EntreContos

Detox Literário.

A Felicidade (Evandro Furtado)

Fitou, da sacada, a curiosa imagem. O homem, de aspecto curioso, cruzava a avenida em meio à multidão. O som de cuícas e tambores lhe incomodavam. Talvez, incomodasse ao outro também.

Trazia na mão direita uma mala, na mão esquerda uma sineta, que, presa por uma corrente, permitia que trouxesse consigo seu animal de estimação: um javali. As pessoas rondavam-lhe, gargalhando, pedindo-lhe para que parasse para tirar fotos, segurasse o animal para que as selfies saíssem perfeitas e pudessem, logo, ser compartilhadas em alguma rede social. O homem atendia a todos os pedidos sem alterar sua expressão. De qualquer forma, o capuz e os óculos escuros não permitiam que pudesse ser feito algum tipo de julgamento em relação ao seu caráter.

Da sacada ele viu o homem partir, sumindo no horizonte, em meio à multidão. A avenida, no entanto, continuava cheia. Os foliões fazendo festa.

Exausto, ele voltou para dentro de casa.

– Por que você não vai? – perguntou Ricardo. – Deixa de ser antissocial.

– Tá todo mundo lá. – disse Luíza.

– Eu não quero gente, dá pra me deixar em paz?

Os outros o olharam inconformados. Não compreendiam que, para ele, tudo aquilo constituía uma tortura inimaginável. Os gritos, os risos, a música alta, quando passavam por seus ouvidos, transfiguravam-se em algum outro som, desprovido dos significados que o restante do mundo lhes dava.

Os outros finalmente desistiram. Mesmo depois de terem saído, batendo a porta atrás de si, como se ele tivesse cometido algum tipo de crime, continuou ali, sentado na poltrona, alternando sua atenção entre as batidas do ponteiro do relógio que vinham da cozinha e o zumbido que o ar condicionado fazia. Por mais entediantes que pudessem parecer, à primeira vista, abafavam o barulho pior que vinha lá de fora.

Voltou a pensar sobre o homem com o javali. Que sujeito peculiar, teve para si. Quanto mais pensava sobre aquela figura, mais estranheza ela lhe despertava. Carregava consigo uma extravagância mórbida, diferente de tudo que já havia visto em sua vida.

Cansado de seus próprios pensamentos, ligou a televisão.

Passado o Carnaval, as pessoas retornaram à sua rotina habitual. Seus rostos voltaram a se converter nas carrancas nada convidativas do cotidiano.

No caminho para o trabalho trombou com um sujeito. Pediu desculpas, mas tudo que obteve como resposta foi um resmungo e um olhar mal-encarado. Durante todo o dia, o único gargalhar que ouviu partiu de um grupo de pedreiros depois de um deles ter lançado algum comentário sexista a uma moça que passou por perto.

Passou o Domingo assistindo Faustão e percebeu que sua vida estava muito errada. A noite ia se aproximando quando encontrou o amontoado de discos esquecidos no espaço entre a estante e uma parede lateral. Talvez terminar o dia ouvindo Tom Jobim pudesse lhe conferir, de algum modo, a esperança de dias melhores. Fechou os olhos e cantarolou junto.

Tristeza não tem fim

Felicidade, sim

Não esperou pelo Fantástico.

O fato de nunca ter gostado de festas sempre o afastara do restante dos amigos. Aquilo o incomodara no início, mas, com o tempo, passou a preferir assim. Agora, a visita de outros o chateava.

Pensava no que se tornaria quando chegasse aos cinquenta. Com trinta e cinco já se sentia velho e cansado, como se o que a vida lhe pudesse oferecer não fosse o bastante.

Naquela noite, agarrou um casaco e saiu de casa. Andou pelas ruas mal iluminadas de seu bairro. Por alguns minutos, imaginou-se o personagem de algum filme noir. Às vezes queria que o mundo fosse preto e branco. O excesso de cores incomodava seu senso estético.

Encontrou uma espelunca aberta. Um velho banguela cantava alguma canção perdida de Cartola. O vibrato que colocava no fim de cada verso passou a irritá-lo a partir do segundo refrão. O que há de errado comigo? Tudo me irrita.

Preocupado, no mês passado havia visitado um psicólogo. Mas não havia nada de errado com ele. Nenhum sinal de depressão ou algo do gênero.

– Você é só uma pessoa melancólica. – disse o doutor. – Algumas pessoas são assim. Gostam de ouvir músicas tristes, preferem os dias de chuva aos de sol, o inverno ao verão. Dizem que, inclusive, esse tipo de pessoa costuma viver dez anos mais do que o restante.

– Dez anos a mais de tristeza, doutor? Será que valem a pena?

Cogitou a possibilidade de consultar um segundo profissional, mas tinha decidido que encontraria um modo de passar por aquela fase por conta própria.

Bateu a mão do balcão e pediu um copo de conhaque. Uma mulher de meia idade, cheia de manchas na pele, lhe serviu em um copo aparentemente sujo. Ele bebeu em uma golada. A garganta ardeu e ele pediu uma segunda dose. Decidiu encontrar no meio daquela solução etílica a cura de suas dores.

Pensou no que lhe fazia feliz. Nunca conseguira se envolver em um relacionamento duradouro. As coisas iam bem nas primeiras semanas e depois tudo se perdia. Nunca conseguira amar a alguém mais do que amava a si próprio. Os amigos costumavam lhe dizer que, em uma relação, era preciso se fazer sacrifícios. Se um dia eu me sacrificar por alguém, que seja por mim mesmo.

Gostava particularmente de música. Quem sabe reformasse a banda que montara no colégio? Então lembrou-se que o guitarrista havia morrido em uma overdose de LSD, o vocalista estava preso por bater na namorada e o baterista agora era pastor de uma igreja. Por mais preso que pareça, parece que sou o único que continua livre.

Os dois copos foram suficientes para lhe deixar tonto. Pagou a conta e voltou aos tropeções para casa. Deitou na cama e apagou, sem resolver nada.

Encontrou o homem sentado em um banco de praça no final de uma quinta-feira. Não havia nem sinal da fantasia e muito menos do javali. Disposto a quebrar a monotonia de seu mundo, aproximou-se para uma conversa.

O sujeito não parecia muito mais velho do que ele e demonstrou-se demasiadamente simpático. Descobriu que ele, tampouco, gostava do carnaval, e que só esteve lá, naquele dia, por conta de uma aposta que perdera para colegas da empresa. Descobriu também que ele se sentava todo final de tarde naquele mesmo banco para observar o pôr do sol e que, a única razão de não ter percebido, ainda, era porque possuía a terrível mania de andar com os olhos fixados no chão.

Sem saber por que, passou a acompanhar o homem em suas contemplações ao anoitecer. Teve com ele longas conversas filosóficas. Falaram sobre a crise dos mísseis e o programa espacial russo. Discutiram a relação que Hemingway e García Marquez tinham com o comunismo e como isso afetava a sua prosa. Analisaram Eisenstein e cantarolaram Sabu. E finalizavam o dia comendo um Big Mac.

Recebeu a notícia da morte do homem na manhã de uma segunda-feira. Aquilo o atingiu de forma inesperada.

Foi ao velório e se espantou. A família pertencia a uma religião diferente e, enquanto o cadáver permanecia lá, exposto para quem quisesse ver, cantavam e dançavam e riam. Aproximou-se do caixão e olhou para o morto. Tinha a mesma expressão dos finais de tarde que passaram juntos.

– Tinha câncer em estado terminal. Ninguém da família sabia. – disse uma velha se aproximando. Estendeu-lhe uma bandeja com pedaços de carne empanada. Pegou um pedaço e mastigou bem.

– Gostoso. – disse, com os dentes ainda sujos. – É carne de que?

– De javali. – disse a velha, e se afastou.

Ele arregalou os olhos. Depois soltou uma gargalhada. Alguns rostos o contemplaram por alguns segundos, mas depois voltaram suas atenções para outro lugar. Ele voltou a olhar para o morto e ele pareceu estar sorrindo.

– Eu não sei qual o seu segredo. – sussurrou debruçando sobre o corpo. – Mas que funciona, funciona. – Apertou a mão do cadáver e se virou.

Naquela tarde, assistiu ao pôr do sol sozinho, no mesmo banco de praça.

Sentiu-se, estranhamente, feliz.

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56 comentários em “A Felicidade (Evandro Furtado)

  1. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    A Felicidade (Abel)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: sim, desde o começo, a imagem é determinante para os rumos da história.

    ASPECTOS TÉCNICOS: apesar do tema, depressão, a narrativa é leve para o leitor; a escolha das palavras e construção das frases é bastante racional e objetiva, sem rodeios. A trama, em si, não guarda muitas surpresas, é quase certo o desfecho; mas não decepciona, por tentar ir para outro lado.

    EFEITO: pareceu um esboço de uma história, aprofundada nos personagens, principalmente no protagonista.

  2. Felipe Moreira
    23 de junho de 2017

    Oi, Abel. Gostei da história, achei um tanto pertinente. Acho que também porque uma vez assisti uma palestra do Leandro Karnal em que ele fala, com humor machadiano, sobre essa questão. Não deixa de ser uma crítica social. É interessante e você conseguiu adequá-la ao tema.
    Leva alguns parágrafos até enxergarmos o real objetivo texto, a apresentação do javali é meteórica no contexto e soa como se a história fosse se perder, mas até que caminha com certa segurança. As referências, citações, também são bem empregadas.

    O uso inadequado das vírgulas em alguns pontos incomodou um pouco.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no desafio.

  3. Leo Jardim
    22 de junho de 2017

    A Felicidade (Abel)

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 Trama (⭐⭐⭐▫▫): bonita, singela e introspectiva. Acho que esse psicólogo que o protagonista frequentou estava errado: ele realmente tinha algum grau de depressão. Encontrou no velhinho um amigo e uma forma de enxergar a felicidade. Acho, porém, que a trama está um pouco gorda, com excessos. Algumas cenas e informações pouco acrescentam à trama.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐▫▫): boa, uma narrativa em primeira pessoa eficiente, com boas reflexões. A pontuação do diálogo, porém, está incorreta. Acredito que esse artigo pode ajudar: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/5330279

    💡 Criatividade (⭐▫▫): um assunto um tanto batido. Infelizmente não vi muita coisa que tornasse esse único.

    🎯 Tema (⭐▫): a imagem-tema está presente, mas sem importância para a trama. Fosse qualquer outra fantasia do velho, não mudaria a história.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): gostei do texto, tem uma boa reflexão. Não entendi o funeral do velho e a religião da família dele, acho que podia ter explicado melhor para melhorar a mensagem no final. Ainda assim, um final bonito.

  4. Thiago de Melo
    22 de junho de 2017

    Amigo Abel,
    Meus parabéns! Que história bonita. Acho que gostei especialmente porque me identifiquei muito com o seu personagem principal: na idade, na ojeriza a grandes aglomerações de pessoas, na vontade de permanecer recluso. Essas características tricotaram muitas carapuças aqui em casa. (e acho que a irritação também).
    Gostei da relação que você conseguiu estabelecer entre os dois personagens e de como isso foi se desenrolando ao longo da história e de como o seu personagem principal foi mudando ao longo da narrativa. Gosto de ver transformações em personagens, dá uma sensação de profundidade, que não estamos diante de um robô ou de uma história para crianças. Gostei.
    Contudo, achei o início um pouco lento. Talvez a sua intenção fosse exatamente essa, para transparecer a melancolia na vida do personagem. Para isso funcionou, mas como leitor cansou um pouco.
    Gostei da ideia de servirem javali no velório, mas não consegui identificar a relação desse fato específico com nenhuma religião que eu conheça.
    Bem, como eu disse, meus parabéns.
    Um abraçao!

  5. Andreza Araujo
    21 de junho de 2017

    Achei um conto bem diferente, no começo a gente lê sem saber onde o autor quer chegar, não sabe se é algum tipo de crítica ou desabafo, mas continua a ler e quando percebe está gostando da narrativa.

    Achei a entrada do personagem com o javali meio abrupta, talvez deslocada, mas depois ele volta a fazer parte do enredo de um modo que se encaixa. Te sugiro olhar com mais cuidado para as repetições de palavras, caso não tenha sido proposital. Logo de cara ver um “imagem curiosa” seguido por “aspecto curioso” e na frase seguinte um “incomodavam” depois “incomodasse” foi bem chato de ler, parecia que o texto iria ficar em looping até o final. Mas isto não ocorreu, felizmente.

    Algumas aliterações também me incomodaram, como “foliões fazendo festa”. É um texto que trata do cotidiano de um personagem introspectivo. Apesar de me causar certa estranheza num primeiro momento, o final casou bem.

  6. Marcelo Milani
    19 de junho de 2017

    Gostei da história, o dia a dia do personagem central foi bem descrito, mas o final ficou esperando um final inesperado.

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .