EntreContos

Literatura que desafia.

O Colete – Clássico (Boleslaw Prus)

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Há gente que adora colecionar objetos estranhos; uns preferem coisas de valor; outros, itens baratos, em função das disponibilidades de cada um. Eu também tenho a minha coleçãozinha, modesta, como a de todo principiante.

Compõem a minha coleção o manuscrito de uma peça que escrevi, no ginásio, durante as aulas de latim; umas flores ressecadas, que terão de ser substituídas por novas, e, nada mais, creio, à exceção de um colete bem velhinho e surrado.

Desbotado na frente e desgastado nas costas, o colete está todo manchado, com botões faltando e um pequeno furo, produzido talvez por uma ponta de cigarro. O mais interessante, entretanto, são as alhetas laterais. A que detém a fivela foi encurtada e costurada ao colete, denunciando a ação de quem não é profissional, enquanto a outra apresenta, em toda a sua extensão, marcas dos dentes da fivela.

Por aí se pode imaginar logo que o dono da roupa deveria vir perdendo peso dia após dia até chegar ao ponto em que os coletes não seriam mais indispensáveis e, em seu lugar, teriam de ser substituídos pelos casacões, abotoados dos pés à cabeça, adquiridos nos agentes funerários.

Confesso que hoje me desfaria de bom grado dessa peça, que já me está criando problema. Ainda não adquiri um armário especial para a minha coleção, nem gostaria de conservar esse colete surrado entre as minhas roupas. Mas quando o comprei, por preço bem acima do valor, eu poderia ter pago ainda mais se o vendedor se tivesse disposto a barganhar comigo. Há momentos na vida em que gostamos de ter por perto objetos que nos lembrem aflição.

A aflição, no caso, não se havia aninhado em minha casa, mas na de meus vizinhos ao lado. Todos os dias eu observava o quartinho deles de minha janela. Em abril eles eram três: o marido, a mulher e uma empregadinha, que dormia, ao que eu saiba, sobre a tampa de um baú atrás do guarda-roupa. O guarda-roupa era cor-de-cereja escura. Em julho, se me lembro corretamente, ficaram apenas dois, mulher e marido, já que a empregada se mudara para uma casa onde lhe pagavam três rublos por ano e lhe serviam jantar todos os dias.

Em outubro, a senhora ficou só. Não inteiramente só já que uma parte do mobiliário continuava no quarto: duas camas, uma mesa, o guarda-roupa … mas no comecinho de novembro as coisas desnecessárias foram para o prego; só sobrou mesmo, como lembrança do marido, o colete, que guardo em minha coleção.

Um dia, porém, quase ao final de novembro, a senhora chamou um negociante de roupas usadas a seu apartamento e lhe vendeu um guarda-chuva, por dois zlóty (b) e o colete do marido por quarenta gróschy. Em seguida, trancou o apartamento, atravessou lentamente o pátio do edifício, entregou a chave ao zelador, fitou por instantes sua antiga janela, esbatida por pequenos flocos de neve que caíam, e – sumiu por trás do portão.

Só o mascate judeu ficara no pátio. Com o enorme colarinho do casaco virado para cima, o guarda-chuva que acabara de comprar debaixo do braço, e as mãos vermelhas, regeladas, enfiadas no colete, resmungava seu pregão:

– Compro e vendo objetos usados! ….

Chamei- o

– O senhor tem alguma coisa para vender? – perguntou na entrada.

– Não, quero comprar.

– Ah, já sei. O senhor com certeza quer o guarda-chuva – retrucou o judeuzinho, que deixou o colete cair no chão, limpou a neve no colarinho e se pôs a abrir, com dificuldade, o guarda-chuva. – É uma peça belíssima – disse. Com uma neve dessa, só um guarda-chuva desse. Sei que o senhor pode, querendo, comprar um todo de seda, até dois. Mas esse só serviria no verão!…

– Quanto o senhor quer pelo colete? – indaguei.

– Que colete? – redarguiu, surpreso, pensando, naturalmente, na peça que o próprio mascate usava. Logo refeito, porém, apanhou rapidamente o que caíra no chão.

– Por este colete? É dele que o senhor está falando? – E, com súbita suspeita, indaga:- Qual a importância deste colete para o senhor?

– Quanto o senhor quer por ele?

Os olhos do judeu faiscaram e o vermelhão da ponta do nariz comprido ficou-lhe ainda mais acentuado:

– O cavalheiro vai me dar um rublozinho pela peça – pediu, exibindo a mercadoria diante de meus olhos como para destacar-lhe todas as suas qualidades.

– Dou meio rublo.

– Meio rublo? Por uma peça como essa? Impossível – observou o mascate.

– Nem um centavo a mais.

– O senhor está brincando! … comentou, batendo-me de leve ao ombro – O senhor sabe o que peça vale. Isso não é roupa para criança, mas para adulto.

– Bem, se o senhor não pode vender por meio rublo, nada feito. Não pagarei nem um centavo a mais.

– Por favor, não fique zangado! – interrompeu, recuando – Na minha consciência, não posso vendê-lo por meio rublo, mas deixarei a seu critério. Diga o que vale, e eu concordarei. Prefiro perder a deixar de atender-lhe.

– O colete vale cinquenta gróschy, mas só dou meio rublo.

– Meio rublo? Vá lá, meio rublo – suspirou, enfiando o colete nas minhas mãos. – Prefiro ceder no preço a gastar em vão as minhas palavras, deixando que o vento as leve.

O sentido estava voltado para a janela em que se acumulava uma camada de neve.

Enquanto eu procurava o dinheiro, o mascate, provavelmente lembrando-se de algo, arrebatou-me bruscamente o colete das minhas mãos de novo, e se pôs, rapidamente, a revistar-lhe os bolsos.

– Que é que você está procurando?

– Talvez eu tenha esquecido qualquer coisa nos bolsos, que eu não me lembre – respondeu, no tom mais natural do mundo, e, devolvendo-me a peça comprada, acrescentou:

– Sua excelência não quer acrescentar só uns dez centavinhos?

– Vai em paz – disse-lhe, abrindo a porta.

– Com os meus respeitos! Ainda tenho em casa um casaco de pele em condições excelentes.

E, já com o pé na rua, esgueirou-se mais uma vez à porta para perguntar-me:

– Sua excelência não gostaria de encomendar-me queijo de cabra?

Logo em seguida, ei-lo novamente no pátio, com o seu pregão (“Compro e vendo objetos usados”), e, quando assomei à janela, ele me cumprimentou com a cabeça e um sorriso simpático.

A neve começou a cair pesada, escurecendo como se já fosse de madrugada. Depositei o colete sobre a mesa e pus-me a sonhar, primeiro com a mulher que sumira pelo portão para ninguém sabe onde; depois, com o apartamento vazio, próximo ao meu, e, por fim, com o dono do colete sobre o qual se acumulava uma espessa camada de neve.

Cerca de três meses atrás, ouvi o casal conversando, num dia agradável de setembro. De outra feita, em maio, ela cantarolava uma melodia desconhecida e ele ria, lendo o Kurier Swiatecznego ( Correio Dominical). E hoje …

Eles se haviam mudado para o nosso prédio no início de abril. Costumavam levantar cedo, tomar chá, preparado num samovar de estanho, e sair, juntos, para a cidade. Ela, para as suas aulas; ele, para o escritório.

Ele era funcionário de segundo escalão, que olhava seus superiores com a mesma admiração com que um turista olha os picos dos Tatra . Mas tinha de dar duro, trabalhando sem parar.

Cheguei a vê-lo à meia-noite, curvado sobre a mesa, com uma luminária ao lado. A mulher costumava sentar-se pertinho, costurando. De olho no marido, ela o interrompia de vez em quando, para lembrar-lhe, num tom de admoestação:

– Já chega, está na hora de ir para a cama.

– E você, quando irá para a cama?

– Eu … vou só dar mais uns pontinhos.

– Neste caso, vou escrever só mais umas linhas.

E, novamente, ambos se curvavam sobre o trabalho. Mais tarde, ela voltava a falar:

– Vai para a cama! … Vai para a cama!

Muitas vezes meu relógio batia uma hora, como respondendo às palavras dela.

Era um casal de jovens, nem atraentes nem horrendos fisicamente, e ,em geral, tranquilos. Pelo que me lembro, ela era bem mais franzina do que o marido, de estrutura vigorosa. Diria até bem vigorosa para funcionário tão subalterno.

Todos os domingos, por volta de meio-dia, saiam de mãos dadas a passeio e voltavam à noite. Com certeza ceavam na cidade.

Encontrei-os uma vez perto do portão que separa o Jardim Botânico do Palácio Lazienki. Eles compraram duas canecas de excelente soda e dois enormes pães de gengibre, consumindo tudo com a mesma placidez da gente de classe média acostumada a comer presunto quente com rábano bastardo à ceia.

Em geral, pobre precisa de pouco para manter o equilíbrio espiritual. Pouca comida, muito trabalho e muita saúde. O resto funciona automaticamente.

Para os meus vizinhos, ao que parecia, não havia falta de comida; e, tampouco, de trabalho. A saúde, entretanto, deixava a desejar. Em julho, o marido apanhou um resfriado, na realidade um resfriado leve. Mas, por estranha coincidência, o resfriado foi acompanhado de hemorragia tão grave que o homem chegou a desmaiar.

Aconteceu à noite. Agasalhando-o bem, na cama, a mulher chamou a esposa do zelador até seu apartamento, em cima, enquanto ligava para pedir um médico. Tentou em cinco lugares, e encontrou um quase por acaso, na rua.

Olhando para ela, à luz cintilante de um poste de iluminação de rua, o médico considerou aconselhável acalmá-la, antes de mais nada. E como, a toda hora, ela sentia tonteira, provavelmente por cansaço, e não havia táxi à vista, ele lhe ofereceu o braço e, no caminho, explicou-lhe que hemorragia não significa, necessariamente, alguma coisa séria.

– Hemorragia pode vir da laringe, do estômago, do nariz, muito raramente dos pulmões. Ademais, se o homem foi sempre saudável, nunca tossiu …

– Ah! Só às vezes – sussurrou a mulher, parando para recuperar a respiração.

– Às vezes? Isso não é nada. Ele pode ter tido um caso simples de bronquite, um resfriado.

– Isso … um resfriado! – repetiu a mulher, desta vez falando alto.

– Ele nunca teve pneumonia, ou já teve?

– Já teve – respondeu, parando de novo. As pernas lhe tremiam um pouco.

– Já teve, mas foi há muito tempo, não foi ? – interveio o médico

– Há já, muito tempo mesmo! – confirmou logo – No inverno passado.

– Há um ano e meio.

– Não … Mas foi antes do Ano Novo. Isso aí, há muito tempo mesmo.

– Puxa! Que rua escura essa e, ainda por cima, com o céu encoberto – queixou-se o médico.

Chegaram em casa. Em pânico, a senhora foi logo perguntando ao zelador se havia alguma novidade e verificou que não havia nada. Em cima, já no apartamento, a mulher do zelador repetiu que não havia novidade; o doente estava dormindo. O médico acordou-o, com jeito, e, depois de examiná-lo, também disse que não era nada.

– Eu não disse, logo, que não era nada? – exclamou o doente.

– Nada! – a senhora repetiu, segurando com firmeza as mãos transpirantes do marido – Por acaso não sei que uma hemorragia pode vir do estômago ou do nariz, e que, no caso, é provável que venha do nariz. Resistente como é, você precisa de exercício; não pode ficar o tempo todo sentado … O senhor acha que ele precisa de exercício, doutor?

– Lógico. O exercício é sempre necessário, mas, agora , seu marido precisa guardar o leito por uns dias. Ele não poderia ir para o campo?

– Infelizmente, não – respondeu, baixinho, a mulher, com tristeza.

– Não faz mal. Ele ficará em Varsóvia. Virei vê-lo de vez em quando; enquanto isso, ele deve permanecer de cama e de repouso. Se o sangramento voltar … acrescentou o médico, sem concluir.

– E, aí, doutor? – interrompeu a mulher, pálida que nem cera.

– Nada. Seu marido vai descansar. Aquela parte vai sarar.

– Aquela parte é o nariz? – indagou a senhora, juntando as mãos, com os dedos entrelaçados, na frente do médico.

– Isso … no nariz. Claro. A senhora deve procurar acalmar-se e confiar em Deus para o resto. Boa noite.

As palavras do médico acalmaram a senhora de tal forma que, depois do terror que passara nas últimas horas, ela se sentia quase alegre.

– Bem, o que há de tão terrível em tudo isso – indagou a esposa, rindo e chorando ao mesmo tempo, ao se ajoelhar à cabeceira da cama do marido, beijando-lhe as mãos.

– O que há de tão terrível em tudo isso! – repetiu o doente, baixinho, rindo. – É só imaginar como um homem, que perde tanto sangue na guerra, ainda consegue sobreviver.

– Agora é melhor parar de falar – recomendou-lhe a mulher.

Lá fora, o dia começava a nascer. No verão, como se sabe, as noites são bem curtas.

A doença se arrastara bem mais tempo do que se esperava. O marido já não ia mais ao escritório, o que não constituía, particularmente, um problema, já que, como simples prestatário de serviços, não tinha direito a férias nem licença, e podia retornar ao trabalho quando lhe aprouvesse, desde que o cargo ainda existisse.

Como ficar em casa de repouso fazia bem para ele, a senhora conseguiu mais alguns alunos para aulas particulares e, com isso, ajudar nas despesas domésticas.

Ela saía de casa, normalmente, às oito da manhã. Por volta das treze, voltava, por umas duas horas, para preparar a comida do marido, e, em seguida, saía de novo em campo por mais algumas horas. À noite, porém, estavam sempre juntos. A senhora aproveitava, para ganhar tempo, e levava mais costura para fazer em casa.

No fim de agosto, a senhora encontrou o médico na rua. Andaram um bom tempo. Ao se despedirem, ela pegou a mão do médico e disse-lhe, em tom de súplica:

– Seja como for, venha nos ver. Talvez com a ajuda de Deus! … – Ele fica sempre tão calmo depois de suas visitas!

Com a promessa do médico de atender ao apelo, a senhora voltou para casa, em lágrimas. O marido, talvez em conseqüência do confinamento compulsório, mostrava-se irritado e desesperado. E foi, logo, se queixando de que a mulher o tratava com excesso de zelo, a ele que morrerá de qualquer forma, indagando, por fim:

– O médico não disse que eu teria só mais uns meses de vida?

A mulher ficou sem ação.

– Que é que você está dizendo? – retrucou – De onde tirou essa ideia?

O doente enfureceu-se.

– Ah! Vem cá, vem! disse, com raiva, agarrando-a pelas mãos. – Olhe bem para os meus olhos e me responda: o médico não lhe disse isso?

E olhou para ela com olhar esfuziante, perturbado. Era como se a parede, encerrando um segredo, acabasse por revelá-lo diante dessa cena.

O rosto da mulher estampava uma calma estranha. Com um sorriso tranquilo, enfrentava aquele olhar feroz. Só os olhos continuavam embaçados.

– O médico disse – explicou – que isso não é nada, só que você tem de ficar um pouco em repouso.

O marido, soltando-a subitamente, começou a tremer e a rir, e, fazendo sinal com a mão, disse:

– Você está vendo como estou nervoso. Por alguma razão eu tinha a certeza de que o médico me considerava causa perdida … mas … agora, você acabou me convencendo … Agora estou tranquilo!

E pôs-se a rir, efusivamente, numa de suas alucinações.

Seja como for, essa crise de confiança não voltaria a se repetir nunca mais. A suave tranqüilidade da mulher constituía, afinal, a melhor prova de que seu estado não era mau. E, depois, porque deveria ser mau? Ainda havia tosse, é verdade, mas isso era decorrência da bronquite. Às vezes, em virtude de ficar sentado horas a fio, saía sangue – pelo nariz. Volta e meia vinha-me também uma ponta de febre, que não chegava, porém, a ser, realmente, febre; era apenas um reflexo do estado nervoso.

Aos poucos, entretanto, foi-se sentindo melhor, de modo geral. Havia momentos em que lhe advinha um desejo irresistível de ir para bem longe, mas, na hora, faltavam-lhe forças. Chegava a se recusar a ir para a cama durante o dia; sentava-se numa cadeira, todo arrumado, pronto para sair, esperando apenas passar-lhe aquela fraqueza momentânea.

Só um detalhe o perturbava. Um dia, ao colocar o colete, notou que lhe parecia um pouco frouxo no corpo.

– Será que emagreci tanto! – comentou baixinho.

– Bem, é natural que você tenha perdido um pouco de peso – observou a mulher. – Mas você não pode pedir demais.

O marido encarou-a com atenção. Ela sequer desviara os olhos do trabalho. Não, essa calma não podia ser fingida. Ela deve saber, por ter ouvido do médico, que o marido não estava, realmente, tão mal, e que não havia razões para preocupação.

No início de setembro, o estado nervoso, que dava a impressão de febre, passou a se manifestar com freqüência maior, quase diariamente.

– Besteira! – pensou o doente. – Entre verão e outubro até o cidadão mais saudável sente às vezes uma certa irritabilidade; todo mundo sente um certo desconforto. O que me surpreende, porém, é que o meu colete está ficando cada vez mais folgado, quando o ponho. Devo ter perdido peso terrivelmente, e, lógico, não poderei me sentir bem enquanto não o recuperar; é a única coisa que se pode fazer.

A mulher ouviu tudo com atenção e admitiu que ele estava certo.

O doente se levantava, diariamente, e se vestia apesar de não poder usar uma só peça do vestuário sem ajuda da mulher. O mais que ela conseguia era convencê-lo a usar o colete ao invés de sobretudo.

– Não é de admirar – dizia, sempre, olhando-se no espelho – não é de admirar que me sinta sem forças. Olhe só para mim!

– As nossas feições mudam sempre, com facilidade, lá isso é verdade – observou a mulher.

– Certo, só que estou emagrecendo …

– É o que você acha? – indagou a mulher, com um tom de dúvida na voz.

Ele meditou um instante.

– É! Talvez você tenha razão … porque … faz alguns dias … venho notando que … incrível … o meu colete …

– Pare com isso! – interrompeu a mulher. – Afinal, você não podia estar engordando.

– Quem sabe? O fato é que noto pelo meu colete …

– Nesse caso, você deveria estar recuperando energia …

– Bem, essas coisas não acontecem assim tão rápido … Em primeiro lugar, preciso ganhar um pouco de peso. Na realidade, deixe-me dizer, mesmo depois de ganhar peso, não recuperaria energia logo assim … – Mas que é você está fazendo aí atrás do guarda-roupa – perguntou de repente.

– Nada. Estou procurando uma toalha no baú, mas não estou encontrando uma limpa.

– Não esquente a cabeça; sua voz está mudando e, além disso, esse baú é pesado …

O baú deveria ser, realmente, pesado, a julgar pelo rosto esfogueado da mulher depois do esforço. Sua aparência, porém, era de tranqüilidade.

Daquele dia em diante o nosso doente passou a prestar maior atenção ao colete. Regularmente, chamava a mulher e dizia-lhe:

– Veja só e se convença: ainda ontem eu conseguia enfiar um dedo aqui, exatamente aqui … Mas, hoje, já não posso. Estou, realmente, começando a ganhar peso.

Mas, um dia, o doente não conseguiu conter a alegria. Quando a mulher chegou em casa, depois das aulas, ele a recebeu com um olhar radiante, e, muito emocionado, comentou:

– Ouça, vou lhe contar um segredo … É a respeito deste colete, que você está vendo. Cometi uma pequena fraude. Só para tranqüilizá-la, diariamente, eu puxava a alheta para apertá-lo.

Ontem, puxei a fivela até o fim. Estava preocupado para que o segredo não fosse descoberto, quando hoje, de repente … sabe o que vou lhe contar, não? Hoje, dou- lhe minha palavra de honra, ao invés de apertar, tive de soltar um pouco! O colete, que ainda ontem estava folgado, de repente ficou apertado … Com isso, passei, agora, a acreditar que ficarei bom. Acredito mesmo! Deixe o médico dizer o que bem lhe aprouver …

Essa falação toda cansou-o, a ponto de levá-lo para cama. Só que, como o sujeito que ganha corpo depois de se desvencilhar do que o estava comprimindo, não se deitou; sentou-se, como se estivesse numa poltrona, recostando-se à mulher.

– E agora – a meia voz – quem poderia esperar por isso? Durante duas semanas, enganei a minha mulher, fazendo-a acreditar que o colete estava apertado, quando hoje está realmente apertado. E aí?

Os dois passaram a noite assim, aconchegados, juntinhos um ao outro.

O doente estava excepcionalmente emocionado.

– Meu Deus! – sussurrava, a beijar as mãos da mulher. – E eu cheguei a pensar que continuaria a perder peso até o … fim. Só hoje, pela primeira vez em dois meses, acredito que posso ficar bom de novo.

O fato é que todo mundo mente para um doente, principalmente a esposa. Mas o colete – esse não pode mentir.

Hoje, examinando o velho colete, noto que duas pessoas lhe manipulavam as alhetas: O marido, que o apertava diariamente para tranquilizar a mulher, e a mulher, que o afrouxava, também diariamente, para encorajar o marido.

“Será que eles se encontrarão um dia para revelar, um para o outro, o segredo do colete?”- pensava, cá com os meus botões, olhando para o céu.

O céu é quase invisível visto da terra. Só se via neve caindo, tão intensa e fria que congelava até as cinzas cobertas pelos túmulos.

Mas quem pode assegurar que o sol não está brilhando por trás daquelas nuvens? …

………………………………………………….

Tradução: Ruy M. Bello

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6 comentários em “O Colete – Clássico (Boleslaw Prus)

  1. Simoni Dário
    13 de junho de 2016

    Envolvente, acolhedor, terno e fluido. Fala de um amor que vai além dos cuidados físicos, da doação que vai além dos limites de tolerância e paciência. O objeto(colete) é o símbolo usado genialmente pelo autor para demonstrar esse amor.
    O desenvolvimento do enredo é feito com muita delicadeza, gostoso de ler.

  2. Fabio Baptista
    13 de junho de 2016

    Conto muito bom.

    Deu uma enrolada ali no meio e cheguei a temer uma surpresa/reviravolta “grande demais”, mas o final foi perfeito.

    Boa sorte no desafio!

  3. angst447
    8 de junho de 2016

    Também não tinha lido nada deste autor e me encantei. Os diálogos agilizaram a leitura, mas de forma delicada, sem apressar demais o andamento dos acontecimentos. A caracterização dos personagens, do seu relacionamento tão sutil e verdadeiro surtiu um efeito emotivo, de comoção em suspiros. Ah, o amor…

  4. Davenir Viganon
    8 de junho de 2016

    Nunca ouvi falar do autor. Conto muito bonito, pelo gesto do casal de afrouxar e apertar o colete. A verdade e a sinceridade seriam a melhor saída para este casal? A mentira é algo tão feio assim? São as coisas que esse conto me fez pensar..

  5. Rubem Cabral
    8 de junho de 2016

    Gostei, nunca havia lido nada do autor. O texto surpreende ao mostrar inicialmente o estranho objeto de coleção e depois as razões do porquê o colete teria tanto valor. A pensar somente que o objeto seria uma provável fonte de contaminação da bactéria da (tuberculose?). O amor do casal, escondido nos gestos discretos de apertar e afrouxar o colete, é comovente.

  6. Olisomar Pires
    8 de junho de 2016

    Uma belezura de conto.

E Então? O que achou?

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Publicado às 7 de junho de 2016 por em Clássicos e marcado .