EntreContos

Literatura que desafia.

Devaneio Improvável (Ricardo Falco)

— Claro; senta aí, irmão!

— Valeu. Deixa só eu tirar essa capa…

— Tá de moto, né?

— Está tão na cara assim?

— Literalmente, parceiro… Esse oclinho aí delata!

— É verdade…

— Só não sei é como é que tu fez com esse malão… Veio montado nele?

— Quase…

— Pode pôr aqui embaixo da mesa. Isso…

— Obrigado.

— Bigode! Ô, Bigode! Traz mais uma aí e outro copo, por favor… Fuma?

— Não, valeu… Parei.

— Fez bem. Eu não consigo…

— Vício é foda.

— Verdade… Mmm… Como você conseguiu?

— Foco e determinação.

— Porra! Ouvindo você falar isso parece até fácil, parceiro!

— Nada é fácil…

— Fato… Fato! Mmm… Põe aí, Bigode! Obrigado.

— Valeu… Saúde.

— Saúde, parceiro!

— A propósito, me chamo Fernandes.

— Opa! Prazer, Fernandes! Meu nome é Ezequiel.

— Obrigado pela cerveja, Ezequiel.

— Tâmus aí, parceiro. Então, Fernandes… O que te traz por estas bandas?

— Estou de mudança. Saindo da cidade e deixando alguns fantasmas para trás…

— Podes crer… Todos estamos, né? Vivemos em constante mudança. Só não sei é se estamos mudando pra melhor, ou pra pior…

— Exatamente, Ezequiel! Essa é a grande pergunta.

— Então… Um brinde às mudanças!

— Sim, um brinde…

— Saúde!

— Saúde.

— Mmm… Se me permite a indiscrição, grande Fernandes… O que você está deixando pra trás? Conta aí a sua história, parceiro!

— Ah… Minha história não é nada interessante, Ezequiel… É bem simples, na verdade. E triste. Dá até pra resumir em uma linha…

— Uma linha?

— É… Em uma frase.

— Que seria…

— “Uma linda história de amor com um final trágico”.

— Nossa… Por que trágico, Fernandes?

— Porque terminou em desilusão.

— Putz! Mmm… E por que terminou em desilusão?

— Porque… Bem… Eu amava a minha esposa. E achava que fosse um sentimento recíproco. Mas, ela me traía… E eu descobri.

— Caralho, irmão… Que merda…

— Pois é… É muito triste. Porque a traição não reside apenas no contato sexual de quem amamos com outra pessoa; essa parte carnal é até compreensível… Mas a dor maior provém da descoberta da dissimulação, da mentira… Do ato frio e covarde de enganar alguém que te ama e que confia completamente em você. Isso é o mais decepcionante de tudo… E o mais cruel.

— Nossa… Que barra, parceiro!

— Ah… A vida é assim mesmo, Ezequiel… Cheia de surpresas. Dizem que as piores decepções vêm exatamente de onde a gente menos esperava que viessem; não é verdade?

— Podes crer, parceiro… Sinistro. Mas… Desculpe a minha curiosidade mórbida… Como foi que você descobriu?

— Como diz o ditado: mentira tem perna curta.

— Isso é verdade… Mas como foi? Como ficou sabendo que ela te chifrava?

— Eu vi.

— Viu? Como assim? Você a pegou no ato?

— Sim. Vi tudo.

— Caramba… E o que você fez na hora?

— Nada.

— Nada?

— Fiquei parado, em choque, sem acreditar no que estava vendo…

— Mas… Ela não viu que você viu?

— Não.

— E onde foi isso, Fernandes?

— Em casa.

— Na sua casa?

— Sim. Na “nossa” casa…

— Quê isso…!

— Na “nossa” cama…

— Putz!

— É…

— Daqui, parceiro… Deixa eu encher o seu copo de novo…

— Obrigado, Ezequiel.

— Caraca, maluco… Não tô acreditando nisso…

— Eu também não consegui acreditar. Mesmo vendo… Demorou muito pra cair a ficha, sabe… Te digo a verdade, Ezequiel: se ela chegasse em casa algum dia dizendo que tinha sido abduzida por um alienígena, entrado numa nave espacial, dado uma volta pelo universo… Eu ia acreditar nela. Ou, pelo menos, acreditaria que ela realmente acreditava que aquilo tudo tivesse acontecido de fato. O que eu jamais iria sequer supor era que ela estivesse mentindo para mim. E olhando direto nos meus olhos… Não, isso não configurava nem como hipótese na minha mente…

— Mmm… Que merda, Fernandes…

— Depois, é claro, você vai juntando com cré e vai fazendo um apanhado mental, percebendo os absurdos e as obviedades todas que ficaram para trás. Sabe… É incrível como a gente consegue confiar plenamente em quem a gente ama e sem nem perceber o quanto isso pode ser ilógico… Ilógico e perigoso.

— Sinceramente? Eu iria perder a cabeça, parceiro! Jamais conseguiria ficar ali, parado, só olhando…

— Mas não tinha mais nada que eu pudesse fazer…

— Como não? Pulava em cima do cara; enfiava a porrada… Aliás… Nos dois! Se tivesse uma arma em casa, dava um tiro nele… E nela também! Sei lá… Fazia qualquer loucura, Fernandes!

— Já tinha acontecido. Era fato consumado…

— Você chegou depois?

— Bem depois…

— E o cara ainda não tinha ido embora?

— Já… Há muito tempo.

— Como assim? Desculpa, irmão… Agora eu não estou entendendo mais nada… Você não disse que tinha visto os dois na sua cama?

— Sim, isso.

— Então como é que o cara não estava mais lá?

— Eu só vi bem depois do ocorrido, Ezequiel.

— Ok. Agora eu é que vou encher o meu copo…

— Põe pra mim também…

— Vamos lá… Recapitulando, Fernandes… Você descobriu que estava sendo traído ao ver sua mulher com outro cara na sua casa, no seu quarto, na sua cama. Entendi certo até aqui?

— Sim.

— Mas você não fez nada, ficou só olhando os dois juntos. Estou correto ainda?

— Sim. Não tinha nada que eu pudesse fazer. Pelo menos não naquela hora…

— E não tinha nada que você pudesse fazer porque eles já tinham terminado o que estavam fazendo quando você chegou em casa. Certo?

— É… Certo.

— E você não falou nada? Não perguntou nada? Não enfiou a porrada no filhadaputa?

— Ele não estava mais lá e ela nunca soube que eu vi nada. Aliás, que eu vi tudo…

— Ok. Essa é a parte que eu ainda não entendi, irmão… Se o cara já tinha ido embora quando você chegou, quando foi que você viu os dois juntos, no ato, afinal?

— Alguns dias atrás…

— Então eles se encontraram de novo, há alguns dias?

— Não… Eles iam se encontrar hoje novamente, conforme vi nos registros das trocas de mensagens do celular dela… Aliás, tá tudo registrado no celular. Tudo. Fotos, conversas e até vídeos dos dois…

— Você filmou os dois?

— Eu não…

— Contratou um detetive?

— Não. Eu não desconfiava de nada, já te disse. Nunca, jamais, iria achar que ela estava me enganando. Não daquele jeito, daquela forma tão… Tão… Nojenta.

— Então… Quem filmou?

— Eles. Eles mesmos filmaram e bateram as fotos na câmera do celular dela. Em algumas é ela mesma segurando o telefone, fazendo as mais sórdidas selfies, em outras é o cara, para ela aparecer melhor.

— Caraca… Que safada! Quer dizer… Enfim… Desculpa aí…

— Não. Ela era mesmo, Ezequiel… Agora eu sei o quanto.

— Que barra, cara…

— É… Bem pesada.

— Mas eles são burros também, né! Fala sério! Conheço gente que curte esse lance de filmar e fotografar enquanto faz as sacanagens, pra verem juntos depois e tal… Mas eles terem deixado tudo registrado no celular dela… Francamente! Muita idiotice não terem apagado os próprios rastros.

— Eles apagaram.

— Ué?

— O quê?

— Como é que você viu, então?

— Muito simples, Ezequiel… Você nunca ouviu falar do Java?

— Java?

— Sim, da Oracle, empresa multinacional que comprou a Sun Microsystems, criadora dele.

— Não. Que porra é essa?

— O Java é uma tecnologia. É um código de linguagem… Uma programação utilizada em aplicativos do mundo todo. Sistemas de empresas, redes, bancos de dados, computadores, smartphones… O Java está praticamente em todo lugar.

— Mmm… Legal. Mas o que essa porra tem a ver com a história?

— Tem a ver que eu sou formado ‘nessa porra’, Ezequiel… Sou pós-graduado em Tecnologia da Informação.

— Ah, tá…

— Bem… Pelo visto, você também acredita que simplesmente deletando um arquivo de um celular ou computador o mesmo deixa automaticamente de existir. Acertei?

— Ué; não?

— Não… Fica tudo ali guardadinho, Ezequiel… Escondido dos olhos e conhecimentos comuns, mas separadinho, bonitinho, ali dentro dos arquivos das máquinas; só esperando para ser recuperado por quem domina esta linguagem.

— Caraio… Não tinha ideia de nada disso, maluco! Nunca fui muito do grupo dos nerds… Bolei, agora! Ia ter muita gente ferrada pelo mundo se esse tal de Java aí fosse de conhecimento geral…

— Com certeza.

— Porra, parceiro… Tu viu tudo que a tua mulher tinha apagado então do celular dela…

— Exatamente. E nunca a pasta ‘lixo’ foi tão bem denominada por um aplicativo… Estava todo o lixo lá… E quer saber o que é o pior de tudo?

— Porra… E dá pra piorar?

— Eu gostava muito dela, Ezequiel… Foi muito difícil jogar esse sentimento na lixeira também… Despedaçar esse amor que eu cultivava com tanto carinho no meu peito… Na minha alma. Na verdade, essa ilusão, né… Essa ideia falsa de perfeição que eu inocentemente chamava de amor…

— É… Essas coisas são muito complicadas, Fernandes… A grande verdade é que não dá mais pra confiar em ninguém hoje em dia. Tá tudo muito louco. Ninguém é mais de ninguém… Ninguém respeita mais nada! Mulher casada dá em cima de outros caras, trai, leva pra própria casa quando o marido está fora… Ninguém tá nem aí mais pros compromissos assumidos. É tudo uma putaria. Uma pu-ta-ria, Fernandes! Essa é a verdade… Por isso que eu sou e vou continuar solteiro pra sempre! Certamente que vou… Tá tudo muito doido, parceiro… Esse mundo tá é perdido! Mmm… Posso pedir mais uma?

— Pede aê… A saideira.

— Já vai partir? Mmm… Dá mais um tempo, Fernandes… Eu tô só no ‘esquenta’ ainda! Minha noite hoje, pelo menos isso, promete… Ô, Bigode! Vê mais uma aí pra gente!

— Não… Tá chegando a minha hora. Quanto antes deixar essa porcaria toda para trás, será melhor pra mim. Quero distância disso tudo… Preciso dar um fim a esse sofrimento. Tirar esse vazio do meu peito… Você não faz ideia, Ezequiel… Não faz ideia do que é gostar de alguém tanto assim… Embora esse “alguém” que eu tinha em minha mente e no meu coração não representasse o real, a verdade. Era apenas um ideal distorcido, utópico; diferente da realidade que vi naquelas imagens nojentas…

— Foda, parceiro… E o que é que você vai fazer da vida agora que já sabe de tudo?

— Agora? Só o que me resta fazer.

— E o que é? Obrigado, Bigode…

— Me vingar.

— Ah! Finalmente, parceiro! Agora eu tô começando a me identificar com a tua história! Aqui se faz, aqui se paga, mérmão! Se ela trai, ganha o direito de ser traída! E tenho dito! Bateu, levou! Essa é boa… Tâmu junto! Dá o copo aqui… E já escolheu a sua “vítima”?

— Já… Já escolhi. Obrigado.

— Mmm… Mas é isso mesmo… Chifre é que nem futebol: quem não faz, leva. E, se tá levando, tem a obrigação mínima de empatar o jogo! Tô contigo nessa, parceiro! Um brinde!

— Ah… Ela não vai mais fazer isso comigo. Nunca mais… Saúde.

— Esquece ela, agora… Cai dentro da desforra! Mmm… Então… É alguma daquelas gostosas ali? Garanto que é tudo casada também, ó… Aliás, aqui só vem mulher casada, Fernandes… Coisa louca! Ali, irmão… Olha pra lá, parceiro, para de mexer nessa mala… É alguma daquelas safadas ali?

— Não…

— Então deixa eu ver… Ali tem duas mais ou menos… Mmm… É lá do outro lado?

— Não. É você, Ezequiel.

— Hum?

— Não é você aqui, ó?

— …Oi? E-eu o quê?

— Assiste aí… Segura! Segura o celular dela enquanto eu pego a…

— Mas, mas…

— Assiste aí, porra!

— O que você va… Hey! O que é isso, irmão? Não! Peraí, Fernandes! Não… Aponta isso pra lá! Não! Nã…*

 

Barulho de tiro.

Outro.

E mais outro.

Gritaria.

Correria.

Fim.

 

public abstract class Objeto {

  public abstract void fazerBarulho();

}

 

public class Arma de Fogo extends Objeto {

  public void fazerBarulho() {

     System.out.println(“PufPufPuf!”);

  }

}

 

public class Gritos extends Pessoas {

  public void fazerBarulho() {

     System.out.println(“AhhOh!”);

  }

}

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54 comentários em “Devaneio Improvável (Ricardo Falco)

  1. Bia Machado
    23 de junho de 2017

    Hum, o título combina e muito: devaneio improvável. São tantos devaneios, em vez de emoções, que sinceramente, não gostei, apesar de ter me divertido um pouco com ele enquanto meus alunos faziam seu simulado, todos muito concentrados. Acho que é pouco comum aparecer por aqui textos formados apenas por diálogos (ou quase). Mas ai, forçou a conexão entre o enredo do seu e a imagem do desafio, ao menos pra mim. O final daquele jeito foi mesmo necessário? Não é uma crítica, apenas uma dúvida. Boa sorte no desafio.

  2. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    Devaneio Improvável (Sun Microsystems)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: inexistente. Muita viagem ligar o Java ao javali… da imagem, mesmo, nada. Pena, vai perder pontos por isso.

    ASPECTOS TÉCNICOS: na parte estilística, diferenciou-se por usar o diálogo como fio condutor, lembrando no ritmo o estilo do Luis Fernando Veríssimo. Porém, a premissa e a surpresa acabam no meio do texto, pois fica bem óbvio quem é quem na história.

    EFEITO: um texto muito bom, infelizmente com pouca aderência à proposta do desafio. Fica desleal dar a nota que ele mereceria por méritos intrínsecos. Uma pena…

E Então? O que achou?

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .