EntreContos

Literatura que desafia.

O Pistoleiro – Conto (Vitto Graziano)

As imagens exuberantes estampadas nos cartões postais não deveriam ser compostas apenas pelo Cristo, praias, morros e a plácida Copacabana. Amalgama perfeita entre tragédias e beldades, o Rio de Janeiro, sinônimo de uma metrópole repleta de faces e destinos, independentemente do curso de suas Marés, também escondia o sangue fervilhado sobre o asfalto. Era orgânica, mutante e mesmo que muitos pagassem caro, ainda reservaria suas surpresas, dia após dia, sem qualquer resquício de beleza, ou piedade.

Ao sair com seu carro de um edifício próximo à esquina da Rua Marques de Olinda, Régis Tupinambá passou pelos seguranças do estacionamento e seguiu pela enseada da Praia de Botafogo.

O cinzeiro tremelicava sobre o painel, mas ele dava pouca importância à sujeira. Há dias sem descanso, a fina crosta de pó que cobria parte da frente do carro era o menor de seus problemas. Buscou por algum enxerido, mas enxergou apenas seus olhos amargos refletidos no espelho retrovisor. Enfim, depois de tanto penar, o serviço andava: Tinha a localização e o tipo de carro conduzido pela encomenda.

A escuridão branda dava espaço à ameaça do Sol, enquanto ele se preparava para mais uma despedida. Acima, apenas a lua cheia derretia sobre a marola da praia. Com o cigarro preso nos lábios, Tupinambá passou pelo Largo dos Leões, chegando à Rua Humaitá.  A vermelhidão dos seus olhos demonstrava o cansaço, cheirou outro pino de cocaína e com um sorriso discreto lembrou-se das aventuras no Pão de Açúcar e os corpos que o tempo se incumbiu de apagar. Bons camaradas que vacilaram. Aí estava a sua diferença, o truque: jamais ser apanhado no erro. Salvo quando levou três tiros da polícia num atentado conhecido como O Massacre de São Valentim.

Envolto pela tranquilidade de quem matava por ofício, ligou o rádio procurando por clássicos do rock, na JB. Naquele momento pesavam as razões que levaram os Amigos a agirem feito quadrilha de rua. Diferente dos jornalistas, magistrados ou qualquer outro intrometido morto por atrapalhar os negócios, desta vez, deveria dar cabo de um fornecedor linguarudo baseado no Horto. Um sujeito esperto que, sem deixar rastros, aliciou o 2º Batalhão de Botafogo e líderes comunitários locais, transformando a área numa espécie de grande ponto de drogas. Um esquema discreto, por consignação, recrutando moradores, ou qualquer outro interessado no negócio em distribuir a droga. Ainda que tivesse opinião formada e fosse contra esse tipo de missão às escuras, Tupinambá estava certo de que seu parecer não encheria o prato de comida.

O baixo movimento o obrigou a desligar o motor. Sobre o banco do carona, a Rossi, com silenciador, era sua única companheira que, agindo tal qual uma puta, o seduzia para ser tocada. Um mês de buscas incessantes e a terceira noite seguida fora de casa. Embora não fosse dado a diálogos, ou sentimentalismo, a cada tragada arrependia-se de abandonar mulher e filhos pelo trabalho. Demorou a notar o que perturbava tanto suas ideias, até que se deu conta de que ainda era capaz de amar. Contudo, diferente de qualquer outro ofício, o crime não permitia concessões à humanidade, então, nem que fosse ao quinto dos infernos, traria o coração daquele infeliz.

Em mãos, apenas informações desconexas e o retrato de um traficante, conhecido pelo apelido de Pouca Sombra. Um traficante invisível não dava para digerir, já que se existiam compradores teriam de haver cúmplices. Além disso, duas coisas deveriam ficar claras a respeito de Dr. Lavezzo: primeiro, ele nunca se engana; segundo, jamais aceita um “não” como resposta. O azar seria daquele que faltasse com o acordado, afinal, se um Capo não se fizer respeitar, tende a tornar-se o próximo na estatística. Assim, farejando as pistas dos repassadores, deixou um rastro de violência na cidade, até que chegando ao infeliz bem informado.

Fazer simplesmente o melhor, primar pela excelência, era sua marca registrada. Em pensar que por um triz Dr. Lavezzo não foi parar atrás das grades, de onde conseguiu safar-se graças à influência e o dinheiro que ainda possuía.  Pouco mais de quarenta dias; os contraventores dos caça-níqueis e o esquema do narcotráfico internacional dos Amigos, – Operações Treze e Gutierres, consecutivamente – desbaratados pela Polícia Federal. Um golpe duplo; a estocada mortal no coração do crime organizado fluminense, desarticulando a influência política e bélica de inúmeras organizações, dentre elas, a sua. Um ataque improvável sem o auxílio de delatores, dentre eles Pouca Sombra que, mesmo tendo o benefício da dúvida, receberia a pena capital imposta por Dr. Lavezzo. Afinal, dentre todos os prejudicados nesta operação – bicheiros e traficantes – apenas Salvador Lavezzo estava ligado às dez toneladas de pasta base de cocaína, seja pela sociedade com a empresa que alocava as embarcações apreendidas, sejam pelos dois quilos, da mesma droga, encontrados no Instituto presidido por sua ex-mulher.

Pelas redondezas, não transitava uma alma sequer. Tupinambá tossiu um pouco devido à garganta irritada, logo acendeu outro cigarro e, ao se deparar com uma fileira de árvores, subiu a calçada do outro lado da rua e permaneceu de tocaia vigiando a movimentação. Aproveitando a pausa, esfregou a “farinha” entre os dentes e compreendeu o porquê da missão atípica. Ainda que batizada com bicarbonato, a procedência colombiana era inquestionável. E o problema que se resumia a um fornecedor linguarudo, vendendo cocaína vagabunda, tomou a forma de quadrilha bem estruturada, com novas rotas, possivelmente, envolvendo figuras importantes e autoridades públicas. Quem sabe, um concorrente de mercado. Ou, queima de arquivo.

O sereno desprendia do firmamento. O amplo espaço gourmet, cercado de espigões de aço e câmeras de segurança, ainda o encarava. Deveria estar atento, só que o isqueiro soltava apenas faíscas. Estalava, estalava e nada do fogo. Era a sua mão que tremia. Muito embora fosse habilidoso, não era corajoso o suficiente para arriscar-se com apenas uma arma de seis disparos. O apito soaria antes do gol. Ou matava aquele cretino, ou serviria de exemplo. Pouco a pouco perdia a segurança costumeira, ao passo que torcia para Dr. Lavezzo, ao menos, pesar os prós e os contras de cada contingência, em vez de usá-lo de exemplo. Injusto seria se, depois de anos sepultando cartas marcadas, estivesse com um pé na cova. Foi em meio a esse dilema que o melhor presente da noite deu as caras.

Os óculos de lentes avermelhadas tampavam a maior parte daquele sujeitinho que, vivendo num mundo à parte, vestia couro. Ele caminhava com lerdeza até que dois seguranças o conduziram às portas traseiras de um Citröen embicado na esquina. Tupinambá cogitou ligar para Reginaldo Macedo e dar sua opinião sobre as consequências do “serviço”, porém de nada valia a voz de um pistoleiro se, lá de cima, acabava de chegar a confirmação do serviço. Poderia parecer estupidez ou uma tentativa barata de suicídio, só que existiam assuntos que estavam além do seu entendimento. Situações que apenas Dr. Lavezzo tinha acesso e, conhecendo-o há mais de vinte anos, optou por dar-lhe credibilidade.

Observando a encomenda afastar-se lentamente, Tupinambá apelou ao blues de outra estação de rádio e aguardou alguns segundos. A experiência lhe dizia que mais valia um punhado de sorte do que uma tonelada de sabedoria, então, discreto, virou a chave na ignição e deu início à caçada.

Um sinal vermelho. Reduziu a marcha e, com o revólver na outra mão, mesmo que um tiro àquela distância fosse fácil de acertar, optou por não deixar um mês de investigação à mercê do fabricante das janelas. A perseguição durava alguns minutos. Tupinambá avançou outro trecho verde até encontrar a entrada do que seria o suposto esconderijo, de repente, num minuto de distração, arrancou por um trecho isolado da Rua Euclides Figueiredo, quase deserto e com poucas casas.  Pressentiu o risco de emboscada e, sem pensar duas vezes, deduzindo que estava três casas atrás do objetivo, pisou firme no acelerador passando reto pelo alvo que embicou num dos casarões.

Observando a encomenda pelo espelho retrovisor, Tupinambá contornou uma praça de terra batida e estacionou sob a escuridão de duas figueiras centenárias. De tão arborizado, o ambiente cheirava a cova rasa, porém, ignorando qualquer mal-estar, munido de sua touca ninja, verificou a pistola e avançou pela cerca viva que margeava uma das residências. Em seguida, escorou-se sobre o muro e colocando as mãos entre as lanças de ferro, saltou para o interior da residência, quando, denunciado pelo latido dos cães, cruzou o jardim a plenos pulmões e, subindo sobre um Jacarandá, superou a concertina que dava acesso à casa vizinha.

Atento ao perigo, em meio à luz de um poste distante, pôde perceber duas sombras se aproximarem. O prazo numa situação dessas perdia espaço para a prudência. Caso fosse pego, nunca encontrariam seu corpo para um enterro digno. Desta forma, recostado numa mureta repleta de limo, optou pela faca escondida na altura do tornozelo e se camuflou em função do fator surpresa. Lanternas foram acesas, mas desvencilhando-se dos galhos esgueirou-se por um portão entreaberto e deu mais um arranque, rolando até outro braço de sombra. Não fosse o vento que arrepiava sua pele, juraria que tinha sentido uma pontada de medo.

O silêncio cortante dava a entender que seus homens estavam “fazendo” o corpo do enxerido, então, farto de escutar o uivo do ar arrastando a folhagem das árvores, Pouca Sombra apressou os passos, se afastando da escuridão dos bosques.

Munido com a uma “trinta e oito” mini-slim na cintura, olhando para trás de instante a instante, Pouca Sombra tomou a frente com suas pernas arqueadas e atingido por um bocejo, preparou-se mentalmente para o merecido descanso quando, ao escutar algumas passadas sobre o espelho d’água, num giro veloz empunhou a pistola. Ao invés do disparo foi surpreendido pelo olho mágico da morte.

— De joelhos! — Ordenou Tupinambá, ao enfiar o cano do revólver em seu olho

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4 comentários em “O Pistoleiro – Conto (Vitto Graziano)

  1. Olisomar Pires
    4 de setembro de 2016

    Sensacional a imagem “o olho mágico da morte” quando vinculada ao cano do revólver. Belo conto.

  2. Priscila Pereira
    3 de setembro de 2016

    Oi Vitto, gostei do seu conto, o final é cheio de ação. Parabéns!!

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Publicado às 28 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .