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Literatura que desafia.

Um inconveniente odor – Conto (Olisomar Pires)

A comitiva chegou ao mercado municipal por volta das 10 horas da manhã causando alvoroço e tumulto, mas o prefeito fazia questão de prestigiar os comerciantes do local.

“Nada é tão povo quanto o mercado com seus cheiros e gentes”, disse o político para sua enorme turma de acompanhantes, todos muito sorrisos e aparentemente ávidos por sentirem tais olores.

Apesar do evidente transtorno para o comércio e fregueses,  a população, ordeira e pacífica como ovelhas senis, balia gestos de admiração e respeito por todas aquelas pessoas tão vistosas.

Apertos de mão, tapinha nos ombros, o bom e velho pastel  com caldo de cana gelado (uma delícia), o aroma de pimenta-do-reino por sobre as cabeças da corte e plebéias, o aroma de óleo da pamonha frita contrastando com o azedume do queijo, a fragância doce e acre do suor humano, eram o manto da clássica reunião entre poder e possuídos, adornado simetricamente pelas vozes estridentes e graves do povaréu: crianças, mulheres, meninos e homens numa cacofonia de zoológico.

Após o tempo necessário para as fotos, entrevistas e outras peculiaridades necessárias, o rei, digo, o prefeito, decidiu se retirar, para alegria de muitos.

Seguindo-o ou ao seu redor, o número de servos parecia ter aumentado, e todos se dirigiam para a saída numa estranha formação circular tendo o chefe como centro.

Infelizmente, os corredores do mercado eram retangulares, estreitos e compridos, houve alguma confusão para que  se amoldassem ao formato daquele tubo que os expelia, digamos assim. As bancas de madeira com seus produtos para o comércio resistiam firmes àquela onda, parecendo mesmo que faziam movimentos regulares de incentivo para a massa, empurrando-a constantemente.

Até que foram expulsos e se deu ares de alívio imediato ao mercado descongestionado.

Um dos membros da comitiva, vestido a caráter com seu paletó surrado,  gravata frouxa e sapatos sem lustro, se entreteve um pouco mais com a visita e perdeu o embalo do grupo principal, restando sozinho agora entre os comerciantes e demais fregueses comuns.

Assim que se viu isolado, pôde constatar que a comitiva estava a uma boa distância de si, notou ainda que havia resquícios de respeito nos olhos que lhe observavam, mas sabia que se sua imagem fosse desvencilhada da figura do prefeito, ele seria menosprezado, talvez mesmo agredido, pois as pessoas perceberiam que ele fora esquecido e, portanto, não era ninguém importante.

Sentiu medo e algo mais nos intestinos e fundilhos das calças, de forma que rapidamente se encaminhou, da melhor maneira que pôde, ao encalço dos seus, sem correr, o que seria humilhante, mas também sem demonstrar letargia, pois isso exporia sua tática e vergonha.

Enquanto caminhava, quase escorregando em si mesmo, ele sentiu o súbito silêncio do mercado. A única coisa que o protegia ainda, era o tímido rumor que o grupo oficial fazia lá na frente, pensou.

Para sua felicidade, por um motivo qualquer, o prefeito se virou um átimo para trás, olhando bem em sua direção ( sem o ver, obviamente), mas isso foi o suficiente para inflar de coragem seu  peito, confiando que todos tivesse tivessem visto o fato.

Assim, renovado em forças, parou a caminhada de fuga, virou-se para seus ex-algozes e com um dar de ombros, as palmas das mãos para cima e expressão de lamento, disse bem alto para ninguém em especial:

– Tenho que ir, desculpem, mas o prefeito não gosta que eu me ausente muito tempo, um abraço a todos – e foi se juntar ao grupo que sequer havia sentido sua ausência.

Às suas costas, ele ouviu risos e comentários de zombaria, mas não se preocupou ou se ofendeu, estava salvo dessa vez ( não tão limpo, mas feliz).

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2 comentários em “Um inconveniente odor – Conto (Olisomar Pires)

  1. Priscila Pereira
    26 de abril de 2017

    Oi Olisomar, que texto interessante!!! Gostei muito das metáforas. Senti todos os odores e olores, e vi a critica social muito bem delineada, mas sutil. Parabéns!

    • Olisomar Pires
      26 de abril de 2017

      Obrigado pela leitura e comentário. Precisa de algumas aparas, mas achei divertido escrever.

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Publicado às 21 de abril de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .