EntreContos

Literatura que desafia.

Franjas de comédia em todo manto (Assis B. Cubas)

O irmão de Sóstenes se perdeu durante a comemoração festiva do arquipélago e foi levado por um homem que ansiava filhos. O sujeito enxergou na solitária criança um presente vindo direto da mão divina. Portanto, agarrou a mão – do infante – e se foi depressa, feliz com a futura surpresa de sua mulher.

           – Um é o focinho do outro – repetia o pai – e eu pensava cuidar dos dois quando vigiava sempre o mesmo – concluía a quem o consolasse.

            Os gêmeos contavam quatros anos de idade naquele dia.

Antes de retornarem para casa em outra ilha, o pai ainda se socorreu dos préstimos sempre úteis da leitora de sorte vinda de exótica terra: “Conhecedora do passado, presente e futuro”, dizia o cartaz.

– Vou rever meu filho? – perguntou diretamente à mulher aparentemente em transe.

Acostumada a casos assim, a vidente foi clara, como é costume:

– Tu o verás sempre todos os dias – respondeu com voz de além.

Ao sair da cabana sentindo-se enganado, uma onda de alívio o envolveu e cogitou retornar à tenda da consulta paranormal para recompensar melhor aquela senhora, pois via seus pimpolhos a poucos metros, um de frente ao outro, sorrindo inocentes.

           Porém seu ânimo decaiu quando Sóstenes correu em sua direção e seu irmão, Sófocles, estranhamente deu-lhe as costas se distanciando mais e mais.

          Era um espelho circense desvendando melhor o futuro. Partiram todos, enfim.

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            Madame Hécate, como gostava de ser chamada, esticou o olho até encontrar seu marido:

            – Sóstenes, pateta apalermado, quantas vezes mandei não deixar os clientes esperando? – falou bruscamente à distância.

– Querida, foi só um minuto e …

– Cala a boca, imprestável. Entrega essa cerveja logo e não a deixe cair, senão você sabe.

A ameaça fez Sóstenes levar a mão à cabeça onde um galo grande o lembrava da dureza da companheira.

Sóstenes não era burro, nem deficiente. Homem de boa compleição física, mas lento. Dessa lentidão submissa das pessoas sem sangue. Desde quando perdera seu irmão gêmeo há vinte anos, tudo ficou em suas costas. Sendo criança nada entendia e tropeçava como defesa. Um rio fugindo do mar era Sóstenes lutando contra o mundo. Aprendeu somente a rolar na correnteza e a se machucar bem.

De queda em queda caiu em cima de sua mulher que tratou de colocá-lo por baixo sem demora.  

No bar onde era proprietário de direito e empregado de fato, nem bem dera dois passos com a garrafa nas mãos e as pernas da primeira cadeira lhe jogaram ao chão.  As gargalhadas deram o alarma a sua mulher.

– SÓSTENES – ela intimou a todo pulmão – vem logo aqui.

Os “ais” e “uis” característicos da velha discussão doméstica foram ouvidos poucos instantes após o marido entrar na cozinha do comércio.

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Em outro mundo, Ícaro resolvia fugir, pois era vigiado por muitos. Não teria liberdade por muito mais tempo e sem dúvida algo que valorizava era viver livre, sem responsabilidade ou rédeas.

Seus pais adotivos, apesar do carinho que lhe deram, não eram exemplos de correção, o que só alimentava sua vocação rebelde. A morte prematura dos seus responsáveis, deixando-o jovem e com dinheiro, em nada ajudou. Aproveitou o quanto pôde, gastou o que herdara e agora se via às voltas em pequenos golpes, sempre à espera do próximo.

Inteligente, notou que seu campo de trabalho estava saturado, necessitava de outros ares e foi-se embora na carona da noite, deixando credores, comparsas e mulheres bastante preocupados; por motivos diferentes, claro.

Depois de alguns dias de viagem, Ícaro fez gosto por uma ilha não muito distante de onde passara sua infância.

         Lugar aprazível, a cidade era grande e certamente lhe renderia muito: “Preciso me adaptar”, decidiu.

Então Ícaro entrou logo no maior e melhor estabelecimento que encontrou. Tudo muito limpo. Seria bastante produtivo avaliar a clientela, possível retrato daquela sociedade. Sentou-se estrategicamente mais ao fundo.

Quando uma moça veio até ele, fez o pedido:

– Uma cerveja em copo grande, por favor – disse com simpatia.

– O senhor está doido? – perguntou-lhe a atendente com semblante muito assustado.

– Sempre fui um pouco – ele respondeu divertido – mas não sabia que “cerveja em copo grande” era confissão clara de loucura.

– Muito engraçado, patrão, mas vá lá pra dentro antes que madame Hécate chegue – falou quase implorando.

– Calma jovem, parece que há um erro aqui.

Mal terminara a frase e a tal madame Hécate adentrou no recinto. A funcionária deu uma meia-volta tão ligeira que a toalha da mesa foi levantada um tanto.

Confuso, o recém-chegado observou uma mulher se retirando rapidamente enquanto outra vinha em sua direção com a determinação de um touro.

– Canalha – ela pronunciou em alta voz a meio caminho.

A freguesia, devido à hora, não era grande. Mesmo assim havia uma boa dúzia de clientes antecipando o desfecho da confusão. A maioria saboreando já o momento.

– Minha senhora – disse Ícaro quando percebeu que era com ele o insulto – eu não sei o que acontece, ficaria muito grato se me ajudasse.

A mulher de Sóstenes estava bem próxima agora, respirando pesadamente. Tez avermelhada, vestido longo e preto, botas de salto alto, leve penumbra no buço. Não era feia na aparência.

– Que bobagem é essa de “minha senhora”? – disse com raiva – eu não mandei você me esperar para carregar as compras, seu inútil? – perguntou distribuindo as palavras com pitadas de saliva.

– Vamos com calma. Qual seu nome mesmo? – perguntou abrindo um sorriso ao melhor estilo “não se preocupe, está tudo bem”.  

O estalo do tabefe surgiu magicamente.

          TAP.

          Ela foi muito rápida: levou a mão, quebrou o riso ofertado e já a tinha à cintura quando Ícaro entendeu que fora esbofeteado.  

A marca quente dos cinco dedos obrigou-o a acariciar sua face. Seria capaz de descrever a largura exata dos três anéis que a mulher usava.

Acostumado à vida noturna, havia presenciado ou participado de várias escaramuças e sabia qual atitude seria apropriada nessa situação. Era necessário revidar o contato, de uma forma ou outra, e assim o fez. Em seu favor anote-se o fato de não usar anéis.

VUP.

Madame Hécate foi agarrada de uma forma que nunca imaginou ser possível a Sóstenes fazer. E acompanhou, aturdida, aquele rosto aproximar-se decididamente e lhe pressionar os lábios num beijo quente jamais imaginado, muito menos sentido.

         Incialmente tentou reagir de forma frenética, mas ele a segurava obstinadamente.

          Enquanto uma mão dele se espalmava nas costas de Hécate e a forçava inteira ao encontro dos corpos, a cintura e braços da agressora eram totalmente enlaçados num torniquete completo. Ela estranhou o rotundo e enviesado volume plasmado em seu baixo ventre. Isso fez suas pernas cederem e ela se entregar abrindo a boca para a língua que já a invadia. Hécate estava em pé unicamente sustentada pelo homem à sua frente.

        Ciente da vitória, Ícaro então a soltou e ela se estatelou no chão, totalmente desorientada. Seus cabelos compridos e desfeitos lhe feriram o rosto numa cascata negra e revolta. Nem notou que suas pernas ficaram bastante à mostra, coisa que não desagradou Ícaro.

Os empregados estavam presentes, boquiabertos e testemunhando.

– Nunca mais – Ícaro disse friamente – encoste sua mão em mim dessa maneira ou não será um beijo que lhe darei – havia certeza na promessa – você entendeu?

Como ela nem suspirasse, Ícaro fez menção de se aproximar.

– Entendi, entendi sim – madame gritou, trêmula.

– Muito bem, aceito suas desculpas – falou cinicamente saindo do bar sem ser incomodado.

           “Aquela mulher louca deve ter marido e vai querer se vingar” – raciocinou ele já na rua – “Que pena!  lugarzinho tão bom”.

Pôs-se a caminho, queria embarcar antes do último horário.

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Sóstenes estava angustiado no mercado. Havia se desencontrado da esposa e certamente ela se fora carregada de embrulhos como uma mula para casa. Estava bem encrencado.

“Que mal fizera a Deus?”, “Por que não fujo?”, ele se perguntava sempre. Mas sua noção de compromisso era forte, tinha palavra, não a quebraria por causa à toa. Um mártir por covardia. Precisava voltar.

Quando colocou os pés no salão de entrada foi recebido com aplausos admirados: – Muito bem, rapaz ! – Parabéns! – diziam alguns clientes.

Sóstenes não entendia o motivo da comemoração e se exasperava cada vez mais, pois temia ser moído inteiro duas vezes: uma pelas compras, outra pelo barulho.

Correndo para o depósito que ficava nos fundos do comércio, perguntou debilmente pela esposa a ninguém em particular.

– Foi embora, senhor – respondeu de pronto um dos empregados com os dentes abertos.

– Como assim? – rebateu incredulamente.

– Ela não suportou a humilhação de ser dominada como uma égua no cio – respondeu corando o funcionário – se me permite a liberdade, patrão.

Sóstenes sentou-se numa cadeira ali perto. Ele não entendia, só queria acreditar.

– Você tem certeza de que a égua, digo, Hécate, se foi? – questionou olhando para trás, receoso.

– Claro, até prometeu não voltar. Talvez partisse da ilha, não sei. Mas que se foi dessa casa não há dúvidas.

Sóstenes, após longos minutos, chorou, riu, e riu de novo.

– Bebida pra todos, hoje é festa – ordenou  – avisem meus pais.

– Já fomos avisados – falou um senhor bem vestido entrando no amplo cômodo acompanhado por sua senhora.

– Meu filho, que bom ter criado coragem e mostrado àquela bruxa quem tem o cetro – disse-lhe sua mãe.

– Eu não sei bem o que aconteceu, mamãe, amanhã pensamos nisso. Hoje é preciso lavar nossa alegria – declarou Sóstenes abraçando sua velhinha e a puxando para o salão principal.

O pai de Sóstenes, homem desconfiado, pediu a alguém que lhe contasse a coisa em detalhes. Queria ter certeza da benção.

           A cada gesto narrado até às derradeiras palavras do filho antes de sair e deixar Hécate no chão, mais seu coração se inundava de esperança:

– Meu Deus, não pode ser! Sóstenes jamais faria algo desse modo tão… selvagem – concluiu.

– Era o patrão, senhor. Eu vi. Quer falar com a garçonete também ou outra pessoa?

– Não precisa, apenas se concentre e me diga: meu filho usava as mesmas roupas com as quais se veste agora?

O rapaz pensou e depois com cara de assombro, como se pego numa mentira, disse finalmente:

– As roupas eram outras. Como o senhor sabia?

Apesar da idade, aquele pai saiu em disparada, precisava encontrar quem resgatara seu filho antes que outro espelho o engolisse, ele temia.

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Ícaro estava bem instalado em sua cabine fechada quando bateram levemente na divisória. Uma das desvantagens do compartilhamento de acomodações nas viagens, embora o preço fosse bastante compensador.

Com a mão ainda na maçaneta, desejou que fosse a mulher que lhe insultara:

– Belas pernas – sussurrou.

         Então abriu a porta e para sua imensa surpresa estavam parados no corredor: ele mesmo acompanhado de um casal de idosos.

– Meu irmão.

– Meu filho.

– Quem são vocês?

Os três o abraçaram efusivamente. À medida que a história se revelava entre soluços e lágrimas, Ícaro se reconheceu Sófocles, o gêmeo perdido.

Voltaram todos para casa, uma família reunida.

          No caminho, os irmãos levantaram alguém que havia caído, gritaram com o feirante e sua banca de frutas que os estorvava, abraçaram seus pais.

Em seus íntimos, os gêmeos pensavam cada um a seu modo: “Eu não sou mais eu, sou outro. Sou cópia e ao mesmo tempo, sou diferente. No final das contas sou eu mesmo, dividido e multiplicado por dois”.

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Ao saber de tudo, Hécate se inflamou e decidiu:

– Se não era Sóstenes, nada mudou. Vou buscar o que é meu.

          Para seu azar, o primeiro gêmeo com quem se avistou no bar não lhe dera a menor chance de fala e de imediato lhe jogou duas ou três obscenidades piscando o olho após um convite muito indecente.

Assustada, Hécate ergueu a longa saia e disparou a correr.

– Belas pernas – gritou o antigo Ícaro quando ela cruzou seu caminho quase o derrubando, o que a espantou ainda mais.

Os irmãos riram ao se encontrarem. Estavam completos.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.