EntreContos

Literatura que desafia.

A Caleche – Clássico (Nikolai Gogol)

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A cidadezinha de B. animou-se muito quando nela se aboletou o regimento de cavalaria ***. Antes disso, pasmava num tédio mortal. Quando, por acaso, passamos por esta cidade e olhamos para as casas baixinhas e rebocadas de argila, emanando um incrível azedume, pronto … é impossível exprimir como se nos aflige o coração: tanto é o anojo, como se acabássemos de perder ao jogo ou de dizer alguma coisa despropositada – é mau, mau, mau, e está tudo dito.

Com as chuvas, o barro desprendeu-se das paredes que de brancas se tornaram malhadas; os telhados são, na sua maioria, cobertos de junco, como é hábito nas nossas cidades do sul; quanto aos jardinzinhos, havia muito que o governador civil, com o intuito de melhorar a paisagem urbana, os mandara cortar. Nas ruas não encontramos vivalma que não seja um galo atravessando a calçada macia como uma almofada por causa da camada grossa de poeira acumulada que, à mínima pinga de chuva, se transforma em lama; então, as ruas da cidade de B. enchem-se daqueles animais corpulentos a que o governador civil local chama de franceses.

Assomando os focinhos sisudos das suas banheiras, levantam grunhidos tais que o viajante se vê obrigado a apressar imediatamente os cavalos. De resto, é difícil encontrar um viajante na cidade de B. É raro, muito raro, que um qualquer proprietário rural possuidor de onze almas camponesas e vestido de sobrecasaca de nanquim rode pela calçada num híbrido de britchka e carroça, espreitando por detrás dos sacos de farinha amontoados e chicoteando a sua égua baia atrás da qual corre um potro.

A própria praça do mercado tem um ar um pouco triste: a casa do alfaiate está disposta de maneira muito estúpida, não oferecendo à praça a sua fachada mas a empena; ora, em frente desta está a ser construído há já quinze anos um prédio qualquer de pedra e com duas janelas. Mais adiante ergue-se, isolado, o tapume da moda, feito de tábuas pintadas de cinzento a condizerem com a lama, mandado construir como modelo pelo governador civil nos seus anos jovens, quando ainda não tinha o hábito de dormir logo após o almoço e de beber à noite, antes de ir para a cama, uma decocção qualquer feita com bagas secas de groselha espinhosa: Noutros lugares, só paliçadas; no meio da praça, umas lojecas minúsculas onde encontramos sempre uma fiada de roscas, uma mulher de lenço vermelho, uma arroba de sabão, várias libras de amêndoa amarga, chumbo para a espingarda, pano demicoton e dois encarregados comerciais jogando à porta da venda, todo o tempo, à svaika.

Porém, mal se aboletou na cidade de B. um regimento de cavalaria, tudo se alterou. As ruas animaram-se, tornaram-se coloridas – isto é, o seu aspecto mudou da noite para o dia. As casas baixinhas, volta e meia, viam passar a seu lado um destro e esbelto oficial, de penacho na barretina, de visita a um camarada para falar com ele de promoções, do excelente tabaco ou mesmo para apostar às cartas uma charrete que podia ser considerada regimental já que, sem sair do regimento, passava por todas as mãos: hoje transportava o major, amanhã estava na cocheira do tenente, uma semana depois já a ordenança do major voltava a untá-la de sebo.

A paliçada de madeira entre os quintais estava toda cheia de bonés dos soldados, pendurados ao sol; nalgum portão pendia, infalivelmente, um capote cinzento; pelas ruelas andavam soldados com bigodes rijos como escovas de calçado. Entreviam-se por todo o lado tais bigodes. Juntavam-se no mercado as citadinas com os seus púcaros – e já por trás dos seus ombros se assomavam os bigodes. No estrado dos anúncios, já um soldado de bigodaça ensaboava a barba a algum campónio atoleimado que só pigarreava esbugalhando os olhos.

