EntreContos

Detox Literário.

A Galinha Preta (Tarsis Magellan)

O velho Caldeira fora um tipo formidável de empregado. Mas, então, a idade avançada lhe permitia apenas vigiar a Fazendinha dos Trevos. Era um velho solitário. E raramente os Hayden, donos do lugar, vinham da cidade e ainda assim passavam poucos dias ali. Ele gostava da presença da família, principalmente das crianças que sempre pediam para ouvir suas histórias de pavor. O velho adorava contá-las. A cada espanto delas, sentia uma pontada de prazer.

Os Hayden tinham vindo da Alemanha e moravam no Brasil há alguns anos. Nunca se queixaram da presença do velho que já trabalhara para os antigos proprietários do lugar. Sobre esses últimos, nada se sabia. A fazenda foi leiloada, de forma que os Hayden não conheceram os donos anteriores.

Com o passar do tempo, o velho Caldeira ― de espessa barba grisalha e uma feia cicatriz na sobrancelha ―, conquistou a amizade da boa família, agora dona daquela fazendinha não muito distante. O velho era um homem grato. Os anos de trabalho no campo lhe renderam uma vida até sossegada.

No entanto, numa noite muito incomum, ele se agitou. A escuridão trouxe um ar enevoado e a umidade caíra sobre a fazenda. Uma tempestade vinha do sul. Os relâmpagos iluminavam o céu de um azul-prateado não menos brilhante que a lua. Esta última foi engolida pela avantesma cinza das nuvens; e o velho Caldeira as apreciou, pois gostava do que era cinzento.

Ao primeiro estrondo do trovão, a pequena Sarah pulou esbaforida para o colo da mãe, a Sra. Hayden. As  bochechas da menina de cinco anos ficaram tão frias e brancas quanto as de um defunto.  Ela quase não tinha medo de nada,  exceto de tempestades.

Quando a chuva começou a cair, um relâmpago mais forte assustou a todos no amplo pátio da Casa Grande. O velho Caldeira a chamava assim porque tinha dois andares. Todavia, os filhos dos Hayden deram a ela um novo nome: a Casa Velha. Realmente a casa estava repleta de goteiras, e tanto por fora quanto por dentro tinha um aspecto assustador, por causa da tinta descascada da madeira, além da hera que crescia sobre as vigas de cedro chegando até as janelas.

Outro relâmpago iluminou o rosto sinistro do velho Caldeira. O homem se remexeu, relaxado numa cadeira de balanço. Na cabeça, um chapéu de rotim lhe ocultava a face. De seu gasto cachimbo saía uma fumaça perfumada que lembrava o cheiro adocicado da canela. Ele tossia muito, porém não adiantavam de nada os alertas de que o fumo prejudicava sua saúde. Tinha a teimosia de um bode velho.

Após o jantar, todos se prepararam para dormir. A chuva engrossou antes que os Hayden subissem para o segundo andar. Algo estalou forte. O vendaval aumentara. Um galho soltou-se de uma árvore. A luz bruxuleante foi seguida pelo pavoroso ruído de alguns cabos de alta tensão.

Tudo ficou às escuras.

Os relâmpagos iluminavam a fazendinha vez ou outra. Os Hayden estavam tão assustados que ficaram parados perto da escada, ouvindo o barulho da chuva grossa e do vento que torcia a casa, fazendo-a ranger.

― Cof, cof. Essa é uma noite interessante para uma terrível história, não acham? ― disse o velho Caldeira, depois de tossir, com sua voz ruidosa e lúgubre. Tinha um jeito teatral de se expressar.

― É assustadora? ― perguntou a pequena Sarah. Os filhos dos Hayden tinham aprendido uma pronúncia perfeita do português, ao contrário dos pais.

― Hum, poderia dizer que é macabra ― respondeu o velho com um sorriso meio maldoso rasgando-lhe a face.

As crianças, Klaus e Sarah, desceram rapidamente da escada, enquanto os pais sorriam um para outro, entre o clarão dos relâmpagos. Eles também queriam ouvir a história.

Ao acomodar-se em um banco, Klaus, o menino de sete anos, indagou:

― O que é macabra?

― Deve ser uma cabra má ― comentou a pequena Sarah.

O Sr. Hayden riu ao ouvir a explicação.

― Non. Non é um cabrra má, mas algo espantosa, de darr medo ― explicou a Sra. Hayden com  seu sotaque alemão ainda muito forte.

Enquanto ela acendia as lamparinas, as crianças ficaram em silêncio, refletindo  a respeito daquelas palavras.

― Acham mesmo que devo contar essa história? Não é como as outras. Ah, não é mesmo ― preveniu o velho, apagando o cachimbo. ― Há histórias que me fazem lembrar de muitos mistérios, coisas horríveis. A pior delas aconteceu por aqui, perto da fazenda. Não sei se devo contar essa. Não sei, não…

― Comece logo, Sr. Caldeira, por favor ― insistiu o menino, com muita educação.

Depois de uma longa pausa, o olhar cansado do velho ficou tenso, como se realmente lembrasse de algo terrível demais para ser contado. Antes que começasse a história, uma escuridão pesada desceu sobre a fazenda e, então, finalmente, ele começou:

― Numa noite muito semelhante a esta, um compadre amigo meu, bateu desesperado na porta de minha casinha. Estava ensopado, pois chovia muito naquela madrugada. Ele me implorou que corresse até o galinheiro de sua fazendola, na Granja do Pavão.  Pediu, horrorizado para que eu levasse uma espingarda e um guarda-chuva. Logo pensei se tratar de alguma fera que devia ter destroçado algumas galinhas. Mas quando cheguei lá, para minha surpresa, uma coisa bem estranha havia acontecido.

Um relâmpago chamuscou de prata o céu escuro, seguido pelo estrondo de mais um trovão. Sarah pulou mais uma vez no colo da mãe. A Sra. Hayden acalmou a menina, dizendo-lhe que aquela era apenas uma história de mentirinha.

O velho Caldeira continuou, a voz sempre misteriosa:

― Era curioso como as árvores estavam secas ali perto. O ar tinha um cheiro ruim. Quando me aproximei, vi muitas penas e sangue no chão de tabique. O compadre Vespúcio apontou a lanterna para o fundo do galinheiro. E lá estava ela, acocorada e quieta. A galinha preta! Tão grande quanto um gambá. Cacarejava grosso, tinha o corpo inchado e os pequeninos olhos esbugalhados…

― E o que aconteceu? ― perguntou Klaus, ansioso.

― Arre! Nasceu de sete meses foi?! ― respondeu o velho, truculento, pois odiava ser interrompido. Ficava meio louco com aquilo. ― Agora ouça!

O velho ergueu o corpo para frente e continuou como se cochichasse:

― O compadre Vespúcio me disse que ela tinha devorado as outras galinhas. Uma por uma, arrancou as cabeças das infelizes. Eu não acreditei. Mas quando me aproximei da ave, ela piou alto. Era um pio feio, macambúzio. A galinha preta chocava alguma coisa no ninho. Sua cabeça tremia, como se estivesse possuída. Eu preparei a espingarda.

O velho tocou no rosto. Calado, olhou para o vazio.

― Iah, e depois? ― perguntou o Sr. Hayden, muito interessado, embora tenha ficado envergonhado quando a esposa o encarou sorrindo.

― Após a chuva, um vento forte soprou. ― continuou o velho. ― As penas das outras galinhas voaram pelo ar. Um raio partiu o céu. A galinha preta voou em cima de mim… Então, BRUM!

― Um trovão? ―  quis saber o menino.

― Não. Naquela confusão, a galinha preta saltou em meu rosto.  De tão atordoado, acabei atirando no compadre Vespúcio.

― Mein Gott! ― exclamou a Sra. Hayden em alemão e pôs as mãos na boca, olhando para o esposo.

― As armas são perigosas, minha senhora. Devemos manter distância de qualquer uma delas. Naquela mesma noite enterrei a minha no quintal. ― lembrou-se o velho com uma expressão muito sombria no rosto. ― Não precisam se preocupar. Hoje o compadre Vespúcio não sofre mais.

O velho olhou novamente para o nada, até que um silêncio mortal caísse sobre ele.

― Naquela noite, eu também não tive muita sorte. ― Ele por fim falou. ― Não tive mesmo.

― Por quê? ― perguntou o menino.

― Ah, sim, meu rapaz. A galinha preta fugiu. Não satisfeita em me deixar uma cicatriz no rosto, arrancou-me algo precioso. ― O velho então tirou o chapéu e enfiou três dedos no olho esquerdo perto da cicatriz.

Ele segurava nas mãos um olho de vidro! No lugar dele, os Hayden viram apenas um furo mostrando a pele fina e avermelhada. Ficaram pasmos. Como uma galinha preta teria arrancado o olho do velho Caldeira? Era mesmo uma história bizarra.

O velho sacudiu seu olho de vidro, passando-o da mão esquerda para a direita. Todos ficaram quietos, atentos ao velho. Com um tom mais assombroso na voz, ele prosseguiu:

― Logo o ocorrido se espalhou pelos arredores da fazenda. Virou lenda por essas bandas. Numa noite de sexta-feira, ouviram o cacarejar da galinha preta. Diziam que, quando uma pessoa escutava o pio macabro dela, ia morrer em treze dias, pois foram treze as galinhas que ela devorou. E foi dito e feito! O primeiro a bater as botas foi o compadre Vespúcio. Depois, a comadre Adalgisa. Por fim, o compadre Nepomuceno, o padeiro das redondezas. Todos no vilarejo chamam a galinha preta de Funesta, pois quem ouve seu canto, está perto da morte.

Pouco depois, a tempestade diminuiu. As crianças ficaram arrepiadas com aquela história contada durante a noite; ainda mais com a surpresa do olho de vidro. Há pouco mais de um ano que os Hayden conheciam o velho Caldeira; nunca desconfiaram que sua cicatriz na sobrancelha fora feita por uma galinha, nem que o homem havia perdido um dos olhos. História mais sinistra que aquela, ainda não tinham ouvido.

Lá distante, alguns relâmpagos ainda brilhavam no horizonte negro do céu. O Sr. Hayden fez uma pergunta, com a voz baixa, para as crianças não ouvirem:

― O Sr. contou que o galinha prreta chocafa algo na ninho. Mas o que hafia nele?

― Eram olhos! Uma dúzia deles ― disse o velho  em voz alta,  meneando a cabeça, como se de súbito tivesse inventado aquilo.

― Olios de outrras galinhas? ―  insistiu o Sr. Hayden sussurrando mais uma vez .

― Não ― respondeu o velho, em tom fúnebre. ― Olhos de gente!

― Mas, porr que as olios? ― disse o Sr. Hayden, intrigado com o mistério.

O velho desviou a cabeça, cansado:.

― Nunca ouviu falar das janelas da alma?

Um longo silêncio caiu sobre todos, como antes caíra a escuridão. Os Hayden ficaram incomodados, enquanto o velho voltara a se embalar em sua cadeira barulhenta.

― Acrredita mesma nessa histórria, Sr. Calderra? Querro dizer, como alguém pode oufir a pio de um galinha prreta e simplesmente morrerr? ― o Sr. Hayden parecia incrédulo.

― Deve achar uma tolice o que ouviu, não é? ―  indagou o velho, indolente. ―  O senhor não estava lá, mas eu  vi. Estavam mortos! Tinham um golfo de sangue na boca. Eu vi a sombra da galinha acocorada no peito de cada um de seus defuntos…

Foi repentino. O velho começou a tossir. Tossiu tanto que parecia prestes a cair morto no chão. O Sr. Hayden ficou esperando que o velho falasse mais alguma coisa no escuro. Achava tão estranho o jeito como aquele homem se comportava. A voz, ora sem vida, ora abrupta. E naquele momento ele carregava uma expressão enlouquecida  no rosto .Como se a tempestade tivesse influenciado seus modos.

― Gute nacht, Sr. Calderra ― interrompeu a Sra. Hayden, desejando uma boa noite ao velho. Pelo tom de voz, sentia a mesma coisa que o marido e queria que o velho fosse logo embora.

― Boa noite para todos ― devolveu o velho, meio inquieto, levantando-se da cadeira enquanto recolocava o olho  em seu devido lugar.

Ele abriu a portinhola da varanda e saiu a passos lentos em direção a seu casebre, a poucos metros dali. Os adultos começaram a falar em alemão, para que o velho não compreendesse:

― Acho que esse velho inventou tudo isso. Tem uma imaginação fértil ― disse o Sr. Hayden à esposa.

― Tenho pena dele. Vive sozinho aqui há tanto tempo. A solidão pode arruinar a mente. ― comentou ela, usando um antigo ditado de seu país.

― Acho que está louco. Talvez não o conheçamos muito bem. Quem sabe seja um assassino. Matou aquelas pessoas e então imaginou uma história. A cicatriz não parece ter sido feita por uma galinha. Pode ser que ao tentar trucidar uma de suas vítimas, a pessoa tenha reagido arrancando um olho do velho! ― conjecturou o Sr. Hayden

― Albert, que coisa horrível de se dizer numa noite como esta! ― retrucou a Sra. Hayden ― Vai amedrontar ainda mais seus filhos!

O marido encolheu os ombros. As crianças tinham mesmo os rostinhos arianos bem assombrados.

Mais tarde, todos subiram para os quartos, ainda sob a luz de alguns relâmpagos. Da janela, o menino Klaus observou o velho saindo de seu casebre, caminhando como um fantasma. Aquela mesma figura parou e se abaixou.

O menino foi dormir. Não viu quando o velho pegou uma pedra e a usou para amolar alguma coisa meio escondida na mão esquerda. No entanto, em meio às trevas, o homem voltou a ficar de pé, deixando a pedra cair no chão. Olhou para o céu enevoado e cantou uma música bem esquisita:

 

Noite horrível essa.

Ó, não tenha pressa!

 A galinha preta,

Pode te encontrar.

 

Coisa tão escura.

Corpo de mucura[1].

Dela vem agouro,

Ao cacarejar!

 

O velho ergueu uma faca comprida, admirando o brilho da lâmina ao luar que voltara a surgir.  O olho de vidro se deslocou para baixo.  Em seguida, ele acendeu o cachimbo, deixando a fumaça sair devagar pela boca. Passou, silenciosamente, pela portinhola voltando à escura varanda da Casa Velha. Então, com a própria voz, imitou um cacarejo grosso. Soltou um riso baixo, mas assustador. Por fim, esperou o cair da madrugada para subir até os quartos onde os Hayden dormiam indefesos.

………………………………………………..

[1] Marsupial comum na mata atlântica brasileira, encarado por muitos como animal de aparência feia,  por ter o rabo desprovido de pelos e o focinho de rato.

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Informação

Publicado às 3 de novembro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .