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Detox Literário.

Porco no rolete – Conto (Paula Giannini)

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Atendeu ao telefone.

Do outro lado, a voz cavernosa dizia algo ininteligível. Certamente, se tratava de um engano, ou então, algo para que não estava com a menor paciência, um trote de falso sequestro vindo de dentro de alguma penitenciária distante.

Não era.

A voz insistia que não desligasse, e tudo que conseguiu entender foi   “mamãe” e “morreu”.

Entrou em pânico. Alguém ligava anunciando a morte da mãe e, por um segundo, a adrenalina cegou seu entendimento. Como a mãe poderia estar morta? Acabara de vê-la na sala, respondendo ao apresentador do programa de domingo, como se este pudesse ouvi-la. Não… A mãe de alguém morrera e certamente não fora a sua.

Maria do Pallermo. O nome da infeliz falecida não lhe dizia absolutamente nada. Não entendia o motivo do comunicado. Não conhecia a pobre mulher, com certeza era um engano! Mais uma vez, porém, equivocava-se e, aos poucos, a voz foi explicando quem era a tal Maria. Era a mãe de uma companheira de trabalho, da qual não tinha notícias há mais de 20 anos. Sim, lembrava-se vagamente de Dona Pallermo, mas, realmente, não compreendia o porquê de estar sendo solenemente convidada para seu enterro.

O fato é que fora, muito a contragosto, madrinha do casamento da colega. Na época, fizera o marido comprar-lhe um vestido caríssimo. E foram os dois, ela e o esposo, como pudins de festa, às bodas onde todos usavam babados esdrúxulos. O brilho do cetim denunciava o gosto duvidoso da família dos noivos. Sentira-se mal. Como poderia esquecer daquela gente a lhe beijar, enfiando-lhe salgadinhos gordurosos goela abaixo? Como poderia se esquecer do auge da festa, quando a própria finada, ainda viva e muito gorda, fez questão de pedir à ilustre madrinha que fizesse o primeiro corte em um suculento e apavorante porco no rolete.

Desmaiou ali mesmo, acabando com o casamento. Era vegetariana, e a visão do bronzeado defunto de um bicho com uma maçã enfiada na boca, chocara-a profundamente. Antes da queda, tentou segurar-se à anfitriã, agarrando-se nos rococós do “modelito” azul piscina. A mulher ficou nua em pleno salão, cobrindo-se, de algum modo, com o imenso suíno.

Nunca mais viu a colega. Mas a visão do leitão assombrou-a pelo resto da vida.

Semanas depois, foi o marido a falecer e, por alguma sórdida brincadeira de seu cérebro, passou a ter estranhos sonhos onde ele era o próprio porquinho. Algumas vezes trazia a fruta na boca. Em outras, era cruelmente atravessado pelo rolete em brasa. Resolveu afastar as visões e, para tanto, teve de parar de pensar naquele que fora o seu grande amor. Nunca mais visitou seu túmulo e a solidão a consumia de dentro para fora.

– Como vou me livrar dessa? – Pensou.

Talvez por educação, ou mesmo para tentar apagar a constrangedora imagem que deixara na ocasião, resolveu aceitar o convite. Iria ao enterro. Não saberia como dizer não.

Precisava se apressar.

O sepultamento seria em 2 horas e o cemitério não ficava nada perto. Abriu o armário, não podia cometer o mesmo erro de 20 anos atrás. A roupa exigia um certo cuidado. Passou a mão pelos modelos. Preto, azul, vermelho… Não. Vermelho estava absolutamente fora de cogitação. Optou pelo azul. A falta de intimidade não lhe parecia dar permissão para vestir o negro do luto. Enfiou o vestido rapidamente e saiu.

Voltou minutos depois.

Ao se olhar no espelho do elevador mudara de ideia. A mãe da noiva usava azul no dia do porco. Não queria, tampouco aguentaria, repetir a façanha. O preto era a melhor opção. A família, sem dúvida, entenderia como sinal de respeito e, com sorte, passaria desapercebida. O plano era ir até o campo-santo, prestar seus sentimentos e voltar imediatamente para casa a fim de fazer a janta.

Chegou ao local quando o caixão já era baixado. O trânsito estava a cada dia pior. Menos mal, esperaria o padre proferir as derradeiras palavras escondida atrás de seus imensos óculos escuros, e, se sairia com a desculpa de que não se aproximara para não atrapalhar o momento de intimidade dos presentes.

Olhou ao redor, de forma alguma conseguiu identificar a colega, tampouco os parentes que mais pareciam estar em uma festa que em uma cerimônia de adeus. Era a única de preto. O que, pelo amor de Deus, havia acontecido com o luto de antigamente? Tudo agora era rápido demais.

– Até a dor.

Abriu a bolsa. Mas o que estava dizendo? O calor devia estar lhe cozinhando os miolos. De onde tirara a ideia de criticar o tempo daquele rito? O que, afinal, estava fazendo ali? E onde estava o maldito paracetamol? Sua cabeça ia explodir. Precisava arranjar um copo de água.

Sentou-se revirando a bolsa a fim de encontrar o remédio. À essa altura nada mais lhe constrangeria. Por que será que o tempo esquentava sempre que alguém resolvia morrer?

Nada. Não encontrou o medicamento. Ao menos havia um último cigarro amassado na carteira. Levantou-se desajeitada. O melhor seria dizer adeus a quem quer que fosse e deixar um recado à filha da morta. Estivera presente. Cumprira o seu papel. Era isso o que importava. Ao menos para ela.

Levantou-se. Olhou ao redor estranhando o silêncio. Onde estava todo mundo? Todos haviam partido. Não havia sequer um familiar para que ela pudesse apertar as mãos. Melhor assim. Ao chegar em casa, telefonaria e, dando alguns detalhes do que presenciara, explicaria que a emoção não lhe permitira a  aproximação. Talvez devesse tirar uma selfie para enviar mais tarde. Não. Isso também estava fora de cogitação.

Tirou a selfie mesmo assim. Agora precisava chamar um taxi.

– Sem sinal.

Precisaria caminhar até a administração e pedir para usar o telefone. Hoje, definitivamente, não era o seu dia.

Conferiu a foto. A inscrição na lápide, por algum motivo, a fez lembrar do porco no rolete.  Agora, Maria iria, finalmente, prestar contas ao pobre animal cujo cadáver fora exibido em um orgástico baile de casamento.

Lembrou-se do marido. Seu jazigo deveria estar próximo, mas a culpa e o medo a estavam paralisando. Melhor acender o cigarro e esquecer que estivera ali. Nunca mais atenderia aos telefonemas da amiga.

– Vou deletar…

Algo na imagem, entretanto, chamou sua atenção. Ao lado do túmulo, uma mulher muito gorda a encarava. Aproximou o zoom. Era ela! Maria do Pallermo em pessoa, ou melhor, em espírito, pousava a mão na pedra. Realmente não estava conseguindo acompanhar a velocidade do mundo. Isso não era possível. O corpo nem bem esfriara e seu espírito já vagava por entre os defuntos? Sentiu-se sacodida pelo pânico.

– Não apague!

– O quê? – Sua voz era um fio. A falecida falara com ela. – O fósforo? Luz? Você quer luz?

– Preciso fumar.

Cuspiu o cigarro em um reflexo. A mulher pedia um despacho ou algo do tipo.

– Fale, Maria, o que deseja? – Chorava histericamente. Certamente, a alma pedia algum tipo de ajuda. – O tabaco lhe trará paz?

– Sua filha não pôde vir?

– Filha?! – Parou por um instante. Chocada. Agora compreendia, Dona Pallermo a confundira com a própria mãe.

O tempo realmente não fora generoso com ela. Devia estar muito acabada. Instintivamente, tateou a bolsa a fim de encontrar o espelho. Mas que coisa! Até alma penada criticava sua aparência. Mas não iria deixar barato!

– Você também não está nada bem!  – Desferiu com maldade.

– Eu sei. Fiquei a cara dela, não é?

– Como?!

– Obrigada por ter vindo. Mamãe gostava muito de você. Apesar de…Você sabe.

Ela falava do leitão. Ou, quem sabe, apenas do próprio casamento, arruinado pela mãe nua, com a roupa aos farrapos e agarrada ao prato principal.  O fato é que não guardara mágoa. Tampouco a defunta tivera raiva da louca que se pendurara em seus babados. Ao contrário, achava até graça. Eram gente boa, Maria e Jussara.

A vergonha a consumiu. Só agora lembrava o nome da amiga e, era a própria a lhe consolar ao lado do túmulo da mãe que tanto amava. Confundira-a com um fantasma. Os papéis estavam invertidos, como tudo em sua vida. Como pôde ser tão egoísta? Preconceituosa. Em que momento da vida se tornara essa pessoa incapaz de fazer conexões com o outro? Como pôde ser tão fútil? Se achar tão “superior” se o final de todos era sempre o mesmo. E de mais a mais, foram ambas confundidas com as devidas progenitoras.

– Somos todos tão iguais, você não acha?

– O que?

Precisava consertar as coisas de algum modo enquanto ainda havia tempo. Apanhou o cigarro e, desamassando-o, acendeu oferecendo à companheira. Fumaram juntas, caladas, enquanto o sol morria no horizonte. Estavam ambas ficando velhas.

Jussara se levantou. Já era noite e precisava se juntar aos seus. Agradeceu mais uma vez pela presença, oferecendo uma carona.

Não seria necessário, ela tinha algo a resolver.

– É como se diz… É preciso morrer para renascer. – E abraçou a amiga como jamais fizera com ninguém em toda a sua vida.

Respirou fundo e dirigiu-se lentamente, aos prantos, à campa do marido. Também ela havia morrido um pouco no enterro de Maria.

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8 comentários em “Porco no rolete – Conto (Paula Giannini)

  1. Neusa Maria Fontolan
    3 de novembro de 2016

    Oi, Paula. Ainda bem que você escolheu “O Espeleólogo” para o desafio, pois amei esse conto. Quanto a esse do porco já não gostei tanto. Mesmo assim é um bom conto. Parabéns

  2. Anorkinda Neide
    3 de novembro de 2016

    Oi, Paula! Gostei bastante, a leitura flui e diverte e faz pensar.
    Legal.

  3. Brian Oliveira Lancaster
    28 de outubro de 2016

    O clima do desafio anterior ainda não se dissipou por estas bandas… Uma história com camadas bastante profundas, sob o manto da comicidade. É bem humorada, mas deixa uma sensação amarga no final. Se o objetivo era levantar reflexões, conseguiu.

  4. Luis Guilherme
    28 de outubro de 2016

    Bom dia, Paula! Tudo bem?

    Gostei bastante!
    Achei muito boa a cena do porco no rolete, comitrágica, sabe? hahaha

    Sou vegetariano (daqueles que ainda comem peixe de vez em quando, manja?) e me imaginei na situação da coitada.

    O conto é curioso e prende a atenção. Gostei da conclusão, também.

    Enfim, belo trabalho.. Parabéns!!

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado às 27 de outubro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .