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Literatura que desafia.

Anelisa sangrava Flores – Anderson Henrique – Resenha (Gustavo Araujo)

Anderson Henrique faz uma aposta ousada em “Anelisa sangrava flores”. Num mercado literário dominado por narrativas fantasiosas que replicam os best-sellers americanos, com seus aliens, duendes, games e mundo paralelos, Anderson procura o dia a dia, o mundano, o simples, o trivial. Não é o oposto, como se poderia pensar, uma espécie de antinomia em relação ao que se vê nas prateleiras de lançamentos de qualquer loja. Na verdade, é algo que vai além e que se destaca exatamente por utilizar elementos do cotidiano para transportar o leitor para um ambiente rico, criativo e essencialmente comum, mas por isso mesmo cativante.

O realismo mágico que impregna a coletânea de contos demonstra a inspiração evidente. Inserida de modo natural, como se fosse apenas um detalhe, serve como alicerce para a discussão de temas tão instigantes quanto ordinários, como o amor, a amizade, o preconceito, o medo e a covardia. Repleto de personagens reconhecíveis, que povoam muitas vezes um Rio de Janeiro “de verdade”, a obra de Anderson prende o leitor por essa facilidade de identificação, pela proximidade com cada qual dos protagonistas, pelas conversas, pelos risos, pelas confidências. É como se estivéssemos com eles, ouvindo-os numa mesa de bar enquanto a brisa sopra mansa da praia num final de tarde.

O livro abre com o excelente “Gigante”, a triste narrativa sobre um homem que se torna grande demais para o mundo, em todos os sentidos. Segue com o conto que dá nome ao livro, cuja protagonista, Anelisa, parece ter sido arrancada das páginas de Cem Anos de Solidão: ao ser alvejada em um ato de pacifismo e verteram flores de seus ferimentos. E mantém-se nos textos que se enfileiram, como no fantástico e doloroso “Uma Noite, uma década”, em que amantes se encontram por meio de um espelho que os transporta para o passado e para o futuro, e mais adiante, no irretorquível “Quadro meu, moldura sua”, talvez a melhor composição da antologia, em que a expressão amor cativo é levada às últimas consequências.

Anderson tem facilidade para falar do onírico, como se vê em “Carolina, Scarlet e Jordana” e em “Pescaria Noturna”, para envolver o leitor em seus devaneios, utilizando-se de um jogo de palavras fácil, fluido, que impele a leitura.

Em “A previsão de José Pascoal” sabemos de antemão que o mundo irá acabar, ou melhor, acreditamos nessa premonição que o protagonista nos passa com sua linguagem simples e, talvez por isso, verossímil.

Já em “Os muitos verões de Ana Paula”, vê-se a habilidade que Anderson tem em construir personagens femininas que se afastam do estereótipo de fragilidade-e-beleza. Como em diversos dos demais contos do livro, Ana Paula é envolvente, interessante e dona de uma personalidade magnética, talvez inalcançável – pelo menos é o que diz o narrador-personagem, alguém em quem tentamos, desesperadamente, acreditar.

“O beijo” talvez guarde algumas das melhores passagens da coletânea, seja pela inusitada porém possível proposta de alguém receber um beijo inesquecível de outro alguém que nunca viu na vida, seja pelos diálogos que que fazem do leitor testemunha e torcedor desse caso de amor relâmpago.

Anderson, de fato, aborda o amor com naturalidade, mesmo pelo lado difícil da escalada, como se vê em “Recortes da Eternidade”. Tudo soa verdadeiro, melancólico, mas também belo, uma equação difícil de resolver sem cair no piegas. O último conto da coletânea é o ótimo “Um pouco acima do chão”, que mantém a mesma pegada de ganho-e-perda que se vê em outros dos textos, mas que, por isso mesmo revela-se igualmente desconfortável.

Amor, de fato, parece ser a linha mestra que segura “Anelisa sangrava flores”. É curioso perceber como um sentimento tão comum em termos literários ainda pode render leituras e releituras tão originais. Quantas vezes não nos vimos diante de situações difíceis em termos sentimentais, torcendo para que algo sobrenatural nos salvasse? O livro de Anderson Henrique reflete essa ideia de redenção, fazendo-nos acreditar, nem que seja por instantes que, sim, talvez seja possível.

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2 comentários em “Anelisa sangrava Flores – Anderson Henrique – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. rubemcabral
    11 de abril de 2017

    Fiquei curioso em ler o livro. O título é muito bom e a capa ficou muito bonita. O tema e a abordagem deste me pareceram interessantes; fiquei com vontade de ler!

    Parabéns ao Anderson e ao Gustavo também, pela boa resenha.

  2. Priscila Pereira
    9 de abril de 2017

    Oi Gustavo, que delícia de resenha, o livro parece maravilhoso, fiquei com vontade de ler!! Parabéns!!

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Publicado às 9 de abril de 2017 por em Resenhas e marcado , , .