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Detox Literário.

El Kakuy – Conto (Anorkinda Neide)

Quando cheguei à cidade de Santiago del Estero, por coincidência ou azar era exatamente o dia principal do Festival.
Ronaldo já me falara deste evento cultural do norte da Argentina mas eu não sabia nem poderia lembrar que se realizava no mês de fevereiro o Festival de Salamanca.
Reúnem-se artistas cantantes de toda a América Latina há vinte e cinco anos, no Clube Sarmiento, por quatro dias.
A reunião origina-se, segundo me contou um habitante santiaguenho, da lenda de Salamanca, um lugar misterioso, onde pessoas desaparecem se desagradarem a Zupay, o diabo. Para agradá-lo? Música, muita música!
Não dei muita atenção ao orgulhoso argentino que seguiu contando da alegria que todos sentiam à época do festival, como se realmente uma libertação lhes adviesse. Meu coração estava tão apertado que eu não pude raciocinar e ligar os fatos, a lenda, a minha tragédia.
A cidade era grande e estava lotada de turistas e artistas, vim com um pequeno grupo de amigos que em tudo destoava do clima festivo que pairava em Santiago del Estero. Nós viemos à procura de meu marido Ronaldo.

Ronaldo dormiu aconchegado a mim, finalmente. Desde que seu melhor amigo, Zé Mário desapareceu, meu marido não dormia uma noite sossegada, sempre com insônia ou pesadelos.
A ansiedade é sua companhia e enquanto ele não viajar para integrar as equipes de busca, Ronaldo não terá paz.
– Que pode ter acontecido a ele, Teresa?
– Era para eu estar com ele…
– Me sinto tão impotente!
Ouvi estas e outras frases mil vezes desde que recebemos a notícia. Era para Zé Mário estar de volta a São Paulo na segunda-feira, mas ao invés disso acontecer, D. Luíza, sua mãe, nos procurou muito nervosa. O governo argentino havia entrado em contato para lhe dar ciência do desaparecimento de seu filho. Ronaldo, então, assumiu a situação em auxílio a esta família tão próxima a ele desde os tempos de faculdade.
Ronaldo e José Mário conheceram-se na faculdade de Biologia e os dois especializaram-se em ornitologia. Há muito tempo eles tinham o plano de explorar a serra ‘Casa dos Pássaros’ no noroeste da Argentina.

Saindo de Santiago del Estero pela rota 13 em direção a Villa Ojo de Agua, há um desvio de estrada de terra que descreve o fluxo do arroio de Cantamampa. O trajeto é belíssimo entre altas paredes rochosas salpicadas de flores vermelhas.
Estudiosos de pássaros sempre visitam o lugar pois as margens das florestas existentes ali são ricas na diversidade de sua fauna. À grande distância já se pode avistar o Pisco Huasi, a serra Casa dos Pássaros onde pode ser encontrado o excêntrico pássaro Kakuy.
Meu nome é José Mário Esteves Brito, um apaixonado pelas aves, biólogo brasileiro, viajei com um grupo pequeno de colegas para estudar o Kakuy, o urutau argentino.
Estou tentando raciocinar e relembrar cada momento de minha vida que, imagino, terminará dentro de poucas horas. Me afastei do grupo, me perdi, na verdade, e ao avistar uma clareira achei que isso seria um conforto, uma bênção… Mas havia no centro dela uma árvore imensa, bonita em sua imponência de ter, certamente, centenas de anos e, ao mesmo tempo, ela emanava uma aura sombria. Lembro que estremeci ao vê-la.
Avistei o que afinal eu procurava, o kakuy! Ele estava pousado em um galho retorcido bem próximo a mim, estes pássaros não costumam mover-se com agilidade, tentei aproximação. Não pareceu que ele me viu ou assustou-se, a ave apenas avançou para um galho um pouco mais alto e assim foi subindo de galho em galho. Eu estava fascinado! Quando dei por mim estava também subindo nesta árvore tenebrosa…
De repente, ele voou e soltou uns gritos que me arrepiaram até a alma: – Kakuy! Kakuy! Kakuy! E eu me senti paralisar, minhas mãos grudaram naqueles galhos antigos e ásperos como se houvesse cola. Meus tênis caíram como que puxados e meus pés também ‘colaram’. Gritei tanto e terrivelmente por horas e não consigo saber como foi que ninguém me ouviu…
Perdi a noção de quanto tempo estou aqui, estou perdendo a consciência aos poucos e sinto que ‘coisas’ estão brotando em minha pele. Não sinto dor, mas sinto meu rosto retorcer, meus olhos fecharam e não abrem mais.
A agonia de saber que estou morrendo aos poucos não tem comparação e, parece, não tem qualquer perdão, porque é aqui mesmo que ficarei… ou não? Sinto que minhas mãos estão desgrudando mas não sinto dedos, o que seriam meus dedos estão leves, suaves. Meus pés agora agarram-se ao galho, me equilibro e abro os olhos. Olho para o céu e toda aquela imensidão me chama. Acho que morri!

Ao viajar pela estreita estrada de terra já avistando ao longe o Pisco Huasi, paramos num bar. Após nos servirmos de bebidas refrescantes, prestei atenção a uma idosa que descansava à sombra. Pareceu-me que era ela mãe ou avó do proprietário, não consegui determinar-lhe uma idade aproximada. A senhora parece que leu-me o semblante aflito e preocupado, segurando minhas mãos ela disse:
– Hija, viaje a la casa de los pájaros y alcanzará la paz del espiritu,
– Estou mesmo indo para lá, querida. – disse e alisei suas mãos com muito carinho e respeito.
– El Kakuy canta muy pocas vezes, y escuché un Kakuy hace dos meses y nunca más.
Ela olhou-me nos olhos com um ar de confiança em sua expressão. Não entendi muito bem o que ela quis dizer, mas olhei para o lado e havia uma gravura colada à parede, de um pássaro, reconheci como sendo um urutau, mas estava escrito logo abaixo da imagem: El Kakuy.
Quando seguimos viagem, acessei a internet pelo celular e digitei o nome do pássaro citado pela amável senhora. Verifiquei que era realmente o urutau, mas na Argentina era conhecido como Kakuy e havia uma lenda sobre ele…

“Viviam juntos um casal de irmãos. Ele, um irmão dedicado, apaixonado. Fazia à irmã todas as vontades, só desejando vê-la feliz. Ela, egoísta e mal-agradecida. Sobrecarregava o irmão de exigências que nunca lhe satisfaziam.
Mesmo recolhendo da mata todo tipo de frutos, flores e mimos, a irmã sempre recebia o rapaz com desdém e intolerância. Certa vez, ele chegou machucado e exausto de um dia especialmente difícil e desafiador. A moça sequer se importou e deixou-o a recuperar-se sozinho, faminto e sem assistência.
Foi então que o jovem revoltou-se e logo que recuperado chamou a irmã para acompanhá-lo na floresta. Ele lhe disse que havia encontrado o melhor mel que podia existir, mas precisava de ajuda para retirá-lo do alto de uma árvore muito alta.
Era uma árvore centenária, de aparência tenebrosa, onde o tempo parecia ter se incrustado como seiva e floração. Quando a moça começou a escalar seu tronco áspero, seu irmão logo lhe agarrou e a amarrou à arvore. Indo embora em seguida.
A jovem gritou e chorou por muito tempo mas não conseguiu soltar-se e ninguém a ouviu… Ela chamava o irmão: Irmão! Irmão! Irmão! Até que suas forças diminuíram e ela seguia chamando mesmo em sussurros: Irmão! Irmão! Irmão!
As horas foram passando e quando a noite chegou, ela sentiu um torpor estranho. A lua estava grande e iluminava a floresta, a jovem seguia clamando, já sem voz… Ela mal percebeu mas suas pernas e braços estavam transformando-se. Por todo seu corpo brotavam penas, mas a jovem sentia apenas o torpor que foi logo substituído pelo terror quando seu rosto começou a mudar.
Amanheceu e a jovem, num espasmo, abriu asas e voou. Até os dias de hoje, convertida em uma ave, os indígenas dizem que em alguns momentos sua consciência desperta e grita: Irmão! Irmão! Irmão!”
Na língua quíchua a pronúncia da palavra ‘irmão’ é muito próxima ao grito da ave: Kakuy! Kakuy! Kakuy! O povo local aprendeu com os indígenas que ao ouvir o grito do Kakuy, certamente alguma pessoa desaparece.

Ainda viajávamos pela estrada de terra em direção à Casa dos Pássaros, recostei a cabeça e entrei num estado de sono onde algumas imagens vieram a minha mente. Sonhei. Um enorme condor voava alto mas fazia uma curva e vinha descendo em minha direção, ao aproximar-se ele gritou: Zapuy! – Diabo! – Gritou de volta uma índia que gargalhou enquanto corria pela floresta e logo criou asas e voou até o cimo da montanha. Acordei com uma frase ecoando em meus ouvidos: “Ele já é um kakuy!”
Chegamos a um acampamento na base do Pisco Huasi, onde as equipes de busca se concentravam desde o desaparecimento de Zé Mário e desde a semana passada, procuravam também pelo meu marido. Ele perdeu-se da equipe e mesmo sendo experiente mateiro, ninguém conseguia uma pista de seu paradeiro, assim como fôra com o nosso amigo.
Qual não foi minha surpresa e alívio quando vi, em meio ao clima festivo e alegre das pessoas ali presentes, Ronaldo. Ele estava sentado em uma maca recebendo cuidados em sua perna direita.
Depois que nos abraçamos com toda a emoção do reencontro ele me disse:
– Querida! Fiquei tão preocupado com você!
Imagina! Se nós todos é que estávamos preocupados com ele!
– Encontrei a entrada de uma pequena caverna, muito escondida, nossos companheiros não a viram, mas dentro dela havia uma descida íngreme, não vi a tempo e caí. Quebrei a perna.  Não havia como me comunicar e eu não conseguia andar muito menos subir de volta à entrada. Mas, como vê, consegui subir e aqui estou.

Voltamos a São Paulo, felizes por estarmos juntos mas com aquela cicatriz imensa no peito por não encontrar Zé Mário e não termos sequer esperanças. Trouxemos D. Luiza para morar conosco de quem cuidamos como se fosse nossa mãezinha. Insisti com Ronaldo para que largasse as expedições de estudo dos pássaros e montamos um viveiro de aves em casa.
Proibi qualquer menção ao pássaro Kakuy ou urutau aqui em casa, mas sonho com ele muitas vezes. Sonho com aquela estradinha sinuosa ladeada por flores vermelhas, que para mim mais parecem pontos vermelhos de aflição.

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8 comentários em “El Kakuy – Conto (Anorkinda Neide)

  1. Felipe Velista
    18 de setembro de 2016

    Oi. 🙂
    Gostei bastante do conto. Achei super feliz sua escolha de narrador, fugiu do que seriam escolhas mais obvias: O marido, ou o Zé Mario.
    Apesar de ter achado o trecho excelente(minha parte favorita, na verdade), estranhei um pouco a troca de narrador qdo Zé Mario relata sua transformação…uma mudança um pouco brusca, talvez. Mas isso pode ter sido uma estratégia intencional sua e que me escapou na leitura.
    Gostaria de ter visto vc dando mais peso ao elemento fantástico da transformação, mas essa é uma questão de escolha bastante pessoal… eu gosto de centrar no fantástico, de modo algum é uma critica à sua escolha.
    Acho q vc acertou mto na topografia. descreveu o suficiente para dar credibilidade, sem perder a mão com excessos.
    Parabéns!

    • Anorkinda Neide
      18 de setembro de 2016

      Olá! Obrigada pela leitura!
      Olha, a estratégia foi que eu queria introduzir a lenda do Kakuy só depois de explicar o q ocorreu com Zé Mário, não vi outra maneira de narrar a transformação dele senão pela própria narrativa da vítima.
      Fico imensamente grata pelas tuas palavras positivas.
      Abraços

  2. Olisomar Pires
    29 de agosto de 2016

    Belo conto. Senti que poderia ter explorado mais a transformação. Bem escrito. Parabéns.

  3. Querida Neide,
    Seu texto me prendeu do início ao fim.
    Também, assim como no comentário acima, imaginei ique o personagem estava virando parte da centanária árvore.
    Parabéns por seu belo conto.
    😉
    Beijos

    • Anorkinda Neide
      30 de agosto de 2016

      Oi!
      Que bom! Obrigada por ler e mais ainda por gostar. 🙂
      Na verdade, a parte da árvore eu inventei dentro da lenda do Kakuy, e acho q me empolguei com ela. rsrs
      Abraços

  4. Neusa Maria Fontolan
    28 de agosto de 2016

    Gostei dessa lenda do pássaro Kakuy, quando li que o Zé Mário estava preso na árvore, pensei que ele estivesse se fundindo a ela. Não pensei na transformação em um pássaro. Então temos mais um Kakuy a solta no mundo. Parabéns querida por esse belo conto.

    • Anorkinda Neide
      28 de agosto de 2016

      Que bom que gostaste, baby!!
      Escrevi depois de uma gostosa pesquisa na lenda argentina. Adoro!
      Chuaks!

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Informação

Publicado às 27 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .