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Perigo nas Linhas de Código – Resenha (Gustavo Araujo)

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O universo literário policial tem sido dominado por homens há muito tempo. Por isso, é quase redentor perceber que mulheres estão se dedicando a essa vertente, como é o caso de Marcia Saito, com “Perigo nas Linhas de Código”, Verve, 158 p. Longe de sucumbir às obras de apelo fácil e rasteiro, a autora se arrisca em um terreno árido e difícil, o que revela disposição e boa dose de coragem. E isso tudo em seu primeiro romance.

A narrativa curta se inicia com uma excelente cena de perseguição. Já nos primeiros parágrafos conhecemos o jovem Edgar, uma espécie de hacker que trabalha como agente duplo –informante da Polícia Federal, investigando a indústria de pirataria em São Paulo. Edgar, porém, está cansado, quer sossego e por isso acaba encontrando emprego como motoboy em uma empresa chamada BK Tech. Contudo, não tarda a perceber que se trata de um peão num jogo de interesses entre os executivos dessa empresa, a polícia e criminosos desconhecidos.

Na obra, destaca-se o evidente trabalho de pesquisa realizado pela autora, eis que ao tratar de crimes cibernéticos, o faz com fluidez, conhecimento e desenvoltura. O mesmo vale para os jargões e rotinas policiais, sem falar na descrição do ambiente dos motoboys, o que permite acreditar que houve contato estreito com pessoas que atuam nessas áreas.

Essa intimidade ajudou a compor um cenário urbano bastante verossímil, reforçado pelas menções a diversos pontos de São Paulo. A autora faz referências constantes – e de forma natural – a ruas, avenidas, praças e parques, fato que, além de auxiliar na visualização das cenas, conferem credibilidade a elas. É como se o leitor estivesse acompanhado de um guia repleto de informações sobre a cidade – algo que Zafón faz com Barcelona no romance “A Sombra do Vento”.

O estilo de narrar de Marcia Saito é simples, sem adornos, sem rebuscamento. Ainda que auxilie na condução da trama, essa simplicidade parece comprometer certos trechos em que seria necessária uma construção mais elaborada.

Nesse aspecto, creio ter faltado aos personagens secundários a mesma abordagem psicológica conferida ao protagonista Edgar. Há figuras muito interessantes que poderiam ter sido melhor exploradas, como Rapina e Paulinho. Mesmo o chefão da BK Tech, o americano Wrand, padece de certo superficialismo, assim como o policial Hamnza (que para mim poderia ter sido o melhor personagem do livro).

Também acredito ter faltado certa revisão ao publicar o livro, já que se denotam alguns erros de digitação, ortografia e de concordância.

Entre prós e contras, o livro de Marcia Saito se traduz em uma boa opção de entretenimento, com uma narrativa ágil, rápida e envolvente, tratando de modo competente de um tema pouco visto em na literatura nacional, o que por si já vale a leitura.

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Um comentário em “Perigo nas Linhas de Código – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Postado por: Micro Estória (Admin)
    1 de novembro de 2016

    Legal. A conheço dos desafios. Outro bom livro pra lista. Gosto de textos simples, mas que contenham um bom conteúdo. Tenho me esforçado para aplicar isso em FC, o que não é fácil.

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Publicado às 29 de outubro de 2016 por em Resenhas e marcado , , .