EntreContos

Literatura que desafia.

Sobre velhos e moços (em um estranho mundo protagonizado por javalis) (Miss Javally)

Terminava o filme na sala de exibição. A câmera na altura dos olhos de Dorothy, sua parceira em cena, logo se deslocaria para o seu próprio rosto. Com voz grave ele diria as frases finais, um poema, enquanto a imagem fecharia progressivamente o foco na lente dos óculos que  usava, enchendo a tela com o reflexo do cenário desolado do filme.

Os aplausos começaram durante os créditos, a plateia ainda na penumbra. Quando as luzes se acenderam, levantou-se para os acenos, os sorrisos, as discretas mesuras. De pé, fãs exaltados, muitos deles usando cópias dos óculos e da capa que seu personagem trajava em cena, acrescentavam aos aplausos urros e assovios de excitação. Os mais discretos vestiam apenas camisetas estampadas com imagens do filme, mas havia aqueles que tinham o rosto coberto por máscaras de Dorothy, uma histeria que se ampliava, especialmente no Brasil, a cada exibição do filme.

Ídolo da juventude, sucesso de crítica e público depois dos sessenta .  Eram tempos estranhos aqueles, quase tão insólitos  quanto os narrados no roteiro. Nada de amor, nem heróis fortes e elegantes; apenas ele, um velho, defendendo uma javalina – Dorothy, a encarnação de uma deusa celta – dos obstáculos que se interpunham em seu propósito de refertilizar o planeta devastado após uma guerra. Inspirado em um best-seller cujo argumento podia ser assim resumido, aquele era o segundo dos três filmes previstos.

***

– Contracenar com uma porca?

– Não é porca, Greg, é javalina. Já te expliquei.

– Tanto faz. Como meu agente há tanto tempo, você deveria saber que sou um ator sério. Não atuo nesse tipo de filme.  

– Mas o personagem é bom.

– A personagem da porca, você quer dizer. Eu li o roteiro. A Dorothy é a protagonista. O velho, meu personagem, é mero coadjuvante.  Espécie de guardião da porca heroína. Ainda tem aquela mala idiota que ele carrega. Pelo que entendi é uma espécie de portal em que eles entram para fugir dos perseguidores. Uma bobagem sem precedente.

– Os livros vendem que nem água.  Já falamos sobre isso.

– Literatura para adolescentes. Não vou acabar de enterrar minha carreira com esse delírio.  

– Pense mais um pouco, Greg. Os produtores insistem no seu nome.

– Já está decidido. A resposta é não!

Mudou de ideia, entretanto. Ademais do cachê razoável para quem estava afastado do cinema há anos e do risco de um malogro para ele, um velho esquecido pela indústria cinematográfica e pelo público, significar muito pouco, a neta, que lera o primeiro volume da saga, o convenceu de que a história era boa e o papel perfeito para ele.

***

À exibição seguiu-se um coquetel e entrevistas com jornalistas e críticos.  O principal assunto era a êxito estrondoso da película no Brasil e a escolha da cidade, o Rio de Janeiro, como locação para algumas cenas do terceiro e último filme. Embora bem preparado, Greg não soube o que dizer quando lhe perguntaram a que atribuía o sucesso de bilheteria no país tendo o livro vendido tão pouco, menos, por exemplo, do que no Paraguai e no Equador. Do Brasil, só ouvira falar da beleza das mulheres e da doçura das frutas, além de corrupção, futebol e samba,  de modo que recitou um poema do livro com a voz empostada do personagem, uma de suas falas no filme,  o que provocou  aplausos entusiasmados da pequena  e  extravagantemente adornada plateia de fãs, satisfazendo o entrevistador.

De volta ao hotel, esquivando-se dos jovens fãs onipresentes  – sempre os evitava, isso já virara uma lenda – trocou no quarto o traje de astro por uma roupa discreta  tornando-se quase invisível, não fosse o porte alto e magro, tão  incomum nos senhores idosos brasileiros,  e partiu para a segunda parte da agenda.

Passou pelo hall sem perceber a jovem com as faces coradas de excitação, cujos olhos o acompanharam quando escapou do hotel por uma saída lateral de emergência. Do lado de fora, um carro blindado com motorista os aguardava, a ele e ao diretor.

***

– Você vai com essa roupa, Bianca.

Of course! – respondeu imitando a pronúncia britânica, embora na escola estudasse inglês americano.

A prima usava uma camiseta com o cartaz do filme. Bianca estava de  calça e camiseta pretas, sapato de salto; casual sexy podia-se dizer do estilo. Maquiagem discreta, óculos e uma bolsa exagerada completavam o figurino.

– Vai ver se não consigo fazer uma selfie com ele… – piscou o olho esquerdo depois fez um bico e estalou os lábios simulando um beijo na direção da prima.

– Não duvido de nada vindo de você, sua louca!

Desafiava-a saber que ele nunca se deixava fotografar com fãs. Seu plano era ficar pelo hotel onde a produção do filme estava, fingindo-se hóspede ou visitante, até mesmo passar a noite se fosse preciso.

– Falei pros meus pais que ia dormir aqui.

– Quero ver o que eu vou dizer pro meu pai quando ele perguntar por você…

– Ah…Deixa a porta trancada, diz que eu estou dormindo pelada e proíbe a entrada dele.

***

Pela janela do mezanino para onde havia subido após ver Gregory sair do hotel, discreto e elegante, Bianca observou o carro cinza se afastar depois que ele e o diretor se acomodaram no banco traseiro. Havia lido em um blog sobre aproveitarem a estada na cidade para visitar as pretensas locações em favelas e subúrbios do próximo filme. Calculou que provavelmente estariam de volta no início da noite.

Teria desistido da espera, não tivesse conhecido em sua perambulação entre o terraço  e mezanino, Felipe, funcionário do hotel, apaixonado pela trilogia, que adivinhou a intenção de Bia ao ver escapando pela gola da blusa que ela usava a ponta do focinho de Dorothy, tatuada em seu pescoço, quando ela prendeu num coque os fartos cabelos longos.

– Vou te ajudar, amiga – comprometeu-se, com sua voz afetada e feminina.

Foi ele quem sugeriu o plano seguido à risca por ela e também quem avisou, já perto das oito da noite, que o carro cinza retornara. Mandou que ela retocasse o batom, entregou-lhe uma garrafa d´água e um copo e empurrou-a escada abaixo em direção ao lobby, sussurrando “sorte” em seu ouvido.

Bianca aguardava ao lado da porta lateral quando Greg entrou.  O velho truque do esbarrão funcionou  como nos filmes, perfeitamente. Molharam-se os dois, a garrafa d´água espatifou-se no chão.

I´m so sorry, young lady.

My pleasure, sir – confundiu a adequação da fala ao contexto.

Greg observou o embaraço da jovem tentando livrar-se da água que fazia a camiseta justa grudar-se ao corpo na altura dos seios. Calculou, por sua idade e aparência, que a garota não devia ser hóspede, certamente estava ali para um encontro.

– Tenho uma camiseta seca no quarto. Posso emprestar para você.

– Não precisa se incomodar. Num instante vai estar seca.

A recusa, provocação calculada, produziu em Greg o efeito desejado de acentuar-lhe o interesse.

– Eu faço questão. Você aguarda ou sobe comigo?

– Subo – respondeu apressada, quase traindo sua excitação.

Trocou-se no banheiro. A camiseta era grande, arrumou-se como pode. Jogou o cabelo para o lado e saiu.  

– Você aceita um whisky, uma cerveja?

Foi o que disse Greg para quebrar o gelo. Seus olhos examinaram-lhe as pernas sob a calça jeans justa, passaram pela curva da cintura estreita até  os cabelos ondulados castanhos, enquanto ela caminhava em câmera lenta, desde o banheiro, em sua direção, até parar na sua frente e dar-lhe um beijo na boca. Beijo atrapalhado, no entanto. Faltava-lhe treino.

O cheiro da pele da garota não lhe foi agradável, lembrou-lhe leite azedo. Tampouco  agradou-se da textura da carne, firme demais e fria sob os dedos. Perguntou-lhe a idade.

– Dezenove – Bianca respondeu prontamente, recordando as palavras da tia em seu aniversário de dezessete anos, de que maquiada facilmente passava por vinte e três.

Greg teria preferido uma mulher de trinta, mas não esboçou qualquer resistência quando Bia  o empurrou para a cama e atirou-se sobre ele. Rapidamente  engajou-se na brincadeira, esquecido do constrangimento que lhe causava o contraste meio nojento da pele firme e tenra da garota com a sua própria pele, murcha e seca. Só viu a imagem de Dorothy que Bia carregava tatuada na nuca quando a virou de bruços pela segunda vez, mas então já era tarde para qualquer arrependimento.  

Encerrado o combate, deixou-se ficar de costas num abandono de homem satisfeito e fechou os olhos por um instante.  Adormeceu.

De costas para ele, Bianca percebeu a respiração pesada, depois o ronco barulhento.

Pegou a bolsa jogada no chão ao lado da cama. De dentro dela sacou o celular depois a máscara de Dorothy. Tirou dezenas de fotos, seu rosto em primeiro plano fazendo caras e bocas, depois coberto com a máscara de silicone. Ao fundo, em segundo plano, Gregory , olhos fechados, boca aberta, completamente relaxado, vulnerável como um bebê.

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9 comentários em “Sobre velhos e moços (em um estranho mundo protagonizado por javalis) (Miss Javally)

  1. angst447
    25 de maio de 2017

    Olá, autor, tudo bem?
    O título do conto só dá uma leve ideia do que o enredo pode nos trazer.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado de maneira criativa, o que pode não contentar a todos.
    O ritmo da narrativa é muito bom, acelerado pelos diálogos e a ação trabalhada. A leitura flui fácil e prazerosa. Escolha de trama bem leve e juvenil.
    Não encontrei falhas na sua revisão, talvez uma ou outra vírgula a ser repensada.
    Um conto que é puro divertimento.
    Boa sorte!

  2. Olisomar Pires
    25 de maio de 2017

    Tema: Adequação inexistente.

    Criatividade: normal. Ator decadente aceita papel em filme que faz sucesso. Fã adolescente o seduz.

    Enredo: As partes está conectadas para o que o texto propõe.

    Escrita: não notei erros que prejudicassem a trama.

    Impacto: baixo.

    • Olisomar Pires
      25 de maio de 2017

      * As partes estão conectadas.

    • Miss Javally
      26 de maio de 2017

      Sr Olisomar,

      Miss Javally chora sentindo-se incompreendida…

      Está triste porque o senhor não viu na história que ela contou um filme e três livros que têm como personagem o homem maduro de capa e óculos segurando uma javalina de um lado e levando uma mala, (que funciona como um portal, Greg explica, na segunda parte) no outro braço, ou seja, a imagem objeto do desafio.

      Miss Javally esforçou-se para fugir de obviedades e refrescar o leitor em sua tarefa de ler e avaliar tantos contos sobre a mesma imagem. Por trás da história frívola, mas crível, tentou dar pistas sobre o outro tema do conto: a desorientação do mundo em que vivemos, nós e os personagens. Nós, inclusive, os que interrompemos nossas vidas para a tarefa igualmente frívola de narrar e ler histórias sobre javalis.

      Miss Javally escolheu terminar o conto com uma imagem que é uma espécie de paródia da imagem do desafio, ao invés de narrar um desfecho óbvio.

      Miss Javally sente-se um pouco envergonhada por estar explicando, acha que talvez esteja no certame errado e começa a pensar em abandoná-lo.

      Miss Javally chora….

      • Ana Monteiro
        26 de maio de 2017

        Olá Miss Javally. Ontem, na página do grupo afirmei que só postaria os restantes comentários no final e mantenho essa intenção. Por esse motivo esta intervenção aqui não tem como finalidade falar sobre o seu conto (que já li) e cujo cometário será publicado no mesmo dia que todos os restantes em falta.
        Não, nada disso. Apenas tenho dificuldade em aceitar que um/a autor/a se sinta tão mal com uma crítica. Você é pessimista? Então e as críticas boas que ficaram para trás? não contam? Abandonar o desafio?
        Por favor. Estamos aqui para isso mesmo: ser criticados e encontrar ferramentas que nos permitam evoluir e ser melhores. E também para ouvir alguns elogios, claro está e participar nesta jornada coletiva tão saborosa.
        Por isso, cabeça pra cima e coragem para todas as críticas boas e más que ainda vai receber. Aproveite ao máximo o que puder de cada uma delas.
        Por fim, apenas um alerta: no dia, se ele chegar, em que toda a gente achar que você tem muito valor e em que ninguém se lhe mostre adverso, cuidado! Fuja de si mesmo/a. Algo de muito errado se estará a passar consigo.
        O meu comentário, disse-o no início, chegará no final. E será apenas mais um. Ânimo a boa sorte!

      • Olisomar Pires
        26 de maio de 2017

        Olá… sim, notei a menção à imagem-tema nos livros que originam o filme.

        Entretanto, poderia ser qualquer outra imagem sem que isso prejudicasse o restante da narrativa.

        Não houve vínculo, pois o tema do desafio não foi tema desse conto, no meu modo de ver. Não sei se me entende.

        O texto está bem escrito, é um pouco triste pelo cinismo apresentado dos personagens: um continua tolo, apesar da idade e o outro, uma jovem tola.

        Uma boa idéia para um conto e tem seu valor, só não vejo que o tema foi obedecido e esta é a opinião singela de um leitor.

        Em todo caso, boa sorte.

  3. Ricardo Gnecco Falco
    24 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação,
    permitindo-me ampliar meus horizontes literários e,
    assim, favorecendo meu próprio crescimento enquanto
    criativa criatura criadora! Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e
    todos os demais — conforme o mesmo padrão, que segue
    abaixo, ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    Muito boa. Nada encontrado no texto que me atrapalhasse a leitura.

    – CRIATIVIDADE
    Da história em si, mediana. Mas, da história aqui neste Certame, achei bem criativa, sim. Fugiu completamente do estereótipo dado por 97% dos autores daqui para a imagem tema. Parabéns!

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    120% (dou 20% de ‘crédito’ para todos autores que se permitiram o afrouxar da corrente presente na foto temática). Tem javali (javalina, fofucha) óculos na telona do cinema e bolsa, além de tudo mais que a imaginação permitir para os momentos ‘chafurdosos’ ocorridos dentro daquele quarto de hotel.

    – EMOÇÃO
    Imersão. Uma história bem contada e que tem o poder, talvez por sua notória leveza, de fazer com que o leitor embarque na trama, como se estivesse assistindo a um filme.

    – ENREDO
    Menina levadinha que decide brincar de porquinho…

    *************************************************

  4. Olá, Miss Javally,
    Tudo bem?
    Você criou uma história completamente crível. Uma brincadeira com filmes que partem de best sellers internacionais e viram febre no Brasil (e no mundo).
    Você tem o dom de trazer seu leitor para dentro da história de uma maneira bem legal. Realmente “assisti” ao filminho com o astro. Em meu cenário, ele estava hospedado no Copacabana Palace, onde surge sua jovem fã. Deu até para ver o rosto da fã e tudo o mais.
    Quando lemos um conto com pseudônimo, também, tentamos “ler” o autor. Estamos em um desafio, então, ficamos imaginando se o autor é homem ou mulher… Não sei responder a essa questão, embora creia que você tem talento para contos femininos e sensuais.
    Sobre o final, se por um lado não sei se a solução encontrada foi a melhor (estou falando de gosto pessoal), por outro entendo que o desfecho ficou aberto para se imaginar a derrocada do pobre astro, já velho, decadente e agora vítima do ridículo nas redes sociais com as fotos se espalhando de modo viral. O pobre personagem foi punido por aceitar o papel em um filme protagonizado por um javali, ou por fazer sexo com uma adolescente? Não ficou muito claro para mim. Embora, talvez o título nos dê uma pista.
    De qualquer maneira esse se saiu um conto Chick-Lit, com o propósito de divertir. E para mim, funcionou.
    Parabéns por seu trabalho e boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  5. Fabio Baptista
    22 de maio de 2017

    Primeiro javali, ou melhor… javalina… sabrinesca!

    Olha, sendo bem sincero: eu não entendi muito bem. As transições de cenário ficaram um pouco confusas e não saquei muito bem qual era o plano da menina. Só tirar umas selfies e postar no Face? A última frase deixa impressão que ela vai fazer algum tipo de maldade, acabou que o final ficou naquele esquema “aberto demais”.

    O último trecho do conto é o melhor… tão bem descrito que chegou até a dar uma animada nesse final de domingo chuvoso hauahua.

    Abraço!

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Informação

Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.