Os oficiais animaram a boa sociedade que, antes disso, era constituída apenas pelo juiz, que vivia na mesma casa que a viúva de um diácono qualquer, e pelo governador civil, um homem ajuizado que dormia, literalmente, todo o tempo: depois do almoço até à noite e desde a noite até ao almoço. Pois esta sociedade tornou-se ainda mais numerosa quando o alojamento do brigadeiro-general foi transferido para aqui.

Os proprietários das terras circunvizinhas, de cuja existência ninguém fazia a mínima ideia até então, começaram a frequentar a cidadezinha distrital para visitarem os senhores oficiais e, até, para jogarem à banca, jogo esse com as regras já bastante obscurecidas nas suas cabeças atulhadas de sementeiras, recados da esposa e caça à lebre.

Tenho muita pena de não me poder lembrar da ocasião em que o brigadeiro-general deu um grande almoço; os preparativos do ágape eram gigantescos: na cozinha do general, o barulho das facas ouvia-se até às portas da cidade. Para o banquete, todo o mercado se esvaziou completamente de víveres, ao ponto de o juiz e mais a viúva do diácono se verem obrigados a comer apenas panquecas de fagópiro e kissel de fécula de batata.

O quintalzinho da casa do general estava atafulhado de charretes e caleches. A sociedade convidada era exclusivamente masculina: oficiais do exército e alguns proprietários rurais da vizinhança. De entre estes últimos, o mais notável era Pifagor Pifagórovitch Tchertokútski, um dos principais aristocratas do distrito de B., o homem que maior alarido armava nas eleições e que lá vinha agora na sua carruagem janota.

Servira outrora num regimento de cavalaria, tendo sido um dos seus mais importantes e destacados oficiais. Pelos menos, era visto em muitos bailes e serões nas localidades por onde passava o seu regimento; basta perguntá-lo, aliás, às meninas de Tambov e Simbirsk. Seria muito possível ter deixado também uma vantajosa fama noutras províncias se não tivesse passado à reserva por alturas daquilo a que se costuma chamar «uma história desagradável»: ou ele deu um sopapo a alguém, ou alguém lhe deu um sopapo, não consigo lembrar-me, mas o certo foi que lhe sugeriram a passagem à reserva. De resto, ele não perdeu com isso a dignidade, de modo algum: usava casaca de cinta alta à maneira da farda militar, esporas nas botas e bigode sob o nariz, não fossem os fidalgos pensar que ele servira na infantaria, a que costumava chamar com desprezo peonagem ou, então, peoagem.

Frequentava todas as concorridas feiras a que a Rússia Interior – formada de mãezinhas, criancinhas, filhinhas e senhores da terra gordos – acorria para se divertir nas suas britchkas, traquitanas, charretes e coches de modelos tais que nem em sonhos nos aparecem. Tchertokútski sabia pelo faro onde um regimento de cavalaria estava aboletado e logo se apressava a visitar os senhores oficiais.

Apeava-se de um salto, com muita destreza, da sua caleche levezinha, ou da charrete, e travava conhecimento num instante. Nas últimas eleições dera à fidalguia um excelente almoço no qual anunciou que, se fosse eleito decano da nobreza, poria os fidalgos a viver à grande. Em geral, armava-se em senhor, como se diz na província, casara-se com uma mulher bastante bonita, recebera duzentas almas camponesas de dote e vários milhares em dinheiro.

O dinheiro foi aplicado imediatamente na compra de seis cavalos realmente soberbos, de fechaduras douradas para as portas, de um macaquinho domesticado, e no recrutamento de um mordomo francês. Ora, as duzentas almas de dote, juntamente com outras duzentas que já eram dele, foram empenhadas no montepio para umas transacções comerciais quaisquer. Em resumo, era um senhor da terra como devia ser… Um senhor de mérito.

No almoço do general compareceram, além deste senhor, mais alguns proprietários rurais, mas não interessa falar deles. Os outros convidados eram todos oficiais médios do dito regimento e ainda dois oficiais superiores: um coronel e um major bastante gordo. O próprio general era robusto e corpulento e, na opinião dos senhores oficiais, nada mau como chefe, aliás.

Falava numa voz de baixo muito espessa e imponente. O almoço era extraordinário: três variedades de esturjões, abetardas, espargos, codornizes, perdizes e cogumelos provavam que o cozinheiro desde a véspera não ingerira uma gota de aguardente, e quatro soldados munidos de facas – os ajudantes – haviam trabalhado toda a noite nos fricassés e nas geleias. Um sem-fim de garrafas – de pescoço comprido as de Lafitte, de gargalinho curto as de Madeira –, um maravilhoso dia estival, as janelas escancaradas, os pratos com gelo na mesa, o botão de cima desabotoado dos senhores oficiais, o peitilho amarrotado dos portadores de casaca de grande capacidade, as conversas cruzadas regadas a champanhe, em que soava mais alto a voz do general – tudo estava em perfeita sintonia. Depois do almoço todos se levantaram com aquele peso agradável nos estômagos e, acendendo os cachimbos, curtos e compridos, saíram para a soleira da porta com as chávenas de café nas mãos.

As fardas do general, do coronel e, inclusive, do major estavam totalmente desabotoadas, pelo que se viam um pouco os nobres suspensórios de seda; os senhores oficiais, porém, guardando o devido respeito, mantinham o uniforme abotoado, à excepção apenas dos três botões de cima.

– Agora, podemos vê-la – disse o general. – Por favor, meu caro – dirigiu-se ao seu ajudante-de-campo, um jovem bastante lesto e de aparência agradável –, manda trazer a minha égua baia! Agora, vão ver. – O general tirou uma fumaça, soltou uma baforada. – Não está cuidada como devia: maldita cidade, não há uma cavalariça razoável. A égua (pff, pff) é bem boa!

– Então, há quanto tempo (pff, pff) Vossa Excelência tem esta égua? – perguntou Tchertokútski.

– Pff, pff, pff … Ora bem, pff, não há muito. Há dois anos apenas que a comprei na coudelaria!

– Então, e Vossa Excelência comprou-a já adestrada ou adestrou-a em casa?

– Pff, pff, pff, ff,ff, pf .. f … f … pff, em casa. – Dizendo isto, o general desapareceu por entre o fumo.

Entretanto, saiu um soldado da cavalariça, ouviu-se o bater de cascos e, por fim, apareceu outro, de bata branca e enorme bigode negro, trazendo pela arreata uma égua que estremecia e se assustava, e que, levantando de supetão a cabeça, por pouco não levantou também o soldado que se agachara e mais ao bigode. «Então, então, Agrafena Ivánovna!» – dizia ele, levando-a até junto da ombreira.

A égua chamava-se, por conseguinte, Agrafena Ivánovna; era forte e selvagem como uma beldade meridional, bateu com os cascos nos degraus de madeira e parou bruscamente.

O general tirou o cachimbo da boca e, com ar de grande satisfação, pôs-se a olhar para Agrafena Ivánovna. O próprio coronel desceu as escadas e abraçou Agrafena Ivánovna pelo focinho. O próprio major deu palmadinhas na perna de Agrafena Ivánovna; os outros estalaram as línguas.

Tchertokútski desceu a escada e pôs-se atrás da égua. O soldado, esticando-se e segurando a rédea, olhava os convidados nos olhos, como se quisesse saltar para dentro deles.

– Muito, muito boa! – disse Tchertokútski.  – Uma estampa! Mas permita que lhe pergunte, Excelência, como é o passo dela?

– O passo é bom; só que … sei lá, cos diabos … o parvalhão do auxiliar-médico deu-lhe uns comprimidos quaisquer, e há dois dias que ela não pára de espirrar.

– Muito, muitíssimo catita. Mas terá Vossa Excelência carruagem apropriada para ela?

– Carruagem? … Mas é uma besta de sela.

– Eu sei que é; fiz esta pergunta a Vossa Excelência apenas para saber se tem uma carruagem apropriada para outros cavalos.

– Bem, na verdade não tenho carruagens suficientes: digo-lhe com toda a franqueza: há muito que gostava de ter uma caleche moderna. Já escrevi a este propósito ao meu irmão que está neste momento em Petersburgo, mas não sei se ele a manda ou não.

– Parece-me, Excelência – observou o coronel–, que não há melhor caleche do que a vienense.

– Tem toda a razão, pff, pff, pff.

– Eu, Excelência, tenho uma caleche extraordinária, de de verdadeiro fabrico vienense – disse Tchertokútski.

– Qual? Essa em que veio?

– Oh, não! Esta é a do dia a dia, para eu andar por aí, mas a outra … é espantosa, levezinha como uma pena; se Vossa Excelência se sentar nela tem a sensação, desculpe a expressão, de estar a ser embalado no berço pela ama!

– Ou seja, é confortável?

– Confortável? Muito: almofadas, molas, tudo como num quadro.

– Isso é bom.

– E quanta coisa lá cabe! Nunca vi nada parecido, Excelência. Quando estava no activo, metia dez garrafas de rum e vinte libras de tabaco na bagageira; e ainda seis fardas, roupa interior e dois cachimbos turcos, Excelência, tão compridos, desculpe a expressão, como uma ténia; ora bem, e nas bolsas pode-se meter um boi.

– Isso é bom.

– Custou quatro mil rublos, Excelência.

– Pelo preço, tem de ser boa. Foi você próprio quem a comprou?

– Não, Excelência, veio parar-me às mãos por acaso. Quem a comprou foi um amigo meu, um homem de qualidades raras, meu companheiro de infância. Vossa Excelência e ele, se se conhecessem, encontrariam muita coisa em comum. Éramos tão amigos que o que era meu também era dele, e vice-versa. Ganhei-lha ao jogo. Não quererá Vossa Excelência dar-me a honra de almoçar amanhã em minha casa? Então verá a caleche.

– Não sei o que dizer … Ir sozinho é, de algum modo … A não ser que os senhores oficiais também vão … Não se importa? – Os senhores oficiais também, com certeza, peço-lhes encarecidamente. Meus senhores, será para mim uma grande honra recebê-los em minha casa!

O coronel, o major e os outros oficiais agradeceram com vénias corteses.

– A minha opinião, Excelência, é que, se decidirmos comprar, tem de ser uma coisa boa, porque uma coisa fraca não vale a pena. Eu, por exemplo … quando amanhã me derem a honra de me visitarem, vou mostrar-lhes algumas inovações na minha propriedade.

O general olhou para ele e soltou o fumo da boca.

Tchertokútski estava contentíssimo por ter convidado aqueles senhores oficiais; já se via, mental e antecipadamente, a mandar preparar patés e molhos e lançava olhares alegres para os senhores oficiais; estes, por seu lado, como que redobraram de simpatia para com ele, o que era visível nas suas expressões e naqueles pequenos movimentos de corpo – uma espécie de vénias. Tchertokútski, agora mais à vontade, chegava-se à frente, desembaraçado, a sua voz soava com desenvoltura: uma voz donde emanava prazer.

– Uma vez lá, Vossa Excelência conhecerá a dona da casa.

– Com muito prazer – disse o general, alisando o bigode.

Depois disto, Tchertokútski quis ir imediatamente para casa, para, com antecedência, preparar tudo para o dia seguinte. Já pegara no chapéu mas, por mais estranho que pareça, não foi. decidiu ficar mais um pouco. Entretanto, já tinham sido postas mesas de jogo na sala. A sociedade não tardou em dividir-se, para o whist, em mesas de quatro pessoas que se sentaram em todos os cantos da sala.

Acenderam-se as velas. Tchertokútski demorou a decidir se sentaria ou não a jogar, mas como os senhores oficiais insistiam em convidá-lo, pareceu-lhe que seria contra as regras de convívio recusar-se. Sentou-se. Despercebidamente, surgiu diante dele um copo de ponche que, distraído, emborcou num instante. Depois de jogar dois róberes, Tchertokútski voltou a achar à mão mais um copo de ponche que também emborcou sem se dar conta, não antes ter dito: «São horas de ir para casa, meus senhores, juro que são horas.» No entanto, ficou para mais um jogo. Entretanto, nos vários cantos da sala, as conversas tomavam um rumo muito especial. Os jogadores de whist estavam bastante taciturnos, mas os outros, sentados nos divãs, conversavam. O capitão, num canto, metendo debaixo dos rins uma almofada e o cachimbo na boca, contava, de forma bastante livre e fluente, as suas aventuras amorosas, agarrando plenamente a atenção do círculo que o rodeava. Um proprietário rural extremamente gordo, de braços curtos lembrando um pouco duas batatas crescidas, ouvia com um ar melífluo e apenas de vez em quando tentava meter a mão curta por trás das costas para de lá extrair a tabaqueira. Noutro canto armou-se uma discussão bastante escaldante sobre o treino do esquadrão, e Tchertokútski, que nesta altura já por duas vezes dera o valete em vez da dama, intrometia-se na conversa e gritava do seu lugar: «Em que ano?», ou «De que regimento?» sem reparar que as perguntas eram completamente despropositadas. Por fim, uns minutos antes do jantar, acabou cerce o whist, mas foi como se ainda continuasse em todas as bocas, como se todas as cabeças ainda estivessem cheias de whist. Tchertokútski lembrava-se muito bem de que ganhara muito, mas não pegou em nada e, levantando-se, ficou muito tempo na pose de quem não tem lenço no bolso. Entretanto, serviram o jantar. É óbvio que não havia falta de vinhos e que Tchertokútski, quase involuntariamente, tinha de encher de vez em quando o seu copo porque havia garrafas à sua direita e à sua esquerda.

A conversa que se encetou à mesa era longuíssima mas conduzida de forma estranha. Um proprietário rural que servira no exército durante a campanha de 1812 descrevia uma batalha que nunca aconteceu, e depois, inexplicavelmente, tirou a tampa de um jarro e espetou-a no bolo.

Em suma, quando começaram a despedir-se já eram três da manhã, e os cocheiros foram obrigados a carregar com algumas personalidades como se fossem trouxas de compras; Tchertokútski, apesar de todo o seu aristocracismo. sentado na caleche fazia reverências tão profundas, de tal amplidão que chegou a casa com duas pegamassas presas ao bigode.

Em casa, toda a gente dormia. O cocheiro teve dificuldade em encontrar o criado grave. Este ajudou então o senhor a atravessar a sala de estar e entregou-o à criada de quarto, com a qual Tchertokútski conseguiu chegar ao quarto de dormir onde logo tombou ao lado da sua jovem e bela mulher de camisa de noite branca de neve e deitada numa pose encantadora. O abalo provocado pela queda do esposo na cama acordou-a. Esticou-se, ergueu as pálpebras e por três vezes pestanejou, depois abriu os olhos com sorriso meio zangado; vendo porém que ele não estava propenso, definitivamente, a dar-lhe qualquer carinho, virou-se com desgosto para o outro lado e, pousando a bochecha fresca sobre a mão, adormeceu de seguida.

À hora a que nas aldeias não se chama «cedo», a jovem dona de casa acordou ao lado do marido que ressonava. Ao lembrar de que ele voltara já depois das três da madrugada, teve pena o acordar e, calçando as pantufas encomendadas pelo marido em Petersburgo e pondo o penteador branco que lhe caía no corpo como água em cascata, entrou no seu boudoir, lavou a cara água tão fresca como ela própria e aproximou-se da toilette. Olhando-se ao espelho urna e outra vez, achou que não estava nada mal.

Esta circunstância, talvez insignificante, obrigou-a a ficar diante do espelho duas horas a mais. Por fim vestiu-se de maneira muito querida e saiu para o ar fresco do jardim. O tempo, nem de propósito, estava excelente, coisa de que só pode gabar-se um dia estival do Sul. O sol aproximava-se do meio-dia e embora queimasse, com toda a força dos seus raios, podia-se passear à fresca nas alamedas, sob as copas das árvores. As flores, aquecidas pelo sol, triplicavam de fragrância. A bela dona de casa esqueceu-se por completo de que já era meio-dia e o marido ainda estava a dormir. Já lhe chegava aos ouvidos o ressonar pós-almoço de dois cocheiros e um boleeiro, que dormiam na cavalariça por trás do jardim, e ela continuava sentada na espessa alameda, donde se abria a vista para a estrada; ela olhava distraidamente para a sua monotonia desértica quando, de repente, umas nuvens de poeira ao longe lhe chamaram a atenção. Fixando melhor os olhos, viu as carruagens que chegavam. À frente rodava uma pequena caleça ligeira transportando um general com dragonas grossas que brilhavam ao sol, e um coronel a seu lado. Seguia-a outra, de quatro lugares, com um major, o ajudante-de-campo do general e mais dois oficiais; atrás vinha a famosa charrete do regimento, desta vez na posse do major gordo; atrás da charrete vinha um bon-voyage de quatro lugares ocupados por quatro oficiais e mais um quinto ao colo … Atrás do bon-voyage galopavam três oficiais em excelentes baios com manchas escuras.

«Será para nós? – pensou a senhora. – Ah, meu Deus, eles realmente viraram para a ponte!» Soltou um grito, bateu com as mãos nas ancas e, metendo a direito pelos canteiros e pisando as flores, correu ao quarto do marido. Este dormia como uma pedra.

– Levanta-te, levanta-te! Depressa! – gritava ela puxando-lhe a mão.

– Hã? – disse Tchertokútski estremunhado, mas sem abrir ainda os olhos.

– Levanta-te, chuchu! Ouviste? Visitas!

– Visitas? Que visitas? – Dizendo isto, emitiu um pequeno mugido como um vitelo procurando as tetas da mãe. – Humm – resmungava ele – dá-me o teu pescocinho, bichinha. Para dar um beijinho.

– Alminha, levanta-te depressa, por amor de Deus. É o general com os oficiais! Ah, meu Deus, tens pegamassas no bigode.

– O general? Ah, então ele já aí vem? Mas por que raio ninguém me acordou? Então, e o almoço? Está tudo a andar?

– Qual almoço?

– O quê, não o mandei preparar?

– Tu? Voltaste às quatro da manhã e, por mais perguntas que eu te fizesse, não disseste nada. Não te acordei, chuchu, que tive pena de ti, não dormiste nada … – Estas últimas palavras foram ditas numa voz lânguida e suplicante.

Tchertokútski, agora com os olhos bem arregalados, ficou um minuto estendido, como que fulminado por um raio. Por fim saltou da cama, só em camisa, esquecendo-se de que era indecente.

– Arre, que burro eu sou! – disse ele dando uma palmada testa. – Convidei-os para almoçar. O que é que eu faço? Ainda tão longe?

– Não sei… devem estar a chegar.

– Alminha… esconde-te! … Eh, alguém! Tu, rapariga! Anda cá, sua parva, por que estás com medo? Daqui a nada chegam os oficiais. Diz-lhes que o senhor não está em casa, nem vai estar, que saiu logo de manhã, ouviste? E avisa a criadagem toda, vai, rápido!

Disse isto e apanhou à pressa o roupão, e foi esconder-se na cocheira, supondo que lá estaria em segurança. Porém, depois de se meter num canto do barracão, percebeu que também ali podia ser visto. «Será melhor assim … », passou-lhe pela cabeça e, num instante, baixou a estribeira da caleche mais próxima, saltou para dentro, fechou as portinholas e o tejadilho, cobriu-se com o avental, para maior segurança, e ali ficou, quietinho, enroscado e embrulhado no roupão.

Entretanto, as carruagens dos visitantes aproximaram-se da porta.

Saiu o general e sacudiu os ombros, atrás dele o coronel ajeitando o penacho do chapéu. Depois saltou da charrete o major gordo, com o sabre debaixo do braço. A seguir saltaram do bon-voyage os tenentes magrinhos e o alferes que viajara ao colo deles, e finalmente apearam-se dos cavalos os galhardos oficiais.

– O meu amo não está – disse o lacaio saindo à soleira.

– Como é que não está? Mas volta para o almoço, não?

– Não, Excelência. O meu amo saiu por todo o dia. Talvez só volte amanhã para casa, a esta hora.

– Irra, que coisa! – disse o general. – Como é possível?

– Francamente! – disse o coronel, rindo-se.

– Não, desculpem, como é possível fazer uma coisa destas? – continuou o general com desagrado. – Chiça … Diabo … Se não podia receber, por que convidou?

– Não percebo, Excelência, como se pode fazer uma coisa destas – secundou um jovem oficial.

– Como? – disse o general, que tinha o hábito de utilizar este advérbio interrogativo quando falava com um oficial subalterno.

– Digo eu, Excelência: como se pode proceder desta maneira?

– É natural … Bom, não lhe foi possível, ou então, não sei … Mas, ao menos, que avisasse, ou não convidasse.

– Então, Excelência, nada a fazer, vamos embora! – disse coronel.

– Obviamente, não há outro remédio. Aliás, podemos ver caleche, mesmo sem ele. Provavelmente não a levou. Eh, alguém! Tu, vem cá, amigo!

– Diga, meu senhor! – És cavalariço?

– Sou, Excelência.

– Mostra-nos a caleche nova que o teu amo arranjou há pouco.

– Com certeza, faça o favor de entrar no barracão!

O general e os oficiais foram ao barracão.

– Deixem-me tirá-la um pouco para cá, porque está escuro.

– Chega, chega, está bom!

O general e os oficiais andaram à volta da caleche e examinaram minuciosamente as rodas e as molas.

– Ora, nada de especial – disse o general –, a caleche é absolutamente vulgar.

– Sem graça nenhuma – disse o coronel –, não há nada especial nela.

– Não me parece que valha quatro mil rublos, Excelência – disse um dos jovens oficiais.

– Como?

– Estou a dizer, Excelência, que na minha opinião ela não vale quatro mil.

– Quatro mil?! Nem dois mil. Não tem absolutamente nada de especial. A não ser que haja qualquer coisa lá dentro … Por favor, amigo, abre o tejadilho …

E apareceu diante dos olhos dos oficiais Tchertokútski, de roupão e enroscado de forma invulgar.

– Ah-ah, afinal está cá! … – disse o espantado general. Dito isto, o general voltou a cobrir Tchertokútski com o avental, fechou as portinholas e foi-se embora juntamente com os senhores oficiais.

……………………………………

Extraído do Livro “Contos de São Petersburgo”, coleção Biblioteca Editores Independentes

Tradução de Nina Guerra, Filipe Guerra

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2 comentários em “A Caleche – Clássico (Nikolai Gogol)

  1. Óscar Fernandes
    3 de novembro de 2016

    Excelente conto clássico. Obrigado pela partilha.

  2. Anorkinda Neide
    1 de novembro de 2016

    Gostei muito!
    À exceção de q justamente no clímax a coisa ficou chôcha… haha
    mas me identifiquei muito, quantas vezes eu tentei me esconder e me acharam da maneira mais tragicômica 😛
    Gosto deste tipo de leitura, o cenário me lembrou bastante a cidadezinha do livro O Cidadão, o meu mais querido e preferido livro de cabeceira.

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Publicado às 1 de novembro de 2016 por em Clássicos e marcado .