EntreContos

Literatura que desafia.

Caninos (Catioro)

O tamborilar da chuva pela calha de metalão funcionava como um marcador para a gaita de Tomás. Ia preenchendo os intervalos distribuídos pela goteira com a melodia que lhe vinha à mente. Buscava na memória um compasso por vez, e eles chegavam sem muito esforço. Ainda assim, a letra lhe parecia distante, disforme, quase um farol de carro na neblina.

“Into this house we’re born…”

A barba áspera e os esparsos fios grisalhos na cabeleira negra faziam-lhe parecer mais velho do que realmente era. Talvez houvesse algo mais ali que contribuísse com essa impressão: uma brisa fria que entrou pelas frestas do tempo – entre um ano e outro dos quase quarenta que alcançara – e carregou sua vontade de viver. Tinha o porte arqueado de um touro ancião. Escondia os músculos de um, também.

            Sentia-se incomodado naquela noite. A morte do pai lhe afetara tanto? Sua atenção era sugada pelas pequenas piscinas de água barrosa que se formavam do lado de fora da varanda. Sentia-se só, ainda que não completamente. A mala largada aos seus pés lhe fazia companhia. Aquela mala… toda mala é uma promessa de futuro, exceto aquela.

***

            – Hoje você vira homem, seu moleque frouxo! Onde já se viu?! Medo daquela praga!

            Era impossível dizer quem ladrava mais alto: o pai de Tomás, ou os cães no fundo da caminhonete. O garoto olhava de um lado para o outro, via as gotículas de saliva sendo atiradas ao vento, fúria líquida, o rancor de criaturas plenamente amargas e violentas.

            – Pai, não é medo… eu não quero ver… – suas súplicas não tinham peso algum, abafadas pela algazarra das feras.

            – Entra na porra da caminhonete!!! – gritou Francisco, enquanto empurrava o filho aos solavancos para a cabine. Seus dedos ficaram marcados no braço franzino como se o garoto fosse feito de argila.

            – Pai! – tivesse demorado um segundo a mais para recolher o rosto, Tomás perderia alguns dentes na porta do veículo.

            Ver o pequeno reduzido a um cisco no banco do passageiro causava um misto de sensações contraditórias em Francisco. Cólera, satisfação, poder, amargura, justiça pela mulher que dera a vida para meter no mundo um bostinha como aquele. Enquanto isso, o pequeno se represava como podia. Chorar seria pior.

            – Moleque dos infernos…

            O monstro metálico seguiu pela estrada de terra distribuindo doses inexatas de poeira e fumaça.

***

            A fazenda era uma grande mancha esverdeada em formato de bota no sul de Goiás, com um pequeno buraco marrom na sola, a que chamavam de “Sede”. Todo aquele espaço ainda seria muito se vinte famílias resolvessem ocupá-lo, mas, com a chuva torrencial se derramando por todos os lados, Tomás sentia-se apequenado, restrito.

“Into this world we’re thrown…”

            Não conseguia dormir, acordara com a cama encharcada em suor na última tentativa. O fantasma do progenitor lhe assombrava o sótão da inconsciência, preferia ficar na varanda então. Os faróis apagados da caminhonete do lado de fora o encaravam como um olhar curioso. Você vem ou não? E uma enxurrada de memórias ingratas passava por sua mente confusa.

            Permanecia ali, absorto, contemplando-se.

***

            – Pai! Não mata! É só um porco! – os cães de caça latiam e se sufocavam ao tentar avançar sobre a presa, enquanto o homem os segurava com a firmeza de uma rocha.

            – Um porco?! Já viu um porco com esses caninos? –o animal jazia ensanguentado, sem forças. Seu olhar vidrado fazia Tomás tremer – tinha a garganta seca, as mãos úmidas.

            – Solta ele, pai!

            – Cala a boca! Quer levar pra casa?! Vou te trancar com esse filho da puta no seu quarto e quero ver onde vai parar essa piedade de merda. Você tem que aprender, um dia vai ser você no comando da fazenda. E como vai ser, Tomás? Vai ter pena de todo mundo também? Vai criar javali na plantação?

            – Eu não vou ficar na fazen…

            Antes que pudesse terminar a sentença, Tomás foi atirado ao chão com um baque surdo. Sentia o maxilar dormente e seus olhos ardiam. Francisco o observava de cima, o punho ainda estendido e, por um momento, o garoto achou que fosse atiçar os cães sobre ele também.

            – Você vai aprender, Tomás – a voz do homem ganhou tons soturnos, muito piores que a gritaria anterior.

            – Pai…

            Francisco soltou as correntes sem tirar os olhos do filho e seus cães avançaram sobre a presa como se fosse um gigantesco pedaço de bacon.

            Os grunhidos desesperados do javali dilaceraram o silêncio da mata. Tomás tentou desviar o olhar, tapar os ouvidos, gritar junto, mas era tarde. Esmaeceu-se.

***

            Quando deu por si em seu pesadelo, horas antes, estava totalmente paralisado sob um sólido teto verde, cercado de troncos, cipós e outros contornos mais volúveis. Não portava amarras, mas padecia de uma completa ausência de forças. À sua frente repousava a mala, com seu aspecto duvidoso. Ouviu um clique quando seu fecho se abriu, então veio a tão conhecida voz:

            – Sentiu minha falta, filho?

            Com muito esforço, conseguiu discernir a silhueta do homem saindo de dentro daquele diminuto espaço. Vestia-se como um aviador das antigas e, não bastasse o contorcionismo desempenhado, alcançou ainda o disparate de tirar um javali acorrentado pelo pescoço de dentro da mala.

            – Claro que sentiu minha falta, ora essa. Seu pai também estava com saudades, do lado de cá. E olhe só quem eu encontrei: nosso velho amigo, Bulldog! Sabia que era esse o nome dele? Bom, talvez eu tenha inventado agora. Foda-se o nome dele, é só um porco, não é?!

            Tomás tentava empurrar a memória daquele animal de volta para os confins dos traumas de infância, mas ele se aproximava cada vez mais. Ainda tinha o mesmo olhar vazio dos quase-mortos.

            – Não faça isso filho, não nos ignore! Onde foi parar sua piedade?! – Francisco removeu os óculos e o sobretudo de couro que envolvia-lhe o corpo. Tomás pôde entender a razão de usá-los: não trazia nas cavidades da visão as usuais esferas, mas dois buracos negros que mais pareciam divisar as bordas do universo. De sua pele escurecida, semidecomposta, brotavam vermes e pastosidades.

            – Percebe? Eu vejo tudo como realmente é, filho! Eu sou como tudo realmente será!

Quase podia sentir o bafo úmido do javali, tão perto ele estava agora. Suas presas agitavam-se perigosamente tentando alcançar alguma parte macia do seu corpo. Na corrente que o impedia de atacar, tensa como um cabo de aço, equilibravam-se seus temores mais antigos. O pavor é uma criatura atemporal.

“Like a dog without a bone… An actor out alone…”

– O que é que você disse mesmo quando Bulldog estava na sua posição? – um sorriso macabro surgiu na face sem olhos, então proferiu pausadamente: “Solta. Ele. Pai.”. E soltou.

Tomás sentiu suas vísceras sendo despejadas pelo chão. Queria desesperadamente gritar, mas a garganta também estava imobilizada pela maldição do pesadelo.

Acordou encharcado do que pensou ser seu sangue, mas era apenas suor.

***

A lembrança do “sonho” veio acompanhada de calafrios. Desejou afogar aquelas imagens no pântano mais fundo que pudesse encontrar. Isso lhe forneceu o primeiro impulso para deixar o aconchego da varanda.

Apanhou a mala com certo esforço e deu um passo para fora – deixando a tempestade engolir seu corpo. Dali em diante não havia obstáculos. O javali estava morto. O progenitor estava morto. A fazenda estava morta. No dia seguinte, os funcionários encontrariam sua Sede vazia, exceto pela rubra obra de arte em que a cozinha se transformara.

            Tomás jogou a mala na caçamba da picape, sem muito jeito, já não importava. O líquido viscoso começou a minar do fundo dela, como de uma ferida aberta. Os restos do que um dia foi Francisco dissolviam-se com assustadora facilidade no temporal.

            Dentro da cabine, surpreendeu-se ao sintonizar a rádio local e descobrir que ela reproduzia um refrão tão familiar. Com a partida rumo ao pântano, intercalada pela tradicional chiadeira e pelo ronco do motor, ouviu a voz de Jim Morrison entoar:

“Riders on the storm… Riders on the storm…”

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5 comentários em “Caninos (Catioro)

  1. Eduardo Selga
    26 de maio de 2017

    Muito eficiente a narrativa ao abordar o trauma de infância do protagonista, e o quanto isso produz imagens no fundo da psique a ponto de transbordar. Para essa eficácia contribui muito um elemento rítmico, partes da letra da canção de Jim Morrison. E é rítmico não por ser canção, mesmo porque só podemos assim denominar se houver, unidas, letra e música, o que evidentemente não é o caso: o ritmo ocorre pelo fato de trechos da letra surgirem de quando em quando, ilustrando as etapas da narrativa. Considerando que o conto é diminuto, ainda mais efeito causa o recurso usado, na medida em que os espaços entre cada interferência da letra da canção são curtos, o que faz reverberar mais e melhor o sentido do uso dos versos.

    O trecho “o javali estava morto. O progenitor estava morto. A fazenda estava morta” é um recorte que consegue, por assim dizer, traduzir o conto em certo sentido, pois é de morte que ele trata. E não apenas o javali, o progenitor e a fazenda estavam mortos: também o personagem, metaforicamente e desde a infância. A atitude violenta e autoritária do pai consegue assassinar no menino não apenas a ternura por Francisco, como também a vontade de gerir a fazenda, como era a vontade paterna. Não o faz porque o ódio a Francisco não permite, e a propriedade é uma espécie de continuação desse pai terrível. Por isso deixa a fazenda morrer.

    É curioso observar que o discurso do pai é truculento quando vivo e sarcástico enquanto lembrança traumática do menino. Por que não mantém a truculência? Ora, a manifestação sarcástica é uma projeção da mente traumatizada de Tomás, após ter esquartejado o pai. O sarcástico, na verdade, é ele, Tomás. Além disso, não podemos esquecer: o protagonista pretende a todo custo descolar-se da herança paterna, o que não é possível, pois o sarcasmo é também truculência verbal, embora noutro nível. Ademais, o pai conseguiu introjetar a violência no filho, a ponto deste partir para o esquartejamento. Ou seja, a herança permanece.

    A presença de elementos líquidos também é muito reveladora. Isso ocorre em três casos, pelo menos: a tempestade, o pântano e o sangue.

    Em dado momento, ao pegar a mala, Tomás permite “a tempestade engolir seu corpo”, e o verbo usado é perfeito no contexto. De fato, ele é engolido e digerido por algo maior que ele, envolvente, que se impregna em seu corpo psíquico e altera sua identidade, assim como a chuva torrencial se impregna em nosso corpo físico e por alguns instantes parecemos outros, verdadeiros “pintos molhados”.

    O pântano é o inconsciente do protagonista, pastoso, obscuro. Não à toa ele deseja “[…] afogar aquelas imagens no pântano mais fundo que pudesse encontrar”, e posteriormente leva o corpo esquartejado do pai para um pântano. Na verdade, leva para si próprio, na medida em que o pântano representa seu inconsciente.

    O sangue, elemento ligado simultaneamente à pulsão de vida e à pulsão de morte, assume significado macabro no conto, pois é equiparado à tinta com a qual o protagonista criou uma “obra de arte” na cozinha: o esquartejamento de seu pai. Ou seja, a truculência é uma peça artística.

  2. Ricardo Gnecco Falco
    24 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação,
    permitindo-me ampliar meus horizontes literários e,
    assim, favorecendo meu próprio crescimento enquanto
    criativa criatura criadora! Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e
    todos os demais — conforme o mesmo padrão, que segue
    abaixo, ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    Texto bem escrito. Não encontrei nada que representasse qualquer entrave na leitura.

    – CRIATIVIDADE
    Boa. Transformar a emblemática imagem que serve como tema para o Certame em uma visão de sonho foi bem interessante. Saiu da mesmice. Gostei da plasticidade da cena, com a abertura da mala e o surgir dos dois: homem e javali. Ficou bem legal a escolha e a execução. Transformar o protagonista (herói) no vilão, ao final, foi bem sacado também. Gosto de contos que utilizam-se desta máxima. Surpreendeu na medida certa. Tirou, é claro, um pouco do tom poético dos primeiros parágrafos, mas quem se importará com poesia diante de um personagem que mata o próprio pai…?

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    100%. E muito bem feito.

    – EMOÇÃO
    Na medida certa. Final perfeito, como uma narrativa deste Gênero DEVE terminar. Parabéns.

    – ENREDO
    Filho que sofreu bastante bullying nas mãos de um pai violento retorna à fazenda da família para o que parece ser o acerto de pendências imobiliárias após a morte do pai. Na sede da fazenda onde viveu (e sofreu) quando criança, vai recordando dos conflitos passados até que chega o desfecho da história, quando descobrimos que ele retornara à fazenda para exatamente assassinar o próprio pai. *** Medo desse personagem… :O

    *************************************************

  3. Anorkinda Neide
    23 de maio de 2017

    Olá! Adoro esta música, estranhamente a conheci qd me pediram um poema inspirado nela rsrs
    O texto é bem feito, muito bem colocado, não vi erros, os sonhos são vívidos e claros e acredito q foi por causa deles q o rapaz voltou para matar o pai. Confesso q frustrei um pouco, achei q havia sido uma morte natural e q evocava toda a infância traumática, mas vc quis com q ficasse mais forte ainda o teu conto. é seu direito! hehehe
    O resultado é este, um conto forte! Mexe com nossas emoções, vc soube lidar com isso muito bem e explorar a imagem proposta muito bem tb.
    Parabens
    Abração

  4. Leo Jardim
    22 de maio de 2017

    Caninos (Catioro)

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 Trama (⭐⭐⭐▫▫): pelo que entendi, ele matou o pai, né? Só não ficou claro no texto o motivo dele ter demorado tanto pra fazer isso… o trauma que tinha do velho foi na infância. Por que ele, com 40 anos, decidiu ir na fazenda, matar o pai e colocar o corpo numa mala? Afora isso, gostei da forma como as linhas temporais foram se intercalando, só faltou mesmo um melhor tratamento do desfecho, na minha opinião.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): bom chaveamento de linhas temporais e as inserções de trechos de Riders on the Storm bem encaixadas foram o destaque do conto.

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): apesar de trauma com pais agressivos ser um tema comum, a forma abordada e o sonho deram ares de novidade.

    🎯 Tema (⭐⭐): a imagem-tema apareceu num sonho. Achei uma saída mais fácil que outros colegas que quebraram a cabeça (eu incluído), mas não vou descontar pontos por isso.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): a revelação final causa um impacto ao trazer um fato novo, mas logo depois me causou dúvida, pois acabou que não ficou bem explicado. Ainda assim, achei um bom conto.

  5. Givago Domingues Thimoti
    21 de maio de 2017

    Gramática: O espaçamento dos parágrafos ficou irregular. Não sei se isso foi causado por erro do site ou por erro do Word (ou qualquer coisa que o autor use). Obviamente, não é uma coisa que prejudique o conto. Eu não achei erros gramaticais, entretanto, eu não sou lá o mestre do português. Criatividade: Aqui, eu queria destacar dois pontos. Primeiro, gostei da ideia de colocar trechos da música “Riders On The Storm” do The Doors. Passei horas ouvindo essa música por causa do Need For Speed 2 (eu sei que foi meio irrelevante, mas tudo bem). O segundo ponto é relativo as mudanças de plano. Hora é um flashback, hora é um pesadelo. Eu, particularmente, gosto dessa estratégia e acho que foi feita bem.
    Adequação ao tema proposto: Bem condizente com a imagem proposta.
    Emoção: O conto contém uma forte carga emocional, principalmente no início. É possível sentir, na maior parte do texto, a angústia do Tomás.
    Enredo: Um homem (Tomás) que, por vezes, relembra, outras sonha com momentos nada agradáveis vividos com o pai (Francisco). Como foi destacado acima, eu gostei da troca dos planos. E o conto termina com um baita de um plot twist.
    Parabéns!

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.