EntreContos

Literatura que desafia.

Beterraba (Leonardo Jardim)

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Chegou ao seu apartamento de decoração minimalista e localização privilegiada. Retirou o terno Armani e vestiu um pijama confortável. Dirigiu-se à cozinha – decidira dispensar a empregada naquele dia. Entre goles de uísque e após jogar as cenouras cortadas em cubos na água fervente, observou a mensagem recém-chegada: “Operação concluída”.

Sorriu ao constatar que, numa só jogada, eliminou seus inimigos, os obstáculos ao seu negócio e deu algo sangrento para a mídia e população se ocuparem.

Cortou uma beterraba.

E então, sujou as mãos.

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83 comentários em “Beterraba (Leonardo Jardim)

  1. Leo Jardim
    30 de janeiro de 2017

    🎬 Bastidores: Beterraba

    Naquela dificuldade absurda de ter uma boa ideia que coubesse no espaço tão reduzido, estava vendo as notícias ruins do início de ano e pensei como tem gente poderosa que mata direta ou indiretamente e nunca suja as mãos… eram os primeiros dias do prazo e essa ideia chegou com tudo e eliminou a chance de qualquer outra.

    Desde então, fiquei naquele trabalho que todo mundo deve ter tido: como contar isso em 99 palavras? Como criar uma frase final impactante? E, num grande estalo, quando eu caminhava na rua para o trabalho, veio a ideia da beterraba. No instante infinitesimal seguinte, meu cérebro já associou com o conto “Motivo” (mais conhecido como “Cebola”) de Fabio Baptista. Era uma ideia muito boa, mas muito parecida. Escrevi e reescrevi as malditas palavrinhas n vezes de forma a não ficar muito igual, mas desisti. Se era pra ficar igual, que fosse explícito. Procurei o conto do Fábio e copiei a estrutura. Seria, então, uma homenagem (ou pastiche, como bem o professor Selga ensinou).

    Faltavam ainda vários dias para o fim do prazo e fiquei mastigando meu cérebro pra ver se saía outra ideia. Mas o trabalho da beterraba tinha sido muito bem feito: nenhuma outra ideia havia sobrevivido (será que ela ao menos sujou as mãos?)

    Chegou o prazo e tive que mandar aquele mesmo, com um cagaço imenso das porradas que ia tomar por “copiar” outro texto. (Acho que é o que eu criticaria se não fosse meu). E, adivinha quem foi o primeiro comentarista? Sim, o próprio FB, dizendo que o texto era uma cópia do dele… 😦

    Mas não foi bem só isso que li. A grande maioria gostou da ideia, mesmo perdendo pontos por não ser 100% original (o que acho muito justo). Legal que muita gente que tinha lido “Motivo” conseguiu ver que fiz um trabalho em cima do dele e não apenas uma cópia. Alguns chegaram a ter a audácia de dizer que tinha ficado melhor 😮

    Enfim, gostei muito de ter participado e ter escrito esse conto. Um grande abraço a todos e até o próximo desafio.

  2. Gustavo Henrique
    27 de janeiro de 2017

    Haha gostei bastante, um conto diferente. Parabéns e boa sorte!

  3. Sra Datti
    27 de janeiro de 2017

    Essa mescla de cotidiano, de hábitos, do cortar em cubos e cozinhar os alimentos, de beber seu uisque, de ter dispensado a empregada (de forma natural, e sem mais intervenções do narrador) após um crime foi bárbaro, em ambos os sentidos (e nos outros também se houver mais). O ato de cortar a beterraba e então ter as mãos sujas foi um surpreendente impacto.
    Sinto que o tempo não me permite me aprofundar mais.
    Parabéns!

  4. Remisson Aniceto (@RemissonA)
    27 de janeiro de 2017

    Muito bom, saindo da infinidade de temas surrados (mesmo que a maioria bem escritos) dos muitos contos deste desafio. Muito interessante e bem construído. Tem muita chance. Abraço.

  5. Leandro B.
    27 de janeiro de 2017

    Interessantíssimo como é possível reutilizar a estrutura de um conto e ainda assim escrever algo bom e, de certa forma, original.

    Texto muito bem escrito. Se fosse possível olhar a história de forma isolada, diria que o personagem lembra bastante Wilson Fisk.

    Enfim, parabens pelo texto. Talvez entre no meu top 20.

  6. Lohan Lage
    27 de janeiro de 2017

    Gostei! 🙂
    Bem construído, bom desfecho.

  7. Victória
    27 de janeiro de 2017

    Gostei muito. Não li o tal conto da Cebola que andam falando nos comentários, mas achei genial a ideia do protagonista sujar as mãos de beterraba, já que não sujou, literalmente, as mãos de sangue ao ordenar a tal operação concluída. Acho bacana também o “jogo de poder” que o conto envolve, retratando um homem poderoso e provavelmente inteligente. Parabéns!

  8. rsollberg
    26 de janeiro de 2017

    É uma releitura do clássico “Cebola” do Fábio Baptista, um dos meus preferidos do último desafio de microcontos.
    Nesse sentido, o impacto e a surpresa ficaram em segundo plano.
    Ocorre que aqui, o autor foi muito habilidoso em criar uma história com a mesma estrutura, mas com um enredo absolutamente original. Em determinados pontos, superior ao modelo.
    Invejável a capacidade do autor em enquadrar tudo no mesmo molde sem nem de longe parecer uma cópia mal feita.
    Por todo o exposto, parabéns pela coragem e boa sorte

  9. Simoni Dário
    26 de janeiro de 2017

    Esse conto me remete diretamente ao conto “Cebola”, de outro desafio. Mesmo a comparação sendo inevitável, não deixa de estar bem escrito e bem finalizado. Chego a suspeitar que tenha sido escrito pela mesma pessoa do outro conto. A metáfora das mãos sujas me agradou bastante.
    Bom desafio!

  10. Fil Felix
    26 de janeiro de 2017

    Algo bem 007niano, jogo de política ou de agentes ou da máfia? Gosto desse tom. O grande destaque fica pro jogo de palavras, muito bem utilizado e que marca no final, mostrando-o sujando as mãos de verdade. Um bom conto!

  11. Gustavo Aquino Dos Reis
    26 de janeiro de 2017

    Acho que a grande infelicidade do conto foi ter sido escrito pós “Motivo”
    Ligar essa obra àquela é uma coisa que se dá naturalmente.
    Ele está bem escrito, tem uma narrativa própria, mas estruturalmente ficou similar demais. Requentado demais.
    Parabéns.

  12. Felipe Teodoro
    26 de janeiro de 2017

    Olá.

    O conto é interessante e no geral bem escrito. Achei apenas que o uso de “Operação concluída” não ficou muito legal, parece até legenda de filme de Hollywood. O melhor momento com certeza e o desfecho, a relação sangue nas mãos, a consciência que pesa (ou não). Enfim, um trabalho na média.

  13. Paula Giannini - palcodapalavrablog
    25 de janeiro de 2017

    Olá, Bloody,

    Adorei seu pseudônimo.

    Li no grupo que este conto tem relação com o vencedor do ano passado. Intertextualidade. Buscarei o conto mas prefiro comentá-lo aqui antes de o fazer.
    Gosto de comentar imaginando o leitor desavisado. O que ele sente ao ler uma história, o que entende, enfim. A intertextualidade certamente acrescentará mais uma camada ao texto. E isso é ótimo.

    Quanto ao conto em si, gostei demais. O jogo de palavras com a beterraba e sua cor, a sujeira nas mãos e o mau caráter do personagem, são, certamente artifícios usados por um escritor maduro, consciente de suas escolhas e que se diverte com o que faz.

    Parabéns por sua verve.

    Muito boa sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  14. Lídia
    25 de janeiro de 2017

    Paródia do micro da cebola! Adorei! kkkkk
    Lembrou-me muito Narcos e esses outros esquemas políticos da atualidade e históricos.
    O que mais me interessou foi que o personagem só sujou as mãos de vermelho quando cortou as beterrabas, ou seja, a “operação” jamais seria vinculada a ele.
    Achei muito bem escrito! Gostei bastante!
    Boa sorte!

  15. vitormcleite
    25 de janeiro de 2017

    bem escrito e mostras um ambiente muito interessante. Gostei da ironia, muitos parabéns. Quase quase entravas na minha lista dos vinte! Lamento

  16. Estela Menezes
    25 de janeiro de 2017

    Até o momento em que ele corta a beterraba, seria apenas mais uma cena muito bem descrita e que a gente vai lendo com curiosidade, embora sem grandes impactos. Com a chamada recebida, a temperatura sobe um pouquinho, mas é na virada “curta e grossa” que a gente recebe o banho de água fervente. Sensacional a construção!

  17. Srgio Ferrari
    25 de janeiro de 2017

    O poder só suja as mãos assim mesmo, de resto o dinheiro compra tudo…suspiro. Bom microconto. Parabéns.

  18. Daniel Reis
    25 de janeiro de 2017

    Bom, chegamos a ele. O famigerado texto da cebola ao contrário. Não vou negar que o autor teve uma puta sacada, quase publicitária eu diria, com uma ponta de inveja. Mas, infelizmente, como história em si o resultado foi mais de pastiche que de homenagem. Para quem não sabe de onde veio o conceito original, o texto não tem significado claro – a referência ao conto vencedor “Cebola”, do último desafio microcontos. Funciona como brincadeira interna entre os iniciados no Entrecontos, mas não se sustenta fora do ambiente. Sinto muito, não estará entre os meus favoritos.

  19. Tom Lima
    25 de janeiro de 2017

    É bem interessante que ele só suja as mãos com a beterraba. Nada antes deixa ele com essa sensação. Ou ele não acha errado o que fez, ou realmente não fez nada errado com sua jogada. Essa dúvida é gostosa, pra mim. Final aberto na medida certa.

    Muito bom. Parabéns.

    Abraços.

  20. Rubem Cabral
    24 de janeiro de 2017

    Olá, Beetroot.

    Curiosidade “nada a ver”: meu nome, em alemão, parece “beterraba”: Rübe. 😉
    O conto é uma óbvia homenagem ao conto da cebola, do Fabio Baptista. No entanto, apesar de usar uma “fórmula” parecida, conseguiu um efeito muito bom, ao associar manchar as mãos com beterraba ao sujar com sangue.

    Nota: 8.5

  21. Laís Helena Serra Ramalho
    24 de janeiro de 2017

    O conto tem uma ideia interessante por trás e o final, com a beterraba, trouxe uma imagem impactante. Um final inesperado, dado o título.

    Mas fiquei um pouco decepcionada por não saber o que exatamente ele fez. Ter deixado isso como uma ponta solta tirou um pouco do impacto, me privou de saber qual foi a sacada genial dele. Além disso, não entendi a relação da empregada com isso tudo.

    A escrita não foi muito imersiva. Achei que faltou um detalhe aqui e ali (quem sabe o celular apitando para anunciar a mensagem ou uma música de fundo) para realmente me sentir imersa.

  22. Tiago Menezes
    24 de janeiro de 2017

    Achei bem diferente a estrutura desse conto. O homem era bastante ambicioso, não mediu esforços para conseguir o que queria, e a utilização da beterraba para citar a sequência das “mãos sujas” foi muito boa. Parabéns!

  23. Renato Silva
    24 de janeiro de 2017

    Gostei da referência ao conto vencedor do último desafio de microcontos, mas ao mesmo tempo, não achei legal usar o “esqueleto” de um conto vencedor para escrever outra estória numa competição. Poderia ter sido enviada para a temporada OFF do Entre Contos. Mesmo assim, gostei do seu microconto e você soube utilizar bem as palavras.

    Boa sorte

  24. Miquéias Dell'Orti
    23 de janeiro de 2017

    Oi Beterraba Sangrenta,

    Sua história tem um “quê’ de protesto contra homens ambiciosos que não medem esforços ou princípios para aumentar ainda mais seu poder e influência.

    O ambiente onde se passa o conto foi bem descrito e me eu senti lá, com ele, um sociopata maluco, com muito dinheiro, e tendências vegetarianas cortando beterrabas depois de mais um dia bem sucedido.

  25. Vitor De Lerbo
    23 de janeiro de 2017

    Um conto que mais parece um relato de algo que pode ter acontecido há poucos dias. Pontual e bem escrito, com uma ótima analogia no final.
    Parabéns e boa sorte!

  26. Givago Domingues Thimoti
    23 de janeiro de 2017

    Não gostei muito, mas a temática foi um ponto positivo, assim como a metáfora do final do texto.
    Boa sorte!

  27. Cilas Medi
    23 de janeiro de 2017

    Um bom conto, com final correto. Boa sorte!

  28. Jowilton Amaral da Costa
    23 de janeiro de 2017

    É um bom conto. Mas, a lembrança do conto da cebola do desafio passado de micro contos ainda fica na cabeça, a estrutura é bem parecida e quase impossível não fazer a comparação, o que enfraquece o texto, na minha opinião. Em termos de impacto o da cebola é mais impactante. Boa sorte.

  29. catarinacunha2015
    23 de janeiro de 2017

    MERGULHO no mar de lama vermelha. Quantos personagens reais podemos encaixar nesta salada de beterraba com cebola (adooooro!!!). É tão triste e realista que quase choro com o IMPACTO das mãos sujas.

  30. Amanda Gomez
    23 de janeiro de 2017

    Oi,

    Bem fui lá ler o conto Cebola pra entender a jogadinha aqui. Achei muito bacana a ” homenagem” ficou bem legal.

    Analisando o conto somente, eu gostei.. fez uma alusão as mãos sujas de sangue, que de fato estão. O homem rico e poderoso, se desfez dos seus inimigos de forma sangrenta. A metáfora da cor da beterraba com o sangue em suas mãos foi uma ótima sacada.

    Gostei, está bem escrito.

    Boa sorte no desafio.

  31. Wender Lemes
    22 de janeiro de 2017

    Olá! Curioso… é o segundo conto sobre beterrabas que leio no desafio, ambos muito criativos, mas com abordagens totalmente diferentes. Focando no atual, uma maneira inteligente de subentender um empresário despudorado que usa/provoca uma tragédia a seu favor. Os detalhes ficam na mente do leitor, o que é sempre bom, e é possível deduzir o que acontece de forma relativamente direta. A ambiguidade ao final fecha bem a narrativa.
    Parabéns e boa sorte.

  32. Davenir Viganon
    22 de janeiro de 2017

    O conto tem a mesma estrutura do famoso campeão do desafio de micros passado, “Cebola”. Trocando os personagens e situações. Sinceramente eu gostaria mais de uma releitura da personagem daquele com uma estrutura diferente que a reutilização da estrutura. Ainda sim, o resultado é bom.

  33. Thayná Afonso
    22 de janeiro de 2017

    O conto me lembrou muito a recente queda do avião, que tirou o foco das investigações, deu algo sangrento para mídia e ainda alguns ainda tiveram obstáculos e inimigos eliminados. Conto muito bem escrito, parabéns!

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Informação

Publicado às 13 de janeiro de 2017 por em Microcontos 2017 e marcado .