EntreContos

Literatura que desafia.

Bodas – Conto (Juliana Calafange)

Adaptado do poema “Tabagismo”, de Luiz Costa Ribeiro

Bodas, para que se comemora isso? Convite “válido para Ana Maria e acompanhante”, só para me constranger. A perversa reiteração de que não me casei, estou ficando velha e preciso de companhia. A solidão não é algo ruim, o problema é que ninguém sabe ser sozinho, existe paranóia na palavra solidão. Depois vão repetir que fumo demais, e que isso me mata aos poucos. Não sabem o que eu sei. Não sabem que não tenho pressa. Sei do gosto amargo do cigarro e do soluço que trago com a fumaça, a fissura queimando no peito, a certeza do alívio que não chega nunca. Vou levar meu companheiro às Bodas de vovó! Vou dançar com ele e com sua fumaça e não com o rapaz sem graça sentado no sofá. Minha sede não é sede que se afogue em drinks, é desejo sufocado em fumo, que a cada vez se acende e se apaga, mas não se extingue nunca. E vocês, já embalados em tantas bodas, não fazem idéia de quem sou. De tudo que sonhei e não se fez, das coisas de que falo e sobre o que escrevo. Simplesmente não escutam. E me calam. Minha companhia hoje é o tabaco. E mesmo contra todos, vou levá-lo à festa. Porque é ele o amor que me acompanha agora. Sei do prazer de ver arder em suas cinzas tão remotas dores, tão antigas mágoas, gozando o mal na brasa seca, até perder o fôlego e a compostura. Não me importa mais a compostura. Sei da raiva de amassar a guimba no nojo do cinzeiro, e depois cumprir a humilde sina de reacender a chama deste funeral diário. E ressurgir dele, a cada morte. Hoje à noite, eu o apresentarei à família como meu fiel casamento, com quem cumprirei bodas de sei-lá-o-quê em breve. Não imaginem que não sei do câncer, do infarto, de outros males – e os há piores – que o fumo contém. Sei do vício de chamá-lo companheiro de horas mortas, e de festas solitárias: no gesto vazio da bolsa à mão, da mão à boca, do fogo à brasa, ao ar fumaça, numa conversa muda, menosprezada e tranquila. Não, vocês não sabem o que eu sei, e sei de muitas coisas. Só não sei, meus caros, como evitar essas tais malditas Bodas.

*

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8 comentários em “Bodas – Conto (Juliana Calafange)

  1. Ana Maria Monteiro
    15 de julho de 2017

    Muito bom, Juliana, muito bom. Poderia ser eu, poderia ser qualquer fumador. Para quem fuma, e você sabe-o (só o sabem os que fumam ou fumaram) o cigarro é isso mesmo. E eu até sou casada (quase há tantos anos quanto os que fumo), mas não interessa. Existe em cada um de nós uma solidão essencial e intrínseca ao ser-se. Queiramos ou não, acreditemos ou não, vivemos sós. Melhor dizendo: acompanhados de nós; e aqui igualmente se aplica a questão de gostar, acreditar, aceitar, ou não. Será por essa razão que nunca houve o que me motivasse para deixar de o fazer. Ainda não há. Levo sempre o meu acompanhante. Como dizia Fernando Pessoa em “A Tabacaria” (e evoco esta passagem tantas vezes):

    “… saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.”

    Morreu novo. Mais novo do que sou. Fumar é-me permitido há mais anos do que lhe foi a ele. Continuar a ler coisas boas como esta também. Parabéns.

  2. Eduardo Selga
    14 de julho de 2017

    Vejam a importância do aspecto formal na construção do conteúdo da narrativa: a opção da autora pelo texto curto, reduzido a um único e denso parágrafo, potencializou muito a ideia de certa revolta com a vida e até de algum despeito relativamente a quem tem o que comemorar. Não que o enredo apenas coubesse no tamanho apresentado, mas a dimensão acaba moldando o discurso, fazendo-o contundente.

    Ainda mais interessante fica o aspecto formal diante de uma questão importante realçada no conto: o tempo socialmente medido e valorizado. Quando pensamos em tempo sempre nos vem à mente a ideia de muito, de excesso, quase nunca o seu oposto. Ora, um conto curto é uma concretização formal que não parece combinar, por ser aparentemente pouco. No entanto, é mais do que suficiente, pois tempo não é algo concreto como a forma, e sim subjetividade. Temos no conto, assim sendo, uma ótima e aparente antítese entre o conteúdo e a forma.

