EntreContos

Literatura que desafia.

Eles não gostam de porcos (Friedrich Norstand)

I

Dor. No início era apenas dor, e escuridão. Tentou mover o braço direito, tamanho foi o rasgo que sentiu que parou. Onde, quando e por que eram apenas perguntas fantasmas que assombravam seus relapsos de consciência. Sentia um gosto ferroso em sua boca. Algo quente escorria em sua testa e começou a entrar em seu olho esquerdo e turvar sua visão. Sangue? Era sangue. Então tudo virou sombras novamente. Quando recobrou os sentidos não sabia quanto tempo tinha se passado, minutos? Horas? Dias? Sua visão embaçada indicava muita luz, deve ser dia, o odor nojento que emanava fez ele repensar se gostaria mesmo de saber onde estava. Usou toda sua força consciente para se lembrar como foi parar ali, seja lá aonde “ali” fosse, antes que apagasse novamente. E com grande esforço mental começou a se lembrar…

…Eles não gostam de porcos, não me pergunte o porque. Simplesmente não gostam, quando um suíno chega perto eles começam a guinchar, berrar e a fazer sons gorgorejantes tão grotescos que me lembram vísceras, não aquelas organizadas e bonitinhas das aulas de anatomia, se parecem mais como os filmes de terror gore que os americanos curtem, cheios de tripas voando e se espalhando, intestinos e cérebros tão misturados que mal da para distinguir os dois, muitos litros de sangue, etc. Mas voltando aos porcos, são o único método de chegar perto deles sem ser destroçado, essa é uma daquelas regras de monstros da literatura que não precisam fazer sentido, o vampiro é alérgico a alho, o lobisomen só morre com prata, esse tipo de tosquice, me lembro de quando…

O resto da carta estava rasgada.

“Merda” pensou o velho, tantos anos de busca por informações e no primeiro viés de esperança se deparar com algo que já sabia, que todos os que sobreviveram deveriam saber, é desconcertante. O velho então se levantou da cadeira decrépita que protestou com rangidos, seus ossos doloridos e juntas desgastadas soltando lampejos de dor a cada movimento por conta do frio e do esforço acumulado dos anos de vida nômade, ele então deu uma última vislumbrada na cabana e no corpo de seu antigo dono que, mesmo restando uma carcaça já putrefante, ainda dava para identificar a causa de sua morte precoce, “Deus não vai perdoar você” sussurou o Velho olhando para o buraco de bala que atravessava o crânio do cadáver e testando a Glock 9mm que o morto segurava, a ação do frio e do tempo tornara a arma inútil, o Velhor então pegou sua mala de couro e saiu da choupana, não sem antes olhar para o quadro em que estava escrito “Aqui mora uma família feliz”.

“Pumba” chamou o Velho, seu único amigo nos últimos anos então apareceu, um javali castanho-escuro de 90 cm de altura, o nome, referente a um desenho cujo dono guarda lapsos de recordação nas penumbras de suas lembranças da infância, pareceu ser bem apropriado. Ambos seguiram pelos caminhos escuros daquela floresta ancestral, uma atmosfera tão opressora que até mesmo o ar parecia denso, quase palpável. Após algumas horas de caminhada encontraram uma cabana, parecia ter no máximo 50 anos, uma estrutura recente, porém com um aspecto de ruína impresso em sua aura, fazendo-a parecer abandonada havia eras. A fome começou a castigar os estômagos e ânimos da dupla de amigos, o Velho então soltou o suíno de sua corrente e foi adentrar na nova/velha moradia.

II

Depois da quarta tentativa a porta cedeu, e o invasor foi ao chão junto dela. Ao se levantar, a primeira coisa que notou foi que o ambiente interno estava muito bem preservado, ao contrário do exterior que apenas indicava decadência. A sala de estar/jantar/cozinha tinha móveis antigos porém intactos, o cheiro do pó e dos anos enchia o lugar, seus olhos então caíram direto no armário, de carvalho ou semelhante, ao abrir veio a decepção, apenas um óculos e sobretudo de aviador, o Velho então preferiu ignorar os questionamentos internos, ele parou de questionar o modo como as coisas são desde que Eles chegaram, pegou as suas novas vestes e as provou, se mostraram ótimas para o frio, ele então se permitiu escapar um leve sorriso, um fiapo de sorte em meio a um mar de morte e azar. O resto da casa estava vazia, por excessão de duas latas de feijão conservados esquecidas, que o Velho e Pumba dividiram vorazmente, os conservantes fizeram seu trabalho. A noite estava chegando e com ela a escuridão e o medo, primitivo e ansioso por vitímas, o Velho não queria passar a noite na penumbra, decidiu então que passariamessa noite naquela propriedade, Pumba, porém, dormiria fora da cabana, como forma de proteção, o senhor sobrevivente então bloqueou a porta com um sofá pesado e foi dormir. O sono do Velho era leve, fruto dos anos de sentinela e estado de alerta em que vivia, porém isso não o impedia de sonhar.

Sonhou que era a escrita, e que ganhava vida, indo para cima e para baixo no horizonte da imaginação, e então foi para baixo, muito baixo, para o fundo, tão fundo que chegou em cantos abissais do universo, lugares povoados por criaturas escamosas e peludas, cósmicas em sua essência, cujos olhos pálidos necrosados aspiravam a morte, a escrita então foi mais fundo, fugindo das criaturas perversas de olhos lunares, e no limiar do universo ela quebrou a barreira da realidade, encontrando assim o lar da luz e da vida, tão imensurável em sua beleza que nunca seria permitido sua mera concepção para seres não-transcedentais, e então a escrita foi  explorar essa outra noção de realidade, porém em sua contemplação ficou distraida e foi puxada pelos seres irreais da escuridão de volta para aquele canto galático de infinita profanação mortal e necrofilía espacial. Lutou para se libertar daquela fossa intergalática maldita, e após milhões de anos de luta se viu livre da escuridão, e subiu novamente até encontrar a humanidade e foi ao encontro daqueles seres primitivos e lhes deu um pedaço de seu dom, criando assim…

Ele ouviu algo abaixo de si.

III

Acordou num salto e sentiu lágrimas escorrendo em sua face, “eu sonhei?” se perguntava, mas não recordava de nada, perdendo para sempre sua única lembrança de sua forma ancestral.

Com grande força para a idade ele moveu a geladeira de lugar para bloquear a porta, descobrindo assim uma espécie de passagem para o porão, uma pequena “porta” de um metro quadrado com uma corda para levantar. Meditou se deveria descer, depois de discutir muito consigo mesmo e perder a discussão decidiu investigar. Pegou sua velha pistola na maleta e suas duas úlltimas balas, carregou a arma, puxou  a corda que levantava a abertura e sentiu.

O cheiro que invadiu suas narinas era de morte, não a morte que ele estava acostumado, de corpos nausabundos apodrecidos esquecidos pelo tempo, o cheiro de morte subterrâneo que fez o Velho vomitar questiona o próprio conceito de vida e morte, como se essa dualidade fosse tão complexa quanto uma criança que chora clamando pelo amor de sua mãe após ralar o joelho. A essência obscura da morte estava lá, cheia de ódio, deseperança e do vazio, o vazio que te faz sentir como nada em relação ao tudo, um vazio que não pode ser preenchido, um vazio que fez o Velho ter certeza de que não existe um Deus.

Ele começou a descer os degraus podres que levavam ao subsolo, não era uma descida longa, mas a escuridão e o medo fazem tudo ficar virtigioso, Pumba não poderia acompanha-lo, pois a escada reta não fora projetada para suínos. Degrau após degrau ele chegou no porão, o odor ficando cada vez mais penetrante em suas entranhas, o náusea correndo do seu estômago ao seu cérebro. No final da escada tinha um corredor com uma porta aberta no final, a penumbra intensa só não era completa por causa dos fósforos que ele levava no bolso da calça por precaução.

Ao tentar abrir a porta ela desprendeu do trinco e caiu, viu a silhueta de três abominações amórficas e algo gosmento foi jogado em seus olhos. “Esse é o pior cenário possível” pensou o Velho tirando o poderoso alucinógeno dos olhos e se virando para correr, e ao limpar completamente os olhos enquanto corria percebeu que a escada parecia estar a 100 metros de distância, a distração causada por essa alteração da realidade o fez tropeçar e cair no escuro, bateu forte a cabeça no chão, viu estrelas de dor e sentiu o sangue escorrendo, retirou rapidamente sua arma do bolso do sobretudo e apontou para a escuridão, percebeu estar logo abaixo da abertura. “Mas como?” se perguntava, antes que pudesse tentar a escalada foi puxado pelos tornozelos, atirou duas vezes e ouviu um grito de dor animalesco e um deles caiu em cima dele, seu corpo negro tapou sua visão e com força ele jogou o corpo de lado, não sem antes sentir a pele da criatura, era escamosa e fétida, cheirava como uma mistura maldita de necrose e sangue, antes de perceber o que se passava sentiu grossas garras grudarem em seu ombro direito, atravessando carne, nervos e ossos, as bestiais unhas então subiram e saíram do corpo enrugado do Velho, uma dor tão infernal que fez sua mandíbula se contrair tão forte que quebrou vários dentes, olhou para o seu ombro e viu seu braço direito pendurado por um resquício de ombro e uma grande poça de sangue se formando ao seu redor. Em um estado de semiconsciência o Velho já havia desistido, a fim dessa jornada era inevitável, ele sentiu uma serenidade quase religiosa ao ver a dupla de entidades restantes se aproximando.

Pumba sentiu o perigo, ao ouvir a barulheira subterrânea ele se jogou contra a porta várias vezes, forçando com cada vez mais desespero, ele sabia que seu amigo precisava de ajuda, e batia e batia na porta, a dor e as feridas que abriam em seu focinho não iriam impedi-lo, sentia a porta se mover até que finalmente a brecha ficou larga o bastante para ele passar, sua cabeça rodava e sentiu um relaxamente nas pernas, ele não sabia como funcionavam danos ao sistema nervoso, cambaleante, seguiu seu olfato apurado que indicava algo muito forte e odioso a sua frente.

Ele sabia que ia morrer, apenas desejava que fosse rápido, que não ficasse assistindo horrorizado ser despedaçado e devorado. Um guincho agudo rompeu o ar, as criaturas recuraram temerosas. Pumba surgiu na beirada da abertura, se jogou no porão e caiu pesadamente, se levantou com muita valentia, se arrastou até o corpo de seu irmão de vida nômade e se aconchegou nele, enquanto os seres apocalípticos, que, estando incapazes de fugir pela única saída, começaram a berrar, como se estivessem sendo torturadas com óleo fervente, como se uma dor diabólica estivesse rasgando seus órgãos internos e cuspindo fogo em suas feridas abertas, e enquanto observava essa cena extasiado, o Velho nem notou que desmaiava…

E foi de tudo isso que o Velho se lembrava, moveu o braço esquerdo para o lado e sentiu o corpo peludo de seu salvador que estava dormindo, sua visão estava mais nítida agora e apenas viu três montes de poeira no corredor do porão, “Foi Pumba que os matou? Foi a luz?” perguntava com amargor, seu braço direito permanecia precariamente pendurado, a poça de sangue estava seca, pouco sangue saia da quase amputação, o Velho sabia que iria morrer, apenas queria não ter sido de uma forma tão desgastante, passaram-se algumas horas de dor agonizante até que a morte chegasse, descobriu que eram falsas as alegações de que a vida passava diante dos olhos nos segundos finais e, mais importante, que existia uma luz do outro lado. Pumba sentiu fome, o cadáver ainda quente de seu amigo estava delicioso, provar carne humana foi uma experiência muito saborosa, e serviu para que o suíno-selvagem vivesse mais alguns dias antes de a sede o abater.

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7 comentários em “Eles não gostam de porcos (Friedrich Norstand)

  1. Olá, Friedrich,
    Tudo bem?
    Você criou um conto apocalíptico, estruturado em 3 capítulos e dando a impressão de que sabia bem que história contar. Sua premissa é interessante, assim como a narrativa. A ideia de que as criaturas do mal, não gostam de porcos – no caso aqui javalis -, bem como a de que seu personagem, por este motivo, caminha errante a fim de se proteger é bem interessante.
    Entendi que a referência ao personagem do Rei Leão na vida do protagonista é, justamente, para mostrar ao leitor que a trama se passa em um futuro próximo. Mas, ainda assim, arrisco dizer que você seja um(a) jovem autor. Digo isto porque gostaria de tocar aqui em um assunto muito importante para todos nós escritores. Todo profissional precisa conhecer bem seu instrumento de trabalho. Em nosso caso aqui, profissionais ou não (já que submetemos nossos textos à leitura de outros), as palavras.
    Percebi em seu texto (não me leve a mal – só escrevo aqui para trocar experiências – no Entre Contos todos aprendemos e ensinamos) que algumas palavras estão utilizadas fora de contexto. Quer dizer, elas não significam exatamente aquilo que você queria dizer. Um exemplo: relapsos de consciência (*lapsos). Esse trecho, bem poderia ser uma brincadeira, e, esse lapso, pode até ter sido obra do corretor de texto, mas, ainda assim, quis deixar registrada a importância da semântica na vida de um autor.
    Sobre a trama em si. Como já disse. Gostei. Você consegue manter seu leitor atento e ainda cria cenários muito bons, densos e interessantes.
    O porco comer o amigo no final foi bem forte e nada inverossímil. É sabido que até cachorros comem-se uns aos outros e mesmo a seus donos, depois de mortos, caso precisem se alimentar e não encontrem outras fontes. A lei da natureza é cruel.
    Parabéns por escrever e boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  2. Priscila Pereira
    25 de maio de 2017

    Oi Autor(a), seu conto tem uma pegada interessante, um tom de suspense bem legal. Acho que é o terceiro que leio sobre o fim do mundo… essa imagem inspirou o apocalipse mesmo… achei o sonho do personagem desnecessario para a trama, e o final totalmente desiludido foi meio que um balde de agua fria. Precisa de uma boa revisão, leia lentamente em voz alta, com certeza você achará os outros erros. Boa sorte!!

  3. Milton Meier Junior
    25 de maio de 2017

    De início o conto desperta interesse, mas no seu decorrer os erros gramaticais e especialmente de digitação são tantos que acabam tirando a atenção do leitor. A história em si já é um pouco confusa e exige uma certa atenção, mas com tantos erros o leitor acaba perdendo a paciência. Pelo menos, foi o meu caso. Revise melhor da próxima vez, prezado autor.

    • Friedrich Norstand
      25 de maio de 2017

      Obrigado pela avaliação Milton.
      Eu revisei o conto e encontrei dois erros, não é o bastante para como o seu comentário descreve, outro comentário também se referiu aos erros gramaticais, sendo que não encontrei todos esses erros, eu encontrei “nausabundos” e “passriamessa”

  4. Ana Monteiro
    24 de maio de 2017

    Olá Friedrich. Fiquei com a ideia de que o seu conto não foi revisto, tem muitos erros e provavelmente são todos de digitação. Não irei enumerá-los a menos que mo peça, mas aconselho a que reveja pois são em alguma quantidade. Um pormenor que também notei, embora considere de somenos, foi o facto do velho chamar Pumba ao amigo em virtude duma qualquer memória de infância. Pumba é um personagem com pouco mais de 20 anos, incompatível com memórias infantis de idosos. Como digo é de somenos, mas eu própria já cometi erros deste tipo e isso prejudicou a qualidade da minha escrita perante terceiros – algo que passei a evitar e que, sempre que vir, tentarei também ajudar a que não suceda a outros. O conto está bem, desenvolve os personagens, cria algum suspense e tem um final amoral, tal como aprecio. Adequa-se ao tema proposto, sem colar, mas o suficiente. Torna-se credível dentro dum universo imaginário. Obrigada pela leitura. Boa sorte.

    • Friedrich Norstand
      24 de maio de 2017

      Muito obrigado pela sua avaliação Ana.
      Só gostaria de apontar que o Pumba ser parte das memórias de infância do velho é para demonstrar que a estória se passa num futuro consideravelmente distante

  5. Pedro Luna
    21 de maio de 2017

    No geral, achei um conto bacana.

    O ponto alto é essa ideia de criatura que teme o javali. Então a figura do personagem me veio como a de um van helsing, um caçador de criaturas, com a sua arma secreta ao lado. Uma ideia que permite muitas possibilidades de estorias.

    Agora, de ponto fraco só vi o final. A reviravolta com Pumba e o cadáver não foi uma boa sacada, na minha opinião. Destrói a imagem do companheiro fiel que tinha sido criada, e mesmo que seja possível, pois é instinto do bicho, quebrou um pouco o clima e achei meio forçado para criar impacto.

    Também notei algumas coisinhas, como: “Com grande força para a idade ele moveu a geladeira de lugar para bloquear a porta”, mas ele já não tinha bloqueado a porta com um sofá ou entendi errado?

    Bom, no geral, boa leitura.

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.