EntreContos

Detox Literário.

Cosmo-Xerox (Fil Félix)

A Grande Lua nos observa, em transe.

Derruba seu véu, o colo desnudo.

Uma cambraia pinga da noite clara, titubeia ao vento.

Cai lentamente sobre a Rua Freitas, número 10.

Envolve uma casa em trama de mil e um fios.

Reveste portas e janelas. E lá fora, silêncio.

 

CIANO

Foi como um estalo rouco. Bárbara olhou para a janela à sua frente, parou de cortar as cenouras e repousou as mãos sobre a pia. Algo lhe passou pela mente, mas não saberia explicar o quê. Pelo canto do olho, teve a impressão de ver um vulto negro em movimento, mas não encontrou nada ao procurá-lo. Virou-se, encarando a mesa com quatro cadeiras, bem ao centro da cozinha. Um homem de pele clara e um enorme nariz a observava, com sua careca reluzindo feito diamante. “Algum problema, amor?”. Ele comentou. Mas ela estava extasiada, como se uma enorme confissão lhe fora feita, ficando sem reação. “Nada… está tudo bem”. E foi aqui que nossa história teve início, como peça de teatro às avessas. Com as cortinas alvas ainda fechadas, um espetáculo privado da vida cotidiana.

Há quanto tempo estavam casados? Sete, oito anos? Não era como uma década inteira de convivência, então porque não reconhecia seu marido naquele momento? Bárbara pensava com os próprios botões. É nessa altura em que confrontos são feitos? Em que se pergunta pelo homem que conhecera no passado? De qualquer maneira, o jantar deveria sair. Terminou de cortar as cenouras, o coentro, as batatas e os pimentões, juntou tudo e despejou em cima do porco do mato que preparava, cobrindo com um pedaço de papel alumínio, abrindo o forno e o pondo dentro. Foi um alívio tirar o avental e finalmente sentar à mesa, olhar nos olhos de… Carlos? Sim. Carlos. Ela começava a lembrar. “Acho que minha pressão baixou, tive uma tontura”. Confessou.

Um silêncio constrangedor acompanhou o casal por alguns instantes, quando foi quebrado pelos gritos de felicidade de uma garotinha, entrando aos tropeços na cozinha e jogando-se ao colo de Bárbara. “Mamãe! Senti tanta sua falta!”. Carlos fitou a criança. “Mas Olívia, não fazem nem uma hora que te coloquei pra dormir…”. Um turbilhão de pensamentos invadiu sua mente. Ela tocou a cabeleira vermelha da criança, acariciou seu rosto, virando-o para cima, para enxergá-lo com clareza. “Bárbara, tem certeza que está bem?”. E foi como se o estalo nunca existisse. Garganta molhada. A Dona de Casa encarou Carlos mais uma vez, abrindo um enorme sorriso: “está ótimo. Nunca estive tão bem em toda minha vida…

 

MAGENTA

O restante da noite foi de extrema alegria para Bárbara e sua família. Comeram uma deliciosa torta de limão. Assistiram ao final da novela das nove. Conversaram sobre casualidades e banalidades. Se é que há diferenças entre as duas conversas. Mas ela se divertia com as piadas do marido. E se impressionava com os desenhos que Olívia fez durante o dia, que ainda não tinha visto. Como dizem, de perto ninguém é normal; porém de longe, uma família unida e amorosa.

Carlos foi o primeiro a demonstrar sua vontade de dormir, bocejando alto. “Amor, acho que já vou…”, e então algo de inesperado ocorreu: seu olho esquerdo saltou do rosto e foi ao chão, rolando pelo carpete como bola de gude. “Eita, pai… deixa eu pegar para o senhor”. Olívia apanhou o olho com suas mãos diminutas, entregando-o para Bárbara. “Pode deixar que amanhã eu costuro de volta… O seu também está se soltando, filha. Deixa eu puxar de vez… Peraí… Pronto. Amanhã aproveito e conserto os dois”. Carlos se despediu da esposa com um beijo no rosto, apanhando a filha no colo e subindo para o andar de cima do sobrado. “Eu a ponho pra dormir, enquanto arruma a cozinha”.

Bárbara voltou à cozinha, encheu dois potes com água e colocou um olho em cada um, como se estivesse acostumada a isso. Rotina, sabe? O porco do mato começava a cheirar, mas ela não parecia se importar. Olhando para a janela à sua frente, mais uma vez, organizando a louça na pia para lavar, percebeu uma certa brisa acariciar a cambraia do lado de fora. Porém de branca, passou a ter tons mais avermelhados. Foi quando a campainha tocou. Secando as mãos no avental, se dirigiu à porta, imaginando quem poderia ser àquela hora. E percebeu o vulto negro correndo às suas costas, mas nada encontrou ao virar-se. Abriu a porta e reparou no rapaz curioso estacionado na soleira, de viseira neon, casaco pesado e um sorriso convidativo. Carregava uma enorme maleta numa das mãos. “Boa noite, Bárbara. Me chamo Prometeu e gostaria de lhe apresentar algo, se não for incomodar! Posso entrar?”. Ela tentou se desculpar, informando que o horário não era propício, mas Prometeu agradeceu mesmo assim e entrou na residência, atravessando a sala e sentando-se à mesa e, como por extinto, colocou a maleta sobre ela. “Sente-se, por favor. Há algo que precisa saber.

 

AMARELO

Mas quem o senhor pensa que é, pra ir entrando assim…”. “Sente-se, por favor”. Ele repetiu. Num misto de medo e euforia, ela obedeceu e encararam-se. O estranho abriu a maleta e retirou um extravagante globo de metal, objeto que chamou de Élenchos. “Bárbara, você está sob o véu das Moiras. Você precisa retirá-lo de sua casa o mais rápido possível, antes que a situação piore…”. Seu rosto não possuía expressões, era uma grande tabula rasa. Mas algo nele assustava nossa Dona de Casa e, novamente, a iguaria no forno começava a exalar seu aroma apetitoso. Eflúvios, diria! Como um furacão, Olívia desceu as escadas e correu para abraçar sua mãe. “Não acredite nele, mamãe, é tudo mentira!”. E caiu em prantos, seu outro olho ameaçando pular. “Do que está falando, filha? Você conhece este homem?”.

Olhe ao seu redor, Bárbara. Isso não é real e, lá no fundo, eu sei que você também sabe disso”. “Eu não entendo, Senhor… Prometeu? Você quer dizer que isso é um… sonho?”. O êxtase anterior voltou a pulsar por todo o seu ser, a dúvida pairando sobre a consciência. “Não, isso não é um sonho. Sonhos são feitos de desejos. A malha das Moiras é feita de possibilidades. Ela lhe cobriu e é meu dever pegá-la. Mas você precisa encontrá-la, primeiro. Os fios se materializam conforme as possibilidades que sua vida oferece, das impressões tiradas de você.”

À medida que o aroma incensava o ambiente, Bárbara ficava mais e mais enjoada. Da situação e de si mesma. O que esse homem estava dizendo? Ela não conseguia organizar os pensamentos, que atropelavam uns aos outros. Alguns, inclusive, ela tinha certeza que não eram dela. Olívia, ainda em prantos, tirou seu olho e entregou à mãe. “Me ajude…”, ela balbuciou. Mas Bárbara não teve tempo para absorver a situação, Carlos surgiu imponente à porta, prestes a explodir. Literalmente: suas veias nunca estiveram tão saltadas quanto naquele momento, esbravejando contra o convidado indesejado, seu rosto em chamas. Um único olho. Segurou Prometeu pelo colarinho, jogando-o ao chão. Bárbara abraçou a filha, pegando distância do conflito. Prometeu tentou, sem sucesso, escapar de seu agressor, lançando um ultimato: “Bárbara, lembre-se… Você não tem filhos!”. E foi como outro estalo. Ela, perdida em suas próprias lembranças, deixou uma lágrima escorrer pelo rosto.

 

PRETO

Na confusão, o Élenchos rolou pelo chão e passou a emitir um som agudo. Para Bárbara e Prometeu, não passava de um zunido chato. Mas para Carlos e Olívia, foi como as trombetas finais; os dois tamparam os tímpanos com as mãos e caíram em agonia, se contorcendo de dor. A casa, como um órgão familiar vital, gemia e tremia. A cambraia mudando de cor cada vez mais rápido, tirando impressões e mostrando possibilidades. O instinto materno falou mais alto e ela agarrou a filha em seus braços, ficando as duas acuadas num canto da cozinha. Fios dos mais diversos tipos surgiram das paredes e arremataram o corpo de Prometeu, deixando-o preso. “Lembre-se, Bárbara, só você pode mudar sua vi…”, e antes de terminar sua sentença, um punhado de meadas coloridas encheram sua boca. “Eu estava tão feliz….”.

Mas a felicidade, o que seria? E como alcançá-la? Destino, desejo ou uma possibilidade? Mais e mais linhas surgiam das paredes, enlaçavam móveis e objetos. Algumas puxavam Carlos e Olívia, como marionetes. Uma cena de tapeçaria! Bárbara segurou a filha, ambas chorando. As lágrimas escorriam sobre seu rosto e não conseguia parar de pensar no que escutara antes. Não tinha filhos. Não podia ter, como lembrou no turbilhão de pensamentos. Um cheiro de queimado passou a substituir o aroma de antes. Ela sabia onde estava o problema. Onde tudo teve início. O pensamento de que nunca daria um filho ao marido, o casamento infeliz, o jantar forçado… O ápice do baile de máscaras: o jantar. Ela lembrava. Sua alma queimava e, em prantos, soltou Olívia, que foi drenada pelas tramas dos mil e um fios.

Em meio ao caos, Bárbara levantou e se posicionou de frente à pia, fitando a janela. A cambraia colorida balançando, desfiando-se. Decidiu não pensar muito. Abriu o forno, deixando escapar uma fumaça densa e negra, retirou a forma com a ajuda de um par de luvas e despejou a iguaria no lixo. Ao voltar os olhos à mesa, encarou seu marido. Mas não era Carlos. Outro homem, de cabelos dourados. A fala, porém, foi a mesma: “algum problema, amor?”. O caos se transformou em silêncio e harmonia. O conhecimento lhe foi entregue entre um vácuo do destino e outro. Um insight, diriam, de nossa Xerazade suburbana. Passou uma vida crendo que não poderia ter filhos. Mas percebeu uma nova possibilidade, uma nova história antes de entrar no palco. Uma peça às avessas, cortinas abrindo.

 

Os fios foram cortados. A conexão, perdida.

A Grande Lua em zabumba estelar.

Como puxando a saia de uma virgem, o véu é removido.

Prometeu o guarda em sua maleta e caminha pela rua.

Ao seu lado, o símbolo da masculinidade.

Seja ele de Calidão ou de Erimanto.

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61 comentários em “Cosmo-Xerox (Fil Félix)

  1. Fil Felix
    27 de junho de 2017

    Vim agradecer as interpretações que foram feitas, algumas tão interessantes que eu jamais poderia imaginar, totalmente além do que planejei. A ideia era trabalhar com as impressões e possibilidades que temos do dia a dia. O fato da protagonista não poder ter um filho, mas com o marido atual. Em cima disso foi sendo construída a estrutura do conto, como a divisão pelo sistema CMYK (que é de impressão), cada “capítulo” com o mesmo número de parágrafos, os poemas também com o mesmo tamanho e por aí vai. O javali da imagem me lembrou os javalis da mitologia grega, relacionados a masculinidade, que aqui está queimando no forno (indicando o porque dela não conseguir ter filhos). E daí foram caindo e se encaixando os outros personagens mitológicos, como as Moiras, que tecem o destino dos gregos. Tudo numa espécie de palco de teatro. Uma “cópia”.

    Outras duas coisas que me inspiram muito: Baby Consuelo e Arquivo X. Há um episódio de Arquivo X onde uma casa é coberta por um pano, tocando uma música da Cher de fundo e um monstro invadindo (é excelente, vejam!). Coincidentemente, se chama Prometeu Pós-Moderno. O título veio da música Alma Pra Alma da Baby: “Deixar-me arrebatar/ Pelo prazer de chegar em você/ Atraída pelo imã do teu ser/ E nem que seja um segundo/ Permanecer no seu mundo/ Super-ver/ Superviva, cosmoviva no seu ser”. Só algumas referências, pra não ficar explicando (muito) esse emaranhado haha

    Alma Pra Alma

    Trailer de Prometeu Pós-Moderno

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .