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Detox Literário.

Sussurro ao pé do ouvido – Conto (Neusa Fontolan)

— Deixa-me explicar, senhora… As fadas são os seres mais egoístas do meu mundo, não dão nada para ninguém e muito menos a um humano. As fadas não são capazes de amar, elas vivem em seu próprio mundo brincando entre as flores, e não senhora, elas não têm asas, mas são muito leves e saltam alto com a ajuda do senhor dos ventos. Ele gosta de vê-las saltar e brincar, então sopra um vento mais forte só para que voem com graça e equilíbrio, como se fossem dançarinas… Bailando no ar. Ele gosta disso e elas adoram, é uma infindável brincadeira, ele soprando e elas saltando. E por toda a eternidade só houve uma exceção.

— Qual? Conte-me.

— Aconteceu há muito tempo atrás… – começou Greg, o duende, a contar. – Uma fada brincava com um coelho, ele saltava e ela corria atrás tentando pegá-lo. Ficaram horas assim, se afastando cada vez mais da terra das fadas, quando de repente o coelho entrou em uma gruta e ela o seguiu. Não o achou, mas viu que havia outra saída na gruta, talvez o coelho tivesse passado por ela.  Com a intenção de segui-lo cruzou o buraco e levou um grande susto, uma vez que deparou com uma plantação de milho e isso era coisa de humanos. A fada então compreendeu que havia atravessado um portal, virou-se para voltar quando ouviu o barulho de uma enxada rasgando o solo. Ficou curiosa apurando mais os ouvidos, alguém assobiava uma canção enquanto preparava a terra, aproximou-se tomando todo o cuidado para não ser vista.

Era um jovem humano… Ele estava com os pés no chão, sem camisa, usando somente um calção. Trabalhava na terra sem se dar conta que estava sendo observado pela fada. Enxugava o suor do rosto com as mãos e assobiando distraído continuava com a labuta.

A fada não conseguia tirar os olhos do rapaz. O que era aquela confusão de sentimentos que estava sentindo? Era como uma dor em seu peito, mas as fadas não sentem dor! A cada movimento que o rapaz fazia ela sentia uma enxurrada de emoções, dor, alegria, ansiedade… Tinha vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo, mas o maior desejo era de correr até ele e tocá-lo… Contudo, controlou-se. Ela era uma fada e ele um humano, isso não devia proceder.

Ela ficou quieta, pensativa, e sem nenhuma vontade de brincar. Sentiu um magnetismo a puxando para ele, como se desviar os olhos dele seria sua infelicidade. Seu único anseio naquele momento era ficar admirando o rapaz.

Quando ele parou de trabalhar ela o seguiu, deliciando-se até com os pequenos movimentos que ele fazia. Queria descobrir tudo sobre ele, então repetiu a façanha por vários dias, sempre tomando o cuidado de ficar bem escondida. Ele nunca se apercebeu da presença dela, uma fada consegue mover-se sem nenhum barulho.

Tomou ciência de que ele morava sozinho em uma cabana. Quando ele dormia, ela entrava em seu quarto e ficava velando seu sono. Quando sorria satisfeito com algum serviço acabado, ela ria feliz. Quando tomava banho em um rio ali perto, brincando sozinho com a água, ela sentia vontade de entrar junto, para brincar com ele.

Certo dia, a fada observou que o rapaz tinha uma grande tristeza estampada no rosto. Ele foi até o quintal e colheu algumas flores, com elas fez dois lindos buquês e dirigiu-se para a floresta. Ela escondida o seguiu. Ele parou em frente a uma grande árvore com uma bela copa. Embaixo da árvore havia dois pequenos montes de terra. Em cada um dos montes tinha uma placa de madeira, onde foram esculpidas as palavras “meu pai” em uma, e na outra “minha mãe”.

O rapaz depositou as flores nos túmulos de seus entes queridos, chorando copiosamente. A fada desesperou-se ao ver lágrimas em seu rosto. Teve vontade de abraçá-lo e enxugar com beijos a sua face, e foi nesse momento que se deu conta, daquilo que achava fosse impossível! Mas sentia que era verdade… Ela amava aquele rapaz! Ela, uma fada, estava perdidamente apaixonada por aquele humano! Decidiu voltar e falar com a Mãe do mundo, ela saberia o que fazer.

Até este ponto eu estava quieta ouvindo a história da fada, mas não me contive e perguntei.

— Mãe do mundo! Quem é ela?

— A Mãe do mundo senhora, é a maior deusa do meu mundo, ela é dona de um grande poder. Como posso explicar de maneira que possa entender…? É como se fossem duas pessoas completamente opostas uma da outra. Ela é o amor e o ódio, o bem e o mal, o dia e a noite, o escuro e o claro, a tristeza e a alegria, enfim, ela é o negativo e o positivo juntos, como se fosse um imã.

Não entendi muito bem, mas fiquei quieta para que Greg pudesse continuar sua narrativa.

— A Mãe do mundo recebeu a fada e ficou admirada com o amor contido em seu coração. Uma fada amando alguém? E ainda por cima um humano! Isso era inédito! Ela compadeceu-se da fada e disse. – Neste ponto Greg fez uma pausa para me explicar.

— A Mãe do mundo falando é como duas pessoas falando juntas… Você ouve duas vozes distantes, apesar dela estar bem perto… Elas, as vozes, parecem que vêm de dentro de um túnel, ou do longínquo infinito.

Minha filha: eu posso transformá-la em um ser humano, mas isso não garante que ele vá amá-la. Se ele não a quiser você estará condenada, terá uma vida curta de humano e infeliz por não ter conseguido seu objetivo. Nunca mais poderá voltar, e nem brincará com suas irmãs. Nunca mais sentirá o sopro do senhor dos ventos, nem verá toda beleza deste mundo. Você ficará presa no mundo humano para sempre, o portal por onde passará será destruído.”

A fada pensou em tudo que ela falou, mas seu coração havia mudado, e tudo que antes lhe dava prazer deixou de ser importante. A única alegria que agora sentia era quando podia ter o rapaz diante de seus olhos, e mesmo que ele não a quisesse, ela poderia observá-lo de longe, então decidiu arriscar em ser humana.

Espero que seja feliz ao lado deste rapaz.”

E num piscar de olhos a Mãe do mundo fez com que a fada dormisse, chamou os elfos, mandou que levassem “aquela humana” e deixassem o corpo adormecido no milharal, e depois de feito, que destruíssem para sempre o portal.

No dia seguinte, quando o rapaz entrou na plantação para mais um dia de trabalho, encontrou-a dormindo no milharal. Assustou-se, porém, ele ficou alguns minutos admirando a beleza da moça. Era tão linda! Mas de onde teria vindo? Tentou acordá-la, mas não obteve sucesso. Questionou que, talvez, ela estivesse doente. Então decidiu carregá-la até sua casa e cuidar dela. Colocou-a em sua cama, e com um pano molhado em água fresca acariciava o rosto dela, sempre na tentativa de reanimá-la.

O rapaz se sentia ineficaz sem saber o que fazer. Quem era aquela jovem? Como veio parar no meio daquele lugar longe de tudo? Porque não acordava? Será que dormia tanto por estar doente? Não parecia! Ela dormia tranquilamente.

A jovem dormiu profundamente por dois dias seguidos. Preocupado o rapaz não saia do seu lado, tinha medo que ela acordasse, sem saber onde estava, e se assustasse. No terceiro dia ela abriu os olhos, vendo-o sorriu.

— Você está se sentindo bem? – perguntou o rapaz. – Está machucada ou doente? Dói em algum lugar? Está com fome ou sede? Eu fiz uma sopa, quer comer? Faz dois dias que está dormindo… Mora aqui perto? Tem alguma família? Eles devem estar preocupados.

Era uma avalanche de perguntas, ela riu de tanta atenção. Lembrava-se muito bem de onde viera, mas não queria contar a verdade com medo que ele se chocasse, tentou acalmá-lo dizendo.

— Estou me sentindo bem obrigada. Não estou machucada nem doente, tenho um pouco de fome, mas isso pode esperar. Eu não me lembro de onde venho, nem quem eu sou. Por que será que não me lembro de nada?

Ele sorriu pensando que isso era bom, assim ela não iria embora, poderia ficar com ele por mais um pouco, e então falou.

— Não fique triste com isso, com o tempo se lembrará, pode ficar aqui o quanto for necessário até recuperar-se totalmente.

E assim os dias foram passando e os dois sempre juntos. Ele também a amou desde o primeiro momento em que a viu e, como não poderia ser de outra maneira, formaram um casal. O amor deles era imenso, nada o abalava, a não ser o medo que ele tinha de que algum dia ela se lembrasse de sua vida passada e partisse.

Um dia a fada percebeu uma ponta de tristeza no olhar do rapaz e perguntou o motivo. Este falou do medo que tinha em perdê-la caso ela recuperasse a memória. Vendo o desespero em que ele se encontrava, decidiu contar-lhe toda a verdade.

Ele a ouviu atentamente e acreditou. Como poderia não acreditar? Ela era a sua amada, era a alegria de toda sua vida, era a sua fada!

E assim eles viveram juntos por uma longa vida de humanos, sempre os dois sozinhos. Nunca tiveram filhos, porém isso não os incomodava, eles completavam-se e estavam felizes só de terem um ao outro.

A Mãe do mundo observava-os sem interferir em nada. Aquela filha havia escolhido viver como humano e se saiu muito bem. Sentiu em todo seu ser o amor que os unia, era algo sublime, poderoso, indestrutível!

Quando já estavam velhos e cansados, com a inevitável morte aproximando-se, ela, a Mãe do mundo, apareceu para ambos dizendo que iria levá-los para seu mundo, disse também que um amor tão grande não poderia se perder com a morte. A sensação de felicidade junto à gratidão se apoderou do casal, ficariam juntos para sempre. A Mãe do mundo, então, devolveu a eles toda sua juventude e beleza, transformando-os nos deuses do amor.

Eles representam a união de dois seres. Quando aparecem, você não consegue desviar os olhos. Eles chegam voando dançando no ar, sempre olhando um para o outro, reverenciando-se um ao outro, sorrindo um para o outro, tocando-se levemente enquanto bailam com uma sublime idolatria. A harmonia dos dois é contagiante, e o amor é transbordante. Ao vê-los você sente vontade de amar ao seu próximo, seu amigo, seu irmão, seu companheiro, enfim, de amar o mundo todo!

Greg parou de falar e olhava o distante vazio, e eu fiquei quieta, ainda absorvendo aquela bela narrativa.

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8 comentários em “Sussurro ao pé do ouvido – Conto (Neusa Fontolan)

  1. Óscar Fernandes
    8 de novembro de 2016

    Muito bom o seu conto de fadas, Neusa. Uma leitura leve e relaxante que sabe muito bem.

  2. Brian Oliveira Lancaster
    1 de novembro de 2016

    Um conto singelo, recheado de sentimentos e “chubs”. Como você mesma disse que está aqui para aprender, tenho apenas uma sugestão: desenvolver mais as passagens de tempo, ou então focar em apenas um fato. As duas passagens em que ela se transforma e depois a vida à dois, surgem muito rápido, não ficando bem cadenciado. Um pouquinho mais de recheio (ou corte) resolve isso. Bom ler algo mais meigo em meio a tantos cemitérios do desafio passado.

    • Neusa Maria Fontolan
      1 de novembro de 2016

      Boa dica Brian, vou tentar colocar mais recheio, já que esse faz parte de um romance. Obrigada por ler, outro abraço apertadooo

  3. O Taverneiro
    1 de novembro de 2016

    Ótimo conto de fadas mesmo Neusa. 🙂

  4. Neusa Maria Fontolan
    31 de outubro de 2016

    Oi Kinda. fiquei feliz que tenha gostado. Um abraço apertadddddoooooo

  5. Anorkinda Neide
    31 de outubro de 2016

    Ohh que lindo!
    Isso sim, é um conto de fadas!
    Amei muito!

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Publicado às 31 de outubro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .