EntreContos

Literatura que desafia.

Cosmo-Xerox (Mensageiro Interplanetário)

A Grande Lua nos observa, em transe.

Derruba seu véu, o colo desnudo.

Uma cambraia pinga da noite clara, titubeia ao vento.

Cai lentamente sobre a Rua Freitas, número 10.

Envolve uma casa em trama de mil e um fios.

Reveste portas e janelas. E lá fora, silêncio.

 

CIANO

Foi como um estalo rouco. Bárbara olhou para a janela à sua frente, parou de cortar as cenouras e repousou as mãos sobre a pia. Algo lhe passou pela mente, mas não saberia explicar o quê. Pelo canto do olho, teve a impressão de ver um vulto negro em movimento, mas não encontrou nada ao procurá-lo. Virou-se, encarando a mesa com quatro cadeiras, bem ao centro da cozinha. Um homem de pele clara e um enorme nariz a observava, com sua careca reluzindo feito diamante. “Algum problema, amor?”. Ele comentou. Mas ela estava extasiada, como se uma enorme confissão lhe fora feita, ficando sem reação. “Nada… está tudo bem”. E foi aqui que nossa história teve início, como peça de teatro às avessas. Com as cortinas alvas ainda fechadas, um espetáculo privado da vida cotidiana.

Há quanto tempo estavam casados? Sete, oito anos? Não era como uma década inteira de convivência, então porque não reconhecia seu marido naquele momento? Bárbara pensava com os próprios botões. É nessa altura em que confrontos são feitos? Em que se pergunta pelo homem que conhecera no passado? De qualquer maneira, o jantar deveria sair. Terminou de cortar as cenouras, o coentro, as batatas e os pimentões, juntou tudo e despejou em cima do porco do mato que preparava, cobrindo com um pedaço de papel alumínio, abrindo o forno e o pondo dentro. Foi um alívio tirar o avental e finalmente sentar à mesa, olhar nos olhos de… Carlos? Sim. Carlos. Ela começava a lembrar. “Acho que minha pressão baixou, tive uma tontura”. Confessou.

Um silêncio constrangedor acompanhou o casal por alguns instantes, quando foi quebrado pelos gritos de felicidade de uma garotinha, entrando aos tropeços na cozinha e jogando-se ao colo de Bárbara. “Mamãe! Senti tanta sua falta!”. Carlos fitou a criança. “Mas Olívia, não fazem nem uma hora que te coloquei pra dormir…”. Um turbilhão de pensamentos invadiu sua mente. Ela tocou a cabeleira vermelha da criança, acariciou seu rosto, virando-o para cima, para enxergá-lo com clareza. “Bárbara, tem certeza que está bem?”. E foi como se o estalo nunca existisse. Garganta molhada. A Dona de Casa encarou Carlos mais uma vez, abrindo um enorme sorriso: “está ótimo. Nunca estive tão bem em toda minha vida…

 

MAGENTA

O restante da noite foi de extrema alegria para Bárbara e sua família. Comeram uma deliciosa torta de limão. Assistiram ao final da novela das nove. Conversaram sobre casualidades e banalidades. Se é que há diferenças entre as duas conversas. Mas ela se divertia com as piadas do marido. E se impressionava com os desenhos que Olívia fez durante o dia, que ainda não tinha visto. Como dizem, de perto ninguém é normal; porém de longe, uma família unida e amorosa.

Carlos foi o primeiro a demonstrar sua vontade de dormir, bocejando alto. “Amor, acho que já vou…”, e então algo de inesperado ocorreu: seu olho esquerdo saltou do rosto e foi ao chão, rolando pelo carpete como bola de gude. “Eita, pai… deixa eu pegar para o senhor”. Olívia apanhou o olho com suas mãos diminutas, entregando-o para Bárbara. “Pode deixar que amanhã eu costuro de volta… O seu também está se soltando, filha. Deixa eu puxar de vez… Peraí… Pronto. Amanhã aproveito e conserto os dois”. Carlos se despediu da esposa com um beijo no rosto, apanhando a filha no colo e subindo para o andar de cima do sobrado. “Eu a ponho pra dormir, enquanto arruma a cozinha”.

Bárbara voltou à cozinha, encheu dois potes com água e colocou um olho em cada um, como se estivesse acostumada a isso. Rotina, sabe? O porco do mato começava a cheirar, mas ela não parecia se importar. Olhando para a janela à sua frente, mais uma vez, organizando a louça na pia para lavar, percebeu uma certa brisa acariciar a cambraia do lado de fora. Porém de branca, passou a ter tons mais avermelhados. Foi quando a campainha tocou. Secando as mãos no avental, se dirigiu à porta, imaginando quem poderia ser àquela hora. E percebeu o vulto negro correndo às suas costas, mas nada encontrou ao virar-se. Abriu a porta e reparou no rapaz curioso estacionado na soleira, de viseira neon, casaco pesado e um sorriso convidativo. Carregava uma enorme maleta numa das mãos. “Boa noite, Bárbara. Me chamo Prometeu e gostaria de lhe apresentar algo, se não for incomodar! Posso entrar?”. Ela tentou se desculpar, informando que o horário não era propício, mas Prometeu agradeceu mesmo assim e entrou na residência, atravessando a sala e sentando-se à mesa e, como por extinto, colocou a maleta sobre ela. “Sente-se, por favor. Há algo que precisa saber.

 

AMARELO

Mas quem o senhor pensa que é, pra ir entrando assim…”. “Sente-se, por favor”. Ele repetiu. Num misto de medo e euforia, ela obedeceu e encararam-se. O estranho abriu a maleta e retirou um extravagante globo de metal, objeto que chamou de Élenchos. “Bárbara, você está sob o véu das Moiras. Você precisa retirá-lo de sua casa o mais rápido possível, antes que a situação piore…”. Seu rosto não possuía expressões, era uma grande tabula rasa. Mas algo nele assustava nossa Dona de Casa e, novamente, a iguaria no forno começava a exalar seu aroma apetitoso. Eflúvios, diria! Como um furacão, Olívia desceu as escadas e correu para abraçar sua mãe. “Não acredite nele, mamãe, é tudo mentira!”. E caiu em prantos, seu outro olho ameaçando pular. “Do que está falando, filha? Você conhece este homem?”.

Olhe ao seu redor, Bárbara. Isso não é real e, lá no fundo, eu sei que você também sabe disso”. “Eu não entendo, Senhor… Prometeu? Você quer dizer que isso é um… sonho?”. O êxtase anterior voltou a pulsar por todo o seu ser, a dúvida pairando sobre a consciência. “Não, isso não é um sonho. Sonhos são feitos de desejos. A malha das Moiras é feita de possibilidades. Ela lhe cobriu e é meu dever pegá-la. Mas você precisa encontrá-la, primeiro. Os fios se materializam conforme as possibilidades que sua vida oferece, das impressões tiradas de você.”

À medida que o aroma incensava o ambiente, Bárbara ficava mais e mais enjoada. Da situação e de si mesma. O que esse homem estava dizendo? Ela não conseguia organizar os pensamentos, que atropelavam uns aos outros. Alguns, inclusive, ela tinha certeza que não eram dela. Olívia, ainda em prantos, tirou seu olho e entregou à mãe. “Me ajude…”, ela balbuciou. Mas Bárbara não teve tempo para absorver a situação, Carlos surgiu imponente à porta, prestes a explodir. Literalmente: suas veias nunca estiveram tão saltadas quanto naquele momento, esbravejando contra o convidado indesejado, seu rosto em chamas. Um único olho. Segurou Prometeu pelo colarinho, jogando-o ao chão. Bárbara abraçou a filha, pegando distância do conflito. Prometeu tentou, sem sucesso, escapar de seu agressor, lançando um ultimato: “Bárbara, lembre-se… Você não tem filhos!”. E foi como outro estalo. Ela, perdida em suas próprias lembranças, deixou uma lágrima escorrer pelo rosto.

 

PRETO

Na confusão, o Élenchos rolou pelo chão e passou a emitir um som agudo. Para Bárbara e Prometeu, não passava de um zunido chato. Mas para Carlos e Olívia, foi como as trombetas finais; os dois tamparam os tímpanos com as mãos e caíram em agonia, se contorcendo de dor. A casa, como um órgão familiar vital, gemia e tremia. A cambraia mudando de cor cada vez mais rápido, tirando impressões e mostrando possibilidades. O instinto materno falou mais alto e ela agarrou a filha em seus braços, ficando as duas acuadas num canto da cozinha. Fios dos mais diversos tipos surgiram das paredes e arremataram o corpo de Prometeu, deixando-o preso. “Lembre-se, Bárbara, só você pode mudar sua vi…”, e antes de terminar sua sentença, um punhado de meadas coloridas encheram sua boca. “Eu estava tão feliz….”.

Mas a felicidade, o que seria? E como alcançá-la? Destino, desejo ou uma possibilidade? Mais e mais linhas surgiam das paredes, enlaçavam móveis e objetos. Algumas puxavam Carlos e Olívia, como marionetes. Uma cena de tapeçaria! Bárbara segurou a filha, ambas chorando. As lágrimas escorriam sobre seu rosto e não conseguia parar de pensar no que escutara antes. Não tinha filhos. Não podia ter, como lembrou no turbilhão de pensamentos. Um cheiro de queimado passou a substituir o aroma de antes. Ela sabia onde estava o problema. Onde tudo teve início. O pensamento de que nunca daria um filho ao marido, o casamento infeliz, o jantar forçado… O ápice do baile de máscaras: o jantar. Ela lembrava. Sua alma queimava e, em prantos, soltou Olívia, que foi drenada pelas tramas dos mil e um fios.

Em meio ao caos, Bárbara levantou e se posicionou de frente à pia, fitando a janela. A cambraia colorida balançando, desfiando-se. Decidiu não pensar muito. Abriu o forno, deixando escapar uma fumaça densa e negra, retirou a forma com a ajuda de um par de luvas e despejou a iguaria no lixo. Ao voltar os olhos à mesa, encarou seu marido. Mas não era Carlos. Outro homem, de cabelos dourados. A fala, porém, foi a mesma: “algum problema, amor?”. O caos se transformou em silêncio e harmonia. O conhecimento lhe foi entregue entre um vácuo do destino e outro. Um insight, diriam, de nossa Xerazade suburbana. Passou uma vida crendo que não poderia ter filhos. Mas percebeu uma nova possibilidade, uma nova história antes de entrar no palco. Uma peça às avessas, cortinas abrindo.

 

Os fios foram cortados. A conexão, perdida.

A Grande Lua em zabumba estelar.

Como puxando a saia de uma virgem, o véu é removido.

Prometeu o guarda em sua maleta e caminha pela rua.

Ao seu lado, o símbolo da masculinidade.

Seja ele de Calidão ou de Erimanto.

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12 comentários em “Cosmo-Xerox (Mensageiro Interplanetário)

  1. angst447
    25 de maio de 2017

    Olá, autor, tudo bem?
    O título do conto é interessante e me fez pensar em uma cópia do universo, em mundos paralelos.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado de forma implícita. O javali apresentado como catalisador assado, queimado e depois descartado. O homem da capa com a mala, imaginei bem mais jovem do que na imagem-referência. Portanto, o objetivo foi alcançado.
    Confesso que comecei a ler este conto achando que iria me entediar lá pelo segundo parágrafo. Qual não foi a minha surpresa ao me ver engolida pela trama e sem poder me conter até chegar ao ponto final. Isso foi ótimo, poder manter o interesse depois de tantas leituras.
    Reconheci Prometeu da mitologia grega e o resto “colei” dos coleguinhas. Parabéns pelo trabalho atencioso e pela habilidade com as palavras e imagens.
    Quanto à revisão, só me perturbou mesmo o EXTINTO no lugar de INSTINTO. De resto, nada me atrapalhou a leitura.
    O ritmo do texto é muito bom e se mantém harmonioso até o final. Narrativa flui sem entraves.
    Boa sorte!

  2. Gustavo Castro Araujo
    25 de maio de 2017

    Outro conto belíssimo, cheio de referências escondidas nas tramas (da cambraia?) tecidas pelas moiras. Confesso que não teria a capacidade de captá-las todas, não fosse pelo comentário abrangente e explicativo do Eduardo Selga. Creio que para a maioria de nós (para mim, pelo menos), é quase uma obrigação ler esse comentário para entender a dimensão absurdamente fantástica deste conto. Há tanto para perceber, para interpretar que certamente uma só leitura não basta. É preciso retornar algumas vezes para perceber a profundidade da prisão em que a protagonista se encontra, separar sonho de realidade, ou melhor, possibilidades infinitas da realidade. As tramas, os olhos, até o javali assando no forno, tudo contribui para a composição de um enredo em várias camadas, surpreendendo o leitor a cada vez. Provavelmente eu não teria condições de perceber sozinho o quanto este conto tem a dizer – e muito menos a maneira como o autor se propôs a fazê-lo. Uma vantagem tremenda dos comentários abertos é aproveitar o conhecimento, a experiência e a opinião alheia para aprender. Que bom que foi esse o caso. Um conto espetacular. Parabéns!

  3. Eduardo Selga
    25 de maio de 2017

    Do ponto de vista estrutural, o conto, evidentemente ligado ao gênero narrativo e portanto afeito à prosa, se abre e se fecha fora do formato prosaico. Temos, no início e no fim, a presença do poema. Como eu não acredito em acidente, quando se trata de forma textual e quando temos autor(a) evidentemente hábil, como é o caso, acho que vale a pena discorrer sobre o caso.

    Na Antiguidade, e isso se reflete ainda hoje, considerava-se literatura apenas o poema. A prosa era uma espécie de prima pobre, sem nenhuma elegância artística. Assim, o termo “escritor” passou a designar apenas o poeta. Considerando que temos no conto várias referências que nos remetem a esse período, como as Moiras, Calidão, Erimanto e Prometeu, acredito que essa escolha de início e fim relaciona-se diretamente ao princípio da coerência. Não falo de harmonia dos fatos do enredo, e sim da forma reforçando o conteúdo, constituindo, um e outro, uma só unidade.

    O poema é o princípio e a “chave de ouro”. A urdidura prosaica é, por assim dizer, “apenas” o recheio do sanduíche. Muito longe de estar negativando a escolha autoral, acho-a perfeita se levarmos em conta o construto textual.

    Os verdadeiros clássicos narrativos não morrem, ao contrários dos “clássicos” fabricados pela indústria cultural. E se tal ocorre é em função, também, de que o objeto da narrativa é universal e a forma com a qual é tratada se mostra única. Por causa dessa universalidade, os mesmos temas se repetem em todos os tempos históricos, sob diferentes abordagens e formas, fazendo com que diversas narrativas se interliguem, mesmo inexistindo intenção autoral nesse sentido, formando um grande tecido literário.

    Assim, a mitologia grega está aqui. Aliás, é parte umbilical do que se chama “alta literatura”, termo extremamente questionável, mas nesse mérito não entrarei aqui. Temos, com maior importância, acima mesmo da referência ao javali (Calidão e Erimanto), as Moiras e Prometeu.

    As Moiras, em número de três, teciam os destinos humanos, segundo a mitologia, por meio do fabrico e corte do chamado “fio da vida”. O ato dessa tecitura se mostra, em minha opinião, de modo bem explícito no discurso do personagem Prometeu, e implícito ao menos de duas maneiras: no finíssimo tecido conhecido por cambraia que, em dado momento, desfia-se enquanto balança, sugerindo a morte; na intenção da protagonista de costurar os olhos da filha e do marido. Esse detalhe, inclusive, abre espaço para uma interpretação bem interessante: Bárbara (barbaridade, barbárie, barbarizar) não apenas é vítimas das Moiras, conforme diz Prometeu (“‘Bárbara, você está sob o véu das Moiras. Você precisa retirá-lo de sua casa o mais rápido possível, antes que a situação piore…'”): ela é, metaforicamente, uma delas, porquanto se propõe a costurar os olhos, fundamentais para decidirmos nosso destino se os entendermos metaforicamente (olhos=capacidade de enxergar-se, enxergar o contexto e nele se conduzir) .

    O personagem Prometeu não é, nem poderia ser de outra forma, o mesmo da mitologia. É necessariamente outro, mas não é apenas um caso de nome idêntico: há uma proximidade quanto à função exercida. Na mitologia, ele roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens, ou seja, se postou como uma espécie de protetor da humanidade. É essa atitude protetiva que vemos no Prometeu do conto quando ele chega à casa da protagonista com um estranho objeto, o “Élenchos”, e seus conselhos um tanto fraternais e que provocam na personagem “eflúvios” que se relacionam ao desejo sexual. Os conselhos podem ser equiparados metaforicamente ao fogo, no que o domínio dele tem de positivo.

    A literatura e as artes plásticas trabalham muito a figura do Prometeu preso a correntes para ter seu fígado devorado por um pássaro e diariamente reconstituído. Pois quando lemos “fios dos mais diversos tipos surgiram das paredes e arremataram o corpo de Prometeu, deixando-o preso” temos uma alegoria desse aprisionamento.

    Outro aspecto estrutural relevante deste conto é a repetição estética, um recurso muito interessante e arriscado, mas que foi usado com maestria. Essa repetição se dá em dois níveis: o frasal, no trecho “e percebeu o vulto negro correndo às suas costas, mas nada encontrou ao virar-se” que é muito similar a “[…] teve a impressão de ver um vulto negro em movimento, mas não encontrou nada ao procurá-lo”; o conteudístico, em que ocorrem diversas repetições que lembram, lida toda a narrativa, o sofrimento repetido do Prometeu lendário, vítima diária da mesma rapinagem causada por certo pássaro.

    Temos, como exemplo de repetição, a entrada de um homem na casa: primeiramente o marido, depois Prometeu; as intromissões estabanadas da filha na cena; os olhos do pai e da filha e que, insolitamente e cada qual a seu tempo, saem do rosto, mais uma vez lembrando o Prometeu grego e seu fígado extraído pela ave de rapina.

    Falando nos olhos fora das órbitas, esse elemento é talvez o maior evidência do insólito, a estética que presidente essa narrativa. Não obstante, não é o insólito que mais grita e sim os aspectos metafóricos e simbólicos de que tenho falado até agora. Isso é muito interessante, pois a estética pela estética tende a conduzir as narrativas para um território sem sabor.

    Muito curioso um fato que pode parecer fortuito, mas que eu entendo haver grande simbolismo: a carne do porco selvagem sendo assada. Ela passa por três etapas, necessariamente ligadas à cena em questão.

    Em seu início, a assadura representa a expectativa da personagem quanto ao homem que, para ela um tanto distante, é seu marido.

    Na segunda etapa denuncia leve e reprimido desejo sexual por Prometeu, do que é exemplo o trecho “mas algo nele assustava nossa Dona de Casa e, novamente, a iguaria no forno começava a exalar seu AROMA APETITOSO. EFLÚVIOS, diria!”. O cheiro, o perfume, sabemos, está intimamente ligado à provocação do impulso sexual, e um dos sentidos de “eflúvio” é “emanação magnética que, para os adeptos do magnetismo animal, passaria do magnetizador ao magnetizado, transmitindo a este a vontade e as impressões daquele”(dicionário eletrônico Michaelis), o que sugere o nosso conhecido e fundamental “tesão”.

    A terceira fase é a carne queimada, representando certo sentimento de frustração da personagem (“ela lembrava. Sua alma queimava e, em prantos, soltou Olívia, que foi drenada pelas tramas dos mil e um fios”).

    Quero ressaltar duas construções frasais ruins. A primeira: “é nessa altura em que confrontos são feitos? Em que se pergunta pelo homem que conhecera no passado?”. Quem SE PERGUNTA não SE PERGUNTA EM QUE, de modo que o trecho ficou confuso; a segunda é “e se impressionava com os desenhos que Olívia fez durante o dia, que ainda não tinha visto”. O trecho QUE AINDA NÃO TINHA VISTO parece referir-se a O DIA, o que certamente não foi a intenção.

    Do ponto de vista gramatical quero ressaltar “mamãe! Senti tanta sua falta!” (TANTO); “mas Olívia, não fazem nem uma hora que te coloquei pra dormir…” (FAZ) e “[…] atravessando a sala e sentando-se à mesa e, como por extinto, colocou a maleta sobre ela” (INSTINTO).

  4. Andreza Araujo
    24 de maio de 2017

    Adorei o título do texto e como ele se encaixa na trama, nos sentimentos e nas reações da protagonista. Interessante notar que a imagem-tema só aparece no final, nas últimas linhas. E as primeiras linhas só fazem sentido quando a gente termina de ler o texto, pois num primeiro momento a gente não entende o que seria uma “trama de mil e um fios” (eu, pelo menos! haha).

    Gostei do modo com o javali (no forno) foi usado mais de uma vez para tentar “acordar” a protagonista, chamando-a para a realidade. E no final, Bárbara percebe, enfim, que existe uma possibilidade real em sua vida depois que o véu é removido. O ritmo da narração é muito bom, foi um texto fácil de ler e acompanhar, com uma dose certa de mistério.

  5. Sick Mind
    24 de maio de 2017

    Se eu tivesse conhecimentos prévios sobre javalis e lendas e significados e etc, minha leitura seria bem diferente.
    Comecei a gostar do conto qnd Prometeu surge na história e começa a fazer explicações, pena que ele não teve a oportunidade de nos contar mais. As cenas surreais são até interessantes e o autor(a) não precisou descrevê-las com mil palavras. Vejo potencial nessa conto e na maneira como ele foi montado, mas não tenho capacidade técnica para explicar isso ao certo. Só não gostei do título.

  6. Anorkinda Neide
    24 de maio de 2017

    Guria! voltei pra ler… e pá! as cortinas se abriram! hehe
    Sério, muito lindo e agora eu vi ali nos versos finais, Prometeu e o javali!! uhhuu, claro que a Evelyn ajudou no seu comentario 🙂
    Mas agora entendi os fios das Moiras, as possibilidades, a ilusão, o reconhecimento que pode trazer, enfim, uma mudança.
    Que bonito!
    Digamos q os fios deste conto foram muito bem traçados, eu tinha feito uma leitura rápida, q pecado o meu, nunca mais farei isso. rsrs
    Parabens pelo talento
    Abração

  7. Ricardo Gnecco Falco
    22 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação,
    permitindo-me ampliar meus horizontes literários e,
    assim, favorecendo meu próprio crescimento enquanto
    criativa criatura criadora! Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e
    todos os demais — conforme o mesmo padrão, que segue
    abaixo, ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    Muito boa. Sem erros notórios ou que atrapalhem o fluir da leitura. Parabéns!

    – CRIATIVIDADE
    Ótima. Um trabalho diferente dos demais. Conseguiu sair da mesmice dos prados, campinas, florestas, cenários apocalípticos ou demais territórios ‘javalescos’, rs! Um trabalho com uma pegada bem teatral, com intertextualidades (todas teatrais, modernas ou antigas) e que conta uma história comum, porém de forma não-linear (adoro!).

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    120% de adequação. Os 20% a mais foi por ter colocado o javali dentro do forno e os trajes constantes na foto-tema do Certame sobre a pele de um ‘vendedor’ de porta, com direito a boné brilhante.

    – EMOÇÃO
    Foi trabalhado o interior da protagonista. Seu psicológico; sonhos e frustrações. aparentemente ilógica, a história trata exatamente do emocional de Bárbara que, envolto pelo nonsense descritivo, transmite ao leitor — sem filtros — o que habita no vão do abismo existente dentro de cada um de nós, tocando o intocável e revelando o desfocado pelos véus de nossa (pseudo)razão. Eu curti! 😉

    – ENREDO
    (Muito) mais importância possui neste trabalho o inexplicável do que o tangível descritivamente. Poder-se-ia (mesóclise propositalmente provocativa) dizer que a história se trata de uma mulher à beira da meia-idade questionando-se a respeito de suas escolhas, em meio a aspirações, sonhos e medos que deixam de contraporem-se para, de maneira catártica, soarem em uníssono, trazendo-lhe paz.

    *************************************************

  8. Olisomar Pires
    21 de maio de 2017

    1. Tema: Adequação inexistente.

    2. Criatividade: Muito boa. Elemento principal é envolvido por névoa de magia, real ou inconsciente, e reproduz seus anseios para a vida que leva, quando é confrontada por terceiro (subconsciente) que a traz de volta à realidade.

    3. Enredo: As partes se conectam tranquilamente, embora o início seja um tanto lento.

    Os clichês abundam ( crise de casamento, ausência de filhos, dúvidas, fantasia), não que isso seja negativo. É apenas uma constatação.

    4. Escrita: Muito boa. Não notei erros, aliás, se estes não forem realmente sonoros, dificilmente os noto.

    Há lirismo no texto, a trama é especialmente enriquecida com o detalhe dos olhos saltando.

    5. Impacto: baixo.

    A falta de adequação ao tema, em minha opinião, prejudica a avaliação de um modo geral. É um bom texto, todavia.

    Boa sorte.

    • Mensageiro Interplanetário
      21 de maio de 2017

      Olár, Olisomar! Adorei a ideia de inconsciente/ subconsciente que comentou! Mas venho me defender haha, quando diz que não existe o tema. Os três itens da imagem estão no texto, o Prometeu, a maleta do Élenchos e o javali como a iguaria causadora da situação. Tanto que, ao ser capturado, caminha junto ao guardião, citando outros dois mitos gregos (o Javali Calidônio e o Javali de Erimanto), colocando a masculinidade em cheque. Então não vejo como inexistente, apesar de não literal. Energias cósmicas pra nós nesse desafio, camarada!! Obrigado!

      • Olisomar Pires
        21 de maio de 2017

        Olá… boa explicação. 🙂

  9. Evelyn Postali
    20 de maio de 2017

    Querido Mensageiro Interplanetário,
    Assim como a Anorkinda Neide disse no comentário, também tenho um palpite de quem é você.
    Gramática – Muito bem escrito. Sem erros. Não notei um sequer, talvez porque me envolvi na leitura por completo. Frases bem construídas. Pontos especiais para o poema.
    Criatividade – Tem algo de surreal, de poético – e não só no poema –, de mágico. Uma mistura de coisas que me encantou por completo e eu não sei dizer, apesar de, em alguns pontos, ser complexo a ponto de não ser claro, direto – mas não se pode esperar isso de um texto assim – Tem algo de alegórico, de onírico, até. E o poema me remete à mitologia helênica e às coisas mais sutis. Também tem a questão das cores: ciano, magenta, amarelo e preto são as cores que formam todas as outras cores na impressão. É um sistema subtrativo cmyk (quadricromia) diferente das cores primárias na pintura, por exemplo, que são três: azul (seria o ciano), vermelho (magenta) e amarelo. Em pintura, essas três cores formam todas as outras cores e todas as relações – harmonias – entre elas no disco cromático. Na impressão é diferente, assim como nas questões da física (luz). Achei pertinente a indicação das cores para cada parte do conto. Elas têm significado bastante diferente.
    Adequação ao tema proposto – Talvez, para uma leitura rápida, não se perceba a imagem do homem, da mala e do javali, mas a meu ver ela está dentro do poema escrito: Prometeu o guarda em sua maleta e caminha pela rua. Ao seu lado, o símbolo da masculinidade. Seja ele de Calidão ou de Erimanto.
    Emoção – Tem aquela densidade da existência, ou a leveza, não sei bem. Faz refletir sobre nossos desejos, nossas escolhas, o que é imposição da vida ou atitude nossa, sorte ou azar. Essa coisa de não termos controle algum sobre nada e, por isso, talvez, nos revoltarmos ou nos resignarmos por completo.
    Enredo – Aí é que está o ponto negativo, mas nem tanto. Negativo não é bem a palavra para ser usada aqui. Por ser muito abstrato faz o leitor se perder no entendimento. E eu vou me repetir aqui e talvez errar feio: o entendimento está no poema: desce do céu o véu de mil e um fios sobre a casa e por ser da magia das Moiras, tudo se transforma naquele lar. Quem retira o véu é Prometeu, defensor da humanidade e seu animal de estimação, o javali – símbolo da masculinidade, da força, do herói.
    Resolvi quebrar a minha resolução de publicar meus comentários somente quando atingisse umas vinte leituras para poder trocar ideias com os demais leitores.
    Parabéns pelo conto.
    Boa sorte no desafio!
    Abraços!

  10. Anorkinda Neide
    20 de maio de 2017

    Guria! Não entendi muito, não…
    Além de que o javali participa deste conto no forno, apenas, pobrezinho..
    Vou reler pra fazer um comentario mais pertinente mais tarde, ok?
    (obviamente q eu tenho uma forte e certeira suspeita da autoria deste texto..hahaha)

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.