Observei o que ele ia fazer. Quis gritar que desistisse, chamá-lo de idiota, mas não o fiz. Eu invejava e odiava ao mesmo tempo. Fosse coragem ou burrice, sua obstinação colocava em evidência o que sem sombra de dúvidas era a minha covardia. Como prometido no último encontro clandestino do grupo, ele subiu no palanque da praça durante a alternância entre declamadores e tomou o microfone para si. A microfonia arrepiou a plateia e os passantes, que se detiveram para ver o que ia acontecer. Ele pigarreou e começou.
— Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado… porque não era socialista!
Deslizei o olhar pela plateia. Os desavisados não entendiam, mas alguns incrédulos já murmuravam entre si. Os guardas também tinham começado a perceber o protesto insensato que se dava ali no pequeno palco. O poeta continuou.
— Primeiro eles vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado… porque não era sindicalista!
Agora todo o coletivo da praça emitia um alarido de exasperação e os guardas abriam caminho com a sua usual truculência. O poeta chegou a dizer que primeiro eles vieram pelos homossexuais, mas não chegou a concluir porque, enfim, eles de fato foram buscá-lo. Gritou os versos restantes sem ser ouvido, já distante do microfone, os calcanhares arrastados pelo chão. As prisões não eram incomuns, mas geralmente eram menos sensacionalistas: poetas reunidos em caminhadas contemplativas a declamações; cronistas escrevendo para jornais clandestinos; secundaristas presos por traficarem haikus românticos… desde que o General Caramujo determinara a Ditadura do Romance, pouco a pouco a narrativa curta foi sendo engolida pelo tsunami de palavras dos calhamaços.
Como era de se imaginar, eventualmente o assunto da prisão de um dos últimos dos poetas chegou até mim. Um colega do Quartel da Prosa perguntou se eu havia visto e, confirmado, estendeu a pergunta corriqueira, mas nada inocente: em que vias vai o seu romance? Este momento era o meu pequeno e medíocre triunfo. A brecha que eu tinha encontrado contra a censura. Sorri e respondi o de sempre.
— Estou trabalhando na primeira frase, sabe? Reescrevo e reescrevo e não sei como passar dela. Vai assim: “num belo dia de maio, uma elegante amazona montava um magnífico cavalo alazão, pelas alamedas floridas…”
A resposta era sempre uma risada desinteressada. Ninguém suspeitava que eu não havia escrito mais do que esta frase do meu “romance”. O eterno início era a minha fuga da imposição da narrativa longa. Meu último desafio ao regime. Meus colegas dos microcontos me aplaudiram, a princípio, mas conforme o autoritarismo se fincava e os outros contistas eram expostos, detidos, condenados, humilhados… aquela euforia da vanguarda militante se esvaía e a desesperança nos esmorecia. E não era por menos.
Os poetas eram obrigados a ler Graciliano Ramos e transformar seus poemas em textos de crítica social diretos, precisos e narrativos — portanto que não questionassem o sistema, é claro. Os cronistas eram postos em celas de vidro, forçados a vigiar o cotidiano e encontrar nele o menor sinal de conflito a partir do qual teriam que escrever seus romances. O conto foi abolido, a palavra até mesmo suprimida no dicionário, substituída por “capítulo”. Todo conto era agora apenas uma etapa de uma história maior. Cada vez mais, sobravam menos de nós.
Um dia, entendi aquele mártir que subiu a declamar poemas na praça. Não era burrice ou coragem o que o movia, mas desespero. Ao menos, foi o que me moveu nos saltos desajeitados com os quais subi ao palanque. Mesma estratégia daquele colega inveterado, hoje uma intervenção tão comum que a multidão em frente já antecipava o que ocorreria. As prisões dos ficcionistas da narrativa curta já tinham se tornado enfadonhas aos olhos do público, mas lá estava eu diante deles.
O romancista que lera seu prólogo sequer havia saído da frente do microfone, olhando-me com o mesmo desprezo dos seus iguais. Deitei-o com um cruzado. Apanhei o microfone. O ar me faltava, roubado pela euforia da revolta incontida. Tinha considerado mil declarações para aquele momento, contemplei o sujeito espatifado no chão e sorri. Para todos, um maluco.
— Se no romance se ganha por pontos… no conto se ganha por nocaute!
Os guardas interromperam sua marcha na metade da escadinha. Alguém no meio da multidão deixou escapar uma risada. Silêncio. E então gargalhadas. À minha frente, as pessoas riam, uns me imitavam, caçoando de meu jeito, até os guardas vieram buscar sem violência, apenas me dando alguns tapinhas nas costas e dizendo “certo, tá bom”… eu estava anestesiado demais para sequer sentir vergonha. Demoraria a entender o significado daquele momento.
O primeiro sinal foi na prisão. Um bilhete passado por debaixo da mesa no refeitório e um sussurro:
— Há outros mundos possíveis além deste.
O papel apenas dizia: “EntreMundos”. Na hora de receber sol no pátio, fui apresentado a um grupo, diziam que minha tirada no palanque havia se espalhado como uma piada. Um chiste que, entretanto, ganhava novos contornos. O grupo se chamava “Área OFF”.
Como qualquer ficcionista da narrativa curta, eu era submetido a entrevistas regulares para acompanhar a minha conversão. “Já iniciou seu romance?”, perguntaram. Eu lembrava-me da minha frase, das risadas… da repercussão que descambava em algo muito maior. Sorri.
— Já escrevi o prólogo.
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