reZistro não, TAUBA não, TAUBA não!!! O encanto se transformou em um sentimento decepcionante, não sem que eu tentasse, de uma vez por todas, me acostumar a um errinho ou outro ortográfico, juro que tentei, mas sem sucesso.

Isso tinha começado bem antes, na verdade desde menina. Antes de sair do carro, relembrei mais uma vez quando um guri, o mais lindo da terceira série, me alcançou na saída da escola, colocou um pedaço de papel nas minhas mãos e saiu correndo. Para minha decepção, li:

“Quer namorar comigo, Gabriela Cravo e Canela? Teamo.”

Embaixo, um quadradinho para o SIM e outro para o NÃO.  O restante do dia passei corrigindo-o em pensamentos. Não vi mais nada, a vista chegou a escurecer. Só sei que no dia seguinte o coitado recebeu minha resposta, o mesmo bilhete com o quadradinho do NÃO marcado com um X e um aviso embaixo:

“O certo é ‘Você quer me namorar?’

E ‘te amo’ se escreve separado.”

Sim, eu mereço as duas décadas de encalhe que vieram depois.

Não me recordo bem do nome do garoto. Um nome esquisito, ainda mais isso. Franquislei, sei lá. O nome dava para perdoar, caso ele não assassinasse o português. Nem um metro e vinte de altura e eu já era repugnante a esse extremo. Só sei que relembrava aquela cena toda vez que ia a um encontro possivelmente romântico. Punição? Um aviso? Como se eu dissesse a mim mesma: “Chega, ou vai morrer solteira, abraçada com um dicionário, ou pior, uma gramática expositiva!”

Recorrer a uma agência de namoros tinha sido uma tentativa desesperada de, de repente, dizer a mim mesma que eu estava mudada, chega de neuras linguísticas. Fabiano tinha sugerido aquilo, até mesmo me indicando a agência, jurou que já dera certo com outros a quem ele também já indicara. Poderia ser um tratamento de choque no meu caso, mas eu precisava saber se conseguiria superar, afinal. A insegurança era um monstro que corria atrás das borboletas que habitavam meu estômago.

O primeiro passo, claro, difícil ao extremo, mas tinha conseguido responder de forma tranquila à pergunta da funcionária da agência. “Alguma característica a destacar no candidato?” Em outros tempos, eu pediria algo como “exímio falante da língua portuguesa, sem erros de ortografia, concordância, sintaxe, nada contra variações linguísticas, porém nada de palavras de baixo calão ou gírias da moda em excesso”, dessa vez, porém, destaquei apenas atributos físicos, sem pensar muito: nada de caras bombadões, de corpo meticulosamente depilado, mas estava disposta a aceitar uma barba por fazer ou até mesmo o cabelo abaixo da linha dos ombros. E a sorte estava lançada, com um tal de José, com quem me encontraria naquela noite. E agora, José? E agora, Gabriela, isso sim! Nada, nada me atrapalharia, nem mesmo uma hipérbole ou um pleonasmo inocente, ditos sem pensar. Se o cara dissesse “baseado em fatos reais” ou até mesmo jurasse que tal coisa era “certeza absoluta”, sério, eu seria capaz de “encarar de frente”, sem me desesperar. Ah, seria sim, nunca mais “adiar para depois”. Determinação é tudo!

O local não era bem o lugar que eu escolheria para um encontro. Música alta demais, pop atual e também aquelas letras bregas, uma rima mais pobre que a outra, cadê todo o esmero com a língua vernácula do Toquinho, do Jobim, da Gal? Era “dererê, underererê” demais no refrão para o meu gosto.

“Se controla, se controla… Não é qualquer letra de música mal escrita que vai te tirar do sério agora. Foco no José.”

Contei até três e sentei-me em um dos bancos do balcão, pedindo um martini. E depois outro. E mais um. E nem sombra de alguém com a descrição do José que a funcionária da agência tinha me dado. Fábio Jr., Paula Fernandes, Luan Santana, Wando, Kátia, a coisa só piorava. Mas que raio de lugar era aquele?

Foi quando notei, para minha surpresa, meu último ex-terapeuta vindo em minha direção. Não o reconheci de imediato porque estava bem diferente de quando o vira, meses atrás. Cabelo solto, na altura do ombro, uma cicatriz logo acima da sobrancelha esquerda, calça jeans, camisa verde escura…

Sim, era Fabiano, mas… Ei, essa descrição era para ser do tal do José!

— Fabiano… Que coincidência, quer dizer…

— Fabiano José. O J sempre abreviado, lembra? Pois é, é J de José.

— José… Você então é o José com quem eu vim me encontrar… Fabiano José…

Até que não era tão ruim de se ouvir. Mais simpático que certos nomes de galã de novela, devo admitir. Aliviada por não ser Francisco Ronaldo, ou Paulo Alfredo, pior ainda, Fúlvio Edgar.

— Podia ser pior — ele explicou. — Podia ser Farley. Farley José.

Fiquei confusa ao ouvir aquele nome. Farley não me era estranho. Quer dizer, estranho era, mas… O porquê da estranheza é que me deixava, sim, com uma sensação de que não era a primeira vez que ouvia um nome diferente como aquele. Que história era aquela de Farley José? Não, por favor…

Não.

Espere aí.

Farley José, meu Deus do céu, Farley José! Claro, Farley!

Minha expressão de espanto denunciava a Fabiano que estava começando a ligar o nome à pessoa.

Fabiano explicou, achando dessa forma um jeito de iniciar a conversa: tinha sido Farley. Até que um dia resolveu mudar de nome, não suportando mais tantas piadinhas.

— Farley era simpático —  eu disse, fingindo tranquilidade. —  O nome de um ator famoso do qual sua mãe gostava, não? Foi essa a história que você me contou.

— Na época eu achava que era isso. Mas não, foi apenas uma mentira para que eu aceitasse melhor o peso daquele nome. Descobri que Farley era a junção de dois nomes de ex-namorados dela, Fabio Arthur e Leandro Sidney. FA-AR-LE-EY.

Na dúvida, preferi não dizer nada. Mudei de assunto. Foi uma conversa daquelas meio sem jeito, algo como “e então, quer dizer que você foi para o campo da psicanálise? Quem diria que um nome o aproximaria de Freud, hein?” Fabiano contou que nos primeiros minutos da primeira sessão já sabia que eu era aquela menina chata (ele não disse exatamente o complemento nominal “chata”, isso foi por minha conta mesmo) que tinha pisado em seu coração, mas que estava feliz em ter me ajudado a superar aquela mania obsessiva com a gramática. E, confessando, não sabia o porquê, mas sempre se lembrava de mim, principalmente quando consultava um dicionário. O elogio fez com que eu me sentisse um tanto menos culpada por aquela correção imbecil do bilhete de Fabiano.

De repente, não mais que de repente, Fabiano tirou um papel do bolso e colocou na minha mão.

— Abre, Gabriela. Gabriela Cravo e Canela.

Na vida toda, Fabiano tinha sido o único a me chamar daquela forma. E eu não tinha mais jeito nem de cravo, nem de canela, após anos e anos com o nariz enfiado nos livros, estudando, estudando e estudando…

Abri o papel, ouvindo a cantora quase gritar: “Tão perto das lendas, tão longe do fim, a fim de dividir, no fundo do prazer…”, mas aí já não prestei mais atenção em nada. Só consegui ler:

“Quer namorar comigo? Mas se não puder ser assim, aceitaria me namorar?”

SIM          □ NÃO

Antes de marcar o X no lugar onde eu deveria ter marcado quase vinte anos atrás, lembrei-me de um trecho de uma musiquinha de refrão chiclete: “daqui pra frente tudo vai ser diferente, você tem que aprender a ser gente…”

Viver era mesmo ser feliz e mais nada.

Sim, Fabiano.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.