  3. Fil Felix
    14 de julho de 2017

    Conto muito bom! Adoro esses contos curtos, um recorte de algum momento, nos deixando cair nas profundezas da personagem e se identificar com seus conflitos. A questão levantada é a da solidão, a “paranoia da solidão”. Algo que, se não atinge a todos, atinge a maioria das pessoas. O medo de se descobrir sozinho no mundo, que no fundo é o que somos, apesar de estarmos sempre em busca de uma companhia. Seja ela social ou não, como no caso do cigarro. O Ferreira Gullar costumava dizer que a arte existe porque a vida não basta. Fazendo um paralelo com seu conto, podemos dizer que as companhias existem porque não nos bastamos. Ficar sozinho numa festa, se sentir deslocado, como a protagonista, é um martírio. Mas é só sacar o seu companheiro que, magicamente, a situação passa a ser mais tolerável. E fazemos isso a todo momento. Sempre bom ler algo que nos transporta pra outros lugares, nos faz refletir sobre determinadas questões. E fiquei pensando sobre essa coisa da solidão. Um outro ponto interessante são as “humilhações sociais”, como ela diz: “só pra me constranger”. As situações que somos obrigados a passar pelo valor social que damos à elas.

    Escrita muito gostosa, construções bonitas, como o baile entre ela e o cigarro, que funcionaram muito bem num só bloco. Só senti falta do poema que inspirou, poderia colocar aqui, se possível!

  4. Paula Giannini
    13 de julho de 2017

    Querida Juliana,

    Tudo bem?

    Gostei demais de seu conto.

    Um texto curto, mas que não precisa de mais para se aprofundar na alma da personagem.

    Quem de nós não se sente um estranho frente às inúmeras obrigações sociais do assim chamado convívio social. Em família. Existe uma espécie de contrato prévio para que uma vida pareça bem e correta na sociedade. Pessoas devem nascer, crescer, andar na linha, são cobradas para que casem, e, depois do casamento vem a eterna cobrança de que gere filho, que obtenha sucesso, enfim. Seu conto é um convite à reflexão, em meio ao desabafo da personagem. Ao nos vermos espelhados, a empatia com o trabalho é imediata. Bingo!

    O conto me remeteu também à peça de teatro “Os Malefícios do Tabaco”, de Anton Tchekhov (1887). A peça aborda igualmente as pressões sociais, do capital e do casamento.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

    • Juliana Calafange
      13 de julho de 2017

      Q legal seu comentário, Paula! Não conhecia essa peça do Tchekhov! Vou procurar pra ler! Muito obrigada! Beijos!

  5. Gustavo Araujo
    12 de julho de 2017

    Dizem que um texto é bom na medida em que o leitor se pergunta se o que acabou de ler é produto apenas da imaginação do autor ou se se trata de uma espécie de confissão. E eu confesso que fiquei nessa dúvida aqui, imaginando se a autora criou do nada esse monólogo, ou se resolveu abrir seu coração e revelar o nome de sua mais fiel companhia nas intragáveis reuniões sociais, a tortura a que volta e meia nos vemos obrigados a deixar-nos submeter. Em qualquer caso, o texto dá o que pensar. Não creio que se trata de uma ode pós ou contra o tabagismo; antes me parece uma homenagem ou uma submissão voluntária à solidão, um casamento de conveniência, pode-se dizer, daquele tipo em que, uma vez imersos, jamais nos desvencilhamos, acostumados que ficamos à rotina cândida e confortável com que nos sufoca. Enfim, um conto no mínimo perturbador, como deve ser a boa literatura. Parabéns!

    • Juliana Calafange
      13 de julho de 2017

      Gustavo, eu fui fumante. Não sou mais! Na época q escrevi esse texto ainda fumava, mas estava me despedindo. O texto foi escrito durante um curso, onde lançou-se o desafio de escrever um conto baseado na seguinte “massa de história”: uma pessoa recebe um convite válido pra 2 pessoas mas não tem nenhuma companhia pra levar.
      Eu imediatamente pensei no cigarro, pois ele é uma ótima bengala em momentos que vc se sente deslocado, sozinho em algum evento. É só acender um cigarrinho e já não estamos mais à toa, jogados e esquecidos num canto da festa. Estamos ali porque estamos fumando, ora essa! E assim o conto acabou saindo, também com a inestimável ajuda do poema do meu tio Luiz, que é fumante inveterado e fuma (escondido) até hoje… rs

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Publicado às 12 de julho de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .