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Detox Literário.

Juízo Final – Conto (Antônio Stegues Batista)

juizo

MIAMI, abril de 1961.

Operação Mangusto=

Um grupo de paramilitares de exilados cubanos anticastristas, treinados e patrocinados pela Cia, com apoio das forças armadas americana, tinha por objetivo, invadir Cuba e derrubar o governo socialista de Fidel Castro. O ataque não contou com o envolvimento direto dos militares americanos. As insígnias de aviões e barcos foram removidas e trocadas por outras falsas.

A “Operação Mangusto”, foi lançada em abril, menos de 3 meses depois de John F. Kennedy ter assumido a presidência dos Estados Unidos.

Na madrugada de 14 para 15 de abril, o desembarque foi iniciado enquanto 8 aviões-bombardeiro, atacavam três campos aéreos cubano.

A tropa em desembarque enfrentou forte resistência, sofrendo pesadas baixas. No amanhecer do dia 20 de abril, grande parte da brigada de exilados se rendeu.

O plano de invasão foi descoberto por espiões e o governo Cubano havia se preparado para defender seu território. As Forças Armadas de Cuba derrotaram os invasores. O fracasso se deu, devido a aeronaves inadequadas, armamentos limitados e pilotos mal preparados. Navios carregados com suprimento e munição foram avariados, e outros, afundados antes que pudessem chegar às praias. Soldados em terra foram abatidos, e a maioria se rendeu.

Temendo nova invasão, o governo cubano decidiu aceitar ajuda do governo russo, e instalou misseis nucleares no país. A oferta de apoio se deve ao fato de que, os russos descobriram que os Estados Unidos haviam instalado misseis nucleares na Turquia, Inglaterra e Itália.

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MATO GROSSO, BRASIL 1962.

O Abrigo=

O Projeto Dédalos, criado pelo governo brasileiro em parceria com o governo da França e Estados Unidos, tinha por objetivo criar uma substância que evitasse as células humanas de trincarem num processo de criogenia. O soro seria utilizado em futuras viagens interplanetárias, quando os tripulantes permaneceriam em longos estado de hibernação.

O local dos experimentos, um abrigo subterrâneo, fora construído numa região norte do estado do Mato Grosso. As instalações constituíam-se de um laboratório, enfermaria, sala de lazer, dormitório, cozinha, depósitos e reservatórios de água potável extraída do subsolo. Tudo integrado a um sistema autossustentável, alimentado por uma bateria de energia nuclear.

A equipe de cientistas era formada pelos doutores, Gaspar da Silva, Richard Coleman, Janete Oliva, Charles Rochefort e Bruno Gonzáles.

O doutor Richard e a doutora Janete, desenvolveram um soro capaz de conservar cobaias congeladas por um tempo indeterminado, sem causar nenhum dano físico. Elas foram reanimadas em perfeitas condições de vida. O soro impedia que as células se danificassem com o processo de congelamento. Testes com outros animais foram feitos até chegar-se à conclusão de que, tanto o soro quanto a cápsula de hibernação, eram eficientes e seguros. Depois de 5 anos de experiências, chegou à vez de um ser humano ser posto a prova. Bruno, como sendo o único solteiro e sem família do grupo, se ofereceu para o teste final.

A cápsula de criogenia mantinha o corpo congelado por um tempo determinado, controlado por um relógio e calendário digital acoplado a um dispositivo de segurança. Tudo controlado por um aparelho eletromecânico, alimentado com energia gerada por uma bateria atômica na própria cápsula. No dia 23 de setembro de 1962, se deu início a experiência. O objetivo era manter Bruno congelado por 60 dias. A doutora Oliva aplicou-lhe o soro e ele deitou-se na cápsula.

– A gente se vê daqui a 60 dias. – disse o Doutor Gaspar. – Se alguma coisa nos impedir de estar aqui, deixaremos uma mensagem para você.

– Tenha um bom sono! – desejou-lhe a doutora Oliva. Bruno ficou olhando aqueles quatro rostos inclinados para ele, até que o soro começou a fazer efeito e ele caiu mansamente na inconsciência.

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DEPOIS DO FIM DO MUNDO

O Despertar=

Acordou olhando para o teto, onde havia uma lâmpada incrustada numa cavidade do concreto cinzento, repleto de manchas esverdeadas. A luz era fraca, amarelada. Bruno procurou recordar onde estava, o que havia acontecido para estar num lugar estranho como aquele. Sentia o corpo dormente. Voltou a fechar os olhos e respirou fundo, procurando normalizar as batidas do coração. Algum tempo depois abriu os olhos e percebeu que estava numa espécie de cilindro. Com algum esforço, conseguiu erguer o tronco e apoiar-se no braço esquerdo. Olhando para os lados, descobriu que estava numa sala espaçosa de paredes cinzentas, sem adornos, com a pintura encardida e desbotada. À esquerda havia um armário de metal com duas portas, e do lado oposto, algo que parecia ser um aparelho de ar condicionado embutido na parede. Não havia janelas, apenas uma porta de metal, fechada.

