EntreContos

Literatura que desafia.

Quanto riso, Oh, quanta alegria…. (Macunaíma)

macunaima

A bola de fogo no céu, as ondas branquinhas espumando feito sabão em pó, e o mar azul-olhos-Bruno-Gagliasso são um convite à felicidade. É fevereiro. Eu não estou feliz. O mundo ao meu redor, sim.

Os foliões cantam marchinhas de igual melodia repetidas à exaustão, pulam feitos loucos a dança da chuva, com o sol a pino, desfilam nas avenidas, seminus, empunhando sombrinhas multicoloridas e bonecos gigantes, e varrem as madrugadas enchendo os cornos de cerveja, numa exagerada alegria brasiliana.

Anseio pela quarta-feira de cinzas. Estufo uma covinha sinistra no canto da boca. Foi mais forte do que eu. Ninguém consegue ser feliz assim o tempo todo. A minha cara de paisagem congelante de país nórdico, não se deslumbra diante do cenário tropical exuberante e da alegria com data marcada.

Ligo a TV, as peladonas invadiram o país. Desligo. A festa tupiniquim tem o poder de causar-me desconforto gástrico, além de todos os outros que sinto durante o ano. Nesta época, a sem-vergonhice que assola o país traveste-se de alegria e roupas sumárias, ou roupa nenhuma, numa catarse coletiva de alienação. O inverno da minha alma suplica por botas de cano alto e casacos estofados.

Não quero parecer arrogante, uma pseudo-intelectual desdenhando uma festa popular inserida no folclore do país, mas é que a minha batida destoa do ziriguidum da cultura nativa, do afoxé, filhos de Gandhi, o escambau. A igreja, na Antiguidade, bem que tentou dar o tom da festa instituindo o jejum e o controle dos prazeres mundanos durante a quaresma, o carnis levale, ou retirar a carne, porém o Deus Baco e as festas pagãs mandaram às favas a moral e os bons costumes. Acho que a brazucada botou no chinelo o Deus Bacon, e enfiou de vez a mão na carne.

Espremo o nariz e as ideias na vidraça, matuto a sina de Macunaíma incorporada pelo gigante adormecido que despertou e dormiu novamente. Por vezes solta um pum pelos esgotos a céu aberto e um estridente bocejo da boca banguela: “Ai que preguiça!”. Envergonho-me de vomitar mazelas da nação na qual fui parida, se eu fosse carnavalesca sairia no bloco do Edward Snowden.

Enfrento o inevitável e debruço-me na sacada da área avarandada; bem embaixo do meu nariz segue o desfile de personagens bizarros, em flagrante desrespeito à fauna, à flora e ao Simões Lopes Neto: um par de peitos esvoaçantes com asas de pavão; um rapazote esbanjando testosterona com um bico de tucano a cortejar a periquita da belezura tatuada; um abobado pulando num pé só, de touca vermelha, cachimbo na boca e uma placa pendurada no peito: Vendo 1 tênis 41, sem uso; um cara com máscara de boi, roupa de boi, pensamento de boi. O bando segue em algazarra atrás do trio elétrico – “que só não foi quem já morreu”. Estico o dedo médio, o pai-de-todos, e mando uma banana nanica da Martinica para quem já foi.

A retina atravessa a janela gradeada até a bromélia, a flor preferida de mãezinha. Ela deve estar lá fora, no jardim, cuidando de mim. Talvez não, ela não dá conta nem do túmulo infestado de capim.  Penso nas suas manias, no jeito irritante que tinha de programar tudo, de querer as coisas sempre sob controle. Sinto tanta falta das suas manias, dos seus controles, de me dizer o que fazer.

“Oh jardineira por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu, foi a Camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu”. A música chiclete não para de me torturar. A melodia, cantada a plenos pulmões pela multidão, jogou os holofotes no baú de fantasias trancadas a sete chaves. A gastrite está a um passo da promoção para tornar-se úlcera; um ninho de cobras se alojou na minha barriga, emaranhadas, prontas para o bote, de linguetas bifurcadas de fora, exigindo a abertura da caixa de Pandora. Perco de vista o bloco dos foliões, absorta em reminiscências juvenis.

Um dia antes dos grandes olhos glaciais mergulharem na viagem de retorno à casa do Todo-Poderoso, ela me entregou uma carta e pediu para eu procurar o meu pai. Sim, eu tinha pai. Fiquei sabendo, naquele momento, que ele não morreu na guerra, nem foi comprar cigarros e tão pouco abduzido por um extraterrestre.

Consegui decifrar na carta, com uma lupa, a concessão do perdão ao meu pai e o pedido de cuidados à minha pessoa. Não sei por que fez isso, se tinha certeza de que Deus a salvaria. Acho que as pessoas à beira da morte perdem a arrogância, que deve ser o mesmo que perder todas as certezas.

A sua irmã sabia. Mamãe pediu segredo. Era para me proteger. Eu não queria ser protegida. A tia contou-me que ele chamou minha mãe de vadia e disse que a filha não era dele, quando ela o procurou cheia de enjoos. Falou que os homens agem assim porque não querem assumir compromissos e nem pagar pensão. Também afirmou que a doença da irmã era porque ela viveu cheia de raiva e mágoas, que as doenças nos países baixos das mulheres têm a ver com a maldade dos homens, e que as doenças do emocional apodrecem o corpo. Tudo baboseiras que a tia leu nos livros de autocura.

A sua partida aconteceu num domingo de carnaval, o céu carregado de nuvens cor de chumbo − ao menos a moça da previsão do tempo não decepcionou. A primeira lágrima rolou do meu olho direito preto de pálpebra caída, depois do esquerdo, de pálpebra caída e da mesma cor do outro, seguido de uma enxurrada nos dois, misturados à tromba d´água desabada no jardim das almas mortas.

Atarraxei o maxilar da ironia bestial esgaçada no carro de som, passando na rua ao lado do condomínio das sepulturas: “Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”. Dei o último beijo nela. O irmãozinho natimorto venceu. O bastardinho veio buscar a nossa mãezinha.

Não foi difícil chegar até a revendedora de veículos, havia um painel enorme de publicidade em frente à rodoviária. Entrei na loja com o pé direito, o que tanto faz, tanto fez. O atendente me acompanhou até o patrão, no momento em que me viu alongou o queixo com a mão feito um sábio. Apontou a uma porta, tomou a dianteira, voltou atrás, deixou-me entrar primeiro, espremeu a testa suada com os dedos peludos. Deve ser o escritório. Sentei. Ele também, do outro lado da mesa, pronto para me sabatinar, como faziam os orientadores educacionais do instituto certinho imaculado coração de Maria.  

− A carta?

− Oi?

− Deixa eu ver a carta.

Entreguei o papel, mas naqueles olhos espremidos não ia conseguir entender a letra, tipo fonte script MT Bold, tamanho 10. Segurou-a com a ponta dos dedos e punhos fechados para eu não perceber a tremura das mãos.

− Dezesseis né?

− Sim, mês passado.

− Vou levar para o advogado.

− Tá.

Fedeu. Ele colocou gente da lei na história, anotou o telefone da tia − esse troço de justiça é para os fortes. Uma mulher de cabelos castanhos chocolate ao leite e cara de madrasta da Disney apareceu na porta, de mãos na cintura, feito uma xícara sem pires. Mãezinha dizia que eu tinha um sexto sentido aguçado, pois Deus capacita todos aqueles que creem Nele. Não precisava de muita capacidade para perceber que a mulher era uma megera. Imaginei que ficaria pior quando soubesse quem eu era. E ficou. Nunca mais vi o homem da revendedora.

A batucada lá embaixo resgatou-me das lembranças áridas; enverguei o olhar à gurizada em subida ao morro pela trilha de pedras empilhadas nas encostas que margeiam a morada, e então, a máscara caiu. “A mesma máscara negra que esconde o teu rosto, eu quero matar a saudade”.

− Filha, desce daí. − Mal ensaiei a escalada nas mesmas encostas, e recebi a bronca dela.

− Filha, vem!

A filhinha não chorou. A mamãe sim. O irmãozinho nasceu morto. Passei a dormir de luz acesa para o monstro gosmento embaixo da cama não descobrir o poder do meu pensamento − não queria intrusos entre mim e ela.

O bicho-papão-gosmento, que habita o meu quarto desde que desejei que o maninho não saísse da barriga de minha mãe, continua fazendo buuu para a menina má. É a minha penitência. Credo! Peguei-me no flagra tamborilando o sambinha nos dedos “Boi, boi, boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta”.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.