EntreContos

Literatura que desafia.

Volta ao passado em certa manhã de primavera (Pak Dérm Javah Lee)

Chegou à propriedade pouco depois do amanhecer. Tinha feito aquilo de propósito. Queria rever aquele cenário: as luzes da manhã batendo nas paredes, no telhado, no jardim que ia do portão até a varanda. Percebeu, com um nó na garganta, como tudo tinha sido destruído durante a ocupação. Do telhado, pouco restava. As paredes, em grande parte, agora eram apenas um amontoado de tijolos. No jardim, algumas flores aqui e ali, perdidas em meio às ervas daninhas. Tudo, ou quase, tinha sucumbido à ganância do homem e ao terror da guerra. Tudo ali era delicado demais para resistir por muito tempo a tudo aquilo.

Lolek jamais se perdoaria por não ter voltado anos atrás. Sim, poderia ter voltado, poderia ter convencido todos a irem embora o quanto antes. Ir para longe, o mais longe possível. Em sua chegada ao vilarejo já soube por algumas senhoras a varrer o chão, sem qualquer pressa enquanto a vida passava, que Janusz, Zenon, Edward e Maria tinham partido, sem dizer o destino. Não sobrara tempo nem mesmo para isso, assim como também não tinha sobrado tempo para Natia. Avisaram-lhe que ela agora descansava na clareira, um pedido da própria moça em seus últimos momentos. Algumas pessoas do vilarejo tinham ido até lá para remover o corpo para o cemitério, para um túmulo digno, mas Antoni não tinha deixado, reagindo de forma violenta e investindo contra os que tinham tentado por diversas vezes realizar a tarefa.

Antoni. Era ele quem estava sentado na varanda da casa e agora o olhava. O fiel Antoni. Tinha ficado por fidelidade à Natia? Parecia até dizer, com o olhar, que ao menos ele não tinha abandonado tudo, que não tinha abandonado aquela mulher que jamais deveria ter sido abandonada. Se Antoni pudesse dizer algo, talvez o xingasse de todos os nomes que com certeza ele merecia ouvir.

Passou pelo que restava do portão e que já não fechava mais nada e desligou a R75, tirando os óculos e afrouxando bem o cachecol, sentindo o vento frio bater em seu rosto e pescoço. Por um tempo ficou dentro da motocicleta, aproveitando o calor do aquecimento da máquina. Talvez ele não devesse ter voltado. Um dia, porém, acordou com a sensação de que não havia mais para onde ir, enquanto não pisasse ali novamente. Durante o regresso vinha tentando se preparar, tudo poderia estar destruído, todos mortos, dizia sempre a si mesmo. Ainda que soubesse que alguns dos seus tinham sobrevivido, já não eram mais as mesmas pessoas. O que tinham vivido ali, naquela casa, tinha ficado em um passado, quando o único a se revoltar com a vida, com o mundo, era ele.

Lolek tinha ido embora porque desejava a liberdade. E Natia tinha sido a única a apoiá-lo, se era o seu desejo, além de Zenon, que o queria o mais distante dali por outro motivo, muito diferente. Impedi-lo não poderia lhe fazer bem, tinha sido o argumento de sua prima. E naquele dia ele a amou ainda mais, como nunca antes.

Não poderia mesmo continuar naquela casa. A cada novo dia a vontade de gritar ao mundo todo seu amor por Natia era ainda maior. Um amor que nascera ao vê-la caminhando, no jardim, em direção à casa. Edward e Maria, pais de Lolek, concordaram em adotar a sobrinha órfã. Tinham apenas dois garotos quase adolescentes, uma menina viria para alegrar a casa e fazer companhia a Maria. Janusz, sem poder enxergar desde o nascimento, perguntava ao irmão como era a prima. Lolek não economizava nas palavras mais belas, conhecidas em um livro de contos de fadas que Natia trouxera consigo: bela, graciosa, jovem, encantadora, a ponto de enciumar qualquer fada ou princesa de qualquer reino encantado que existira ou viesse a existir.

Parecia mesmo ter poderes de uma fada. As flores cresciam lindas no jardim sob seus cuidados. A impressão de Lolek era a de que podia conversar com os animais, todos mesmo. Até mesmo com um javali ainda bebê que tinha aparecido por ali, sem sinal de mãe ou irmãos. Tornou-se a mãe dele, ninguém tinha ousado dizer não. Mimava o bicho como se fosse um bebê. A bem da verdade, Natia era assim com todos. Tinha tanto amor dentro de si que dizia, quando menina, que precisaria ter pelo menos uns dez filhos para que pudesse compartilhá-lo todo.

Acreditava que quando a prima casasse com Zenon tudo se resolveria, mas não… Com o tempo e nada de filhos, três abortos espontâneos seguidos, Zenon chegou a culpá-lo, era quase como uma maldição de Lolek, pairando sobre eles. Queria ir para longe com Natia, mesmo com o desespero de Maria, que não aceitava se separar da sobrinha e filha adotiva. No dia seguinte, Lolek saiu sem se despedir de ninguém.

Entrou nos escombros da casa, sem que Antoni o acompanhasse. Havia um esconderijo partilhado apenas por ele e Natia, abaixo do piso do quarto ocupado por ele e seu irmão. Arrastou o que tinha sido uma cama, nem era mais possível dizer se a dele ou a do irmão e levantou as tábuas, encontrando a mala.

Dentro dela, cartas escritas por Natia e endereçadas todas a ele. Uma a uma, em todos aqueles anos. Se as contasse, saberia, havia uma escrita para cada dia. Algumas podiam até ser classificadas como apenas um bilhete, mas todos os dias, todos, ou em grande parte deles, a jovem tinha registrado algo que gostaria de lhe dizer, até não conseguir mais. Abriu várias delas e em todas na última linha ele pôde ler: “Até a volta, Lolek!”

Sentiu o assoalho estalando, guardou as missivas de volta na mala e saiu do quarto. Ao passar pela sala pegou da estante, ainda resistente em manter-se em pé o que tinha sobrado do livro que Natia trouxera consigo aos doze anos. Faltavam muitas páginas, mas ele sabia todas as histórias de cor, todas. Tinham lido para Janusz, revezando-se no papel de narrador e nas falas das personagens.

Voltou para a varanda e avisou a Antoni que ia até a clareira. Pensou em usar a motocicleta para encurtar a distância, mas resolveu ir andando. Carregou a mala consigo e minutos depois Antoni o alcançou, caminhando em silêncio ao lado de Lolek, como já tinham feito tantas vezes anos antes.

Ao chegar à clareira encontrou o túmulo de Natia, facilmente identificado por uma cruz feita com a madeira que ele reconheceu como sendo a do portão da propriedade. O espaço da cova estava todo ladeado com pedras e por cima muitas flores e folhagens. Agora ele sabia como Heathcliff se sentia com relação à separação dele e de Catherine, no romance preferido de Natia. Um dia a moça tinha lhe dito ali mesmo, naquela clareira, que os dois eram como os apaixonados do Morro dos Ventos Uivantes. Apenas no momento de sua partida foi que Lolek deu a ela alguma razão.

Olhou para Antoni. Quanto tempo mais ele viveria? Seria ele capaz de sobreviver a todos os outros que tinham vivido naquele lugar? Às vezes parecia que sim. Parecia também ter uma inteligência fora do comum. Já achava isso antes de ir embora, agora ainda mais. Perdeu a noção do tempo em meio ao silêncio da floresta, apenas os pássaros pareciam ter o direito de quebrá-lo.

Quando voltaram à casa, Lolek sentou-se no jardim, na única cadeira existente para comer um pouco de pão, queijo, passas e tomar o vinho que ainda lhe restava. Assim que terminasse de comer, partiria. Por um momento teve vontade de levar Antoni consigo. Ele caberia perfeitamente no sidecar. Olhou para o porco deitado ao seu lado e até ensaiou perguntar a ele se não gostaria de partir também.

Aliás, porco não. Javali. Natia ficava muito brava quando Lolek brincava, fazendo de conta que tinha se confundido com relação a Antoni. “Não o chame de porco, ele é um javali!” O animal tinha crescido pouco naqueles anos, em comparação com outros javalis que tinha visto. Em seu silêncio, Antoni parecia carregar toda a memória do acontecido. Por um instante, Lolek teve inveja do animal, por estar ali desde filhote, resignando-se a ser o último dos moradores da propriedade, conformado com cada acontecimento. Sob o efeito do vinho, adormeceu na cadeira mesmo.

Ao acordar, Antoni não estava mais ao seu lado. Observava o homem de longe, próximo à entrada. Lançou um olhar que pareceu a Lolek como sendo de despedida, tomando novamente a direção da clareira. Só restou a ele observar o animal distanciar-se cada vez mais, sem olhar para trás uma vez sequer.

De sua parte, colocou a mala na R75 e por um bom tempo ficou a pensar. Jamais voltar ali seria o mais certo, mas ir para onde? Fazer o quê? O problema era aquela sensação, aquela vontade de ficar. A casa, totalmente destruída, constituía um desafio. Talvez a vida agora fosse aquilo. Aprender a viver no lugar de onde sempre quisera partir. Aprender a viver sem Natia de uma vez por todas. Porque quando partira, levara-a consigo. E por ela estava ali novamente.

Voltou para o vilarejo. Precisava encontrar um lugar para ficar enquanto não fosse possível viver na casa. E pensar nos materiais necessários para a reconstrução. Não importava quanto tempo aquele desejo perdurasse, só sentia que era exatamente aquilo o que precisava fazer. Antoni ficaria surpreso quando se encontrassem de novo, no dia seguinte. Tinha certeza, um se acostumaria ao outro. Como nos velhos tempos.

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18 comentários em “Volta ao passado em certa manhã de primavera (Pak Dérm Javah Lee)

  1. Priscila Pereira
    21 de maio de 2017

    Oi Pak, eu gostei do seu texto! Gostei da citação ao Morro dos ventos uivantes, gostei dos personagens (aliás, nomes interessantes), ao contrário de alguns colegas, achei que está bem adequado a imagem. Mas preciso perguntar… porque eles não ficaram juntos, já que parecia que ela também gostava dele? Já sei que eram primos, cresceram como irmãos, mas muitos primos se casam, isso acontece bastante… Do que ela morreu?? Porque o marido dela culpava o Lolek pelos abortos?? Kk são muitas perguntas…
    Só mais uma… Foi você que fez a ilustração?? Achei a ideia de ilustrar o proprio texto genial… 😉
    Boa sorte!

    • Pak
      21 de maio de 2017

      Olá! Grato por ter gostado. Os nomes são poloneses. No entanto, não quis especificar muito o lugar onde se passa a história, assumo isso. Sim, às vezes primos se casam, mas às vezes não. Talvez não tenha ficado tão claro a época, mas isso foi durante a guerra, cidade pequena, eram outros tempos. Veja, até mesmo no Morro dos Ventos Uivantes há, sim, certa questão de parentesco, ainda que Heathcliff fosse apenas adotado, ainda assim… não é regea, mas foi isso que aconteceu. Sobre o marido culpar Lolek pelos abortos de Natia, quem sabe? Talvez como se fosse uma maldição, eu realmente quis deixar isso para o leitor imaginar. Meus textos são geralmente assim, principalmente em contos eu gosto de deixar uma parte do trabalho para o leitor… e acho que quanto a isso será meio complicado mudar… te agradeço pela leitura.

      • Pak
        21 de maio de 2017

        Regea = regra.

      • Priscila Pereira
        21 de maio de 2017

        Então Pak, obrigada pelas respostas!! Longe de mim querer que vc mude seu jeito de escrever…
        Só uma coisinha… a Catherine não se casa com o Heatcliff por que ela queria ter dinheiro e posição na sociedade e não por terem sido criados juntos… mas deixa isso pra lá né, eu gostei da sua estória do jeito que está!!

    • Pak
      21 de maio de 2017

      Sim, sim, principalmente por isso a Cath não se casou, mas no caso do Heathcliff ele se sentia meio “enjeitado” por causa disso, rs. Ah, se ele voltasse montado na grana tudo seria diferente, hehehe… Pior pra ela… ou não? =p Eu agradeço pela prosa que foi além do meu conto. Eu nem ia responder comentário algum, só depois, mas valeu a pena. 😀

      • Priscila Pereira
        21 de maio de 2017

        O que eu mais gosto nesse site é essa interação entre os participantes, acho muito inspiradora…

  2. Evelyn Postali
    21 de maio de 2017

    Oi, Pak Dérm Javah Lee,
    Gramática – Sem erros aparentes. Eu não percebi, na leitura, então, devem ser poucos.
    Criatividade – Gostei da simplicidade da história. Alguém voltando de longe e encontrando tudo mudado – o que é óbvio. Ou não. Acredito que nesse caso, a certeza de estar tudo mudado se deva à guerra ou ao entendimento de que ela modifica não só a geografia de um lugar, mas as pessoas e o relacionamento entre elas.
    Adequação ao tema proposto – Encontrei o javali, Antoni, e o personagem principal é o sujeito da capa. Também existe a mala e a conexão entre os três.
    Emoção – Despertou bem mais do que esperava ao iniciar a história e isso deve-se ao Antoni, àquela sensação de lealdade, de entendimento do outro. Essa gratidão animal que contagia e comove e apaixona. Antoni é palpável. Preciso, também, dizer que gostei da citação do romance de Emily Brontë, um dos que li na minha juventude; daqueles romances cheios de descrições e intensos sentimentos. Mas confesso que não percebi a relação entre os personagens do conto e os personagens do romance. Até porque, no romance, havia muito extremismo de sentimentos. E eu não senti isso no conto.
    Enredo – Senti confusão em alguns momentos na narrativa. No começo sabia que alguém estava de volta, mas não sabia exatamente o nome do sujeito. Então, lá pelas tantas descobri – quando ele abriu a mala e leu as cartas – soube que era Lolek. Também não ficou claro a conexão dos dois, de eles serem primos e por isso não poderem ficar juntos. De todo o modo, está bem bacana como roteiro.
    Boa sorte no desafio!
    Abraços!

    • Pak
      21 de maio de 2017

      Olá. No segundo parágrafo o narrador já o chama de Lolek… bem, a relação com o livro é que Lolek e Natia também foram criados como irmãos e além disso, eram primos, quando narra a chegada de Natia explica-se que ela é sobrinha dos pais de Lolek e que ficou órfã. Achei que fosse deixar o conto muito explicativo se desse tantos pormenores, achei também que tinha passado essas informações sem precisar ser didático. Agradeço pelo comentário.

  3. Olisomar Pires
    21 de maio de 2017

    1. Tema: Adequação inexistente.

    2. Criatividade: normal. Sujeito regressa a local do seu passado em busca de algo. Ponto alto para o javali permanecer como cão de guarda da casa e da cova.

    3. enredo: Partes bem conectadas naquilo que o texto propõe.

    4. Escrita: Não notei erros. O ritmo é lento, mas se adapta à mensagem.

    Infelizmente, não sabemos muita coisa do que aconteceu. O conto não conta, nem mostra. Surgem muito mais perguntas que respostas.

    Tem um estilo bonito de escrever, mas pára nisso. Não me cativou.

    Impacto: Baixo.

    • Pak
      21 de maio de 2017

      Tema: Adequação inexistente? Você podia explicar isso? De qualquer forma, agradeço.

      • Olisomar Pires
        21 de maio de 2017

        Olá… sim, não consegui enxergar a imagem-tema no texto. É possível que seja lerdeza minha. Se vc puder mostrá-la, reavalio.

        Até mais.

      • Pak
        21 de maio de 2017

        Lolek é o homem. Antoni, o javali. A mala foi encontrada cheia de cartas e o cara a levou com ele quando foi ao túmulo da jovem na floresta. O javali ao lado dele. Que pena…

      • Olisomar Pires
        21 de maio de 2017

        Obg pela explicação.

      • Olisomar Pires
        22 de maio de 2017

        1. Tema: Adequação presente com alterações.

  4. Lucas F. Maziero (@lfmlucas)
    20 de maio de 2017

    O conto não me agradou muito. Mas eu não digo isso para depreciar o trabalho do autor ou autora. Perdi-me em algumas passagens, e até o reli para não ser injusto. Passagens tais como: “Acreditava que quando a prima casasse com Zenon tudo se resolveria…”. Resolveria o quê? Deixar de amá-la? E por que eles não ficaram juntos?

    O que posso dizer como crítica construtiva? Ser mais criativo, talvez?

    Mas claro que tem pontos positivos, como a escrita (sem erros, que eu tenha notado); e também sobre Antoni, eu devia ter imaginado antes que era o animal!

    Parabéns!

    Obs.: Dei uma bela risada por causa do pseudônimo.

    • Pak
      21 de maio de 2017

      Olá. Não ficaram juntos por serem primos. Certo? A moça casou tendo em mente que conseguiria deixar de gostar dele, como às vezes se procede por aí. Uma pena eu estar explicando isso, significa que o que eu escrevi não foi compreendido. Parece que minha criatividade se resumiu ao pseudônimo. Valeu pelo comentário.

      • Lucas F. Maziero (@lfmlucas)
        21 de maio de 2017

        Nada disso, Pak. Pelo fato de eu não ter compreendido, não significa que outras pessoas não compreenderão. E esse negócio de comentar e dar opinião é complicado, pois nem sempre acertamos em nosso julgamento.

        Um abraço.

    • Pak
      21 de maio de 2017

      Grato pela resposta.

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.