EntreContos

Literatura que desafia.

O Colecionador (Telêmaco Augusto)

No começo, a criatura olhou-o desconfiada, mas o cheiro da cachaça e a consciência de ser, aquilo, uma corda de tabaco, a atraiu para perto da acanhada fogueira. Jürgen Einsheart parou um segundo, receoso do gesto, mas cortou um pedaço do fumo e esticou o braço para o pequeno ser oferecendo o mantimento.

O habitante da mata desmontou do animal, apoiando-se na vara que segurava. Depois, encostou o bambu fininho na árvore. Aproximou-se. Aceitou o pedaço do vício, tomando-o para si com as duas mãos em um gesto indeciso, mas delicado, como se tivesse sido presenteado com algo valioso. Depois, sentou-se com os olhos escuros, tão escuros quanto o céu daquela mata à noite, ainda grudados no caçador, e mordeu o fumo colocando um naco na boca, mascando e sorvendo o gosto forte da erva prensada, impregnada de melaço preto.

— Fala a minha língua? — perguntou, mesmo sabendo da inutilidade. Segundo os nativos, a língua falada pela criatura era tupi arcaico, misturada com outros sons; diziam ser dos animais da floresta; a língua da natureza. Outros relatavam o poder mandingueiro a ele concedido: o de reviver as criaturas mortas por caçadores.

Não obtendo resposta, o alemão cutucou as madeiras com movimentos contidos, avivando o fogo. Ainda sentado com uma das pernas dobrada para baixo da outra, abriu a garrafa de aguardente.

— Meu nome é Einsheart — apresentou-se. Soubera na vila que ninguém jamais falara com o silvícola. — Vim de longe — tentou parecer natural. — De uma terra fria, sem esses tons de verde, mas de beleza ímpar, assim como essa mata densa. — Bebeu um gole generoso da pinga e estendeu a garrafa para o convidado.

O morador da selva cuspiu a saliva impregnada da seiva do fumo. Tomou da cana devagar. Apreciou o sabor. E, como se amigo fosse, sorriu para ele.

O estrangeiro preparara tudo com parcimônia. A pequena espingarda de um tiro e os dardos tranquilizantes jaziam ao seu lado. Por um tempo, observou o nativo. A garrafa estava pela metade quando decidiu ser a hora de fazê-lo dormir. Caberia a Frederick Triumph, o contratante daquela empreitada, o trabalho de colocar a criatura no descanso eterno.

Com um movimento discreto, Einsheart girou o corpo, tomou a arma e disparou uma vez contra a criatura, atingindo-a no ombro. O segundo dardo, habilmente carregado segundos depois, acertou-a na região do peito quando ela movia-se para longe, tentando fugir da droga.

Assim que a presa fechou os olhos, ouviu-se um estrondo no céu. Quando o corpo do silvícola tombou, seu animal de estimação e montaria deitou-se caprichoso ao seu lado, obediente, resguardando-o. O caçador parou em atenção. Um vazio de sons tomou conta de tudo. A floresta emudecera.

Pingos grossos bateram de encontro às folhagens. Ele ouviu cada batida. Primeiro devagar. Depois, num crescendo, até não haver distinção entre uma e outra, tão intensamente que provocou arrepios.

A chuva caiu sem dó, escorrendo pelos cipós e outras cordas trepadeiras quando ele ajeitou o corpo do pequeno ser dentro da grande mala. O dócil javardo deixou-se capturar e seguiu com Einsheart, levado por uma corrente.

Choveu a cântaros. O acampamento foi desfeito. A bússola e um mapa detalhado da trilha foram suficientes para guiá-lo naqueles quilômetros para fora da selva encharcada até o descampado.

Ao chegar ao avião, retirou o Caapora da mala e ajeitou-o com cuidado, prendendo-o com as correntes junto do animal na parte modificada do biplano, especialmente desenhada para transportar as mercadorias. Recarregou a arma tranquilizante e ajeitou-se na cabina com a sensação incômoda de estar cometendo um crime. Reparou o mar verde ao redor. A vegetação rasteira já invadia a pista improvisada, construída há meses para a sua vinda. O sujeito que o contratara não sabia mesmo o que fazer com tamanha fortuna.

Lembrou-se perfeitamente do dia que o mensageiro batera à porta de sua modesta casa em Berlim carregando passagens de trens e navios. O destino: a América. O contrato: uma caçada no Brasil. Até aquele momento, visitar as terras brasileiras próximas da Venezuela jamais estivera em seus planos, mesmo sendo o melhor caçador de relíquias, mas Frederick Triumph mudou isso.

 

— É uma coleção estranha e… — Olhou diretamente nos olhos do ser esverdeado com membranas nos pés e mãos atrás do vidro triplo. — Intrigante…

—Algumas foram capturadas depois de muita espera. Eu participei de quase todas as ações de capturas. Contudo, na última… — Girou a cadeira de rodas e afastou-se da enorme recipiente cilíndrico. Sinalizou ao empregado para que fossem servidos de uísque.

—O senhor já tem um grupo numeroso nessa… Galeria-museu — circulou pelos receptáculos passando os olhos nas criaturas sem conseguir deixar de encará-las. Percebeu algo díspar naquele grupo extraordinário. — O que é esse aqui?

— Um Kappa. — Aproximou bem a cadeira. Naquela posição, ficou alguns palmos mais baixo que o prisioneiro. — Capturei-o com um pepino, acredita nisso?

— E aquele? É um macaco?

— Um macaco? Ora… — O norte-americano balançou a cabeça em desaprovação. — É um exemplar de Yeh-Teh. Segundo os nepaleses, ele é o resultado do cruzamento de um macaco com uma ogra.

— Qual o propósito da coleção, Herr Frederick? — Verificou o painel de controle luminoso na base do tubo. — O que está usando para evitar o autoextermínio das células? Formol? É gás o que está usando? — notou os cilindros metálicos abaixo da base. — Ele evita o ataque de bactérias? — Voltou-se para o anfitrião. — Essas criaturas não parecem estar mortas…

Dearest Einsheart… Um milhão de dólares me parece uma soma adequada para não fazer suposições ou perguntas. — O homem dentro do terno risca de giz se voltou para ele e levantou o copo de uísque em um brinde. — À peça que falta à minha coleção.

— À peça que falta à sua coleção fantástica, senhor Triumph.

— Não se esqueça do fumo e da cachaça. Não há como trazê-lo sem isso.

— É claro.

 

É claro. Desvencilhou-se das lembranças e ligou o motor. Decolou rumo a Ciudad Bolívar. O percurso só não foi tranquilo em virtude das luzes e estrondos furiosos. A tempestade o acompanhou até a Venezuela. A rota planejada encurtou o trajeto entre o solo brasileiro e seu destino, a fronteira mexicana, com paradas estratégicas no Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Guatemala.

Aterrissou com dificuldade na pista irregular com o X5665. Três dias de voo.  Estava em Ciudad Acuña, poucos quilômetros distante da fronteira com os Estados Unidos. Antes mesmo de desligar o motor, recarregou a Walther 38. Não confiava no contratante norte-americano, apesar de ter recebido em espécie parte do pagamento. Ouvira boatos sobre as mortes dos contratados por ele, por isso, ao deixar o monomotor dobrou a atenção.

Tampouco confiou o transporte terrestre a alguém. Não viu necessidade de dopar o silvícola mais uma vez e ajeitou-o dentro da grande mala. Certificou-se de a corrente estar prendendo o pescoço do porco selvagem e seguiu com a mercadoria até a propriedade de Triumph.

Foi levado para a grande sala da mansão, aquela na qual já estivera.

My dear Einsheart!  Vejo que trouxe minha encomenda. — Apertou um dos botões do painel e o tubo gigante ejetou-se da superfície de metal. — Pode colocá-los aqui. — O homem movimentou a cadeira de rodas.

Herr Triumph.

Sus scrofa — o colecionador olhou diretamente para o pequeno e singular javali. — Teve trabalho em trazê-lo? — E, diante da resposta negativa, continuou: — Ele é, digamos, a extensão do Caapora.

— Que é uma criatura mágica. — Sentiu os olhos de Triumph sobre ele. — Andei lendo a respeito delas.

— Caro Jürgen… Posso chamá-lo assim? — Não esperou pela resposta. — Vamos ao que interessa. — Apontou para a bagagem.

Diante da urgência, o alemão deitou a mala no chão, tomando cuidado para não machucar o ser narcotizado em seu interior.

O javali continuou resignado àquela condição de prisioneiro. Muito tranquilo, deixou-se colocar em cima da base do tubo e assentou-se docilmente. Triumph aguardou a abertura da mala. Poderia, assim, entubar seus troféus.

O alemão puxou o molho de chaves do bolso interno da capa. Destravou os cadeados laterais e ergueu as presilhas.

— Não tem pena de matar essas criaturas?

A pergunta de Einsheart soou avessa, como uma ofensa. O norte-americano moveu de forma brusca a cadeira de rodas para perto da mesa de tampo metálico e abriu uma das gavetas, retirando duas ampolas cujo conteúdo amarelado cintilou contra a luz. Abeirou-se do tubo onde o javardo fora colocado e acionou um dos botões. Abriu-se um orifício na parede da base e dela saíram dois suportes com canos condutores. Triumph encaixou as ampolas.

— Estamos perdendo tempo, Mr. Einsheart. Abra a mala e coloque o Caapora junto da montaria para eu completar minha coleção — ordenou arrogante e com urgência. — O restante do pagamento estará em suas mãos assim que eu conferir a encomenda.

Einsheart separou a terceira chave e destravou o cadeado principal.

Assim que a mala foi aberta, Triumph parou extasiado com a visão da pequena criatura perfeitamente encaixada naquele espaço. O brilho dos olhos e a mudez momentânea do colecionador não deixaram dúvidas: ali se encontrava um espécime ímpar.

O caçador se agachou e passou uma das mãos por baixo do pescoço do silvícola, envolvendo o tronco com o outro braço. Nesse momento, ouviu-se um gemido discreto, um sopro saído com sofreguidão. Desconsiderando isso, Einsheart ergueu-o, tirando-o para fora da mala. Foi quando o Caapora abriu os olhos e o encarou.

O javardo, sentado, ergueu-se em um movimento ligeiro.

Com a mesma rapidez com que abriu os olhos, o silvícola agarrou-se aos braços de Einsheart, que, assustado, cambaleou de ré, em um misto de assombro e medo.

— Segure-o! Leve-o até o cilindro! Rápido! — Triumph ordenou histérico e lançou a cadeira para trás, em direção de uma mesa. — Não o largue!

Einsheart, contudo, não conseguiu agir, paralisado do susto. Viu o javali saltar da base cilíndrica em sua direção. Tentou largar o Caapora e se arrastar para perto de outro cilindro, mas o silvícola prendeu seus braços e o afrontou com o olhar. Na cabeça do caçador, aquele era um sinal de combate, de vingança pela traição.

Triumph abriu a última gaveta e retirou uma pequena espingarda. Com rapidez alimentou-a com um dardo tranquilizante. Tentando ser ágil em sua limitação, o homem girou a cadeira e apontou-a para o Caapora sem, contudo, ser bem-sucedido. O porco, até o momento, parado, saltou em sua direção abocanhando uma das pernas. A arma disparou, mas o alvo foi outro. O alemão foi atingido pelo dardo no pescoço. O corpo adormeceu rapidamente das extremidades para o tronco. Ao perder a sensibilidade nas pernas, caiu de joelhos. Os braços penderam para baixo e o Caapora saltou para longe quando o alemão despencou caindo parcialmente em cima da mala aberta.

O javardo correu para perto de seu dono e os olhos do pequeno ser brilharam ao pronunciar as palavras em tupi-guarani antigo. Nesse momento, o colecionador se deu conta do efeito inevitável. Ao usar o encantamento, o Caapora fez acordar as criaturas.

O primeiro a abrir os olhos foi o Yeh-Teh. Forte, e percebendo estar preso, urrou enraivecido e bateu de encontro ao tubo, provocando uma fissura. As pancadas subsequentes quebraram parte do tubo, deixando o gás escapar. Logo, o enorme bicho respirava em cima de seu algoz, arrancando-o da cadeira e arremessando-o de encontro a outro cilindro com força descomunal.

A cadeira de rodas, jogada a seguir, bateu contra o tubo onde o Kappa estava preso, provocando sua quebra. As outras criaturas despertas, dando-se por conta da situação, também utilizaram a força para escapar das redomas, derrubando os cilindros.

O Yeh-Teh e o Kappa saíram por primeiro, arrebentando a porta, abrindo caminho. As outras criaturas libertas seguiram depois.

Somente o Caapora e o javardo ficaram.

Aproximando-se do norte-americano, o pequeno ser da mata cutucou-o com um dos pés. Observou-o com prudência. O colecionador estava morto. Isso bastava. O Caapora montou no pequeno javali e passou próximo do alemão, ainda sob o efeito do tranquilizante. Deu uma boa olhada no caçador. Depois, contemplou a destruição merecida daquele espaço de tristeza e seguiu para fora.

O caminho era longo até as terras brasileiras, seu lar, mas ele estava livre, assim como as outras criaturas.

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2 comentários em “O Colecionador (Telêmaco Augusto)

  1. Olá, Telêmaco,
    Tudo bem?
    Gostei da lembrança do Caipora no desafio. Afinal, a lenda “cavalga” um Javali. O desafio Folclore passou, mas a menção a ele prova que a fonte é inesgotável.
    Imaginar um perverso colecionador de criaturas, mitos e lendas, capturando seres em todo o mundo, foi no mínimo criativo. Uma boa abordagem à figura da lenda e, mais que isso, do Javali. O porco é quase um coadjuvante até o momento final, mas está lá, “vivo”. Um personagem rico dentro da história e talvez até mais cativante que os protagonistas.
    Chegamos a sentir pena dos seres na cena em que o tubo vai se revelando para o momento do “abate”.
    O conto tem um quê de antigos filmes de caça na África. Não sei o motivo de a narrativa ter me remetido a essa imagem. Talvez pelo modo com que o autor conduz a trama.
    Os diálogos dentro do trabalho estão bem desenvolvidos e naturais. A escrita flui bem e é muito competente.
    Adorei o trabalho na imagem.
    Parabéns e boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  2. Anorkinda Neide
    20 de maio de 2017

    Olá!
    Então aqui vc trouxe o Caapora… será q vc, autor(a) não conseguiu participar do desafio do folclore brasileiro e ficou com a criatividade acumulada? hehehe
    Eu gostei do texto, ele flui legal, cheguei até o final sem dificuldades nem ressalvas. Achei mesmo competente a estrutura, as frases, o desenrolar da historia. Só achei q a história nao brilhou muito, pra mim, questão de gosto mesmo. Não consegui me apegar aos personagens, talvez faltasse um pouco de detalhes na construção deles, entendendo que o limite de palavras atrapalha.
    Mas é um bom conto, bom concorrente. Parabéns
    Abraçao

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.