Fez esforço para erguer-se. Saiu da caixa e logo sentiu tontura e náuseas. Sentou-se no chão, inclinando a cabeça até recuperar a normalidade. Logo depois apoiou-se na caixa e foi então que viu na cabeceira, um painel eletrônico. De joelhos, leu a etiqueta que ali estava pregada: CÁPSULA DE CRIOGENIA. OCUPANTE: BRUNO GONZÁLES- 23 de setembro, de 1962. Foi então, que deu um estalo em sua cabeça e ele se lembrou, do projeto Dédalos, dos colegas cientista. Ele havia se oferecido para permanecer congelado durante dois meses a fim de testar a capacidade prática da cápsula de hibernação. Já teriam se passado 60 dias? E os cientistas, onde estão?

Ao olhar para o relógio atômico abaixo, Bruno ficou intrigado. O calendário marcava o dia 15 de fevereiro de 3597! Ele achou que devia ter ocorrido algum problema no funcionamento do calendário, mas o estado daquela sala tinha aparência de que estava abandonada há muito tempo. Ergueu-se e lentamente caminhou pelo recinto, fazendo exercícios até recuperar a força dos músculos. Dirigiu-se para a porta e examinou a fechadura, constatando que estava fechada com um simples trinco retrátil. Depois de algumas tentativas, conseguiu abri-lo. Empurrou a porta e espiou para o outro lado. A sala do laboratório estava às escuras, não conseguiu ver nada. Voltou e vistoriou o armário. Nele encontrou ferramentas, roupas, faca, material de higiene, calçados, remédios e outros artigos úteis. No banheiro, tentou tomar um banho, mas o chuveiro não funcionou. O jeito foi limpar-se com toalhas que ele encontrou no armarinho. Vestiu uma camisa de malha, calça jeans, calçou umas botas, e se dirigiu para o laboratório. Na parede à esquerda, acionou o interruptor de luz. As lâmpadas piscaram algumas vezes e finalmente se firmaram. Olhou ao redor, notando que todos os equipamentos de pesquisas estavam cobertos de pó e nas paredes havia manchas de mofo. Há anos ninguém entrava ali. Lembrou-se de que os colegas deixariam uma mensagem para ele, caso não estivessem presentes quando acordasse.

Aproximando-se da mesa, ficou chocado com o que viu. Havia um corpo sentado, recostado na cadeira. Um crachá esmaecido pelo tempo estava dependurado no jaleco esfarrapado; Dra. Oliva.

Ela tinha morrido há anos e as condições climáticas do abrigo conservou o corpo mumificado. Em frente a ela, estava um envelope pardo muito velho e coberto de pó. Dentro havia uma carta.

“ Doutor Bruno estamos deixando esta mensagem para você, porque não sabemos se poderemos voltar aqui. O futuro da Terra está em perigo.  O governo dos Estados Unidos revelou aos jornais, fotos aéreas de silos para abrigar misseis em Cuba. E, semana passada, as Forças Armadas de Cuba derrubaram um avião-espião americano. O presidente Kennedy avisou o presidente Khruschev de que o EUA não hesitará em usar armas nucleares contra Cuba, se os soviéticos não tirarem os misseis da ilha. O Brasil vai mandar um diplomata à Havana para mediar a crise.

 Estamos preocupados com nossas famílias e com receio de que o conflito se alastre pelo mundo, e por isso, ficaremos fora do abrigo por alguns dias. Se por ventura nenhum de nós conseguir voltar aqui, deixaremos tudo preparado para que, quando você despertar, tenha recursos para se reanimar e manter-se em boas condições.

Todos mandam um abraço. 

Doutor Gaspar”.

 Abaixo havia uma escrita diferente;

“Doutor Bruno. O mundo está um caos, a guerra se espalhou pelo mundo. Bombas nucleares explodiram nos EUA e Europa. O Brasil também está sofrendo as consequências. Fiquei muito mal de saúde, mas consegui voltar ao abrigo para deixar essas poucas linhas. Decidi modificar a data do teu despertar. Espero que, quando você acordar, encontre um mundo melhor. Boa sorte, Bruno!

Doutora Janete Oliva. ”

 Bruno largou a carta e ficou longo tempo imóvel, pensando, raciocinando. Se o calendário estiver correto, mais de mil e seiscentos anos se passaram! Ele precisava saber o que tinha acontecido com o mundo. Resolveu sair do abrigo.  Antes porem, precisava se alimentar. Deixando o laboratório, acendeu as luzes do corredor e se dirigiu para a cozinha, no outro extremo do complexo

Encontrou alimentos num freezer. Pegou uma lata de feijão, um bife de soja, purê de batata e descongelou no forno micro-ondas que demorou, mas funcionou. Depois de comer, bebeu água, encheu o cantil, pendurou no ombro e se dirigiu para o pórtico. A porta que dava acesso à escada, estava trancada e ele teve que arranjar uma barra de ferro para poder mover a alavanca. Depois de muito esforço, consegui abrir. Mas não foi muito longe, o corredor que ficava vinte metros acima havia desabado, obstruindo a escada. Toneladas de terra e pedaços de concreto obstruíam o caminho. Por precaução, os construtores daquele abrigo haviam construído uma saída de emergência. Ficava no lado oposto da entrada. Para lá Bruno se dirigiu. Logo depois abriu a porta, entrou na pequena sala e subiu a escada de ferro. No topo, girando a manivela abriu o alçapão, avistando o céu azul.  A saída de emergência ficava na base da colina. Saindo, estacou por um momento, olhando ao redor. A colina estava agora coberta por uma vegetação, seca. Árvores de troncos mortos e galhos sem folhas. Uma vegetação que nasceu, cresceu, vicejou por algum período de anos e depois secou.

Bruno voltou ao abrigo, enrolou o corpo da doutora Oliva numa lona e o enterrou ao pé da colina. Depois, pôs-se a caminho.

O solo tinha vestígios de antigos incêndios. Atravessando o mato seco, rumou para a cidade no vale abaixo, sem mesmo saber se ela ainda existia. A topografia da região havia mudado. Seguiu por uma ravina que descia suavemente por entre os morros. A rodovia havia sumido debaixo de sedimentos.

Algum tempo depois, chegou onde deveria haver uma cidade, uma cidade com ruas, automóveis, árvores e pessoas, mas o que havia eram somente ruínas.

Bruno parou, meio tonto. Ele estava arrasado, agora sem esperança de nada. O que temia tinha acontecido, a civilização tinha sido destruída por uma guerra nuclear!

Mas, será que não sobrou ninguém? Ele achou que era impossível a Vida ter se extinguido completamente. Talvez tenha se preservado nas regiões mais remotas. Resolveu continuar a sua caminhada. Estava disposto a procurar por sobreviventes, aliás, descendentes dos possíveis sobreviventes da hecatombe.

Rumou para o sul. Depois de horas, com o sol já descendo no horizonte, ele parou ao lado de um grande bloco de concreto para descansar e beber água. Súbito, avistou um grupo de pessoas sentadas em círculo no chão. Afinal, a Vida não se extinguiu como ele imaginava. A civilização já não devia ser a mesma, mas ali estavam seres humanos, talvez com outros costumes, outra cultura, tentando se reerguer das ruinas do mundo. Ele começou a se aproximar deles. Eles estavam distraídos com alguma coisa e quando ouviram seus passos, ou talvez tenham sentido o seu cheiro, se voltaram erguendo a cabeça com suas cabeleiras ruivas, e o olharam com curiosidade. Arreganhando os dentes pontiagudos, colocaram as mãos com seus quatro dedos no chão, ergueram o traseiro escamoso e avançaram para ele trotando, como uma matilha de cães famintos…

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2 comentários em “Juízo Final – Conto (Antônio Stegues Batista)

  1. Davenir Viganon
    18 de junho de 2016

    Pelo pano de fundo histórico, acredito que este conto foi escrito para o desafio RHA, com a crise dos mísseis em Cuba ter desencadeado tudo aquilo.
    Eu gostei da introdução, mas ficou sobrando um pouco e o subtítulo “DEPOIS DO FIM DO MUNDO” adiantou a revelação deixando tudo mais previsível ainda.
    No geral ficou bom.

  2. olisomar pires
    17 de junho de 2016

    Olá, muito boa a idéia do conto, apesar de não ser, exatamente, original, ainda assim é um filão a ser explorado, o que diferenciaria as estórias seria o modo de contar as mesmas. Acho que a primeira parte seria dispensável, essas explicações caberiam dentro do conto. No mais, é isso. Parabéns pela iniciativa.

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Publicado às 16 de junho de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .