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Literatura que desafia.

Ofício de Ossos – Crônica (Catarina Cunha)

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Esmeraldina botou no mundo doze criaturas, oito se criaram, quatro Deus levou ainda anjos. E só não gerou mais porque o marido Cícero, coveiro da cidade, morreu de uma síncope. Deitou para fazer a sesta e não acordou mais. Tinha espinhela caída, o que não o impedia, de domingo a domingo, de acordar com as galinhas, tomar duas talagadas de cachaça de cabeça e seguir para o cemitério. Cavava buraco até a hora do almoço. Depois tirava uma soneca antes de voltar para acompanhar os enterros e selar as tumbas.

Esmeraldina cuidava da casa, das crias e da roça com os filhos maiores. Cícero não deixou pensão. Só um cachimbo fedido de fumo de rolo e uma dívida no botequim do Seu Castroso.

No sertão ser coveiro não apetece a todos os viventes. Tem cabra que tem medo de alma. Cícero dizia que medo de alma era para quem tem rabo-preso com defunto. Por causa disso, Cícero passou trinta anos no ofício sem ser incomodado por viva alma; ou morta. Morto o coveiro, ninguém queria a função funesta. Esmeraldina não era diferente. Nem de cemitério gostava, mais pelo cheiro peculiar do que pelo chororô ou alma penada. Mesmo assim achou um desaforo não ter ninguém para enterrar o pai de seus filhos.

O cortejo fúnebre parou diante do lugar onde deveria estar aberta a cova de Cícero, um canto esturricado de barro. A comoção foi grande. Não o bastante para que alguém pegasse na pá.  O sol ardia nos lombos de vestes pretas quando Esmeraldina sentiu um pingo de suor molhando os lábios. Mandou sentar o caixão no solo e aguardar sua volta. Atravessou a rua e na birosca do Seu Castroso pediu duas cachaças. Bebeu feito fosse água e limpou a boca com o véu negro. Tirou o cachimbo do bolso e acendeu. Amarrou o vestido de viúva na altura dos joelhos, pegou a pá, fincou na terra com o pé e pensou alto o suficiente para os urubus plantados nas cruzes ouvirem e silenciarem: Eu sabia Ciço, que você não deixaria sua velha sem ofício para sustento.

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12 comentários em “Ofício de Ossos – Crônica (Catarina Cunha)

  1. JULIANA
    2 de novembro de 2016

    Muié, eu sou cada vez mais tua fã!!! Adooooro o jeito como vc escreve. É genial, vc leva a gente sem medo pra onde vc quer e a gente nem percebe. Não é desses textos q a gente quase vê o autor com suas cordinhas, levando a gente pra lá e pra cá. Vc faz com tanta modéstia e sutileza q a gente pensa q tá indo por vontade própria… rs. Isso é coisa de gênio, daqueles que não precisa de gabarolice…

  2. Simoni Dårio
    28 de outubro de 2016

    Olá Catarina
    Simplicidade estilosa, adoro!
    Vi que ainda não peguei a diferença de Conto e Crônica, jå que no título está escrito Crónica e alguns falaram sobre caso tivesse no desafio…uma hora eu aprendo!
    Seja o que for, é uma delícia de leitura!
    Parabéns!
    Abraço

  3. Eduardo Selga
    28 de outubro de 2016

    Vou aproveitar esse espaço de comentário nem tanto para apontar erros e acertos dessa narrativa, cuja qualidade é indiscutível, e sim no intuito de levantar a seguinte lebre: o fato de a narrativa ser estruturada a partir de elementos facilmente assimiláveis pelo leitor, como o coloquialismo, e redigida com orações diretas, com ausência quase total de figura de linguagem, essa aparente simplicidade é indicativo de qualidade ou defeito do texto literário? Trocando em miúdos: escrever simples é bom ou ruim, literariamente falando?

    Primeiramente, o texto dessa autora, de simples, só tem a aparência. A tessitura textual consegue aproximar-me muito do coloquial, e isso dá ao leitor uma intimidade com a trama, independente de sua organização. É quase como se não estivéssemos lendo, e sim ouvindo. Mas, diferente da fala coloquial, cuja dinâmica é feita de repetições e omissões, aqui nada falta, nada sobra, quanto ao ato de contar.

    Ora, isso não é nada simples, na medida em que escrever é muito diverso de falar. A autora, então, nos engana agradavelmente. Por causa de um narrador em terceira pessoa que parece mesmo estar lá na ocorrência dos fatos aparentemente reais, quando na verdade ele é, como todo narrador escrito, não uma pessoa e sim uma convenção comunicativa, de certa maneira queremos acreditar numa gostosa mentira: o narrador existe “de verdade”. Esquecemos que ele tem de ser uma parte da autora, ou melhor, ele é uma entidade que, tendo alguma coisa da autora porque pensada e elaborada por ela, está entre a autora e o leitor.

    Essa falácia admirável (a simplicidade) consegue encantar certo tipo de leitor sem que, muitas vezes, ele se dê conta da apurada técnica necessária para atingir semelhante efeito.Ou alguém acha que a autora sentou e escreveu esse texto de uma só vez, com a naturalidade de quem fala? É, portanto, uma pseudossimplicidade.

    O que na literatura é considerado simples, frequentemente confundido com banal,
    não raro é tido como pobre do ponto de vista estilístico, na medida em que essa avaliação se sustenta de modo geral na suposição de que texto literário precisa ter algum sinal de erudição, para os que ainda enxergam o autor como uma criatura sábia ou particularmente sensível.

    No entanto, o simples do modo como foi usado por essa autora (na verdade, uma simplicidade aparente, como já disse) está totalmente adequado ao efeito de sentido que se pretendeu alcançar. É, portanto, uma grande qualidade. Enredo, ambientação e personagens pedem esse recurso. Numa outra situação talvez não fosse. E aí entra um aspecto necessário a todo escritor: a necessidade de ter um equipamento chamado desconfiômetro, de modo a perceber a hora de usar ou não a dita simplicidade, muitas vezes abandonando concepções fortemente arraigadas do que seja escrever literatura.

    Catarina, se o conto tivesse no desafio e eu tivesse que lhe dar nota, ela sem dúvida seria: duca.

  4. Luis Guilherme
    28 de outubro de 2016

    Uau, muito bom! Parabénsss! Inclusive se tivesse inscrito no desafio de cemitérios seria um forte concorrente.

    Parabéns, Cat!

    • Catarina
      28 de outubro de 2016

      Mas este não seria inédito. Foi publicado em meu primeiro livro “DEU VACA”.

      • Luis Guilherme
        28 de outubro de 2016

        Ah, não conhecia, ainda!

  5. Davenir Viganon
    27 de outubro de 2016

    Gostei bastante. Esse teu poder de síntese é admirável.

  6. Neusa Maria Fontolan
    27 de outubro de 2016

    Adorei.

  7. Claudia Roberta Angst
    27 de outubro de 2016

    Ai, que delícia de conto/crônica (tenho dificuldade de definição). Uma realidade árida, simples, mas com um final feliz de certo modo. Narrativa sem enrolação, fluida, escorrendo fácil para o prazer do leitor. Sensacional, Cat !

  8. Priscila Pereira
    27 de outubro de 2016

    Oi Catarina, seu texto é muito bom, gostoso de ler. Você consegue escrever com uma simplicidade cheia de poesia que me convence. Amei o seu Hibisco para todos. Sou sua fã!!!

  9. mariasantino1
    27 de outubro de 2016

    Oi, Cat!
    Gostei horrores do seu conto. Vc tem uma concisão invejável e eu vi todas as cenas com muita clareza. Esse seu texto tem uma beleza rústica (ou bruta) das coisas simples.
    Parabéns pelo conto.
    Abraço!

  10. Brian Oliveira Lancaster
    27 de outubro de 2016

    Curto e direto. Genial. Cotidiano de bom humor (uma das únicas daqui que faz isso).

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Publicado às 27 de outubro de 2016 por em Crônicas e marcado .