EntreContos

Literatura que desafia.

O Porco do Meu Pai (Zé Brinha)

Quando meu pai morreu herdei um porco. Porém, o destino não quis que eu ficasse com o bicho, até porque prefiro gato que se cuida sozinho. Mas era a única herança, a última lembrança do meu pai. Não me conformei com o sumiço do porco. Depois tudo foi esclarecido e o porco apareceu. Não da forma como eu esperava. Vou contar o que houve. Veja se não tenho razão em reclamar de não ter ficado com o porco, a única herança que meu pai deixou.

Era uma tarde de domingo. Estava meu pai e eu assistindo as pegadinhas na TV e rindo juntos. Em dado momento, uma pegadinha daquelas, fez a gente rir sem parar. Meu pai, por sua vez, trancou o sorriso e lágrimas desceram dos olhos. Ele não saiu mais dessa posição.

O porco que ele adorava, sem mais nem menos entrou em casa grunhindo como se tivesse apanhado na rua. Subiu as patas no colo do meu pai e quando fui tirá-lo de lá, descobri que meu pai estava morto. Mortinho. Com o sorriso congelado da última pegadinha e o caminho da lágrima já seco, abaixo dos olhos.

Meu pai morreu! — falei alto como se tivesse mais alguém ali para ouvir. Não tinha. Era ele, o porco e eu.

Liguei para a polícia, que só chegou de madrugada. Deu tempo de assistir TV. Tomar banho. Jantar. Jogar xadrez no celular. Me masturbar para dar uma acalmada. E o meu pai lá na poltrona. Completamente morto. Ironicamente ele estava sentado na poltrona do papai: presente do último aniversário.

O senhor bateu no porco? perguntou o policial.

Claro que não.

Por que o porco está grunhindo?

O porco está grunhindo desde a hora em que meu pai morreu. Começou grunhindo alto, como se fosse para o matadouro. Depois parece que foi perdendo as forças até ficar assim, grunhindo baixinho.

Era um porco de raça desconhecida. Cada um que o via atribuía uma raça. Uns diziam que era Porco Tatu; outros afirmavam que não passava de um Canastrinho. Para mim não importava. Era o porco do meu pai e agora, minha única herança.

O nome do porco Sheriff foi escolhido porque ele era responsável pela segurança da casa. Era nada. Se o ladrão entrasse, poderia levar o que quisesse que o porco não se mexia. Continuava dormindo.

Para não ser injusto é verdade que, se chegasse alguém no portão e desconhecido, ele grunhia. Mas grunhia sem sequer levantar a cabeça do chão. Às vezes até girava o pequeno rabo, mas não era sempre.

Quando meu pai morreu, nós morávamos na Rua Francisco Cota, em Parambu, município do interior do Ceará. Morávamos na rua principal, à duas casas do cemitério. Éramos vizinhos da funerária, e em pouco mais de meia hora eles vieram, prepararam tudo e demos início ao velório. Ali mesmo, na sala, onde meu pai morreu.

Marcamos o enterro para às 17h30. Um horário de sol mais fraco e para dar tempo de todos se despedirem. Só que até o meio dia não havia ninguém. Era só eu, o porco, meu pai morto já no caixão, e dona Belinha.

Da hora do almoço em diante começou a aparecer gente. A casa virou um inferno. Gente chegando. Gente pedindo comida. Gente querendo café. Gente usando o banheiro sem dar descarga. Gente pedindo dinheiro para carregar o caixão. Gente perguntando sobre o que eu ia fazer com a roupa do morto. Gente perguntando do que morreu. Era tanta chateação que eu tive vontade de trocar de lugar com meu pai, pelo menos até a hora do enterro.

E a hora chegou. Cortejo a caminho. Dona Belinha entoando os cânticos da igreja. A turba seguindo junto. E o porco acompanhando de perto, ao lado do caixão.

Cova aberta. Caixão dentro. Pá de cal. Últimas palavras:

Vai com Deus!

Tudo terminado.

Ao chegar em casa pensei em passar álcool na poltrona e vendê-la.  Talvez queimar, jogar fora ou doar para alguém. Eu não ia conseguir sentar na poltrona onde meu pai morreu.

Enquanto pensava no que fazer, notei que dona Belinha não dava sinais de querer ir embora. Eu estava com o choro contido. Queria chorar sozinho no quarto e pensar em como seria a vida sem meu pai. Dona Belinha, no entanto, andava de um lado para o outro mexendo nas coisas, limpando aqui e ali, arrumando cá e acolá. Irritei-me com aquele vai e vêm e com o falatório desenfreado.

Vá embora miserável!, foi o que pensei em dizer, mas um restinho de educação me impediu de fazê-lo. Por sorte ela percebeu minha cara de poucos amigos e seguiu seu rumo.

Tranquei-me no quarto e passei a noite chorando. Por ser vizinho do cemitério, dava para ouvir o Sheriff grunhindo. O danado permaneceu junto a cova a noite inteira.

No dia seguinte as coisas pareciam ter voltado ao normal. Dei falta do porco, que sempre ficava no quintal. Fui ao cemitério pegá-lo e ele correu. Era só eu me afastar e ele voltava para se acomodar na terra ainda fofa, no exato lugar onde enterramos o caixão.

Deixei como estava. Até porque não gosto de porco, prefiro gato, que se cuida sozinho, como já expliquei. Quando ele se cansasse do luto voltaria para casa e sua rotina de come e dorme.

Uma semana depois, ao sair da Missa de Sétimo Dia, senti uma mão fria e cadavérica no meu braço. Era dona Belinha:

O pessoal ‘tá comentando.

Comentando o quê dona Belinha?

Que você abandonou o porco no cemitério. Amanhã vai para oito dias que seu pai morreu e o porco está lá, grunhindo a noite inteira em cima da cova. Se não fosse eu levar comida… sei não, viu?

Já era tarde e eu prometi pegar o porco no dia seguinte. E foi o que fiz. Levei uma coleira para prendê-lo e comida para atraí-lo. No cemitério não vi sinal do porco. Será que o levaram? Ninguém sabia, ninguém mais o viu. O que acabou sendo melhor para mim que estava pensando em deixar a cidade e o porco atrapalharia meus planos.

E assim se passaram quatro anos desde a morte do meu pai. Há três fui morar em Nilópolis, no Rio de Janeiro. Nas vésperas do Natal recebi uma carta da administração do cemitério, pedindo para entrar em contato com urgência.

Liguei e fui informado que fariam obras no local do cemitério, pois uma parte seria desativada para dar lugar a uma estrada e uma praça. Quem tivesse defunto enterrado no local deveria providenciar a remoção para um ossuário, sob pena de perder os restos mortais ou vê-los parar em uma vala comum que fizeram.

Corri para Parambu na mesma semana. Corri não. Embarquei em um ônibus interestadual e dois dias depois estava lá. Por sorte cheguei há tempo. O cemitério estava todo esburacado e quase não reconheci o local da cova onde enterrei meu pai.

Papéis assinados. Taxas pagas. Caixão aberto. E qual não foi a nossa surpresa, ao ver junto da ossada, dentro do caixão, os ossos do porco, o Sheriff, minha única herança, a última lembrança, aquele que sumiu no sétimo dia em que meu pai foi enterrado.

Descansem em paz!

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2 comentários em “O Porco do Meu Pai (Zé Brinha)

  1. Lee Rodrigues
    22 de maio de 2017

    Então, Zé Brinha, queria dizer que o Fabio exagerou com essa coisa de cachorro, mas é que senti uma aproximação com a história de Hachiko, e mesmo que não houvesse essa menção, eu teria feito o link no final, com os ossinhos na sepultura.

    Não vejo problemas com releituras, fontes inspiradoras… se é que realmente se inspirou nisso, pode ter sido apenas coincidência. O que realmente senti falta foi de uma melhor adequação ao tema/imagem, e olha que não me prendo nessa coisa de ter a imagem fidedigna estampada no texto, acho massa sair do obvio, mas é que para mim, entenda, gosto pessoal, você saiu demais.

    “Por sorte cheguei há tempo”
    Construída com o verbo haver (há), essa expressão significa “tempo já decorrido”.
    Com a preposição “a” significa “chegar na hora”.

    Não posso deixar de enaltecer a narrativa fluida e a boa conectividade entre parágrafos.

  2. Fabio Baptista
    21 de maio de 2017

    Um conto simpático, com cara de causo. É até gostoso de ler, a linguagem simples faz tudo passar bem rápido e sem entraves, mas infelizmente o resultado final ficou simplório demais.

    Há curiosidade sobre o motivo do sumiço do porco, mas a revelação final não é das mais impactantes.

    Sobre o tema do desafio… também acho que ficou devendo bastante. Não era nem um javali… era um porco que poderia ser substituído por um cachorro sem qualquer alteração na trama.

    Na parte técnica sugiro dar uma olhada nas repetições de palavras e expressões.

    – Em dado momento, uma pegadinha daquelas, fez a gente rir sem parar.
    >>> essa segunda vírgula não deveria estar aí: não se separa o sujeito da ação (no caso o sujeito é a pegadinha e a ação “fazer rir”)

    – minha única herança.
    >>> e a casa, TV, a própria poltrona mencionada… não ficaram de herança também?

    Abraço!

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.