EntreContos

Literatura que desafia.

Um homem mau (José de Anchieta)

Existem coisas no nosso mundo que não conseguimos explicar, um fenômeno da natureza ou segredo entre a vida e a morte, mas as vezes o que realmente parece inexplicável é a maldade de algumas pessoas…

O dia já estava findando, e o vaqueiro levava seu singelo rebanho de volta ao curral. Ao todo seu gado contava com apenas 20 cabeças de gado, pouco para um homem com tantas ambições.

Sua fazenda era um casarão velho, quase decadente, tinha uma arquitetura típica do começo do século XX. Em muitos lugares do curral a madeira era podre, arame farpado em alguns pontos falhos impediam que as vacas saíssem, uma maneira cruel e barata de manter o gado dentro.

Ao terminar de colocar o ultimo boi dentro da cerca o vaqueiro cuspiu um xingamento e amarrou seu cavalo em um palanque ao lado da soleira da casa grande. O homem era uma figura pitoresca, tinha lá para os seus 50 e poucos anos, seu corpo era esquelético mas as mãos firmes, calejadas pelo trabalho na roça.

Era odiado por muitos. Rude até com quem o trata-se bem, chutava cachorros na rua quando ia para a cidade e implicava com as mulheres. As crianças tinham medo de sua barba e as velhas fechavam as janelas das casas quando ele passava.

Era pôr do sol quando o padre chegou montado em um alazão branco. Ao contrário do vaqueiro o padre era jovem e belo, com um cabelo loiro e liso e um rosto liso como de um bebe, mas sua característica mais marcante era ser gentil com todos, motivo pelo qual o homem o invejava e o desprezava.

-O que o traz aqui? Sinhô padre – disse o fazendeiro enquanto ele mascava um capim seco e tirava a lama de suas botas.

-Noite, sinhô – o padre disse com cortesia forçada, já tivera vários atritos com o homem e não buscava simpatia do mesmo. – estava passando de fazenda em fazenda para avisar, algum bicho selvagem matando os animais de fazenda.

-Que tipo de bicho? – o outro respondeu preocupado somente com sua propriedade.

-Não sabemo, só achamo algumas vacas, cachorros e até cavalo morto, com só a língua arrancada.

-Bem, se qualquer bicho aparecer eu dou um tiro nele que nem vai tempo de pensar – o vaqueiro disse pegando sua espingarda e tirando a trava em sinal de ameaça, ele completou com um sorriso – agora pode se retirar sinhô padre.

-Na verdade eu queria falar mais um negócio com ocê- o jovem desceu do cavalo sua batina roçava no barro e a pesada cruz de prata em seu pescoço balançava- queria mais uma ajudinha pra igreja, para poder encontrar as mulheres sumidas…

As narinas do vaqueiro inflamaram de raiva, ele apontou a espingarda para o padre e começou a bravejar:

-Eu dei todo o meu dinheiro, não sei quantos cruzeiros para a igreja falar que não conseguiu nada – a cada nova palavra o padre chegava para trás com medo – sabe que minha mãe é uma das sumida, a sua capelinha não fez nada e quer mais dinheiro?!

O homem deu um tiro para o alto, uma maneira de evitar atirar no rosto do padre, este caiu no chão sentado, com as pernas tremendo de susto, enquanto seu cavalo branco corria em disparada para longe. O vaqueiro simplesmente se virou e murmurou.

-Preferia o padre veio que ocê – então voltou para dentro de sua casa pronunciando entredentes um silencioso “vá embora”.

***

A Igreja tinha poucas terras em seu domínio, apenas o bastante para uma capela aos arredores do vilarejo e ao pé da serra. O jovem padre só conseguiu voltar para lá a noite, guiado apenas por uma tocha improvisada.

Ao adentrar na igreja o padre fez o sinal da cruz e acendeu as velas para iluminar o santuário. Era um lugar escuro e só havia missa aos domingos de manhã por ser quase impossível receber visitantes a noite.

O jovem se ajoelhou perante ao altar, diante a imagem de jesus cristo na cruz e rezou pelas mulheres desaparecidas.

Há algum tempo algumas moças do vilarejo e de fazendas vizinhas, sobretudo viúvas e mulheres mais velhas, estavam sumindo. Suas famílias não queriam acreditar que estivessem mortas pois nunca encontraram um único corpo.

A preocupação aumentava quando o relato do bicho comedor de línguas rondava a região (por sorte parecia que o bicho não se interessava por pessoas).

O padre então pediu ajuda para a arquidiocese na capital de Minas Gerias, mandando suprimentos para as famílias desamparadas e ajuda para poder rastrear essas mulheres. Tudo porem parecia ser em vão.

Após rezar dez ave Marias e vinte pai nossos o jovem sacerdote fitou a imagem do cristo na cruz por algum tempo, pegou uma vela e foi até o porão da igreja. Ele desceu as escadas em espiral feitas de pedras mal lapidadas e era fundo.

O acolito acendeu outras velas em pedestais no escuro porão, logo as trevas deram lugar a luz bruxuleante do fogo. As correntes enferrujadas pareciam brilhar refletindo a luz da vela, e os rosto antes cobertos por sombras foram revelados por uma penumbra triste.

– a sinhora confortável? – ele levou a vela até o rosto de uma velha que mal parecia acordada, o cabelo dela estava desgrenhado e sua roupa reduzida a trapos, quando a senhora o viu ela tremeu de medo. – hoje fui ver seu fio, sabia? Ela muito preocupado, deve me odiar, talvez desconfie de mim.

