EntreContos

Literatura que desafia.

A política é um inferno (Osvaldo Andrada)

Sempre fui um patriota. E um otimista. Sempre admirei essas qualidades. Essas capacidades especiais de manter altas expectativas em relação àqueles com quem eu me relaciono. Sempre vi o copo meio cheio ao invés de meio vazio, o vento cantar e nunca gemer, sempre acreditei nas boas intenções sem duvidar. Tornou-se um lema. Eu era uma grande figura. Assim, quando resolvi meter uma bala na cabeça, ninguém entendeu. Deixe-me explicar:

Comecei minha carreira como estudante de engenharia para seguir os passos de meu pai, quis ser médico de máquinas. Mais tarde, mudei de ideia e de ideal: de nada valia consertar as máquinas e não as pessoas, então, resolvi ser médico de pessoas. Depois, achei que não adiantava nada consertar as pessoas e não lhes dar boas condições de vida, então, decidi ser cabo eleitoral. Profissão honesta. Só tinha dois riscos: o perigo de me tornar um chato (porque ninguém gosta de ser abordado insistentemente na rua), ou de me tornar um mentiroso.

Eu nunca menti, nem mesmo agora no meio do fogo do inferno: sempre acreditei nas promessas que meu candidato fazia, fossem melhorias, reformas ou justiça social. Claro que foi difícil achar um candidato que pensasse exatamente como eu, mas foi fácil achar aquele com quem eu tinha maior afinidade. Candidatos gostam de agradar.

Minha primeira vez (que a gente nunca esquece) foi com o filho do político de um partido de extrema-direita, postulante a deputado federal. Achei que, como o pai já era raposa velha e estava há décadas no Congresso, conheceria melhor os meandros da política, o que facilitaria na obtenção dos objetivos. O candidato prometeu trabalhar para a população carente, criar creches, abrigos para idosos, reforçar a segurança pública, mas ao final de seu mandato tudo o que ele mostrou com uma segurança pública de fazer inveja foi seu traseiro branco a jornalistas que o flagraram bêbado numa boate, além de uma habilidade financeira incrível, triplicando com maestria seu patrimônio inicial.

Na minha segunda vez, achei melhor eliminar quem se utilizava da política para fazer carreira. Travei contato com outro requerente a deputado federal da extrema-esquerda, um homem jovem e bem-intencionado, pertencente ao sindicato dos metalúrgicos, um trabalhador assim como eu ou você. Achei que acertava. Havia de ser bem interpretado. E foi. Era um homem eloquente, sua oratória tocava os corações com a simplicidade de um homem do povo que falava para o povo:

“Sou uma pessoa humilde, quero lutar pelos marginalizados, os homossexuais, as mulheres, os negros, os sem-teto, os sem-terra, os sem-merenda!”

Angariou muitos votos, vencendo o pleito com grande vantagem. Até seus filhos foram bem-sucedidos, tornando-se empresários e donos de empresas milionárias. Só andavam de terno Armani e jatinho particular. Quando perguntado, o candidato respondia:

“Chupa que a cana é doce!”

Uma referência (talvez) a seus inúmeros copos de cachaça que ele apreciava de quando em sempre, possivelmente em comemoração à sua meteórica ascensão. Adquiriu, através de propinas de empreiteiros que tinham com o governo contratos vantajosos, grande número de imóveis espalhados pelo país, sítios, apartamentos, mansões para todos os gostos. Bens que nunca figuraram no seu imposto de renda, mais bem guardado que as idades das mulheres.

Decepcionado, fui convidado a trabalhar em novo pleito. Desta vez, um candidato a deputado estadual que prometia honrar o que prometia. Fui chamado à sua casa e recebido com entusiasmo, afinal, meu serviço estava sendo reconhecido. (Ao menos eu) era um profissional que dava conta das promessas que fazia, o que neste ramo sempre proporcionou alguma credibilidade. O homem, um jogador de futebol aposentado, ofereceu-me água, cafezinho, suco, almoço, jantar, café da manhã, autógrafo, tudo a que eu tinha direito. Por fim, ele desabafou:

“Eu não tenho rabo preso com ninguém!”

“Mas o senhor tem experiência de vida pública?”

