EntreContos

Literatura que desafia.

O rapto de Flora Novais pelo famigerado cangaceiro Galdino Rubião (Astrogildo)

flora_novais

Pernambuco- 1938

Uma mosca voejava na janela e o zumbido dela era o único ruído que o delegado Ubiratã ouvia naquele início de tarde quente. Recostado na cadeira, ele começou a cochilar. Batidas leves na porta, interrompeu a sua sesta.

– O doutor prefeito deseja falar com o senhor. – disse o escrivão metendo a cabeça pela porta entreaberta.

O delegado se aprumou. – Manda entrar.

Gumercindo Novais entrou e os dois se cumprimentaram com um vigoroso aperto de mão.

– Em que posso lhe ser útil? – indagou Bira, oferecendo acento.

– Ouvi dizer que Galdino Rubião e seu bando fez rebuliço em Cachoeira e parece que ele está vindo para estes lados. Dizem que ele é como uma praga, onde passa tudo morre!

Bira esboçou um sorriso de confiança.

-Tenho certeza que Tupã vai enviar o Boitatá para castigar o homem.

O prefeito surpreendeu-se, hesitante. Sempre achou que o governo errou na escolha de um índio para o cargo de delegado. Ubiratã era corajoso, honesto, tinha sido um bom soldado e agora como delegado, aplicava a lei com rigor, mas não deixava de ser um índio supersticioso.

– Não posso acreditar que um boi divino possa nos proteger! – argumentou o prefeito.

– Não é boi, é cobra. Cobra de fogo. Baê tata, coisa de fogo, fogo que corre. Protege a floresta e os animais.

– Vamos ser mais realistas.- pediu Gumercindo. -Temos soldados suficientes para enfrentar os cangaceiros, caso eles resolvam atacar Riacho Torto?

– Tenho um pelotão efetivo de oito soldados, mas posso arregimentar mais quinze, ou vinte voluntários em caso de emergência. – Ubiratã abriu um largo sorriso de confiança. – Não se preocupe, doutor, a segurança tá garantida!

Gumercindo sacudiu a cabeça.- Assim espero. Bom, eu vim aqui mais precisamente para convidar o senhor e sua família para assistir o casamento da minha filha na igreja com o doutor Ernesto, no próximo sábado.

– Obrigado pelo convite! Iremos com certeza.

—————————————————————————————————

Uma lagartixa esgueirou-se vacilante pela parede e numa rápida corrida, sumiu num pequeno buraco do forro. Abaixo, Durvalino Fragoso folheava uma revista, já lida quinhentas vezes, quando alguém entrou na barbearia.

–  Boa tarde! Gostaria de aparar o cabelo.

– Mas, claro! Sente-se. – Durvalino levantou-se e virou a almofada. O homem sentou-se, perguntado:

– Quais são as novidades? Vi a rua toda enfeitada!

O barbeiro estendeu o avental sobre seus ombros. – Vai haver festa na cidade! O doutor Ernesto Figueiras vai casar com a senhorita Flora Novais, a filha do prefeito.

– E quando vai ser o casório?

– Pois, é amanhã! Dona Conceição Olinto já tá preparando o banquete.

– Vai ter comes e bebes, então?

– Tudo pago pelo prefeito.

– E o baile? Festa de casamento sem baile não é festa!

– Com certeza. A bandinha do Nhô Nico vai animar o bate-coxa lá na sede da igreja. A cidade toda foi convidada. O senhor não vai? Como é mesmo o seu nome?

– Me chamo Romildo. Não vou poder ir, não. Estou de viagem para a capital.

– A passeio?

– A trabalho. Sou caixeiro viajante.

Durvalino acabou o serviço, recebeu o pagamento e acompanhou o cliente até a porta. Viu o homem se afastar a passos lentos, olhando para o prédio da delegacia. O barbeiro achou estranho um caixeiro viajante sem maleta! Nem podia imaginar que aquele homem era um espião dos cangaceiros.

———————————————————————————–

Um cachorro coçava as pulgas na porta da igreja. A rua estava enfeitada com bandeirinhas de papel colorido. Na praça, um grupo de meninos soltavam pipas. Dentro da igreja, em frente ao altar, o doutor Ernesto esperava a noiva ao lado do padre. Nos bancos, os convidados, amigos, conhecidos e desconhecidos também esperavam curiosos pela entrada da noiva.  

Gumercindo Novais e a noiva, chegaram de charrete enfeitada com grinaldas de flores. Descendo da boleia, o prefeito deu o braço à sua filha, a bela e sorridente donzela, Flora Novais. Mas, eles nem chegaram a entrar. Um tropel de cavalos soou na rua. Cangaceiros surgiram de repente galopando e disparando seus rifles para o alto.  Houve um rebuliço, gritos, correrias. Um deles avançou com o cavalo e derrubou o prefeito. Sem mesmo desmontar, Galdino Rubião segurou a espantada e paralisada noiva pela roupa, levantou-a e a colocou atravessada sobre o pescoço da montaria. Assim, como uma lufada de vento, o bando de cangaceiros chegou e se foi.

————————————————————————————–

Oito anos depois.

O galo cantou. Ernesto acordou pensando em Flora. Fazia tempos que não pensava nela. Recordações impossíveis de esquecer, uma mágoa impossível de não sentir. Lembrava da jovem em seu vestido branco, a coroa de flores cingindo a fronte, arrebatada na porta da igreja. Galdino Rubião chegou naquele dia trazendo a dor e a tristeza, a seca e o desânimo. Levou sua noiva, levou a alegria e o amor de Ernesto e ele, depois disso, abandonou a cidade e enfurnou-se no sertão. Passou anos procurando a amada. A última notícia que teve do cangaceiro, davam conta que ele passou com seu bando por Brumado, na Bahia. Isso foi há 5 anos.

A esperança pela volta de Flora, mantinha Ernesto vivo. Deixou de ser médico, deixou de sorrir. Virou ermitão. Acordou aquele dia com um estranho pressentimento, um coçar atrás do cocuruto. Sentia-se inquieto, naquela manhã que se iniciava, quente e seca.

Tomou o café, colocou o chapéu e saiu. Ficou parado, olhando a paisagem cinzenta, inerte, imutável. No passar de olhos, teve a impressão de ver Flora atrás de um monte de lenha. Quando voltou a olhar, não viu ninguém lá, só as toras de madeira. Achou que foi imaginação, um engano da vista só porque havia pensado nela. Pegou o balde e se dirigiu para o açude, buscar a água que ainda restava. Mas, em lá chegando não encontrou mais nada, somente a desolada depressão de barro seco e rachado. Desanimado, começou a voltar pelo mesmo caminho e foi então que ele viu a figura escura e lúgubre, na orla da galhada cinzenta.

O homem vestia roupas escuras, na cabeça um chapéu preto de aba dobrada, nos dedos longos, anéis de prata e ouro. Sentado num tronco, de cabeça baixa, mexia com um graveto um carreiro de formigas. O rifle estava encostado no tronco de um umbuzeiro, talvez o dono confiante na boa sorte, dispensava a segurança. O umbuzeiro, sendo resistente à pior seca, tinha morrido a um simples toque da mão daquele homem. Ernesto logo soube que era o famigerado cangaceiro, Galdino Rubião. O homem que raptou sua noiva.

O bandido estava distraído, sem perceber a presença dele. Ernesto decidiu pegar a arma. Era só dar dois passos largos até o umbuzeiro. Precisava ser rápido, antes que o homem o visse. Tinha que dominá-lo e perguntar onde estava Flora, o que havia acontecido com ela. Mas, nesse instante, Galdino ergueu o rosto magro, queimado pelo sol. Uma expressão de surpresa passou rápido por suas faces. Olhou de esguelha para a arma e voltou a encarar Ernesto, esboçando um sorriso. Mas, não era um sorriso cordial.

– Hoje vai ser mais um dia quente, não é seu moço?

Uma pergunta sem interesse, por modo de assunto. Ernesto sabia que o bandoleiro não hesitaria em mata-lo, caso fosse ameaçado. Queria se atirar ao pescoço dele, mas se controlou, optou por um meio mais civilizado.

– Onde está a moça que o senhor raptou em Riacho Torto? Flora Novais? O senhor a levou da porta da igreja a oito anos atrás!

Um lampejo passou pelos olhos do homem. Fez uma pausa, tentando fazer a ligação daquele desconhecido com o fato. Sabia agora que fora reconhecido e evidentemente, precisava tomar decisões. Olhou para Ernesto avaliando o grau de perigo. Achou que ele não era ágil o bastante para pegar o rifle antes dele. Bastava espichar o braço.

– Não sei do que o senhor está falando! Parei aqui para descansar um pouco. Esse calor medonho nos põe lasso, embota nossos sentidos. O senhor está me confundindo com outra pessoa. Se estou incomodando, é melhor me retirar.

Ernesto se movimentou mais rápido. Deu um salto, pegou a arma e engatilhou, apontando para o peito do espantado cangaceiro, que tentou argumentar.

– Cuidado! O senhor está enganado. Meu nome é Severino Fabiano da Rosa, agricultor em retirada para outras bandas, que aqui a seca me arruinou.

– Conversa que não me engana, Galdino Rubião!

Com os sentidos dirigidos ao homem, Ernesto não percebeu que alguém se aproximava por trás dele, com a mão erguida segurando um punhal. Foi o estalo de um graveto partido que o alertou. Ele girou o corpo no exato momento em que o braço descia. A lâmina cortou o ar. Com aquele movimento brusco, Ernesto perdeu o equilíbrio e caiu de costas no chão duro. A cangaceira se atirou sobre ele como uma onça furiosa. Mal teve tempo, Ernesto, de segurar pelo punho o braço armado. Preso sob o corpo dela, com a ponta do punhal a centímetros de sua garganta, sentiu no rosto a respiração ofegante da mulher. Só então, descobriu que era Flora, sua noiva, determinada a matá-lo!

Flora Novais, obrigada a seguir os cangaceiros, a viver como eles, se vestir como eles e se tornar um deles. Evidentemente, Galdino a dominou, manipulou suas vontades, seus pensamentos fazendo com que esquecesse o passado.

– Flora! Sou eu, Ernesto!

Ela pareceu não ouvir, continuou tentando feri-lo.

– A gente ia se casar. Procura lembrar!

As palavras conseguiram romper a barreira do esquecimento. A expressão no rosto dela suavizou-se, a força diminuiu, o olhar se acendeu.  

O nome dele foi pronunciado com hesitação, num som rouco. – Ernesto?

Ela se ergueu, confusa, ele também se levantou, expectante. Flora largou o punhal e aproximou-se, segurando o rosto dele com as duas mãos. Agora ela o reconhecia. Havia deixado escapar da memória, o seu passado, o seu noivo, mas agora as lembranças voltaram para ficar. A voz de Galdino soou, ameaçadora.

– Seu moço não vai desfrutar desse reencontro. Vou matar os dois!

Ernesto voltou-se. Tinha esquecido o cangaceiro. O bandoleiro recuperou o rifle e apontava para ele. Ernesto estremeceu. Logo agora que havia encontrado sua noiva! Ele pensou em se atirar contra Galdino, antes que apertasse o gatilho. Sabia que as chances eram mínimas. Mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, um som sibilante, um crepitar de fogo soou bem perto.

O bandido percebeu o olhar espantado de Ernesto e Flora. Ele voltou-se para ver o que havia às suas costas. Era o Boitatá, a cobra de fogo, o fogo-que-corre, protetor das matas e dos animais. Galdino já tinha ouvido falar naquela criatura e achava que era um mito. Ele apertou o gatilho várias vezes contra o monstro, mas de nada adiantou. Tentou fugir, mas tropeçou e caiu.  Com os olhos em brasa, o corpo em chamas, o boitatá avançou contorcendo-se e abocanhou o homem pelas pernas. Fez um giro com sua presa e se foi por onde tinha chegado. Os gritos de Galdino Rubião foi sumindo pelo caminho, deixando o silêncio em seu lugar.

Ainda assombrado pelo acontecimento, a moça reagiu ao sentir as mãos de Ernesto segurando as suas. Um trovão soou. Os dois estavam abraçados quando a chuva começou a cair. Não levou muito tempo, um broto nasceu no umbuzeiro seco.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.