Entretanto ninguém jamais desconfiaria do jovem e inocente padre, quando o antigo morreu a arquidiocese enviou um sacerdote de um município muito longe. O que ninguém sabia era que o padre que fora enviado foi assassinado na estrada, e aquele que o matou pegou suas roupas e roubou sua identidade.

O gatuno aproveitou sua semelhança com o acolito que havia matado e conseguiu até enganar alguns representantes da igreja.

-então qual das sinhoras querem fazer a graça hoje? – o homem perguntou com um sorriso maníaco, olhando para todas as suas vítimas encarceradas, somavam ao todos 20 mulheres, na sua maioria velhas, tendo apenas uma jovem viúva, que perderá o marido no ano interior. – pode ser ocê.

O maníaco foi logo na mais jovem, sua pele era bronzeada pelo sol e os cabelos volumosos, negros e brilhantes. Porem ela tinha sido a primeira mulher a ser capturada e pelo tempo que passará no porão da igreja seu rosto empalideceu, ao ponto dela parecer um fantasma e o cabelo perdeu o brilho ficando quebradiço.

O homem pegou a mulher pelos braços e tirou as correntes que prendiam seus pulsos e a posicionou em cima de uma mesa de madeira. O farsante tirou a pesada crus de seu pescoço e depois ariou a batina.

Ocê lembra minha mãe sabia – o jovem disse beijando o pescoço da moça que pouco reagiu, apenas tremeu de medo – sabe eu gostava muito dela e sempre queria dormir com ela, mas ela disse que meninos de verdade não dormem com a mãe. Ela não quis o meu amor e me batia pra eu voltar pra minha cama, quando cresci fui eu quem comecei a bater nela.

O homem começou a morder a moça violentamente, ele raspou-lhe os trapos e começou a chupar o mamilo como um bebe suga o peito da mãe. Ele arriou mais a batina, pronto para viola-la como geralmente fazia, com todas as outras olhando.

Os mal tratos e a falta de comida as deixavam fracas e debilitadas e sem forças para reagir. Porém o que é impressionante, é que alguns homens e mulheres podem tirar forças do fundo de sua alma em uma situação desesperadora.

De repente ele gritou, sua visão falhou por um minuto e veio a dor.  Enquanto ele estava distraído a jovem viúva pegou o crucifico jogado no canto da mesma e enfiou no olho esquerdo dele com muita força.

O homem cambaleou para trás e caiu, sua cabeça fez um baque no chão, ele não se contorceu, foi perdendo a consciência aos poucos e acabou assim, seminu e sangrando.

***

Ele acordou não sabia muito bem onde estava, havia perdido a visão do olho esquerdo, mas pelo que parecia era um lugar cheio de lama e mato. Tinha muitas pedras ao redor e a vegetação era de grama até surgir algumas arvores retorcidas que subiam um cume, era algum lugar na serra.

Estava chovendo. O homem sentiu a cabeça girar, se esforçou muito a ficar de pé, parecia que tinha alguma coisa errada com suas pernas, como se já não fossem mais suas, entretanto ele se assustou realmente quando viu suas mãos.

Estavam secas, a pele se tornará branca, quase transparente, os ossos quase saltavam das costas de sua mão e 3 dedos da mão esquerda estavam literalmente com os ossos à mostra.

Assim ele percebeu o rosto do corpo. Estava nu, mas não faria diferença, seu pênis fora arrancado, deixando um sangrento buraco no lugar. As costelas apareciam por baixo da carne quase aparecendo, a barriga findara até não parecer mais que um tronco de uma fina arvore, e as pernas pareciam não mais do que dois galhos. O lado esquerdo de seu ombro estava carcomido com sinais de mordida, estampados com sangue seco.

Ele então cambaleou até chegar em uma poça d’agua e olhou seu rosto. Por um momento não pode acreditar, ele já não tinha o olho esquerdo, seu cabelo raleará até sobrar apenas alguns fios, ele também tinha poucos dentes na boca, que pareciam ter se tornado mais afiados, seus lábios estavam repuxados e a pele estica e cheia de manchas.

Colocou a mão sobre o peito, e não sentiu nada, logo ele perceberá estava morto. Havia sangrado até a morte no fundo da catedral, mas ele não acordará no inferno, pareia que tinha sido expulso de lá.

Ele era tão repulsivo nem a própria terra quis engoli-lo, e ficou decompondo ao relento, sem poder ir para o mundo dos mortos.

O corpo seco teve vontade de chorar, quando viu que não conseguia mais produzir uma única lagrima tentou fingir que o céu estivesse chorando por ele, entretanto, por mais que visse a chuva não conseguia sentir as frias gotas em sua pele.

Sem poder expressar sua dor de outra maneira, ele gritou.

***

A história do Maníaco de Ituiutaba ficou muito conhecida. Muito tempo depois de acharem todas as mulheres desaparecidas no porão da igreja (vivas ou mortas), muito tempo depois de sua morte, e principalmente mesmo muito tempo depois de terem arrastado seu cadáver linchado até à serra.

Nenhum dos moradores acreditou que o homem teria encontrado a paz, Os que o enterrarão no pé da serra dizem que viram a cova revirada e nunca acharam o corpo, os mais pessimista dizem que ele ainda vaga por ai, como um cadáver ambulante, procurando saciar sua sede de sangue sede que nem a morte pode conter.

 Entretanto as fontes mais confiáveis são aquelas que contam, se você passar pela serra do corpo seco (como ficou conhecida popularmente) poderá ouvir os gritos de dor e fúria de uma alma destinada a vagar sem rumo até o fim dos tempos.

E ainda advertem, homem que bate em mulher fica com a mão seca.

 

Lenda que inspirou o conto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Corpo-seco

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.