“Verdade que eu nunca fui deputado estadual, mas já sou um homem público, agora, a experiência de ir em cana, essa eu não vou ter!”

Achei que fazia sentido, me pareceu razoável apoiar um homem que se comprometia a se afastar de cana, tanto da prisão quanto das bebidas. De fato, ele nunca foi processado. Passava as tardes e as manhãs à beira do mar em sua cidade natal, jogando futebol de praia. Quando perguntado, dizia a todos que fazia consultas a seus pares, à sua base. Não aprovou nenhum projeto de lei de real interesse. No final do mandato, me ofereceu a bola do torneio, o que me deixou em dúvida: era uma grande honra ou uma grande ironia?

Bola para a frente. Nova eleição se aproximava e eu encontrei um concorrente que não tinha papas na língua, tão sincero com as palavras que me surpreendi. Também não tinha um partido definido, acabou se filiando somente pouco antes do prazo final. Tinha se encantado com as cores e a logotipo de um partido de centro-direita. Achei que valia o risco. Quem sabe desta vez eu acertava? O homem, estilista de renome no país, tinha mesmo classe: usou os quatro anos do mandato para redecorar seu gabinete em estilo rococó. Gastou toda a verba de representação. Quando perguntado, dizia:

“Não vou me sujar por pouco, vou me sujar por alguns milhões de dólares!”

O povo se injuriou. Então, calmamente ele respondeu:

“Se todo mundo tem aquilo roxo, o meu é cor-de-rosa-choque. Como vou passar sem o meu caviar?”

Caviar realmente sempre foi um artigo de luxo. O povo não entendia. Resolvi que meu próximo candidato seria alguém rico o suficiente para bancar seu próprio caviar ou qualquer outra frivolidade que lhe apetecesse. Não titubeei quando fui apresentado a um abastado empresário do setor automobilístico. Eu exaltava: “finalmente, alguém que não liga para dinheiro porque já o tem!”, pensei. Foi uma das campanhas mais efusivas das quais participei, com verbas para gastar no que quer que fosse. Até a cidade se agitou com propagandas espalhadas pelas ruas que ficaram sujas, forradas de letreiros, faixas, placas e santinhos. Mas santo o homem nunca foi, pelo contrário, alguns o julgavam até mafioso. Ele criou um cartel para que se eliminasse a concorrência. Ficou ainda mais rico e, em comemoração, dava festas magníficas com as mais belas mulheres de programa. Era muito elogiado entre os parlamentares, conquistando o respeito de todos, exceto do povo.

Nesta altura, você já deve ter percebido que encontrar o candidato ideal era uma tarefa extremamente difícil e nem eu, com meus anos de experiência, parecia acertar. Passei uma época meio desencantado. Então, quando meus serviços novamente foram requisitados por um postulante que era cantor sertanejo, eu me deixei levar. Todos precisavam mesmo ser embalados por acordes que nos unissem em um único refrão. Quem sabe assim falaríamos a mesma língua? Não custava nada tentar. De fato, ele nos embalou, musicando os espaços entre uma CPI e outra, porque os casos de falcatruas, subornos e malversação do dinheiro público começaram a surgir, mobilizando o congresso. Os depoimentos eram prestados em plenário para os parlamentares responsáveis pelo inquérito. Parecia um grande show transmitido aos telespectadores pela TV Senado. Eu era um profissional muito eficiente, conforme falei a vocês. Emplaquei o candidato, mas não acertei o político.

O azar era um inferno astral, só podia ser. Eu precisava de uma bênção. Apelei para alguém cheio de boas intenções que pudesse afastar de mim essa maré de má sorte. Meus assessores me indicaram um pastor evangélico. Ele lutaria comigo enfrentando os corruptos, os demônios (o meu e dos outros), os homossexuais, os travestis e tudo o mais que causasse desordem. Resolvi arriscar. O homem realmente só rezava (sem esquecer do dízimo, bem-entendido). Ele me disse uma vez:

“Para ser cristão e espantar o mal no meio de nós tem que ter atitude: não basta dizer, tem que agir!”

O homem distribuía orações e bênçãos, regiamente pagas, claro. Boa intenção ele tinha (mas de boa intenção o inferno andava cheio, não era verdade?). Ele acabou se importando mais com os banheiros públicos utilizados pelo gênero correspondente (sabe-se lá o que é isso) e a cura gay que com todo o resto. Já quase desistia. Eu era um excelente profissional, mas os candidatos não ajudavam. Foi quando eu encontrei um palhaço num bar que me disse:

“A Câmara é uma fábrica de loucos!”

Achei que ele tinha razão. E sinceridade. Era um sujeito simplório, talvez estivesse desafogando as mágoas. Trouxe meu copo para perto dele. Então, ele desabafou:

“Muitas vezes tentei fugir de mim, mas aonde eu ia, eu tava!”

Eu falei que o cara era simplório, não falei? Continuei, também desabafando:

“Cara, estou triste!”

“Fica triste não, abestado!”

“Tenho a impressão de ter errado em toda a minha vida!”

“Garanto que pior do que tá não fica!”

Parecia até slogan de campanha. Aliás, eu já o via nas ruas, em comícios, em palanques, falando com seu jeito simplório, mas honesto. Alguma coisa se acendeu dentro de mim. Uma nova esperança será? Eu perguntei:

“Você sabe o que faz um deputado federal?”

“Não tenho ideia!”

“Pois é isso mesmo o que você vai responder quando te perguntarem…”

“O quê?”

“Eu também não sei, mas vota em mim que eu te conto!”

Não sei se o homem estava bêbado, ou se eu estava bêbado, só sei que saímos do bar abraçados como se estivéssemos irmanados pelo mesmo desejo, pelo mesmo desassossego, pelo mesmo espírito de luta. Ele se elegeu no mesmo ano, com um número assombroso de votos, o maior da história do país. Nomeou dois assessores para ajudá-lo com os trabalhos na Câmara.

“Mas são dois humoristas!”

“Eu diria que são dois comunicadores, essenciais para a divulgação dos meus projetos!”

Talvez ele tivesse mesmo razão, o país era um circo. Pudesse ele alegrar e se comunicar com o povo já fazia um grande trabalho. Panes e circus. Mas a verdade foi que nem ele aguentou as palhaçadas dos seus colegas deputados, achando graça em muitas das leis que vigoravam no pais e que facilitavam a impunidade. Foi esperto, amealhando quase dois milhões de assinaturas para um projeto de lei de sua autoria que combatia a corrupção, aumentando penas e arregimentando formas de aceleração dos processos. Estava sempre aberto a novas sugestões e críticas, o homem queria se comunicar. Infelizmente, o palhaço era simplório demais e foi facilmente ludibriado pelas raposas velhas.

Então, depois de muito tentar, resolvi eu mesmo levar a tarefa a cabo. Com a minha rede de relações, não tive dificuldades de comprar um fuzil AR-15. Achei que 800 tiros por minuto era algo efetivo e deveria resolver. Na dúvida, comprei munição extra. Comprei também um casaco enorme que ia até os joelhos e esperei o momento oportuno. Não foi difícil, uma vez que eu conhecia a segurança, as salas, os corredores, os meandros daquele labirinto cheio de desvios, sempre à procura de uma saída satisfatória. Entrei com a arma escondida debaixo do casaco e, uma vez no plenário, tranquei a porta e atirei. Demorei um pouco porque gastei nos deputados e senadores toda a munição que havia comprado, um modo de me certificar de que não deixaria um parlamentar vivo para trás. Por fim, mirei o cano escuro e frio da arma debaixo de meu queixo e dei o tiro fatal.

Mas, qual não foi minha surpresa ao chegar ao inferno e dar de cara com todos novamente? Foi o único detalhe do meu plano que não se resolveu a contento. Devia ser um castigo, por ter eleito cada um deles. Surpresa maior foi encontrar aqui embaixo dois filósofos, o autor da citação “O poder corrompe” ao lado do autor de “O homem é lobo do homem”. Não entendi. Seria uma ironia? Fui caminhando devagar até eles, me desviando das labaredas de fogo e de lava ardente que brotava do solo. Mal conseguia respirar naquele sufoco de enxofre etéreo, mas, assim que os alcancei, perguntei curioso:

“O que vocês dois fazem aqui?”

“Nós também fazemos parte dessa casta especial de pessoas!”

“Qual?”

“A que sabe usar bem as palavras!”

Então, tudo começou a arder.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.