EntreContos

Detox Literário.

Agora é silêncio – Conto (Fernando Cyrino)

 

Senhora fica reparando a gente assim do sertão e essas nossas manias de tirar recados da natureza? Povo que só entende de roça e de criação? Pois aqui tenho rádio e televisão. Sei do mundo. Jornal também chega, mas as letras que possuo são miúdas. Acha mesmo que somos bobos?

No noticiário aparece aquela mocinha do sorriso bonito, mostrando como será o tempo. Pensa que acredito nela? Sou mais a minha reparação. Passar de olhos em nuvens, os desenhos e formatos. A direção do vento e se ele vem rasteirinho por modo de sungar poeira ou, ao contrário, chega altaneiro de jeito a remexer as folhas dos galhos.

Mire aquela tropa no céu vinda das bandas do oceano. Doutora olha e só vê as graças delas de serem assim tão bonitinhas. Parece que feitas de algodão. Pois eu não vejo essas belezas que a senhora enxerga. Sinais nelas são aziagos.

O povo daqui se arrepia quando chegam. Vindas assim desse jeito lá dos caminhos de mar, voadeiras e levezinhas de brancura, é porque não conseguiram se engravidar. Camas delas se encontram nas lonjuras de águas profundas.

É tudo barriga oca. No máximo carregam um uiuiui de neblina, daquelas mirradas que deixam gotinhas em pontas de folha, mas que o chão nem sente. Incapazes mesmo que seja de chuvisco.

Vai ser ano de penúria. Nessa caderneta de apontar tudo que a gente vai assuntando, senhora pode firmar o que lhe afianço. Foi numa era assim, de fartura dessas nuvens agourentas que o mal renasceu na Laje da Corte.

A dona vê as construções todas se findando. Essas que agora admira e tira retratos, são as sobreviventes. Eram do povo mais rico, os patrões. As do povaréu, a maioria, essas nem deixaram rastros. Mato cresceu onde havia pisos e alicerces.

Há quem pense que aqui se chama assim por conta de algum poderoso português. Nobre que construiu nesse lugar seu castelo. Um que ninguém nunca soube mostrar dele nem um cascalho que fosse. Esse disseram ter sido visconde vindo para cá fugido, por conta de roubos na corte do Rio de Janeiro. Chegou com sua parentalha e ergueu fortaleza. Povo é meio besta e acha que visconde é capaz de ter corte. Essa raça de nobreza não era possuidora de grande valor nos salões, senhora sabe? Algum tabaréu joga conversa fora e a bobagem vira o real. Pode isto?

Laje da Corte é porque, nos Setecentos, aqui foi sítio de quilombo. Terra de pretos fugidos das malvadezas dos patrões e que constituíram nesse lugar seu canto de liberdade. Era gente em sua grande maioria vinda do Congo e de lá tinham trazido costumes e religiões.

Madama acha que eles eram assim todos iguaizinhos? Equivoca-se demais. Possuíam degraus de importância. Viajaram em porões de navios, mas mesmo lá nos fundos, havia uns que respeitavam mais e outros menos. Pensam que eles não prestavam continência, mesmo nessas bandas do Brasil, aos seus reis, rainhas, príncipes, duques e condes?

E foi exato aqui, meu pai me contou que o pai dele lhe afiançara, que o mais velho lhe tinha falado, indo assim até adentrar nas penumbras dos antigamentes. Palavrórios que vêm viajando desde a época da primeira tragédia. Exatos nesses chãos moravam Rei e Rainha Congos.

Daquela laje bonita lá no alto era que o soberano abençoava seu povo. Dizia-lhes do que deviam cumprir para conviver bem e ensinava táticas de guerra, por modo de proteção contra capitães do mato. Esses vinham, a soldo de fazendeiros, com missão de devolver à escravidão os escapados das lavouras de cana.

Senhora disse que falei de primeira tragédia e ficou curiosa. Quer saber mais sobre ela? Relatar estes sucessos nos longínquos da terra vai ser importante para o entendimento. Tratar deles é preparar seu coração para compreender a segunda. Essa que trouxe a dona aqui para os sertões.

Relutei em sair do trivial da minha casa, lonjura daqui, para vir até essas ruínas. A doutora se recorda do tanto que insistiu? Repara não que meus olhos vazam. Chorar homem não deve de. Mas aqui, debaixo da terra que pisamos, moram os ossos do meu povo. Até meu umbigo, depois de ter sido curado, terminou por se misturar com essas poeiras. Um tantinho de mim aqui ainda vai existindo.

Tergiverso, me desculpe. Aprendi desde menino a manejar bicho volteando, para que se cansasse e assim compreendesse minha autoridade. Duas desgraças, distantes uma da outra mais de duzentos anos, irromperam por aqui. Pensa a dona que acabou? Nadica de nada. Por isto todo mundo foi embora.

Agora vão vivendo nesses sítios essa meia dúzia de gatos pingados. Não era gente de existir conosco antes dos acontecidos. Povo que veio depois e vai sobrevivendo. Creem que vão se endinheirar, não sabe? Falam até que o Senhor abençoa os enricados. Terrenos sem valor nenhum esses tantos deles. Tomaram posse e só tiveram que ajeitar as casas que tinham se transformado em horríveis taperas.

Quando soube que por aqui existiam, vim assuntar dos ocorridos e do que virá. Deram-me ouvido nenhum não. Eles são Bíblia. Renegaram a Santa Igreja e acreditam que Deus irá protegê-los no que virá, quando o demônio acordar de novo. Levaram-me a serio? Mangaram de mim.

Agora a dona sorri ao conhecer que existe mais torresmo debaixo desse meu angu ralo. Sim, as desventuras não estão todas cumpridas. Senhora já ouviu falar dos quatro cavaleiros? Sim, aqueles do Apocalipse. Pois começará por essas bandas a cavalgada perversa deles. Mas dessas coisas do adiante não desejo lhe assuntar. Tenho pavores e me persigno. Medos demais.

Trato do fim sem lidar com o começo. Misturo os pensamentos e posso até me perder nessas veredas escuras. Cabeça da senhora é mais organizada. Cheia das inteligências adquiridas nos livros e bancos de escola. Faculdade é fineza que respeito.

Poderia contar puxando qualquer barbante, ou ficar em roda qual redemoinho e ainda me compreenderia. Receios são meus. Tem passarinho que aprecia fazer curva no voo. Há outros que miram um ponto em frente e partem. Sou desses?

Cachoeira cai é devagar? Despenca de uma vez, pra lá embaixo formar lago. Pode ser dos minguados, mas haverá ao pé delas esse resguardo das águas. Parece que, assustadas por terem descido tão depressa, precisam de tempo para recompor-se e continuar rompendo avante.

Ruína daqui também se deu de uma vez. Foi na seca do Cinquenta e Seis. Era homem feito. Viúvo de Domingas estava casado com Das Dores. Moça mais nova e vistosa que só ela. Morreu nove meses depois do parto de João Batista. Ninguém me tira da ideia que foi já por conta da desdita que ela se finou.

O menino, nome de João, lhe havia contado, também não vingou. Morreu no seio da desventura que vou lhe narrar. Sangue meu tem mais nenhum, que saiba, viajando nesse mundão de Deus. Tenho sorte com filho e mulher não. Amasiei algumas vezes, mas sem ter sido feliz. Na precisão das carnes buscava alguma necessitada de dinheiros. Essas que as pessoas chamam de da vida.

De uns anos para cá os desejos arrefeceram e vivo, como Deus manda, sozinho no barraco. Tenho dinheiro mensal do governo. Todo dia dez viajo umas léguas. Vou ao banco na cidade pegar o que é meu. Dá para comprar uns trens e os remédios.

Seca vira desespero é quando as águas todas somem. Primeiro o rio se torna mirrado. Emagrece e fica só aquele areal. Uns tempos ainda e a gente cava. Não é que lá no fundo a danada da água havia ficado oculta?

Chega a hora em que nem essa tem mais. Ainda haverá de ter uns restinhos nos derradeiros dos açudes. É o tempo de beber com os bichos. É boi, mulher, cachorro, menino, porco, passarinho, homem, galinha, cabrito, pato. Tudo junto e misturado indo se servir no lamaçal.

Os caminhões do governo, bem antes da ocorrência dessa última hora, já chegaram trazendo o adjutório da bendita água. Não era raro que faltassem. Políticas a fazerem com que viessem ou desparecessem. O povo por aqui sofre.

Foi durante a seca, mas ela não pode levar a culpa. Era somente mais um tipo de legume jogado no tacho grande do cozido. O padre louro, daqueles de avermelhar com tempinho miúdo de sol, chegara dos estrangeiros. Último domingo do mês e vinha, montado em lombo de burro, celebrar as liturgias.

Homem rude de só conseguir falar o trivial da nossa língua. Incapaz de sorrir, nem que fosse para criança dessas ainda de nenhum dente. Conversas dele eram nos versos embolados de não se compreender o que desejava. Bom de a gente se confessar. Não entendia nossos pecados e nem compreendíamos as penitências dadas.

Missa minguava a olhos vistos. O povo foi enjoando daquele jeito esquisito e de não se entender as coisas. A derradeira só rezavam nela o sacristão Genésio, dois coroinhas – que menino aprecia demais essa função – e uma velha surda.

Genésio era meu pai e contava do quanto o padre bufava de ódio na sacristia. Falou com ele, dedo em riste, umas tantas coisas e partiu. Nunca mais retornou a Laje da Corte e muito menos enviou pároco substituto. Papai, que achavam que não compreendia línguas forasteiras, era homem dos mais sabidos. O que ele fez foi traduzir aquelas palavras de ira. Ele esconjurava o lugar. Duas vezes pelo menos, papai afiançava, o sacerdote falou de terrenos arrasados. Daí a depreender que o lugar iria desandar, tinha sido mera questão dos tirocínios.

Relatei olhando forte à senhora. Irá me desculpar por mirar assim, potente, seu rosto mas precisava saber se acreditava no que aprendi do velho. O porquê da minha dúvida? Tem gente que ri, caçoando que de maneira alguma um analfabeto seria capaz de alcançar, palavra que fosse, de gringos.

Senhora acredita em mim ou nesses incréus? Precisa respostar não. Já me arrependi de falar assim. A dona há de me perdoar essa forma desarrazoada de dizer as coisas e de mirar, direto, em seus olhares.

Padre que se foi para jamais retornar. Dinheiro que não visitou bolsos de mais nenhum dos que por essas bandas moravam. Tudo passou a dar para trás. Era prejuízo um atrás do outro. Gente rica empobreceu e os pobres se tornaram miseráveis. Companheira da seca é a fome.

Tentou-se de tudo. Mudanças de lavoura, criação de cabras, galinhas capote – aquelas de angola. Até petróleo houve gente na pesquisa. Para sobreviver havia a precisão imediata de se arrumar novo ganhame. Mesmo que não escorressem os cobres que só pingasse aqui e ali, de vez em quando, para que a vida pudesse seguir, severina, como sempre foi a do povo. Mas este era apenas o começo do rolar das pedras pela ribanceira abaixo.

Depois das chuvas, que quase não fizeram visita, brotou a malária. Praticamente todo mundo ganhou a febre e uns tantos se foram. Ainda quando o mosquito se acostumava de vez com o sangue da gente, rompeu a cólera. Morreram mais uns punhados da diarreia branca.

Até aí, negócios falidos, malária e cólera, era tudo parte da existência difícil a qual todo mundo estava acostumado. Povo começou a desconfiar mesmo, que meu velho tinha razão nas traduções dele, foi em virtude da invasão das pererecas. Daquelas pequeninas, esverdeadas e parecendo soltar gosma pelas patinhas pegajosas. Joãozinho, meu filho, senhora já é sabedora, que Deus o tenha, não brincou com elas. Partiu para o céu nas febres da maleita, a tal sezão.

No início foi tudo grande festança. Meninos juntando as sapinhas em gaiola de grade fina para tiziu. Passados uns dias veio o incômodo. Não houve cristão que conseguisse permanecer distante delas. Invadiram casas. As danadinhas saltavam em cima da gente na cama, viviam aos milhares na cozinha, caiam no prato de comida. Até ao se deitar na rede se descobria haver delas por debaixo do corpo. E o de noite? Aí era pior. É que elas tinham um coaxar irritante. Semelhança assim com um tipo diferente de assobio de quem sente a falta de alguns dentes. Senhora já imaginou milhões delas cantando ao mesmo tempo? Não havia sono para cristão.

Teve um domingo que todo mundo combinou de colher perereca. Foram sacos e sacos delas queimados em grandes fogueiras e nos fornos de carvão. E diminuiu alguma pelo menos? Impressão que tivemos foi de que haviam aumentado.

Da mesma maneira que surgiram um dia, em outro foram embora. Sem mais nem menos desapareceram. Só que deixaram embaixadores mais terríveis. Uns mosquitinhos pequeninos de bunda branca, aos quais as gentes davam o nome de pium. Picada dolorida deles deixa coceira que pode até ferir.

Acaso viessem só uma meia dúzia a picar para chupar o sangue, se cantaria as aleluias ao Senhor. Eram miríades a nos desesperar. Organizados, tinham hora marcada. Picavam das quatro da tarde às sete da noite, horas que parecia durar uma eternidade.

Todo mundo passou a usar chapéu com lenços finos de se botar em rosto de defunto, camisa de manga comprida e mãos enroladas para se proteger. Ficar dentro de casa, a senhora me pergunta se resolvia? Respondo que não. Mães deles não lhes concederam boa educação. Entravam sem solicitar permissão. Qualquer canto era lugar para azucrinarem as criaturas de pele fina.

A mosquitada durou o verão todo. Foi vindo o inverno e a criançada começou a tossir. É gripe? Trata-se de pneumonia? A benzedeira não tinha mais tempo para cuidar das suas tralhas cotidianas. Era um abençoar criança o dia todo que cansava demais. É que as mães sofriam das aflições de perder suas crias.

Não havia criança que passasse ao largo da doença. Foi assim até que Jorginho de Zenaide, no meio da tosse, cuspiu um catarro avermelhado. Parece que tinha sido sinal de alarme e em poucos dias, a criançada estava toda vertendo sangue pela boca. A malvada da tuberculose atacava sem misericórdia. Um tanto de anjinhos, filhotes dela, estão ali onde era o cemitério.

Nessas horas coveiro faz festa. Senhora sabe que ele cobra para cavar sepultura e enterrar? E se a família desejar que capine e plante umas florezinhas depois, também precisa ofertar dinheiro. E esse o povo já andava esquecido de qual cor ele era.

Deus não somente tinha largado Laje da Corte. Fizera muito pior. Entregara aquela gente que abandonara o vigário ao demônio. Tinha chegado a hora de pedir perdão e voltar, contritos, aos bancos da capela. Havia que se lançar, sem dó nem piedade, os joelhos no frio chão. Deus carecia demais de retornar.

Mas aí quem disse que se conseguisse reverendo ou freira para conduzir as rezas? Não havia ninguém para acudir os lajenses dirigindo-os para a obtenção do perdão dos céus, pelo abandono do padre gringo. Com enviado de Deus não se brinca se descobria.

Fossem somente essas pragas, que Deus seja louvado. Mas vieram sete. Não é que a terra também se vingava em nome do tal cura? Gente cheia de raiva quando cospe no chão, no limpar a boca das palavras imundas, geram desgraças. Zico de Donana homem das sabedorias nos ensinou. Esse cuspe carrega o mal misturado com a saliva e no em volta de onde molhar, nada mais nasce.

Vira solo falecido, finado, funéreo. Verdadeiro aqui jaz. A senhora veja que desespero. Nem maxixe e tomate miudinho, mimos de horta que surgem sem ninguém ter botado semente, eram capazes de presentear seus frutos. Eu, Zico e mais alguns, não temos dúvida de que o desgraçado do padre escarrou antes de tomar a estrada.

Quem poderia viver aqui? Combinamos um caminhão e fomos de pau de arara para o Sul. A Terra Prometida de São Paulo. Viagem mais triste que essa jamais teve. Todos tinham perdido gente nas desgraças de Laje da Corte. Fui exilado por vinte e oito anos.

Comecei como ajudante de pedreiro e terminei porteiro de prédio. Um todo azul e com jardins lindos, dos mais chiques, de um lugar chamado Morumbi. Senhora conhece? Voltei para o sertão já depois de velho.

Prometi que contaria os eventos em linha reta. Saindo daqui e indo para lá, mas fiz diferente. A dona haverá de me perdoar de novo. Acho que nossa visita às minhas saudades e angústias, prejudica a organização dos juízos. Comecei pelo meio, não foi isto? Pois então termino narrando a primeira desgraça desse lugar maldito e pelo qual meu apreço é tão grande.

Pois senhora já sabe que isto aqui foi terra de pretos? Pois sim, Quilombo, não lhe tinha dito? Viveram aqui por gerações. Tomavam seus cuidados. A existência era arriscada e punham sentinela para vigiar os morros e estradas ao redor. No viger da lua nova, ou em noites negras de chuvas que nunca cessam, aparecia gente. Vinham nos escuros e nem sei como achavam seu povo. Nascendo uns e chegando outros eles prosperavam.

Lugar era de paz? Pois sim, dou garantia. Mas havia algo que desagradava demais a Nosso Senhor. É que desacreditavam dele. Despreocupavam-se com os mandamentos da salvação. Para aquela gente deus eram uns trazidos da África. Essas crenças exigiam oferendas de bichos e senhora sabe que o Pai dos Céus fica enraivecido com quem maltrata suas criaturinhas. 


Como os sacrifícios se davam só com galinhas e bodes a paciência de Deus, mesmo engasturada, se aguentava. Só que os pretos, vez por outra, em suas caçadas davam com fazendas. Nessas sempre há um tanto de criação e delas não era raro que trouxessem uns bichos, não só para reproduzir e comer, como também para presentes de sangue aos deuses deles. Numa dessas Zoró de Nenem apareceu com um filhote de carneiro. Um cordeirinho ainda de mamar em teta de mãe. Tornou-se o bichinho mais formoso do lugar.

Um dia chegou o medo. Uma preta banhava os filhos no córrego quando reparou estar sendo observada. O rapaz branco, magricela, vestido de couro na prontidão para enfrentar os espinheiros, espreitava. Juntou as crianças e rompeu correndo para casa. Relato feito e os homens desandaram em doida carreira para pegar o desgraçado. Escapou.

Foi aí que tomaram a decisão mais desastrada que podiam ter deliberado. Os deuses, búzios lançados diziam, estariam protegidos caso aspergissem pelos caminhos o sangue do cordeiro. Até hoje, senhora se fizer silêncio, vai escutar o balido dele na hora da morte. A paciência de Deus se esgotou. Definiu, lá nas alturas, que iria usar o poder dos seus fiéis. Seria com os braços e as armas dos brancos que puniria aqueles hereges assassinos.

Numa manhã ventosa e feia foi dado o alerta. Três cabras, aquele magrelo da beira do riacho e mais dois subiam o rio das Pedras com os cachorros. Acorreu bando de homens com objetivo de não deixar que encontrassem o arraial.

No desfiladeiro do urubu tocaiaram os três e a cachorrada. Um castanho, fácil de ser confundido com o terreno, escapou. Fugiu correndo. Não queriam deixar rastros e cão é bicho ladino que retorna pelo caminho vindo. Apressaram-se atrás dele, mas nada de alcançá-lo. Escurecia e como viram que, vez por outra, aparecia rastro de sangue, creram que logo se finaria na caatinga.

Pensa que cachorro morreu? Pois lhe garanto que voltou certinho para casa. Chegou no lilili de se terminarem as derradeiras forças. No engenho de cana, repararam em sua ferida, constatando ter sido obra de lança. Arte de índio ou preto fugido.

Carecia de buscar os companheiros e as criações que bicho cachorro, esses assim tão fiéis, dá azar abandonar. Organizaram exército de muitos guerreiros. 
Apoio das fazendas em volta fez com que os soldados superassem os trezentos. Afora a cachorrada que esta era incontável. Antes de sair rezaram o terço e cada um botou no peito a cruz.

Combatentes de Deus. Abençoados por Ele para prender desalmados negros. Sacar daquelas terras abençoadas suas crenças malignas. Castigá-los com prisão e chicotes. Que aprendessem e jamais ousassem, ao menos, sonhar com nova escapada.

O franzino e falecido mateiro o que vira a preta e filharada, contara dos rumos do achado. Mulher com criação miúda não costuma lavar as crias longe. Senhora sabe que para ter crianças daquela idade, é porque haveria de ter povoação. Estava descoberto o esconderijo de tantos cativos que fugiam e deles nunca mais se sabia, desde outras eras. Batalhão marchava em alarido de conversas e latição alegre da cachorrada.

Assustados os negros deram notícia ao Rei deles daquele exército. A ordem foi simples. Que não se intimidassem diante de tanta gente e armas. Os deuses estavam com eles. O sangue do cordeiro confirmara isto. Defenderiam terras, filhos e mulheres até com a morte se necessário fosse. A guerra foi enorme. Armas dos pretos, além de serem bem menos, eram poucas e rudimentares. A luta era desigual demais. As covardias.

Essa poeira aqui virou lama vermelha naquele dia. Os brancos não esperavam tanta resistência e ferocidade. Muitos pereceram. Sangue europeu e africano misturado com terra. A morte dos irmãos os enfureceu ainda mais. Passaram a assassinar mulheres indefesas. Nem das crianças eram capazes de livrar a cara. Não sobrou ninguém. Deus estava vingado.

Senhora agora compreende por que eu não queria vir? Doutora agora sabe de tudo. Bulir com as criaturinhas que Nosso Senhor abençoa e carrega nos ombros traz a desgraça.

Estou cansado demais. Pesos da idade e da tristeza vêm somados. Passamos o dia juntos a rodar, daqui para lá nesses sítios de tantas histórias. Chega de Laje da Corte. Quero ir embora. Tem mais nada para se olhar não. Muito menos para lhe dizer. Agora é silêncio.

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3 comentários em “Agora é silêncio – Conto (Fernando Cyrino)

  1. Gustavo Castro Araujo
    11 de maio de 2017

    Gostei do conto. A maneira como foi desdobrado, à semelhança da prosa de Guimarães Rosa, é seu maior trunfo. Não foi difícil imaginar um homem do sertão tecendo os fios de sua vida, tudo sem exageros, sem cair no piegas. É, obviamente, o relato de uma vida, com seus acontecimentos se sucedendo não necessariamente em ordem, mas contendo, nas entrelinhas, certa crítica social. Destaca-se também o virtuosismo narrativo, traduzido na utilização hábil de palavras e expressões regionais que conferem ao texto verossimilhança e força literária. É, a meu ver, o trabalho de alguém que conhece muito da matéria. Contudo, apesar das evidentes qualidades, confesso que senti falta de algo mais concreto. Como disse, o texto traduz-se em um relato de vida muito bem exposto, com jeito de causos, mas pessoalmente prefiro histórias que vão de A para B, que contenham um contexto mais definido, algo por que leve o leitor a torcer pelos personagens à luz de seus defeitos e qualidades. De todo modo, reforço, o conto é competente enquanto construção estética. É belo, admirável até, passível de inveja. Parabéns pelo trabalho.

  2. Eduardo Selga
    21 de abril de 2017

    Muito provavelmente inspirado na Bíblia, o presente conto parece uma versão artística das “dez pragas do Egito”, com explícita menção à “terra prometida” e ao sacrifício animal que, segundo interpretações bíblias, seria condenado pela divindade porque o “cordeiro de Deus” (Jesus) cumpriria o papel de “lavar” as pessoas de seus pecados.

    Some-se a isso a luta quilombola contra a escravidão e o movimento reacionário para mantê-la; o racismo implícito no padre estrangeiro; a sugestão de que a religiosidade negra não é legítima, porquanto supostamente não cristã; a presença de duas pontas opostas da pirâmide social (o sertanejo e a doutora), e temos um belo exemplo que demonstra o quanto a narrativa ficcional possui de ideologia, ainda que não vejamos ou não queiramos.

    Não digo que o elemento ideológico seja um defeito em si. Ele é inevitável. A questão quando o autor se dá conta disso é: qual lado ele vai abraçar ao escrever sua ficção?

    Entendo que o grande trunfo do conto é a linguagem empregada, em que há no personagem-narrador uma sutil mistura de um linguajar sertanejo adaptado ao texto e uns longes de uma fala mais sofisticada. A mescla ficou muito interessante, principalmente porque a doutora não fala (e isso é outro elemento ideológico).Se o fizesse, talvez fosse mais difícil perceber que nele há duas camadas linguísticas.

    Quando digo “linguagem” não me refiro apenas ao modo de escrever as frases. Também o fato de o personagem-narrador usar circunlóquios é muito expressivo. Na verdade toda a estória é narrada a partir deles, das escapadas que o protagonista promove em relação à narrativa supostamente central.

    • Fernando Cyrino
      16 de maio de 2017

      obrigado pelo seu comentário, Eduardo. Vindo de você, alguém que conheci aqui e aprendi a admirar ele se torna ainda mais bacana. Puxa, não tinha sacado toda essa influência bíblica no texto, mas como sou um cara religioso faz todo sentido isto que me coloca. Interessante esta questão ideológica que você me apresenta. Sim, todo texto, todo autor, toda obra é parcial, eis que faz um corte na realidade a partir do olhar e vivência do autor e o meu conto está nesse contexto. Pareceu-me, por tudo que me escreve, que você gostou do meu conto e isto me deixa ainda mais feliz. Obrigado. Acho que a influência maior nele, mineiro que sou do sertão, e o Gustavo sacou isto, se dá com a prosa Roseana. abraços agradecidos, Fernando.

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Publicado às 21 de abril de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .